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Tag: folk

Birdy (+ 3 faixas bônus e 2 versões acústicas) [download: mp3]

Birdy

Birdy, também conhecida como Jasmine Van de Bogaerde, não tem a arte no sangue apenas por ser filha de uma exímia pianista. Quem é cinéfilo, já percebe algo no sobrenome: a garota é sobrinha-neta do já falecido ator Dirk Bogarde, de clássicos absolutos como “Morte em Veneza” e de filmes ousados e obscuros como o “O Porteiro da Noite”. Talvez daí venha a melancolia e a imensa capacidade emotiva do vocal da garota. Graças à este dom, Jasmine pode vestir uma cuidadosa seleção de faixas pinçadas do rock indie e alternativo dos últimos dez ou quinze anos – contando para tanto com a ajuda de um punhado de produtores musicais experientes da atualidade – em uma abordagem sensível que alterna delicadeza e exuberância.
Como não poderia deixar de ser, já que foram imenso sucesso na internet e até mesmo utilizadas como trilha de seriados de TV, estão presentes no debut os singles que a trouxeram ao conhecimento do público na web, como “Skinny Love”, onde apresentou seu piano triste enquanto exibia toda a extensão do seu vocal doce e macio, “Shelter”, que além do piano tão dramático e amargurado quanto o esplêndido vocal de Birdy traz sutis sintetizações etéreas, e “People Help The People”, fabulosa versão que com bateria, guitarra, baixo e violoncelo acompanhando o piano mostrou que a menina se sai tão bem dividindo seu brilho com uma banda quanto na solidão do estúdio com seu piano. Por falar na banda, na abertura do disco, quando é removida de “1901” toda a verve brejeira e lo-fi das guitarras da versão original da banda Phoenix em detrimento de um andamento lento comandado por piano e bateria que dá direito à quem ouve a música de realmente apreciar toda sua beleza, percebe-se ali alguns vapores de Fiona Apple. A impressão não é um equívoco condicionado pelas várias semelhanças físicas, artísticas e de situação entre as duas mulheres: um dos músicos convidados, e que surge nesta primeira faixa, é o baterista Matt Chamberlain, que já trabalhou com a reclusa e idiossincrática cantora e compositora americana. Mas mesmo com uma produção de ponta e produtores consagrados, Birdy consegue instaurar em sua música ares de artista independente, como em “White Winter Hymnal”, do Fleet Foxes: o pulso mecanizado da percussão sob os acordes singelos no piano e as várias camadas de vocal sobreposto de Birdy emulam parte da atmosfera algo artesanal da versão da banda, mas investe-se aqui em uma maior simplicidade melódica, tão cativante quanto a original. Nas faixas “Young Blood” e “Terrible Love” há um polimento melódico ainda mais vigoroso: na primeira, saem de cena as guitarras e apazigua-se a multitude de sintetizações, características da versão feita pelo The Naked and Famous, para que a melodia reverbere em um todo mais homogêneo onde acordes de guitarra e teclados cintilam e vibram sobre uma programação mais leve, tudo de modo a não atrapalhar a interpretação equilibrada da britânica; na segunda, é mantido o crescendo melódico, mas ao invés das guitarras e o vocal blasé da banda The National que roubam tudo o que podem de Joy Division e The Smiths, há a voz incomparavalmente mais emotiva de Birdy, seu piano singelo e uma orquestração de cordas que laceia o esplendor sentimental desta versão.
Mas está completamente equivocado quem possa pensar que começar a carreira com um disco de covers é uma decisão que revela a opção pelo caminho mais fácil. Com a ajuda de uma boa trupe de produção e um afiado sentido melódico consegue-se aperfeiçoar muito músicas que não aproveitavam todo o seu potencial melódico, mas o desafio torna-se bem mais complexo e ousado quando se tenta reconstruir em uma nova versão o mesmo impacto de uma canção que já exibia todo o fulgor de sua melodia, exatamente o caso de “Comforting Sounds”, fabulosa já na sua primeira versão dos dinamarqueses do Mew. Como refazer toda a grandeza resplandecente do solo melódico das guitarras originais sem perder a singularidade do elemento emocional da primeira versão? Parece mesmo uma tarefa ingrata. Contudo, a menina e sua equipe, aqui lideradas pelo gabaritado produtor Rich Costey, sucedem e muito bem na missão: com Birdy derramando toda a alma nos vocais da canção e deixando espaço para que synths de orquestração de cordas refaçam o espetacular efeito maciço das guitarras na explosão melódica original, “Comforting Sounds” acaba sendo um dos covers mais belos do disco, imensamente emocionante e capaz mesmo de trazer lágrimas aos olhos. E ainda sobra ânimo e força para um delicado registro nos teclados da meiga “Farewell and Goodnight”, originalmente dos americanos do The Smashing Pumpkins, e até mesmo um aperitivo do que virão a ser composições originais desta garota-prodígio britânica, com a angustiada balada ao piano “Without a Word”. É uma estréia muito promissora, não apenas porque a garota de 16 anos prova que ainda surgem alguns artistas jovens que podem demonstrar mais maturidade e sofisticação do que cantores estreantes menos novos ou mesmo veteranos do rock e pop, mas pirincipalmente porque a menina revelou-se uma cantora segura de sua capacidade e com uma identidade que brota já com considerável consistência artística – mesmo que suas composições não frutifiquem futuramente em algo realmente proveitoso, fica a certeza de que na pior das hipóteses teremos uma interpréte das mais vigorosas da música da atualidade.

