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Prévia: “Do Começo ao Fim”, de Aluízio Abranches.

Do Começo ao FimAo ter sido informado do vazamento na internet do promo de cerca de 4 minutos do seu filme “Do Começo ao Fim”, que nem teve finalizada sua pós-produção e sequer tem qualquer data de lançamento confirmada, o diretor Aluízio Abranches pensou imediatamente em tomar medidas para retirá-lo do ar. Mas, ao verificar que em pouquíssimo tempo o vídeo se multiplicava em mais e mais páginas no YouTube o diretor se deu conta do óbvio – não há como lutar contra o poder de compartilhamento da rede – e entendeu que até poderia sair ganhando com o episódio. Primeiro, porque o vídeo está servindo para divulgação do filme, provocando o famoso boca-a-boca que atiça a curiosidade do público. Segundo, porque a discussão razoavelmente acalorada nas páginas que detém os vídeos do filme já lhe serve de prévia para que ele tenha uma idéia antecipada da inevitável polêmica que seu longa-metragem vai gerar quando do seu lançamento. Polêmica esta que só não vai ganhar espaço em veículos mais tradicionais, famosos e populares da imprensa brasileira por conta do teor de sua história: um romance entre dois rapazes que são irmãos – na verdade, meio-irmãos, pois segundo a sinopse do roteiro eles são filhos apenas da mesma mãe, interpretada por Julia Lemmertz, atriz cara ao diretor Aluízio.
Sim, o filme fala declaradamente de um amor incestuoso, que nasce na infância como uma ligação de imensa proximidade, apoio e carinho entre os irmãos Francisco e Tomás e se concretiza como relação amorosa na vida adulta e, portanto, não há como não dizer que o diretor pegou um pouco pesado – palavras de Lucas Cotrim, o próprio ator que interpreta Francisco com 11 anos de idade. Claro que a idéia enormemente controversa de ousar lidar com dilemas morais tão sedimentados gerou dificuldades para achar financiamento adicional, além daquele que o diretor já dispunha. Idéias para suavizar ou subverter a essência da história não faltaram: houve quem sugerisse trocar os irmãos por primos e até quem dissesse que topava financiar se Abranches colocasse duas irmãs ao invés de irmãos (o que não é de causar surpresa, visto que parte da idéia tem relação com o fetiche heterossexual masculino mais emblemático, o do lesbianismo, que recebe tratamento mais “naturalizante” do que aquele arquitetado por Abranches), mas o diretor brasileiro foi insistente e conseguiu ajuda financeira de dois empresários que, obviamente, exigiram total anonimato.
No entanto, após sentenciar o peso da história da qual participa, o garoto Lucas procurou emendar um elogio, afirmando que a história do filme é “muito maneira”. O elogio deve se referir, no caso, ao que aparenta ser a cautela do diretor na abordagem do tema: segundo declarações em entrevistas, Abranches procurou cercar-se de cuidados com o tratamento da história – cuidados que incluíram uma visita ao analista após o primeiro dia de filmagem – durante os quatro anos de gestação da idéia para que tivesse a certeza de lidar bem com ela, livrando-a de quaisquer excessos, particularmente os advindos de sentimentos de culpa. E, provavelmente, este é o elemento mais intrigante adicionado a história: o modo como a família dois dois irmãos reage ao perceber, na infância, a proximidade excessiva de ambos. A surpresa e o choque existem, mas a plácida compreensão complacente parece acompanhar toda a experiência da percepção da relação dos dois meninos e aparentemente suplanta qualquer possibilidade de recriminação. E por essa razão é que o promo do longa-metragem adianta que a relação entre os dois irmãos adultos se realiza sem muitos impedimentos de ordem moral.
Por sinal, a forma tão explícita como Abranches ilustra esta relação, colocando os dois atores escolhidos – o estonteante moreno João Gabriel de Vasconcellos como Francisco e o belo loiro Rafael Cardoso como Thomás – abusando de trocas de carícias e de demonstrações de paixão escancarada, configura sua abordagem como duplamente audaciosa: primeiro, por que talvez esse seja o longa-metragem brasileiro que melhor ilustra até hoje, sem pudores e com toda franqueza, uma relação entre dois homens; segundo, por expor a gênese, florescimento e consumação de uma relação incestuosa. E o diretor explora tanto esta atmosfera de erotismo entre os atores que preparou uma espécie de ensaio com os dois rapazes só de cueca e repleto de beijos apaixonados, chamegos e algumas sequências de “pega” bem ousadas para adiantar o retrato, por ele pintado, da intimidade dos dois personagens – semelhanças deste ensaio com teasers das produtoras do pornô gayforpay-me-engana-que-eu-gosto não me parecem só uma coincidência (a única diferença é a canção escolhida, que deixa o “ensaio” um tanto cafona…a música que serve de trilha para o promo, que segue a escola de Michael Nyman e Philip Glass, é radicalmente mais bela e interessante).
É bom lembrar que estas são apenas impressões apreendidas de um curta que resume o longa-metragem em 4 minutos e de informações divulgadas em artigos e entrevistas. As coisas podem, na verdade, ser consideravelmente diferentes na integralidade do filme de Abranches. Porém, mesmo que tudo não seja exatamente tão polêmico quanto parece – o que acho difícil de ser verdade -, se um punhado de cenas já gera tamanha reflexão e ocasiona discussões intermitentes por onde quer que elas passem, não é difícil prever que, ao menos, “Do Começo ao Fim” tem quase garantido o sucesso que fará na esfera cult do cinema – e não apenas do cinema brasileiro.
Para assistir ou fazer download do promo/trailer ou do ensaio com os dois atores, use os links abaixo.

