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Tag: literatura

“Um Caso para Miss Maple”, de Leonie Swann.

Leonie Swann - GlennkillUm rebanho de ovelhas de Glennkill, cidadezinha da Irlanda, sai de seu celeiro pelo amanhecer e descobre que o seu pastor foi assassinado com uma pá. Inicialmente confusas, logo todas se veem intrigadas e decidem investigar o caso para descobrir o autor, muito por conta de Miss Maple, conhecida como a ovelha mais inteligente da cidade – e provavelmente de todo o mundo.
Quem começa a ler o primeiro livro de Leonie Swann já tem sua atenção captada pela nota introdutória que apresenta os principais personagens – a saber, ovelhas: recurso típico de textos teatrais e aproveitado em alguns livros que lidam com mistério, a nota descreve em poucas palavras a personalidade de cada uma das ovelhas do rebanho de George Glenn e, assim, faz o leitor entender, logo no primeiro contato com “Um Caso para Miss Maple”, que a escritora alemã se propõe a brincar, ao longo da história, com a construção dos estereótipos de personagens de romances policiais e mesmo do cinema noir e de aventura: há a investigadora incansável e perspicaz, o homem de passado misterioso, a mulher audaz, as figuras ingênuas, o auxiliar algo estabanado, o guru sempre pronto a oferecer revelações e ensinamentos – todos, obviamente, convertidos em ovelhas do rebanho do falecido George Glenn.
Porém se engana quem pensa que a escritora se resume à fusão de uma trama policial à uma fábula animista de humor-negro. Há muito mais por aqui. Talvez o lance mais inteligente da escritora tenha sido aproveitar todas as possíveis embricações que a idéia do seu romance pôde lhe oferecer para tecer seus próprios pensamentos sobre a vida humana. Exemplo disto é a elaboração da compreensão e reflexão das ovelhas, frente ao comportamento dos humanos e das situações que envolvem estes, sempre partindo de uma limitação: a rotina de seu contato com eles, ou seja, o pasto e o pastoreio. Esta dinâmica criada e aproveitada pela autora é geradora de inúmeros comentários irônicos e filosóficos sobre os seres humanos, sobre suas relações e sobre a sociedade como um todo, partindo do olhar ingênuo das ovelhas que se situa entre a imparcialidade de um observador e a admiração e amor profundos pelos humanos de suas relações.
Porém, ainda que a inteligência de explorar suas personagens para refletir filosoficamente sobre as relações humanas capte a atenção do leitor, é o imenso teor cômico que nasce da natureza inusitada da história que mantém o leitor encantando do início ao fim do livro: entre necessárias e constantes refeições de capins diversos e inofensivos banhos de sol das ovelhas durante toda a trama, a autora faz a aplicação inteligente dos dons naturais destes animais, como o faro e o paladar, a serviço da investigação, utiliza a insuspeita presença das ovelhas em meio aos humanos para trazer aos leitores revelações e armar situações e soluções bem-humoradas que não apenas recheiam a história, mas em alguns casos até são peças-chave que interferem na trama, e emprega a curiosa relação do rebanho com o seu antigo dono, que, entre outras coisas, lia diariamente para elas, como razão para o desenvolvimento nestas de um conhecimento incomum, ainda que limitado, sobre os homens. E sobra até espaço na trama para criar superstições e lendas próprias do rebanho “lanoso” de George Glenn, como o meigo e fofinho “cordeiro de inverno”, que apesar disso é um tanto ignorado pela sua espécie, e o “espírito de lobo”, que aflige os ovinos em boa parte da história.
É verdade que, apesar de tudo, seria difícil afirmar que Miss Maple – nome que, diga-se, é um trocadilho com uma das célebres personagens de Agatha Christie – seja a investigadora mais inteligente da literatura de mistério, mesmo se comparada com suas colegas de quatro patas, mas há razões de sobra para atestar que o livro de estréia de Leonie Swann está entre as tramas policias mais singulares e divertidas da literatura contemporânea. Quem sabe, talvez, a autora nos presenteie algum dia com um novo episódio do time de detetives mais “lanoso” da Irlanda? Eu, particularmente, adoraria.

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“As Iniciais”, de Bernardo Carvalho.