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Agradecimentos ao @rainervinicius pela dica dada há alguns meses! 😉

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Cowboy Junkies – Renmin Park e Demons (+ EP bônus) [download: mp3]

A banda canadense Cowboy Junkies até hoje não consegue a merecida projeção que a qualidade de sua música merece. Afora o seu próprio país, a banda dos irmãos Margot e Michael Timmins é conhecida e apreciada por bem poucos – o disco que mais chegou perto de um sucesso foi o espetacular Lay It Down, cuja resenha do Seteventos você conferir clicando neste link. Isso, porém, não parece incomodar os músicos, já que há 25 anos eles mantém o ritmo de gravações e shows. E foi justamente em comemoração à isto que a banda concebeu o projeto The Nomad Series, um conjunto de quatro discos que estão sendo lançados dentro de um período de dezoito meses refletindo e reunindo tanto novas inspirações para a banda como velhas influências da sua carreira. Destes, dois volumes já foram lançados.
Renmin Park, cujo nome faz referência aos belos parques que enfeitam grande parte das cidades da China, país no qual Michael passou um período de três meses enquanto providenciava e aguardava o processo de adoção de duas crianças, é o Volume 1 da série de discos. A estadia no país inevitavelmente influenciou as composições do primeiro disco do projeto: quase todas as músicas contam com o apoio de sons e ruídos gravados pelas ruas chinesas enquanto Michael passeava para conhecer melhor a cultura e costumes do país. A faixa “Intro” é tão somente isto: uma mistura do registro de sons ambientes para apresentar a atmosfera na qual o disco teve sua gênese. À exceção de “A Walk In The Park”, cantada em mandarim por um cantor chinês amigo da banda e que integra ritmos, vozes da cultura musical chinesa com a ambiência rock da banda, a maior parte das outras canções utilizam estes elementos em grande parte apenas como adorno, preservando em sua integridade a já conhecida mistura de folk e rock com uma pitada de country que caracteriza as músicas da banda. É o que ocorre na faixa título, onde somos surge os violão tão conhecido da banda o vocal sempre emocionante de Margot, entoado em um registro tão triste e amargurado quanto o violino solo em um lamento tipicamente oriental que faz a ponte melódica da faixa. Outras faixas que tem a inserção de ambiências orientais temperando a melodia são “Sir Francis Bacon At The Net”, com o gingado soturno da bateria e baixo, intensificados por reverberações metálicas de guitarra e pelo cantar misterioso dos irmãos Timmins, em uma rara participação conjunta nos vocais, “(You’ve Got To Get) a Good Heart”, intoduzida por uma climática reverberação de acordes de piano e que conta com bateria e baixo em evidência na cadência discretamente soturna na qual os vocais se mantém em um registro baixo e “Cicadas”, cujo base melódica é guiada por um baixo em pulso marcado e preenchida por uma combinação da captação de sons das ruas e parques chineses e de semi-silêncios em solos de violoncelo e violino enquanto a voz macia e determinada de Margot acompanha a harmonia e prepara a entrada da bateria e do violão.
Mas há canções no disco que se limitam apenas à fronteira da tradicional musicalidade rock da banda. Entre elas, “Stranger Here”, com riffs de guitarra, violão e bateria de harmonia firme e o orgão que promove com perfeição a liga da melodia, as baladas “I Cannot Sit Sadly By Your Side” e “Little Dark Heart”, a primeira com um dos vocais mais desesperançados de Margot sobre riffs cada vez mais emaranhados e desesperados de guitarra, bateria e baixo em lento pesar e um piano que corta o coração com suas notas que despedaçam-se na melodia enquanto a segunda conta com violões pronunciados e toques malemomentes de guitarra e orgão sobre cantar levemente anasalado da vocalista e também “My Fall”, cover em inglês de uma música chinesa que com a solidez country-rock da bateria, violões, baixo e o vocal limpo e claro de Margot, adoçado pelo fremir de alguns acordes de guitarra e ocasional arranjo de violino, bem passaria por uma música composta pela própria banda.