(Agradeço ao sempre atento Pelvini pela dica do promo do filme.)

“Do Começo ao Fim” – promo: Youtube (assista)download
“ensaio” com os atores João Gabriel e Rafael Cardoso: Youtube (assista)download

11 Comentários

  1. […] amigo Thê avisara, o trailer vazou no Youtube no começo do mês. O Gio, lá do seteventos.org, explica essa história com comentários (sempre) mais apurados e disponibiliza os links para download do […]

  2. Nossa, e eu te agradeço pelo comentário cuidadoso e excelente. Achei mais uma fonte legal de cinema…rs Também gosto de escrever sobre isso;)
    Abraço!

  3. edd edd

    Também muito curioso para ver um raríssimo filme nacional a enfocar a homossexualidade e que ainda traz junto o tema ainda mais tabu do incesto.
    Fico imaginando – sem nenhuma informação adicional além dos trailers disponibilizados por aí – o que o diretor quis discutir: o incesto ou o fato de ser um incesto entre irmãos do mesmo sexo? Se ele tem cacife para conduzir uma história com dois temas altamente polêmicos num país em que a cada ameaça de um beijo gay na novela das 8 o mundo quase acaba?
    Ressalvando que a criação artística deve ser livre, tenho a impressão que um filme que retrate o gay (alvo de tantos estereótipos até entre os próprios gays) faria melhor se o retratasse num contexto menos polêmico. Ainda mais se a polêmica for tudo que subsistir do filme, pois os diálogos me pareceram algo simplórios. Mas isso só vamos saber após vê-lo. Em princípio considero a junção dos temas nos mesmos personagens algo que só aumentará o preconceito dos que já querem nos odiar. Não que devamos (obviamente) nos guiar por eles, mas fornecer gratuitamente munição ao inimigo não me parece muito inteligente. Ainda mais quando se tenta aprovação da lei antidiscriminação no nosso “glorioso” parlamento.

    Ah sim, os dois atores são belíssimos! Nisso o filme já acertou. rsrsrs

  4. Amadeus Amadeus

    http://www.gayclic.com/articles/court_metrage_gay__starcrossed_.html

    Gostaria de recomendar esse site a você. Conferi já faz um tempo, nem sei se é muito acessado por brasileiros, mas nele está um curta (especificamente nesse link) cuja história parece ser muito semelhante.

    Como falava com meu namorado: o lance dos irmãos, a natação, até esteticamente.

    Que você acha da semelhança?

    Abraços!

    • O que eu andei lendo é que além do fato de a idéia do filme do Abranches ter sido gestada um ano antes, ele declarou que só viu o curta recentemente e achou uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu já espiei o “trailer” deste curta há algumas semanas e, pessoalmente, achei que pelo tom dramático que trailer sugere os dois parecem não ter realmente muito a ver. De qualquer forma, eu achei ele também um tanto piegas – talvez nem seja, mas enfim.

      • já conhecia starcrossed, e não tinha estabelecido relação com “do começo ao fim”. reassisti agora e continuo achando (mesmo sem ter visto o filme do abrances) duas temáticas distintas.

        mas achei o maior barato esse site que você indicou, amadeus!

        • edd edd

          Engraçado, mas eu já achei semelhante demais. Talvez não a conclusão que no curta foi over, mas o enfoque de um amor acima de qualquer dúvida que surge forte e naturalmente entre os irmãos – que parece ser um ponto em comum entre os dois filmes; e até a cena da piscina – uma é cópia da outra. E o curta está aí desde 2005, então é meio estranho o diretor dizer que não viu. Embora nem ache tão importante assim. Sei lá. A semelhança é tão evidente que fica até chato negar que viu. De repente ele não viu mesmo, mas se até eu já havia visto. rsrsrs

  5. Jorge Jorge

    Pode ser que não preste, como a maioria dos filmes brasileiros. Se não prestar, não vai ser “cult”. Eu sinceramente curto arte e acho que é sempre o melhor caminho para lidar com esses assuntos…

    Um filme de temática tão “almodovariana” mereceria um tratamento de “art-house”, no mínimo, ao meu ver, e não uma “Malhação” versão gay e incestuosa.

    • Eu acho que, considerando o número ainda pequeno de produções por ano, em termos de qualidade a produção brasileira não vai tão mal das pernas assim. Claro que, não tivéssemos aí a dona Globo Filmes ela ainda poderia estar melhor. Mas, não adianta reclamar – a presença dela é inevitável.

      Quanto ao filme do Abranches, não é difícil que o tratamento dado pelo diretor seja esse que você citou, mas é bom lembrar que Abranches não é Daniel Filho ou Jorge Fernando. Se olharmos seus filmes anteriores, há mais chances de a abordagem ser interessante do que o oposto – o que não impede de o filme ser ruim, claro. Penso que o tratamento “art-house” poderia realmente adicionar valor ao tema, porém a quantidade de diretores desta vertante no Brasil ainda é ínfima – temos o Julio Bressane e talvez mais um ou outro, mas duvido que passe muito de contar nos dedos de uma mão – e, portanto, muito pouca coisa ganha a chance de ser retratada por eles.

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