As Iniciais - Bernardo CarvalhoNo jantar em um mosteiro transformado em retiro para amigos em uma ilha, escritor serve de ouvinte às histórias e de testemunha dos acontecimentos que envolvem grupo de intelectuais e membros da elite. Na noite que é feita a recepção à alguns convidados, recebe confidencialmente uma caixinha com iniciais entalhadas – um mistério que vai lhe intrigar por muito tempo.
Este é o primeiro livro que leio de Bernardo Carvalho, mas pelo pouco que já pude perceber, o escritor brasileiro é bastante afeito aos jogos narrativos. “As Iniciais”, livro seu lançado há onze anos, é um verdadeiro laboratório desta técnica, já que todos os elementos que a perfazem estão encobertos por este artíficio ardiloso. No seu contato mais imediato com o livro, o leitor já se depara com esta feição ao verificar que na história todos os personagens e cenários são identificados somente pela letra inicial, o que faz com que o leitor leve mais tempo do que normalmente o faria para associar cada personagem com a sua história particular.
Por sinal, aí temos mais um elemento composto sob o domínio desta armadilha literária, a narrativa em si. Em uma primeira instância, o enredo principal é dividido em dois momentos diferentes que tem um intervalo de dez anos de diferença, porém a situação apresentada é da mesma natureza, um jantar e um almoço, eventos sociais cujas funções de celebração e apresentação das personalidades que o compõe, bem como de suas histórias particulares, são esplendidamente manipuladas pelo escritor para que a narrativa principal seja constantemente permeada e entrecortada pelas sub-narrativas dos personagens, construindo um vai-vem entre presente, passado e em alguns momentos específicos até futuro que, agora me vem à cabeça, a dinâmica do seriado americano “Lost” lembra consideravelmente. No entanto, diferentemente da série criada por J.J. Abrams e Damon Lidelof, o narrador aqui também é um personagem, o que faz com que todas as histórias e revelações estejam sempre limitadas e encobertas pelo (des)conhecimento que o próprio personagem tem de todos os outros. Este caráter de consciência restrita que o narrador-personagem tem em relação aos outros acaba implicando em mais um jogo, o das identidades. Ao longo da narrativa e principalmente com o pulo temporal entre a noite do jantar no mosteiro e o almoço no casarão em uma serra de um país emergente, a identidade de alguns personagens é posta em dúvida por diferentes histórias sobre eles que vão sendo reveladas pelo narrador e outros personagens, histórias que se contradizem sobre o que se sabe de seu passado, num construir e desconstruir constante de suas identidades, levando o leitor a jamais ter segurança de quem estas pessoas verdadeiramente seriam. Junte-se isso ao artifício de identificá-los somente pelas inicias e você acaba em uma armadilha narrativa das mais sofisticadas: seria o homenageado “X” do almoço no casarão o convidado “Y” do jantar no mosteiro que, diga-se, naquela mesma noite envolveu-se em estranho evento clandestinamente testemunhado pelo narrador? E a profissão de “Y” seria mesmo aquela com a qual foi apresentado no almoço em sua homenagem ou exerceria ele ocupação muito mais insidiosa e perigosa, como confidenciam alguns convidados presentes ao evento? Não é difícil notar aqui o esplêndido jogo metaficcional ao ter a própria narrativa tecida de sub-narrativas criadas pelos próprios personagens, que por sua vez funcionam como verdadeiros autores destes outros personagens enigmáticos e de suas histórias quase sempre insólitas e bizarras que podem ou não ser pura invenção, tão ficcionais portanto quanto o livro que o leitor tem nas mãos. Este jogo metaficcional traiçoeiro que intriga o narrador-personagem acaba também, por consequência, sendo partilhado pelo leitor, que como ele também é envolvido em um emaranhado narrativo que não apenas os confunde o tempo todo mas, igualmente, não lhes entrega qualquer garantia de que tudo será elucidado em algum momento.
Bernardo Carvalho, contudo, não se contenta com isso e também explora a metaficcionalidade em uma instância mais explícita e direta ao conceber o seu personagem-narrador como um escritor que pontua seu relato com comentários sobre seu próprio trabalho, confessando que entre seus vícios no exercício de sua profissão está a adoção do estilo literário algo “artificial” de um dos principais personagens da história, um escritor egocêntrico e narcisista que procura recobrir a realidade que o cerca de uma cerimoniosa e quase sacra teatralidade.
Compondo uma narrativa que inicialmente parece encarregar-se de retratar tanto os anseios e ambições culturais como a vulgar ordinariedade que vagueia as relações de intelectuais e membros de uma casta consideravelmente abastada da sociedade, o escritor brasileiro sorrateiramente enreda o leitor nas suas artiminhas literárias, lançando-o à apreciação de uma narrativa que o tempo todo desafia as obviedades com o descortinar ardiloso de coincidências inesperadas nas várias situações e histórias idílicas que são constantemente reveladas e retomadas pelo e para o narrador. Como se vê, o interesse despertado pela busca da “verdade” na(s) narrativa(s) de “As Inicias” é apenas o ponto de partida do livro, interesse que ao longo da leitura vai sendo relocado para o produto deste jogo arquitetado e cada vez mais intensificado pelo escritor. É o efeito da narrativa e não a sua materialidade própria que termina por seduzir o leitor nesta obra singular de Bernardo Carvalho.