O Volume 2 do projeto é o disco Demons, uma compilação de covers de composições de Vic Chesnutt, americano cantor de folk, country e rock alternativo que morreu no final de 2009 e que era grande amigo da banda. A intimidade e liberdade dos canadenses ao lidar com o material composto pelo colega é tão grande que não há qualquer diferença realmente visível entre estas canções e o catálogo do próprio Cowboy Junkies de tão coloridas que foram pelo vigor e frescor rock dos canadenses: “Wrong Piano”, com bateria bem cadenciada sobre um órgão esfuziante e riffs caudalosos de guitarra, “Flirted With You All My Life”, com piano, bateria, guitarra, órgão e baixo em amálgama harmônico algo dançante e “Ladle”, com diversas camadas de guitarras alternando e contrapondo-se sobre a harmonia sólida de bateria e baixo e os vocais potentes dos irmãos Timmins no refrão, todas foram incrementadas com as estudadas melodias e entusiasmos sem arestas tão bem conhecidos da banda.
Porém, apesar do belo trabalho dos canadenses ao adaptar as canções mais ritmadas do amigo americano ao seu próprio estilo, é lidando com as canções mais desiludidas, onde ressaltava-se a essência mais despojada e instrospectiva e menos maciça de Vic, que o Cowboy Junkies mostra-se brilhante, refundando as melodias à luz de sua estupenda matiz musical. É o caso de “Betty Lonely”, linda balada no vocal abatido de Margot sobre um órgão melancolicamente sensual e a cadência imutável e macia da bateria e do baixo, entrecortados tão somente por algumas farpas de guitarra, de “Square Room”, que ganhou uma orquestração de cordas discreta que sopra ao fundo, solícita e triste, enquanto Margot guia o passo cálido da bateria, do violão e do órgão com seu vocal que sublima emoção, da esplêndida “Supernatural”, que também conta com uma orquestração serena e destaca-se pela viola de acordes chorosos como companhia ao vocal amargurado e resignado da cantora canadense, do contemplativo arranjo de “We Hovered With Short Wings”, com percussão que farfalha como uma brisa, acordes de um polido violão e um taciturno clarinete namorando o semi-sussurar de Margot numa espetacular comunhão sonora que toma delicadamente os sentidos, e também da cortante “Marathon”, cujos violões e percussão só não são mais plangentes que o vocal sofridíssimo de Margot e Michael Timmins, que dilaceram a alma tanto quanto o fremir glacial da guitarra solo.
Impressiona mesmo os que já conhecem a banda de longa data que os canadenses não apenas sustentem a qualidade musical que vem desde o início de sua carreira, mas que depois de tanto tempo ainda desfrutem de um frenesi criativo que transborda tamanho refinamento e densidade melódica tanto ao trabalhar com material de seu próprio punho quanto de outros artistas, um luxo o qual nem mesmo bandas mais populares e lendárias conseguem dispor por tanto tempo – abençoado seja o Cowboy Junkies!

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e mais um bônus: clique aqui e baixe “3rd Crusade”, uma das faixas de Sing In My Meadow, o Volume 3 da série que está planejado para ser lançado em Agosto.

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Timber Timbre – Creep On Creepin’ On. [download: mp3]

Taylor Kirk, cantor e compositor canadense que é a ponta criativa do triângulo que compõe a banda Timber Timbre, cujos outros vértices são Mika Posen e Simon Trottier, poderia bem ganhar a vida como intérprete de grandes clássicos do blues por conta de sua voz grave e macia, e nota-se facilmente o quanto o gênero influenciou suas composições, particularmente no seu último disco, Creep On Creepin’ On. Além da própria carga que existe em seu vocal, aquele vapor melancólico e nostálgico do blues também acaba contaminando boa parte das melodias. O piano de notas agudas e cristalinas que estala no ar em “Bad Ritual” é exemplo claro disto, há porém a companhia de algumas orquestrações e eletronismos lo-fi que lhe conferem também uma sonoridade bastante soturna. Esta atmosfera também circunda os acordes do piano, as inserções pontuais do saxofone e o órgão empoeirado de “Black Water”, conferindo à canção ares de balada de salão de festas de um hotel mal-assombrado. O saudosismo ganha um requebro mais dançante na cadência de teen party sessentista de “Too Old To Die Young”, que parece saída diretamente de um momento mais inspirado em que Chris Isaak incorpore o seu Elvis. A impressão no início desta faixa é que o ar sinistro possa ter ficado pra trás, mas a sensação evapora rapidamente quando o refrão soturno ataca sem hesitar a melodia. Esse caráter musical que desenha referências na música de meados do século passado floresce igualmente na faixa “Woman”, mas o obscurantismo dark não deixa de se fazer presente, insidioso e lembrando muito o trabalho dos britânicos do Portishead: impossível não fazer referência à biologia melódica do grupo inglês na intro que funde metais, guitarras e bateria em uma marcação aquosa de filme de ficção-científica tanto quanto no modo como isso é repentinamente revertido em uma singela harmonia tradicional em piano, vocal, baixo e bateria.
O parentesco de Timber Timbre com músicas de antigos filmes de sci-fi e terror não fica apenas na fusão feita com melodias que tem algo da boemia de um cabaret ou salão de festas de um hotel cinco estrelas, mas é exibido em toda sua intensidade na tecitura das faixas instrumentais que pontuam de modo dramático o disco assim como sequências de um filme são pontuados por sua trilha. Assim funcionam “Obelisk”, com o suspense armado pelo arranjo de cordas sobre um pulso ininterrupto da bateria e ruídos que rompem a melodia e reforçam o clima espectral, e “Swamp Magic”, que apesar do obscurantismo inicial nos acordes escandidos no violão, na ondulação das cordas e nas interferências indistintas, é banhada por uma luz orquestral em sua sequência final. Contudo, o mais belo interlúdio cinemático é o de “Souvenirs”: uma reverberação de cordas fulgurante que é reminescente das esplêndidas peças eruditas do hiper-vanguardista György Ligeti que sonorizaram a espetacular obra-prima “2001: Uma Odisséia no Espaço”, fechando no modo “egotrip transcendental” o singular setlist que cairia muito bem em uma festa – mas só naquela cuja anfitriã fosse Carrie White.

