Frida Hyvönen – To The Soul. [download: mp3]

Frida Hyvonen - To the Soul
A estranha capa de To the Soul, novo disco da sueca Frida Hyvönen, a meu ver, mais atrapalha do que ajuda: diferentemente da capa de seu disco anterior, Silent is Wild, de uma beleza poética e resignada, esta não funciona como cartão de visitas ao seu mundo de composições melancólicas recheadas de uma ironia peculiar. O nome, no entanto, resume perfeitamente a matéria do qual é feito o novo lançamento da artista européia: este é um conjunto de músicas que falam diretamente à alma, e Frida é uma das melhores à dilacerar a sua na atualidade, uma especialista em derramar a vida pessoal, sem hesitação, em faixas de despedaçar o coração, como “Farmor”, uma ode à avó recentemente falecida, onde Frida, sobre pianos e vocais tristes e uma orquestração impecável, revive lembranças da infância ao seu lado e constrói uma breve narrativa da vida dela. Os episódios em família continuam nas duas faixas seguintes, “Picking Apples” – uma faixa com um groove bem equilibrado entre piano, orgão, bateria e baixo que aproveita o hábito de catar frutas na casa de parentes para lembrar o quanto é ao mesmo tempo perecível, ordinária e marcante a passagem humana pelo mundo – e “Hands” – que com andamento lento e pesado ao piano e bateria e alguns violinos lentos e cheios de remorso que soltam-se um pouco mais na ponte melódica, dão um tom mais sério para o refrão onde a cantora repete “hands, look at my hands, they are my mother’s hands” para salientar que, inevitavelmente, acabamos por levar muito de nossos pais conosco, ainda que muitas vezes não nos damos conta disso.
Assim como em Silent is Wild, estão presentes no disco tanto canções irônicas que satirizam hábitos da vida moderna, caso da divertida “California”, que tem como principal personagem o stalker pós-moderno às voltas com um álbum de fotos em uma rede social e é composta de versos como “it’s been a while now since we last meet but we are friends on the internet, its a shortcut to all the new acquaintances”, como baladas irremediáveis e sentimentais, que sempre estão entre as melhores coisas que se pode ouvir no estilo. Além da doce “Enchanted”, que apesar de triste, tem leveza e até ingenuidade com seu feitio quase nostálgico de trilha plena de romantismo para baile adolescente dos anos 60, de “In Every Crowd”, com orquestrações de cordas transbordantes acompanhando o piano amuado de Frida, tão característico quanto a ironia de versos como “this evening could have been such a delight if it wasn’t for the unfortunate fact that I am here”, e de “The Wild Bali Nights”, misto de narrativa de uma noite romântica à beira do mar e de homenagem à ilha da Indonésia com piano, bateria e múltiplos vocais servindo de trilha, há ainda as baladas “Gold”, que fecha o disco com direito à violinos pomposos e piano ressoando a belíssima narrativa episódica e enormemente simbólica de dois amantes e uma aliança de casamento destruída, e “Saying Goodbye”, um baladão que põe os dois pés nos anos 80 sem medo de ser feliz, incluindo versos que remetem ao lirismo grandiloquente da época e uma melodia que lembra o estilo então preponderante, como a presença de uma segunda voz e de uma bateria em cadência crescente para intensificar o caráter dramático à medida que a canção aproxima-se do refrão.
A referência nostálgica, porém, não fica resumida à balada de despedida: o primeiro single do álbum, “Terribly Dark”, é uma faixa equilibrada e dançante com sintetizações, órgãos e vocais alterados eletronicamente que visitam a irresistível década que se tornou a fonte de inspiração para muitos artistas nos últimos anos. Em outra faixa, a referência de carinho e saudade pela época é ainda mais direta, já que nos versos de “Postcard”, enquanto piano e percussão gingam faceiros e brincalhões pelos ouvidos, Frida cita uma musa do cinema americano da década quando diz que “there is no easier way to please me now than to remind me of Diane Keaton”. É Frida, e o que eu posso dizer depois de ouvir To The Soul é que não há modo de me agradar mais do ouvir um novo disco seu.