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“Firmin”, de Sam Savage.

Firmin - Sam SavageFirmin é um rato nascido de uma ninhada de treze outros de uma mãe alcoólatra e boêmia e criado no porão de uma livraria em um bairro antigo de Boston. Foi do contato com as páginas de livro roídas que formavam o ninho da família e sua fonte inicial de alimento que o pequeno roedor adquiriu a capacidade da leitura, maravilhando-se com o mundo de histórias contadas e criadas pelos homens. Encantado, Firmim sonha comunicar-se com eles para adentrar no seu mundo complexo e fascinante.
“Firmin”, primeiro livro publicado por Sam Savage, conta a história da demolição do distrito que cercaneava a praça Scollay, repleto de pontos de entretenimento, num bairro tradicional da cidade de Boston que foi aos poucos deteriorando-se até ser considerado pelos administradores da cidade um subúrbio marginalizado. Contudo, a ruína do bairro, a bem da verdade, é o pano de fundo para a narrativa apresentada em primeiro plano, a história do ratinho Firmin, cuja singularidade contraditória serve de analogia ao próprio distrito de Scollay: dotado da capacidade de leitura, adquirida pelo contato com páginas roídas que lhe serviam de berço e alimento, Firmin afasta-se das inflexões básicas de animal irracional e nutre afinidade com os humanos pela sede por informação e pela capacidade imaginativa que com estes partilha, assim como pela admiração que alimenta pela beleza feminina exposta em filmes do mais alto até o mais baixo nível. As suas particularidades “humanas”, porém, não superam aquela que é um dos traços mais representativos que rege o comportamento dos ditos seres irracionais: a ingenuidade. É por isso o pequeno roedor fantasia estabelecer de algum modo comunicação com os humanos para poder dividir com estes o amor que tem pelo seu mundo de conhecimento, mesmo tendo consciência de viver uma condição muito distante daquela que pertence aos seres que tanto admira, e que não apenas o impede de poder falar com os seres humanos, mas o impossibilita também de realizar todas as coisas que sonha poder. É por isso que essa inteligência incomum à constituição de seus iguais acaba funcionando para o ratinho mais como um imenso fardo do que uma benção, mergulhando-o em ilusões que nunca poderá fazer reais e em ambições impossíveis de ser atingidas.
Assim, a história criada por Sam Savage, por narrar os infortúnios de um protagonista que tem consciência de suas limitações, e também a ruína do bairro que é seu lar, revela já nas suas primeiras linhas a sua natureza duplamente melancólica, tonalidade esta que vai se intensificando a medida que o distrito de Scollay vai se aproximando de seu destino inevitável. Ao final, ao testemunhar a devastação do local que aprendeu a amar em cada detalhe, por mais vulgar que fosse, o pequeno ratinho acaba também tendo consciência de que seus desejos nunca se tornarão realidade e, arrasado, recolhe-se naquele que foi o lugar onde conheceu o mundo – o seu e o dos humanos que tanto o fascinavam. E o leitor, tendo ele próprio observado a trajetória deste pequeno grande personagem, acaba a última linha do livro tão arrasado quanto o próprio Firmin.

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“O Museu Darbot e Outros Mistérios”, de Victor Giudice.