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Jay-Jay Johanson – Spellbound

Infelizmente, o blog do meu amigo não está mais online, e por esse motivo, tomo a liberdade de reproduzir aqui um backup da resenha que fiz originalmente como blogueiro convidado no saudso Zé Offline. Logo depois da resenha segue a postagem original, para fins de “fidelidade histórica”, como diria Mark Hamill.

Conheço Jay-Jay Johanson de apenas dois dos seus discos, Poison e The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known, ambos ambientados dentro dos domínios do trip-hop com algumas fusões de pop e jazz. De modo geral, não seria errado alinhar o cantor e compositor dentro da seara da música eletrônica, mas isso já não é mais tão simples com o lançamento de Spellbound, seu mais novo disco. Para minha surpresa, à exemplo do que fez Beck no disco Sea Change, o artista sueco mudou consideravelmente de direção, enveredando por melodias profundamente contemplativas cujas bases em boa parte acústicas não vão muito além de pianos e violões e de algumas reluzentes doses de orquestrações. Aparentemente, a mudança parece ter sido influência do legado de seu trabalho na composição da trilha do filme “La Troisième Partie du Monde”, sua segunda experiência do tipo na carreira. A ambiência cinemática, trazida do trabalho no filme, aparece tanto nos silêncios significativos quanto nas orquestrações que reforçam o caráter dramático das melodias, o que já fica patente na faixa de abertura, “Driftwood”, composta pela alternância entre versos cantados por Johanson e uma harmonia orquestral breve e sutil que os sucedem, fazendo-lhes um contraponto melódico extremamente sofisticado. “Dilemma”, a faixa seguinte, recupera brevemente na cadência pop-jazz do piano de notas esparsas e graves e na percussão leve a musicalidade nostálgica do cantor sueco, apresentando grande parentesco com músicas que seriam certamente liveset de algum cabaret. Já em “On The Other Side” a harmonia doce e triste do piano traz como referência canções marcantes que foram trilhas de séries e filmes clássicos dos anos 70. Mais à frente, o violão de “Monologue”, dedilhado com parcimônia sobre sintetizações distantes e difusas, evoca o mesmo sentimento de placidez que pode ser experimentado à beira do leito de um rio em meio à uma floresta calma e vasta. Evocativa também é a melodia de “The Chain”, porém a programação-base que irradia-se em uma ondulação delicada, os toques abafados no piano e os acordes sufocados e arranhados em um violão buscam como reminiscência o remanso de outras águas: as do mar. Adiante no disco, além da clara inspiração pictórica, a música de terras mais distantes e paisagens mais tropicais também parece ter motivado as novas composições do artista sueco, já que, apesar dos acordes hesitantes e narcolépticos ao piano e do trompete solitário e melancólico de “An Eternity” terem um gosto inconfundível de jazz, o vocal do cantor, em registro baixo e silencioso, tem o sabor todo marcante da bossa-nova. Mas, se me fosse exigido escolher uma única canção de Spellbound para servir como a mais representativa desta fase renovada de Johanson, ela certamente seria a pungente “Ouf Of Focus”: sobre o melancólico ressoar de um orgão, o registro cálido e resignado do músico ao encerrar o disco cantando o triste verso “because of the tears in my eyes I saw her leaving out of focus” é de calar mesmo a mais atormentada das almas.

O post desta semana vai ser um pouco diferente: fui chamado pelo meu grande amigo a publicar uma resenha, como autor convidado, no seu blog, o Zeoffline.com. Recebi dele toda a liberdade do mundo quanto ao conteúdo da resenha: poderia ser sobre qualquer das coisas às quais já tenho hábito de escrever nos meus dois blogs: cinema, música, vídeos…e até homens. Mas eu penso que todo mundo, quando entra como convidado em algum lugar, faz questão de respeitar a casa do anfitrião e adequar-se ao ambiente. Por essa razão, decidi que o texto seria sobre um disco, que é a grande tônica do excelente blog do Zé. Aliás, se você ainda não conhece o Zeoffline.com, ta aí a melhor oportunidade pra fazê-lo: dê um pulinho lá pra conferir a minha resenha da semana e aproveite pra conhecer o blog.
É isso.
Na próxima resenha, tudo volta ao normal: vai ser aqui no blog mesmo.
Abrações e divirtam-se!

