M83 & Susanne Sundfør – “Oblivion”

M83 and Susanne Sundfor - Oblivion
Para alegria de fãs como eu, Susanne Sundfør teve nova canção liberada ontem na internet – e pra não variar, ela arrebenta mais uma vez. Convidada para emprestar seu vocal espetacular para a faixa dos créditos finais do novo filme de ficção-científica protagonizado por Tom Cruise, “Oblivion” foi composta por Joseph Trapanese (que trabalhou com o Daft Punk na trilha de Tron: O Legado, o filme anterior do diretor de Oblivion) e Anthony Gonzalez (mais conhecido por ser o mentor e único membro fixo da banda francesa M83) e é mais uma canção que chega para comprovar que qualquer projeto que envolva a cantora e compositora norueguesa é garantia de algo arrebatador. Apoiada por uma melodia grandiloquente, com bateria hiper-encadeada, cintilações eletrônicas e orquestral fechando com pompa e circunstância a música, Susanne solta a voz à seu estilo, entregando-se aos versos sem hesitação, ainda que seja um pouco prejudicada por ter a linha do volume de seu vocal em certos momentos afogada no instrumental, artifício certamente perpretado pela produção à cargo de Gonzalez, já que esta é uma das características mais habituais nas suas composições à frente do M83. Apesar dessa característica ligeiramente incômoda, a música é realmente bonita, e cai ainda melhor nos ouvidos ao ter sido aliada ao vocal sempre incondicionalmente tocante e esplêndido da grande musa da música norueguesa.


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Woodkid – “I Love You” (video)

Woodkid - I Love You
E finalmente teve sua estréia o tão esperado terceiro (e provavelmente último) vídeo a ser liberado pelo músico, compositor e diretor francês Woodkid antes do lançamento de The Golden Age, seu álbum de estréia. Após uma brevíssima referência ao personagem do garoto que foi introduzido no vídeo de “Iron” e que protagonizou o vídeo de “Run, Boy, Run”, somos apresentados à um personagem também retratado em “Iron”, o homem jovem que parece ser um sacerdote cristão, que neste vídeo chega para realizar seu culto em uma capela de algum vilarejo de camponeses russos. Ao mesmo tempo que ele toca o órgão da igreja para os seus fiéis, nos é apresentado este jovem como um outro personagem em uma jornada através de um imponente e vasto deserto gelado e rochoso até chegar ao litoral, onde acaba por atirar-se no fundo do oceano. Esta história paralela, na verdade, é também contada pelo jovem sacerdote aos seus fiéis, já que ele introduz em russo o conto para eles como sendo sobre um homem que morre duas vezes: ao perder seu amor e ao se afogar nas águas geladas do oceano.
Inevitavelmente bem encenado, impecavelmente fotografado e espetacularmente elaborado, este novo vídeo Inicialmente aparenta ser mais simples do que os dois lançados por Woodkid, mas à medida que o curta se desenvolve vai sendo revelado o destino do desesperado jovem e a história torna-se mais imponente e espetacular, sendo fechada com um final misterioso e intrigante. Enquanto “Iron” e “Run, Boy, Run” tinham temáticas mais juvenis e apoteóticas, o vídeo de “I Love You” é um trabalho mais maduro e emocionante, deixando claro que Woodkid pode ir muito além das belas aventuras juvenis e épicas pelas quais ficou inicialmente conhecido – e confesso: de todos até o momento, este é o meu vídeo preferido.

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Camille – “Que je t’aime” (single). [download: mp3]

Camille - Que je taime
Lançada no final da década de 60 pelo cantor Johnny Hallyday, um dos maiores astros da música francesa, “Que je t’aime” foi selecionada por uma das maiores estrelas da França contemporânea, a cantora e compositora Camille, para ser lançada no dia de hoje como seu mais novo single, diferindo bastante da versão originalmente gravada pelo ícone francês. Em sua regravação, a cantora adequa o clássico às vestes mais recentes do seu estilo musical: ainda incorporando o despojamento sonoro de Ilo Veyou, disco de contornos acústicos lançado no ano passado, o seu cover explora assim a delicadeza de seu vocal acompanhado por não mais do que um arranjo de cordas delicado, uma percussão sutilíssima e um contrabaixo elegante, resultando em uma faixa que encanta e enleva, insistentemente permanecendo nos ouvidos o dia inteiro.