O Museu Darbot e Outros Mistérios - Victor GiudiceTalvez o livro mais celebrado dos poucos publicados pelo quase desconhecido escritor carioca Victor Giúdice, falecido no ano de 1997, seja o livro de contos “O Museu Darbot e Outros Mistérios”, ganhador do Prêmio Jabuti de 1995. Nas nove histórias que compõe a obra, o autor manifesta todas as características de sua narrativa fascinante que subverte convenções e elementos já consagrados da literatura universal em uma escrita gritantemente contemporânea.
Não há dúvidas que, dentre os traços que caracterizam seu estilo, a composição de enredos que de uma forma ou de outra fogem do plano da realidade seja o mais emblemático de sua escrita: por vezes sendo assaltada pela repentina introdução de elementos genuinamente fantásticos – como acontece no hilário conto “A Festa de Natal da Condessa Gamiani” – ou em outras entregue ao domínio do delírio subjetivo do personagem-narrador – como pode ser atestado em “A História que meu pai não contou” -, o caráter idílico de suas histórias é sempre o elemento que primeiro encanta o leitor. Porém, esta característica fantástica de seus enredos não se sustenta apenas pela sua condição extraordinária, ela é adaptada à densidade do próprio enredo, angariando no leitor bem mais do que um encantamento que seria garantidamente superficial. O que verdadeiramente faz o encanto do leitor ser transformado em pleno êxtase o é a densidade que o fantástico ganha nos contos do escritor carioca. Ao invés de permanecer conformado ao efeito confortável de sua própria essência super-natural, que pode algumas vezes soar um tanto trivial, o fantástico tem aqui uma presença mais sofisticada, materializando assim uma maior densidade nos enredos em que é aplicado – algo que fica bastante palpável nos contos “Jurisprudência”, em que veicula uma crítica social de modo bastante singular, e “O Hotel”, onde ele corporifica, com uma analogia fabulosa, a repressão perpretada por regimes ditatoriais.
Porém, não é apenas o elemento fantástico que é subvertido à instrumento de adensamento da narrativa pelo autor, outros recursos estilísticos igualmente servem à este propósito na narrativa. É impossível, por exemplo, não notar que o humor negro, traço recorrente em quase todas as histórias, é a ferramenta potencializadora do conto “A História que meu pai não contou”, já que ao integrar-se ao próprio enredo auxilia na intensificação de suas nuances, tornando ainda mais vigorosa a apropriação da tradição da literatura gótica e de horror que é subvertida por Victor Giúdice em uma narrativa inegavelmente pós-moderna. Do mesmo modo, fica patente no gosto em revelar detalhadamente o culto refinamento do protagonista de “A Criação: Efemérides” e na ostensiva enumeração das minúcias do luxo e pompa tipicamente aristocráticos de “A Festa de Natal da Condessa Gamiani” que a narrativa descritiva adota o papel de veículo de construção da tonalidade satírica que, no caso particular destas duas histórias tem como alvo os costumes, comportamentos e crenças dos intelectuais e das classes mais abastadas.
A sátira, por sinal, é a alma de uma entre as duas histórias do livro que não faz uso de elementos fantásticos, “O Museu Darbot”. Na trama espetacular que elaborou, Victor Giúdice mapeia magistralmente a construção de um mito das artes plásticas, precursor de um novo paradigma no mundo da pintura, para trazer à tona o que há de arbitrário no ato de se elevar algo ao caráter de obra de arte, descortinando o que por vezes há de incompreensível, para não dizer ridículo, nas convenções e dogmas artísticos.
Infelizmente, com a sua morte em 1997, o Brasil perdeu o reforço de um dos autores mais brilhantes da ficção brasileira contemporânea para a sua literatura. Contudo, a sua contribuição inegável foi dada: uma narrativa de impressionante versatilidade temática que apesar de sua densidade estilística e transbordante erudição nunca deixa o leitor aborrecido ou desconcertado – pelo contrário, seu vigor arrebata-o, completamente seduzido, à um universo de histórias extraordinárias.

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“Os Prêmios”, de Julio Cortázar.