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Yoav – Charmed and Strange. [download: mp3]

Yoav - Charmed and Strange

Conheço o disco de estréia do cantor e compositor israelense Yoav desde que foi lançado, mas como acontece com alguns discos e alguns artistas, Charmed & Strange foi relegado à um repouso por tempo indeterminado em minha biblioteca de música. Quando isso acontece, revisito descompromissidamente o álbum de quando em quando até que ele atinja um nível aceitável de simpatia. Claro que às vezes isso simplesmente não ocorre, e o destino do disco é o irremediável descarte, mas se insisto por um longo tempo, neste caso praticamente dois anos, é porque sei que a hora certa vai chegar.
A música criada pelo rapaz moreno com rosto de traços rudes e expressivos e voz juvenil é predominantemente acústica, em grande parte armada tão somente sobre guitarra e violão. Normalmente, a limitação de um músico à estes instrumentos invariavelmente enquadra sua produção dentro dos domínios do folk, mas nas mãos desse cantor dotado de uma destreza e flexibilidade impressionantes no manejo deles e, principalmente, dono de uma grande criatividade, ela não se contenta em permanecer dentro das fronteiras deste gênero: usando e abusando das alterações obtidas por pedais, Yoav engendra loops e beats tanto no dedilhar das cordas quanto tirando proveito do corpo dos instrumentos, fazendo as vezes de bateria e percussão batendo com as mãos – o resultado é uma música que emana um fulgor que na vertente acústica dificilmente seria obtido por apenas uma pessoa em um estúdio ou palco, já que em suas apresentações ao vivo o rapaz repete, em real-time, grande parte dos procedimentos. A faixa de abertura, “Adore Adore”, deixa nítido o que ele é capaz de fazer com sua técnica, já que tanto a batida que cresce ligeira quanto os toques precisos que o cantor arranca de sua guitarra, tão cortantemente amargurados quanto o seu vocal melancólico, impressionam sem muito esforço. E se a primeira música não for suficiente pra mostrar a versatilidade do cantor com sua guitarra e pedais, da segunda, “Club Thing”, isso não passa despercebido: introduzida por um beat marcadíssimo e sutilmente dançante e entoada em um registro vocal que alterna entre a voz macia e um falseto delicado, Yoav vai encorpando a melodia com a alquimia dos seus riffs, live loops e toques em sua guitarra e violão até fazer surgir uma mistura de pop e rhythm’n blues que ferve com uma soturna sensualidade. Isso, não significa, porém, que o compositor omita de suas criações a utilização de instrumental de apoio, como pode ser visto na discreta sintetização ao fundo em “Sometimes…”, que tem como destaque o beat curto e veloz que o cantor arranca do violão enquanto seus toques em segundo plano nas cordas fazem a melodia brilhar com luminosidade e calor, e em “Wake Up”, cuja batida e acordes tão característicos do estilo acústico do cantor arrastam-se em marcha até serem encorpados e continuamente acompanhados por uma sintetização de cordas que potencializa a enorme beleza da melodia. Mas mesmo resumindo-se ao seu pequeno arsenal, o cantor consegue mergulhar em ritmos e influências: “There Is Nobody”, por exemplo, tem a sutilíssima fragância do pop europeu dos anos 90 tanto na sua metade inicial, feita de acordes secos e ásperos sobre o ecoar de um pulso bem marcado, quanto no sua última parte, um intenso cavalgar mais melódico de riffs e uma batida mais consistente que nas mãos de um bom produtor de música eletrônica certamente seria convertida e uma faixa inusitadamente dançante, como aquelas feitas à época. Contudo, provavelmente é a angústia e melancolia palpáveis de “Beautiful Lie” que a põe como a melhor faixa deste primeiro disco do cantor isrealense: introduzida pelos acordes espaçados da guitarra que reverberam enquanto o cantor lança sua bela voz, a canção tem mais da metade de sua duração constituída de um vibrante solo harmônico de guitarra, feito de toques breves, ligeiros e virtuosos, que expande-se em uma harmonia de exuberante emoção. E pra quem está pensando que o rapaz só gosta de exibir-se virtuoso, o tradicionalismo das notas suaves, simples e discretas da triste balada “Angel and the Animal” comprovam que ele sabe compor dentro do estilo pop/rock mais clássico, o que também, espertamente, serve como “respiro” para não cansar o público em meio à quase um álbum inteiro de experimentações percussivas e acústicas – ufa!

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Ariana Delawari – Lion of Panjshir. [download: mp3]