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Frida Hyvönen – Silence Is Wild. [download: mp3]

Frida Hyvonen - Silence is Wild
Nascida na Suécia, Frida Hyvönen é mais uma entre várias cantoras européias que demonstram imenso talento já no início de sua carreira. Depois de sua elogiada estréia em 2005 e do projeto especial para um grupo de dança, seu álbum Silence is Wild revelou os traços de sua música de forma ainda mais complexa. Não me refiro simplesmente a dificuldade em definir onde algumas de suas melodias guiadas por piano se encaixam, cujas exemplos são as faixas “Enemy Within”, que recheada de múltiplos vocais de fundo que dialogam com o vocal principal em versos como ‘be kind and fight at the same time/one too many things to keep track of’ tem andamento que não se permite rotulações, e a esplêndida “Birds”, cuja melodia introduzida por baixo, conduzida por órgão e sintetizador para embalar letras que se servem dos pássaros migratórios para divagar sobre a passagem da vida e o que fazemos dela tem uma sutil singeleza pop, mas é por demais sofisticada para ser acomodada como tal. A complexidade que me refiro nasce na rara habilidade da cantora entregar-se ao canto sem comedimento emocional ao mesmo tempo em que consegue administrar esta abordagem mais emotiva de modo a jamais resvalar na pieguice ou exagero. É o que acontece já na faixa de abertura, “Dirty Dancing”: com um piano lacrimoso embalando a bateria, a sueca desmancha os versos em uma confissão tocante sobre uma paixão de infância que, ao reencontrar na vida adulta, mostra como nossas expectativas sobre o futuro são frustradas, para o bem ou para o mal. Lamentações de um romance em crise preenchem as notas de piano de duas faixas próximas: “Highway 2 U”, na qual o piano triste acompanha a bateria que alterna discrição e drama enquanto Frida se desfaz em um vocal de fazer sangrar mesmo os corações mais duros, e “Science”, em cujos versos temos o rompimento de uma relação onde o excesso de lógica e ponderação de uma de suas partes faz ruir toda a paixão. Contudo, a artista sueca, que se dá ao direito de brincar com o estereótipo de seu povo na surpreendente explosão de alegria de “Scandinavian Blonde”, com direito à pianos e bateria em ritmo frenético e dançante, não tem pena do coração de seus fãs. Quanto mais à frente se vai no disco, mais variadas e profundas são as emoções com as quais a cantora e compositora lida. Com uma combinação esplendorosa de vocais encobertos de emoção com melodias sofridas e delicadas, temos desde “December”, na qual Frida apresenta um piano de melodia lúdica e quase infantil apenas para denunciar o quanto a narrração irônica da visita de um casal à uma clínica de abortos disfarça a dor da situação, passamos pela poesia impressionante nas letras de “Sic Transit Gloria”, que flutua como uma ode à pequenez humana em meio à grandeza da vida e do mundo, até chegarmos à simplicidade de “Why Do You Love Me So Much”, com pouco mais que piano e xilofone para emoldurar os versos plenos de sarcasmo onde a partir do título a cantora confessa sua surpresa em ser amada por alguém apesar de toda a sua displicência afetiva. Curiosamente, Frida tem por hábito compor homenagens carinhosas à cidades que por ventura tenha visitado. Neste álbum, duas foram agraciadas com belas canções: “London!” na qual a cantora, entre observações sobre como o clima pouco atraente e os modos curiosos de seus habitantes podem parecer afastá-lo da cidade, mas são justamente o que mais atraem nela, e “Oh Shangai”, balada com vocais impecavelmente emocionantes onde piano e bateria sincopada levantam-se em um crescendo emocionante que ganha ao final a companhia de uma instrumentação mais encorpada, porém inequivocamente doce, que faz referência à musicalidade chinesa.
Fabuloso compêndio recheado de baladas melancólicas cuja sinceridade irônica de alguns versos pode soar estranha no início, Silence is Wild é um disco que à medida que mais se ouve, mais se descobre sua fustigante beleza poética e incomensurável profundidade, tanto melódica quanto lírica. Poucos cantores ou cantoras tem a coragem de derramar-se em sentimento, e menos ainda são os que tem a segurança de que podem fazê-lo sem jamais perder a elegância – Frida Hyvönen é inequivocamente uma delas.

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