Os Prêmios - Julio CortázarGrupo diverso de cidadãos de Buenos Aires, ganhadores de uma loteria fomentada pelo governo argentino, embarca em um navio misto – de passeio e de carga, portanto – para desfrutar de seu prêmio: um cruzeiro oceânico. Uma vez lá, uma inquietação se instaura nos passageiros pelas restrições no livre trânsito através da embarcação e pela falta de informações sobre o trajeto da viagem.
Escrita por Julio Cortázar, escritor de origem argentina, nascido na Bélgica e que adotou a França para passar metade de sua vida, a novela “Os Prêmios” figura entre suas obras menos conhecidas. Parte disto deve-se ao fato de que Cortázar tornou-se muito conhecido pelos seus contos, histórias que algumas vezes frustram o leitor por sofrerem de uma aparente falta de sentido e dinamismo – impressão esta que, de um certo modo, não é errada mas se configura num equívoco, já que estes contos em especial procuram obter o efeito de estranhamento pelo destrinchamento do ordinário e não do bizarro ou inóspito. Porém, talvez o fato mais determinante que conferiu um certo status underground à “Os Prêmios” é que esta novela foi elaborada, segundo o próprio autor, para que ele pudesse desviar-se de certezas pré-concebidas que, com o tempo, os leitores foram formulando sobre o estilo de sua narrativa. As mudanças estilísticas conscientes não chegam a ser numerosas nem alteram profundamente a narrativa de Cortázar – o ritmo lento, possível devido aos diálogos extensos que exploram desde questões metafísicas até costumes e relações humanas, é a alteração que fica mais aparente -, no entanto, a sua atuação conjunta acaba tendo um efeito negativo bastante concreto: por consequências disto, a narrativa de “Os Prêmios” ganha identidade incerta na bibliografia de Cortázar, vagueando confusa entre a fuga de seu estilo e adoção dele. Os mistérios da história criada por Cortázar, com isso, acabam diluindo-se na batalha com os inúmeros e longos diálogos, e a narratava, assim, aparenta arrastar-se mais do que se propõe intencionalmente, perdendo muito do impacto, força e fascínio que desperta no leitor inicialmente.
Mas, apesar dos deslizes, a metade da narrativa que preserva as características do trabalho de Cortázar mantém o interesse do leitor até o epílogo de sua história. A sustentação da natureza misteriosa das proibições, da improbabilidade da veracidade das informações veiculadas para mantê-las e mesmo as dúvidas e o desconhecimento quase total sobre a origem da tripulação, da própria embarcação e do seu destino mantém o leitor intrigado, ainda mais por conta da incerteza de que qualquer destas coisas venha a ser esclarecida na conclusão da trama, como é habitual nas obras do escritor argentino, que acaba por explorar o mistério muito mais pelo gosto do efeito despertado do que para levar o leitor a construir lentamente a resolução dos enigmas. A variada gama de personagens, bem como o breve desvendamento de suas personalidades também é outra virtude desta novela: à exceção de Persio e seus monólogos introspectivos que insistem em versar sobre o oculto e o místico sem exibir sequer uma sombra do charme da emblemática narrativa difusa do autor, o restante dos passageiros criados por Julio Cortázar constroem ao mesmo tempo uma analogia à sociedade, seus costumes e convenções e uma sagaz ilustração das aspirações e incertezas humanas, que o escritor nunca deixa de lembrar estar sempre inundadas pela subjetividade de cada personagem.
É uma pena que o desenvolvimento adequado de certos aspectos da trama tenham sido afetados pelas ambições do autor em recriar seu estilo. A leitura de “Os Prêmios” se tornaria muito mais fascinante se Cortázar tivesse dado vazão à sua capacidade natural de manipular os mistérios idiossincráticos mais aparentemente cotidianos e se rendido à materialização do fluir de sua narrativa tão peculiarmente difusa e prolixa, mas infelizmente o autor sucumbiu ao desejo de mudança estilística e, com isso, sucumbiram em “Os Prêmios” boa parte dos encantos que alçaram Cortázar à condição de um dos maiores nomes da literatura latino-americana.

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“Feriado de Mim Mesmo”, de Santiago Nazarian.

Feriado de Mim Mesmo - Santiago NazarianJovem tradutor, que tem o hábito de passar a maior parte do tempo sozinho no seu apartamento, começa a desconfiar de que alguém o está invadindo, ainda que admita a possibilidade de que isso talvez seja fruto de sua imaginação.
O terceiro livro publicado pelo paulista Santiago Nazarian constitui-se em uma história econômica na exploração de espaço e de personagens, possuindo uma estrutura fortemente teatral. Mas enquanto qualquer obra desta monta tem como fundamento o diálogo entre os personagens, o livro de Nazarian prima pela exploração do diálogo internalizado, pela construção deste na mente do protagonista que habita sua história. Nela, o leitor é levado à um acreditar e desacreditar constantes, suspenso na atmosfera de uma narrativa que mesmo tendo os pés bem fincados no real explora de modo primoroso aquilo que aparentemente não o é – mas seria mesmo apenas aparente? Afinal, tudo – as impressões do “eu”, os vestígios do “outro”, as até um tanto inofensivas perturbações cotidianas – seria fruto de um estado de alteração perceptiva ou sintoma de um invasor sorrateiro?
É certo que muitas histórias já foram escritas versando sobre a substância com a qual “Feriado de Mim Mesmo” lida, mas a abordagem dada por Nazarian à esta substância é seu grande diferencial: este “monólogo mental”, por assim dizer, é fruto de uma escrita direta e sucinta, expressa em períodos curtos de caráter bastante objetivo que procuram a maior parte do tempo afastar-se de metáforas. Assim, essencialmente, “Feriado de Mim Mesmo” desenvolve um enredo que lida com a umidade complexa do psicológico paradoxalmente construído sobre a secura pragmática da linguagem realista.
Contudo, a consequência mais interessante que se obtém da leitura de “Feriado de Mim Mesmo” – ao menos na minha leitura – é outra: o jogo arquitetado entre as noções de biografia e ficção. Se iniciada a apreciação da obra depois de obtidas as informações sobre o seu autor em uma das orelhas do livro, haveremos de encontrar algumas prováveis similaridades entre o escritor e o protagonista da história, o que faz a leitura ser contaminada pela idéia de que a trama parte de alguns pressupostos biográficos. Porém, à medida que as páginas avançam os resquícios biográficos vão desmanchando suas formas, que passam a ser tomadas paulatinamente pela substância própria de uma ficção que alimenta-se destas, assimilando-as numa antropofagia narrativa visceral e violenta – não à toa a própria conclusão da trama materializa a noção antropofágica de modo bastante literal. É desta devoração da biografia pela ficção que nasce uma narrativa de dinâmica complexa, uma “ficção de si mesmo” que se utiliza dos artifícios tradicionais da literatura para subvertê-los em um jogo meta-ficcional e meta-literário que pulsa em uma esquizofrenia narrativa ascendente. É dessa forma que o sonho e pesadelo da produção cultural pós-moderna são materializados simultaneamente na escrita de “Feriado de Mim Mesmo” – um livro que ilustra com maestria como uma trama que lida com as conflitos e terrores do “supra-eu” contemporâneo podem interessar ao público, ao contrário do que foi feito no mais recente longa-metragem de Murilo Salles.