Ariana Delawari - Lion of PanjshirComo a maior parte das coisas na internet, chega uma hora que você acha uma utilidade pra tudo e acaba simpatizando com os serviços, até alguns que causam pré-irritação por conta do hype. Vejam só que coisa: eu cheguei a repudiar blogs – faz muito tempo, obviamente. Agora foi a vez do Twitter. Minha implicância com o serviço era pública – falei sobre isso em um post há alguns meses aqui no seteventos.org -, mas eu decidi que era hora de tentar encontrar a graça do serviço – e acabei encontrando. Foi vasculhando perfis aqui e acolá, tentando entender a dinâmica da coisa toda, que dei de cara com o Twitter de David Lynch. Sim, o próprio, o lendário criador de algumas das coisas mais estranhas da TV e cinema americanos. O fato por si só já despertou meu interesse, mas acabei ficando um tanto desanimado ao ver que o lado místico do diretor o fazia postar mensagens do gênero no seu perfil. Mas como muitos fazem no serviço, David solta uma ou outra dica nas suas mensagens, e resolvi clicar e conferir uma delas, sobre Ariana Delawari, uma cantora cujas feições denunciam uma herança meso-oriental e, descobri depois, que foi apadrinhada pelo diretor e teve seu primeiro trabalho financiado pela produtora de Lynch.
Ariana, que já se apresentava em shows há algum tempo, era antes conhecida pelo pseudônimo Lion of Panjshir, termo que servia de nome de guerra – literalmente falando – a um estudande de engenharia afegão que se tornou um dos maiores heróis do país ao liderar a resistência contra o exército soviético na tentativa de invasão destes ao Afeganistão e que, anos depois, foi assassinado dois dias antes da ocorrência dos ataques de 11 de Setembro. Durante a produção deste seu primeiro disco, a artista trocou o papel exercido pelo pseudônimo, adotando-o como o título do trabalho, atitude que sinaliza a presença de uma inevitável carga política no álbum. Mas apesar de que as referências aos imensos problemas enfrentados pela sua terra-mãe acabem sendo relevantes e funcionem bem nas canções, é o seu caráter sonoro que desperta a atenção. Partilhando tanto da influência ocidental quanto da herança afegã, Ariana apresenta e funde no seu primeiro disco as diferentes identidades musicais das duas culturas, compondo tanto canções que pertencem à uma quanto à outra, bem como criando melodias multi-culturais, que misturam elementos destas e até de outras culturas. As feições woodstockianas de “San Francisco”, introduzida com a placidez melódica do folk que logo reverte-se em uma música onde as guitarras tropejam acordes ligeiros para acompanhar a bateria cuja cadência segue um transe imutável, transpirando uma sonoridade que remete a trilhas do cinema faroeste enquanto Ariana guia os versos em um cantar revestido de tenacidade e audácia são certamente fruto de toda a carga musical que a artista recebeu em sua criação nos Estados Unidos. Também descendem da tradição ocidental o piano de registro grave e baixo e as cordas e sopros que florescem em meio a melodia de “We Live on a Whim”, assim como a melancolia e abandono despertados pela vocal e pelos acordes entre esparsos e ligeiros de “We Came Home”, canção que fecha o disco. Já “Laily Jan” pertence de corpo e alma à sua ancestralidade afegã, pois não apenas é cantada na sua língua de origem mas exibe todas as colorações da música tradicional do país, com direito à toda sorte de instrumentos típicos encadenciados em uma melodia folk-étnica. Com a introdução climática de um rabab que vai aos poucos ganhando a companhia de contínuos acordes de cítaras e dilrubas e a percussão hipnótica das tablas em um crescendo de densidade melódica e rítmica, “Singwind” também partilha do espírito musical do país asiático, porém recebe um sutil tempero ocidental ao ter seus versos cantados em inglês na bela voz da cantora. E é exatamente ao fazer uso da feitura mais multi-cultural de sua personalidade que a cantora acaba construindo o momento mais inspirado do disco, “Be Gone Taliban”. Com uma melodia enormemente imagética, a canção mistura o efeito ritualístico do conjunto de instrumentos afegãos com o dinamismo cinematográfico do arranjo de cordas exasperantes e do cantar repleto de emoção, pontuado por cânticos de feições religiosas. O resultado é uma música de atmosfera intensamente épica e de coloração fascinantemente luminosa.
Se a empreitada musical de Ariana tiver proseguimento, haverá ainda um bocado a ser lapidado e agregado no seu trabalho com as melodias, já que por vezes elas soam obtusas e opacas, porém os momentos mais frutíferos deste seu primeiro lançamento comprovam seu talento e perícia em criar canções exuberantes e sedutoras para os ouvidos. Basta apenas a ajuda do tempo e o auxílio de um produtor mais experiente e versátil para que a artista encontre o foco e consiga buscar e aliar o melhor das culturas tão diversas que convivem dentro dela própria.

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Mia Doi Todd – Manzanita. [download: mp3]

Mia Doi Todd - ManzanitaAmericana de Los Angeles, Mia Doi Todd tem entre seus dotes a graduação em estudos orientais e a pesquisa feita sobre a Butoh, dança contemporânea japonesa das mais idiossincráticas – conhecimento que a levou inclusive a criar e montar coreografias para um grupo de dança dos Estados Unidos. Mas seu dom natural é mesmo relativo à outro campo do mundo da arte, a música.
O encanto da música criada por Mia Doi Todd nasce da combinação homogênea entre voz e melodia: seu vocal macio, moderado no volume e no uso de vibratos, funde-se sem rebarbas com as melodias que exploram a sutileza da instrumentação acústica. Essa feição algo naturalista de sua música é obtida em sua forma mais ideal nas faixas mais sorumbáticas e melancólicas de seu álbum Manzanita, como se pode perceber na harmonia algo solitária entre o silêncio dos acordes de violão e o acalanto da voz de Mia na belíssima “I Gave You My Home”, música em cujas letras uma mulher, entre referências à afazeres domésticos cotidianos, lembra seu companheiro sobre todo o amor e dedicação que um ofereceu ao outro nesta relação. Mas essa ambientação obtida da combinação da tonalidade da voz da cantora com as melodias que compõe está presente em todo o disco, do início ao fim, passando tanto pelas canções que experimentam sabores latinos – associação despertada pelo que há de lúdico nas palmas, pelo virtuosismo do mandolim, e pela cadência letárgica da guitarra de “Tongue-Tied”, na qual Mia se utiliza de uma breve narrativa metafórica para confessar que procura um modo de conquistar o amor de seu amado, bem como pela coloração reggae de “Casa Nova”, que explora nas guitarras, no baixo e no arranjo de metais o gingado malemolente típico do gênero em uma canção onde uma mulher revela ter se livrado do feitiço de uma paixão que há muito lhe tolhia a liberdade de amar – quanto por aquelas que exercitam as potencialidades do rock – caso da faixa que abre o disco, “The Way”, onde as guitarras, na companhia do baixo e da bateria, dão o compasso da melodia tanto quanto preenchem e aprimoram sua base com reverberações e distorções sutis.
Servindo como uma espécie de “ensaio”, uma base sólida para que Mia mais tarde delineasse com maior clareza e apuro a atmosfera bucólica de seu mais recente disco, o álbum GEA, Manzanita é um exercício musical que mesmo no seus momentos mais agitados e profusos explora tecituras simples e convencionais onde os (poucos) excessos de ornamentação sempre trabalham a favor da harmonia, e não da falta dela.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos.

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Duncan Sheik – Phantom Moon. [download: mp3]

Duncan Sheik - Phantom MoonEu já disse por vezes aqui que alguns artistas e discos levam tempo pra crescer entre minhas preferências. Alguns eu conheço e ouço há anos, mas quando perguntado do que eu gosto, não chego a citá-los prontamente porque não atingiram ainda o ponto em que podem ser considerados artistas favoritos. Contudo, há pouco um deles saiu da minha lista de ostracismo cultural e se aproximou dos que perfazem as minhas preferências – o cantor e compositor americano Duncan Sheik. De todos os discos que lançou, só ouvi até hoje seus três primeiros álbuns – onde seu trabalho exibe uma enorme atmosfera pop/folk -, e apesar de que Humming é o que mais escutei, foi Phantom Moon que me fez olhar novamente para o artista, de lá de seu local de repouso na minha cultura musical. O disco é um trabalho requintado e cuidadoso tanto de melodias quanto de letras – estas, por sinal, escritas pelo dramaturgo e poeta americano Steven Sater -, nas quais ainda que variem consideravelmente em tonalidade e intensidade, acabam por compor um todo de homogênea melancolia. Na faixa “Mouth On Fire”, por exemplo, para transmitir na melodia a mesma magnânima estupefação do eu lírico das letras – que vê tudo o que entende e crê perder todo o seu sentido diante do que vive no momento -, Duncan pôs em serviço violões de acordes suplicantes e ligeiros para trabalhar com bateria, arranjo de cordas e com as várias camadas de seu vocal, construindo uma música que só reduz sua densidade melódica sôfrega no seu último minuto e meio. É justamente o oposto do que nos é apresentado em “Lo and Behold”, onde o cantor e compositor se utiliza de piano, orquestração de cordas e da beleza inequívoca de sua voz jovem, macia e pungente para, de modo supremamente fabuloso, construir na música e nos sentidos do ouvinte um crescendo melódico que suplanta de modo inevitável todas as suas sensações – algo que condiz com as letras, inspiradas na enorme emoção de Simão ao ser apresentado à Jesus no no templo de Jerusalém, passagem do evangelho de São Lucas. Em outras canções, no entanto, a variação é menos intensa, já que Sheik cultiva uma sutileza maior no andamento delas. Exemplos disso estão na melodia fulgurante de “Time and Good Fortune”, que com matizes criadas por violas, bateria e orquestrações evoca a placidez de um cenário bucólico esplendorosamente invadido pelos raios do sol, na cadência suave e gentil da guitarra, bateria e piano da balada “Far Away”, que exibe o calor ameno de uma paixão madura, na perfeição do compasso folk/rock graciosamente vigoroso entre violões, órgão, percussão e vocal da faixa “A Mirror In The Heart”, que imprime sensações de revelação e urgência, e na plangente serenidade dos violões e do vocal de Duncan em “Requiescat”, que explora sonoramente a mesma resignação da súplica, nas letras, pela paz de espírito de alguém que se foi, e pelo equilíbrio de quem ficou.
Phantom Moon é nitidamente daqueles discos que não se repetem na carreira de alguém – ficam lá aprumados em sua inatingível superioridade, resultado de um momento ímpar no qual o artista encontra-se imbuído de uma inspiração inigualável. Ao mesmo tempo que isso é uma verdadeira preciosidade para um músico, pelo simples fato de que tal obra foi concebida, também se converte em um empecilho, uma vez que dificilmente se consegue superar, ou mesmo atingir, igual nível de qualidade em obras posteriores. Mas essa busca é, felizmente, o “santo Graal” que é a força-motriz por trás de todas as expressões artísticas, o alimento mais que necessário para sua continuidade.
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Ben Ricour – L’aventure. [download: mp3]