P.S.: Alguém me disse certa vez, não recordo se foi o ou o Pelvini, que faltava ao meu blog resenhas de livros. Bem, este é o post que inaugura minha tentativa de suplantar com sinceridade a minha vergonhosa preguiça de manter o hábito da leitura – também ofuscado pelas toneladas de músicas, filmes e informação ofertados na internet. Daqui em diante procurarei manter uma frequência razoável na publicação de textos sobre literatura – particularmente sobre livros de ficção.

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Alice no País da Ecologia.

Alice no País da EcologiaNo ano passado, Knut, ursinho do zoológico de Berlim, virou estrela por conta da polêmica gerada por ativistas que defendiam o seu sacrifício, já que tinha sido rejeitado por sua mãe. Tsunamis de emails chegaram à administração do zoo. Zilhares – ou zilhões – de criancinhas espevitadas e turistas afoitos tomaram de assalto o zoológico para defender o direito do bichinho de sobreviver. E este direito foi aprovado, claro.
E não é que a história se repetiu?
Hoje, jornais e portais da internet do mundo todo noticiaram que uma ursinha do zoológico de Nuremberg – Alemanha, de novo – foi rejeitada pela sua mãe. A polêmica, novamente, se instaurou e ecologistas voltam a defender que se deixe a natureza seguir o seu curso – o que, neste caso, significa deixar que a mãe ursa devore as crias que julga que tem menos chances de sobreviver do que as outras.
Ok, lindo. Eu também sou a favor de deixar a natureza seguir o seu curso. Mas, por favor, me esclareçam: alguém aí concorda que estamos diante de um surto de retardamento coletivo dos ecoólogos do mundo? Alôôôôôô? Estamos falando de ursos confinados em um zoológico, por deus. Desde quando animais capturados e presos em jaulas e ambientes absolutamente simulados seguem o seu curso natural? Entendeu ou quer que eu desenhe e ponha legenda? As ecobestas dizem que o urso polar ser criado por um tratador, e não por sua mãe, é algo humilhante para o bicho. Tirando o fato de que o bichinho não entende lhufas da polêmica, e portanto sentir-se humilhado é bem difícil, eu pergunto que diferença existe entre um ursinho que bebeu de mamadeira direto no focinho e outro que mamou das tetas da mama e que, mais tarde, não escapa de ganhar comida só do tratador, jogada jaula a dentro quando o bicho pesar quase uma tonelada?
Eu só sei de uma coisa: é nesses momentos que descobrimos que nenhuma façção unida por uma ideologia, ou credo ou coisa que o valha, escapa de estar infectada pelo fanatismo acéfalo – do Islamismo ao Software Livre.

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Versão 5.0 Beta.