Ben Ricour - L'aventureBen Ricour, da chamada nova geração de cantores franceses, tem um carisma musical enorme: difícil não ficar com a melodia de um bom punhado das canções do seu álbum de estréia, L’aventure, tilintando carinhosamente na cabeça, ouvindo sua voz algo infantil e imaginando o que aqueles seus versos de amor, entoados em um francês delicioso, devem exatamente significar em português. Excetuando-se algumas faixas mais monótonas, Ricour conquista o ouvinte, sem muito esforço, já nas primeiras audições do seu pop/folk bem construído. A faixa que abre o disco, “Vivre À Même L’amour”, com seus violões e baixo lépidos, bateria de síncope rápida e saltitante e refrão seguro e certeiro, tem a tonalidade pop-grudenta de primeira de um gritante single. Algumas músicas depois e novamente os ouvidos são raptados pela melodia solar de “Je Me Réveille”, com violões e vocais doces e fulgurantes de esperança, sintetizações de cordas repletas de uma luz calma e aconchegante e bateria ligeira, mas gentil. Na faixa seguinte, “Le Risque”, Ben aposta em um dueto com uma voz feminina para ressaltar as letras sensuais, mesmo que os violões habilidosos, a bateria e percussão escandidas e a guitarra de acordes salpicados no trecho final deixem a melodia mais inequivocamente lúdica e faceira do que sensual. Logo em seguida somos apresentados a uma balada delicada, “Ami D’enfance”, onde o dedilhamento nas cordas do violão, os toques na bateria, os acordes no piano, a tonalidade da voz de Ricour, todos exibem uma soltura, leveza e suavidade aconchegante e carinhosa. “L’aventure”, a faixa seguinte, tem melodia encorpada por violões vistosos e maciços, que sobrepujam mesmo todo o instrumental restante – a guitarra eventual de acordes levemente rascantes e a bateria complementar e submissa à rítmica dos violões. E o disco fecha com a brincalhona “Pas Stressé”: além da tecitura aveludada do violão, da percussão, e dos acordes de harpa eventuais, o cantor brinca com seu vocal, produzindo um solfejo que lembra o ruído de mola dos cartoons que tanto assistiamos na infância.
As composições de Ben Ricour, por mais engraçado que possa parecer, guardam muita semelhança com as feições do próprio artista: sua música exibe aquele ar charmoso, inteligente e elegante que os franceses tão bem conseguem exprimir daquilo que tem a aparência mais convencional e comum. E bem sabemos que tanto são atraentes aquelas notas simples e tradicionais, nada surpreendentes, de uma canção bem feitinha quanto o pode ser aquele moço que mora no prédio ao lado, não?

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Yael Naim. [download: mp3]

Yael NaimFrancesa de nascença, mas israelense de origem e criação, Yael Naim é mais uma novata procurando seus caminhos no mundo da música. Depois de se dispor alguns anos a fazer o seu ganha pão em musicais franceses, Naim conheceu o produtor e instrumentista David Donatien, logo criando um imenso senso de identificação com ele. Foi ao desenvolver esta relação tão cheia de compreensão e cooperativadade artística que Yael superou seus temores e seus limites, concebendo com ele o seu primeiro álbum. Não se trata de uma obra excepcional, que chame a atenção pela originalidade e arroubo, mas por duas outras coisas: pela delicadeza que contém e por algumas escolhas ousadas. A delicadeza está implícita nos arranjos, como na melodia bem apurada dos violões, guitarras, bateria e percussão de “Too Long”, que possui ainda vocais de fundo graciosos, embebidos em um lirismo sutil, está contida nos vocais, piano, bateria, percussão e arranjo de metais de puro júbilo e graça em “New Soul”, ou reside na simplicidade triste do piano e tradicional arranjo de cordas de “Lonely”, na qual Yael, com vocal intensamente emotivo, fala apoiar incondicionalmente alguém que sofre estar confuso com sua falta de rumo. Já a ousadia da estreante fica por conta de um grande número de faixas em que ela canta em hebraico – como em “Levater”, cuja melodia exibe um violão quieto, sobrepujado pela borbulhância dos vocais, tanto o principal quanto os de fundo, e pelas cordas exuberantemente orientais – e por causa de sua brilhante recriação do hit “Toxic”, de Britney Spears, em cuja versão toda a reminiscência “popteen” é desprezada, dando lugar à um arranjo fabuloso ao cargo de um xilofone desmedidamente doce, guitarras agudas e sensuais, bateria escandida e flautas quase infantis, além de mini-ruídos indistintos.
Nesta estréia, Yael Naim e David Donatien conseguiram um disco com sonoridade bastante sólida e um razoável número de belas composições que enveredam ouvido adentro já na primeira escuta. Faltou um tantinho de sensatez ao selecionar uma quantidade um pouco acima do suficiente de músicas cantadas em hebraico, assim como faltou o mesmo apuro e perspicácia sonora dos arranjos das canções citadas nas que restam no disco, mas tudo isso se obtêm com a experiência no correr do tempo que, certamente, ambos terão daqui em diante.
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