seteventos.org 5.0 BetaAlém da mudança de design, que gosto de fazer mais ou menos a cada 6 meses, agora os álbuns de fotos foram agregados dentro do blog: ali em cima, no menu superior, você pode acessar o álbum utilizando a aba apropriada. Contudo, agora os usuários devem se registrar gratuitamente no blog para ganhar acesso as galerias de fotos. Não há motivos para desespero: no sistema de blogs WordPress , isso é a coisa mais simples do mundo: siga o link de registro ali na barra lateral e em poucos cliques você vai receber uma senha no seu e-mail, com a qual você poderá desfrutar da seção de fotos do blog.
Penso também em fazer uma galeria para minhas próprias fotos. Vamos ver.
Além dessa mudança estrutural, também vou tentar variar um poucos mais os temas dos textos: além de fazer as resenhas de cinema, música e vídeo de sempre no fim de semana, vou procurar publicar algo variado, que chamo de “amenidades” durante o meio da semana. Espero que eu tenha tempo suficiente para suprir esse meu desejo de escrever sobre outras coisas – até já tenho alguns textos feitos mais vou publicar apenas no meio da semana que vem.
Outra coisa a ser notada é a adição de alguns links externos ali na lateral esquerda do blog: se trata das minha contribuição nessa interminável ladainha do “social” na web 2.0. Meu Lastfm, DeviantART, Facebook e MySpace estão ali, se alguém quiser mesmo espiar tudo aquilo que eu ouço, aquilo que eu fotografo e meu mascaramento social na internet.
Gostaram? Odiaram? Falem logo! Se quiserem apenas espiar o que os outros estão dizendo aproveitem a nova funcionalidade do blog, que permite que você leia os comentários feitos nos textos sem precisar sair da página principal: é só clicar em “veja aqui mesmo o que foi dito”.
Espero que tudo de certo com o novo tema – seria muito chato voltar ao antigo por conta de problemas…Claro, lembrem que essa é uma versão beta do novo layout – qualquer coisa é só dar um grito!

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BlogDay 2007.

Blogday 2007BlogDay, o dia em que blogueiros do mundo inteiro dedicariam um post para indicar aos seus leitores blogs interessantes que curtem, foi ontem, mas concedi-me o direito de fazer esse texto com um dia de atraso – até porque a dinâmica do seteventos.org é um pouco diferente da maior parte dos blogs, com atualizações mais semanais do que diárias. Eu sei que não participei das outras edições do evento – mas antes tarde do que nunca. Então seguem aí minhas dicas, todas imperdíveis:

Pelvini– o Pelvini é um blog que vai além dos textos sobre experiências pessoais, pois o autor se propõe um desafio muito saboroso: os leitores apresentam um tema e o autor compõe um texto, de grande qualidade literária, a partir do tema proposto. O resultado são crônicas, contos e poemas breves mas deliciosos.
Cute Overload – se existe um blog no mundo onde a palavras “fofo” é a definição mais exata é este. Visitadíssimo e um dos blogs americanos mais famosos, O Cute Overload expõe toneladas – mesmo – de fotos enviadas para o seu autor em que os protagonistas são bichinhos: dos clássicos cães e gatos aos mais exóticos, como pererecas e gambás, seja em momentos caseiros como em peripécias mais épicas.
Single White Male – o blog do B., como prefere ser chamado o autor, escreve textos no estilo “drops” sobre tudo o que lhe possa interessar no momento, além de oferecer aos leitores reflexões genuínas e sinceras sobre suas experiências pessoais sem ser muito explícito – o que é o seu diferencial.
Cliptip – como diz o nome, este é um blog com dicas sobre videoclipes interessantes, geralmente sobre lançamentos bem recentes.
Daiblog – este é um bom blog apenas sobre cinema, cuidadosamente atualizado com grande frequência para tecer ótimos comentários sobre os mais recentes lançamentos.

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“Sonhos de metrópole” ou “Todo mundo acha essa ilha a tal”.

Sonhos de Metrópole ou Todo mundo acha essa ilha a tal“Ah, Florianópolis é um paraíso!” muitos diriam. “Tenho inveja de você, por morar aí”, todo mundo que não está aqui me diz. E o que eu, que moro nesse lugar, tenho a dizer, afinal de contas?
Realmente, a ilha é linda, cheia de praias fantásticas que eu quase não uso, repleta de homens e mulheres lindas, todos vindos de outros lugares do Brasil – e alguns de outros lugares do mundo -, consideravelmente mais segura do que as cidades que são oficialmente, por assim dizer, regiões metropolitanas.
Pronto, acabou.
No resto Florianópolis sai perdendo para todo mundo. Para mim, ao menos, ela sai perdendo em muito do que me interessa.
Vamos ao cultural primeiro.
Cinemas. Nossa, isso é uma lástima. Temos mais dois shoppings abrindo – e um deles abriu em novembro passado, anunciando que as 6 salas de cinema só estariam funcionando em março deste ano…tem coisa mais mané!?! – e um antigo tendo suas salas ampliadas. Contudo, nada disso me traz a esperança de que a oferta de filmes por aqui vai melhorar. Imagino que teremos uma variedade maior de lançamentos chegando, mas nada que fuja do padrão que já temos por aqui: produções pertencentes ao circuito comercial americano. Os dois únicos cinemas que tem a proposta de exibir filmes fora deste circuito – o do CIC, fundado há muito tempo e o Cine York, com algo em torno de 5 anos – tem seus donos aliados em uma prática que lesa de maneira degradante o público já há algum tempo: nos dias de meia entrada são exibidos filmes do circuito comercial padrão – muitos deles já exibidos nas salas dos shoppings -, restando ao público ver os filmes europeus, alternativos e de arte, que são a verdadeira razão de ser destas duas salas e que justamente são os que tem maior público nestas salas, apenas nos dias em que não há possiblidade de alguém pagar meia entrada, excetuando-se os estudantes. Isso é uma tremenda filha da putagem porque, ninguém me engana: ambas as salas recebem sim incentivos do governo, incentivos estes pagos do bolso do contribuinte. Como então eles podem se achar no direito de retirar os filmes do circuito alternativo/independente dos dias de meia-entrada, obrigando o público massivo daquelas salas a pagar a inteira para assistí-los? Isso tem nome: picaretagem.
E os festivais? Ai meu pai. Eu tive sorte de ver shows do Placebo e The Cardigans sem “sair de casa” – tenho que agradecer aos festivais Claro que é Rock e Campari Rock. Tirando isso, nada mais que realmente interesse passa por aqui. É uma tristeza ver tantas bandas e músicos interessantes fazendo shows nas grandes capitais, e nós por aqui ficamos na mão. Vocês podem até estar pensando que uma viajem resolve esse problema. Ok, resolve, mas eu estou falando sobre os pontos negativos da capital catarinense, lembram? E isso, sem dúvidas, pode ser configurado como um. Se falarmos em festivais de cinema a coisa é igualmente dramática.
E as exposições de arte, apresentações de teatro, concertos de música erudita que são realmente imperdíveis? Isabelle Huppert já esteve com um monólogo de Sarah Kane no sudeste brasileiro, assim como Peter Greenaway com sua mais famosa instalação/exposição, a Filarmônica de Berlim, as obras de Rodin, Picasso, Salvador Dalí, entre inúmeros outros. Já sofri por todos eles, mas ao saber da peça de Isabelle Huppert me senti o mais infeliz dos seres humanos tropicais.
Saindo da questão cultural também há um certo desespero. Males do exôdo de pessoas para cá causada pela burrice da mania de publicidade da prefeitura da cidade – e de muitos de seus habitantes também.
Falemos de segurança – ela já foi melhor! É bem aterrorizante ver o número de assassinatos, rixas entre traficantes, assaltos, roubos e até estupros aumentando sua incidência de forma gradual. Vocês podem até achar chato eu falar isso, mas eu sou obrigado a me revoltar contra a enorme migração de pessoas para a minha cidade. Não fosse todo mundo vir ou simplesmente anunciar querer vir para cá, algumas delas com imenso poder aquisitivo, essa corja de animais – estou falando dos criminosos – não iria ter a idéia de se instalar por aqui – que me perdoem os animais, eles não merecem comparação com essa gente degradante.
E quanto ao mercado imobiliário? Eu tive sorte de comprar, há menos de cinco anos, o meu apartamento de dois quartos, praticamente na cara do centro da cidade, por menos do que R$ 50.000. Hoje eu não pagaria por ele menos do que R$ 100.000. Desde o início deste novo século o preço dos imóveis quase triplicou, com um outro agravante: todos os imóveis atualmente planejados pelas construtoras são de alto padrão, com suítes a perder de vista, entre outros luxos. Há muito pouca coisa nova abaixo deste esquema sendo construída e, portanto, não há opções de compra – além do imóvel usado super valorizado – para quem não é um juiz aposentado cheio da grana.
Agora, por favor, parem de me dizer que é maravilhoso morar aqui. Acho que já ficou bem claro que não é bem assim. Eu não tenho mais paciência de ouvir isso só porque aqui tem praias e gente bonita. Até esses “pontos positivos” são conversa fiada: o mar está ficando poluído por conta dos balneários, o sol envelhece e dá câncer de pele, ir na praia todo dia enche o saco e, com algumas honrosas excessões, gente bonita é ao menos uma dessas coisas ou todas elas ao mesmo tempo: burra, metida, esnobe, fútil, extremamente brega e egocêntrica – já viram aquelas inúmeras comunidades de gente que se acha a tal no orkut por ser gostosa e linda? Tem algo mais desprezível do que aquilo?
Que isso sirva de aviso, heim! 😉

P.S.: E olhem, que engraçado: poucos dias antes, um outro blogueiro aqui de Floripa abordou o mesmo assunto com um texto excelente!
Vocês considerariam isso coincidência ou mais um sinal de que essa não é a ilha da fantasia?
Leiam o texto dele clicando no link abaixo:
http://web.marlonguerios.com/2007/florianopolis-paraiso/

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