Camille – “Que je t’aime” (do single Que je t’aime)

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Já a primeira versão, em cujas letras Hallyday confessa de modo dramático toda a vastidão do seu amor, indo do romantismo mais pleno, passando pelo desespero de perda com a morte até o ardor do sexo, tem a marca indelével dos grandes cantores da chanson française: inicialmente introduzida por um órgão discreto, é tomada já na primeira passagem do refrão por uma sússia instrumental, na qual pode-se discernir um dramático arranjo de metais, baixo e bateria muito bem marcados. O vocal sai ao sabor da melodia e condiz com uma grande lenda da música, alternando repentinamente o tom contido e amargurado para um brado destemperado e sofrido.

Johnny Hallyday – “Que je t’aime” (do single Que je t’aime)

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Woodkid – “Run Boy Run” [vídeo + single] e “Iron” [vídeo + single]

Atendendo no seu projeto pessoal pelo pseudônimo Woodkid, o francês Yoann Lemoine está aplicando todo o aprendizado de um artista contemporâneo em sua relação com a mídia dos novos tempos: usando a internet como aliada, o cantor, compositor, diretor e artista visual europeu está lançando pouco a pouco músicas muitíssimo bem produzidas e clipes de cair o queixo por conta de seu requinte estético, o que gera todo um burburinho tanto nas redes sociais quanto na crítica especializada da web. Inteligente, o rapaz francês, que nem bem 30 anos tem, faz uso desta abordagem homeopática para incutir um sentimento de ansiedade e antecipação nos seus futuros e pretensos fãs, construindo assim uma reputação excelente sem nem mesmo ter lançado o seu álbum de estréia. Indiretamente conhecido no mundinho pop por ter dirigido clipes de algumas das figuras mais populares da atualidade (que não merecem menção) e no mundinho alternativo por trabalhar em clipes de Lana Del Rey e campanhas publicitárias bastante criativas, seu primeiro álbum, The Golde Age, está previsto para setembro deste ano, mas neste seu processo cuidadoso de construção de sua persona artística na web, duas das faixas já são conhecidas do público, tendo sendo lançadas como singles devidamente acompanhadas de clipes caprichadíssimos.

Woodkid- Iron EP

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“Iron”, o primeiro lançado, é introduzido por um arranjo de metais cuja tonalidade épica denuncia que as pretensões do artista não são poucas. O tema é repetido diversas vezes durante a melodia, que conta ainda com uma percussão que amplifica a atmosfera algo bélica e tribal da canção, cujo vocal grave de crooner do compositor laceia elegantemente. O vídeo reflete a sonoridade da canção: impecavelmente fotografado em preto e branco, completamente filmado dentro de um estúdio e quase completamente captado em câmera lentíssima, o curta apresenta figuras saídas de um mundo aparentemente medieval que se preparam para entrar em uma batalha quando são repentinamente surpreendidos por uma chuva de detritos fumegantes. Ao final do vídeo, de modo muito breve, surge a imagem do que parece ser um templo, pálido e frio em meio à um ambiente gelado e tempestuoso. Outras canções que fazem parte do single são “Brooklyn”, um ode plácida ao violão, piano e discretos trombones ao bairro nova-iorquino, “Baltimore’s Fireflies”, onde um piano de harmonia cíclica ao modo Philip Glass, um baixo que remete ao tema composto por Angelo Badalamenti para o clássico seriado cult Twin Peaks e mais algumas cintilações introduzem a base melódica acompanhada ao final por arranjo de metais e percussão em ritmo marcial para sonorizar a confissão de um homem que, aparentemente, acaba de abandonar o corpo do seu amor nas águas baía de Baltimore, e “Wasteland”, delicada faixa cujos versos tratam de um saudosimos indefinível e em cuja melodia temos um piano singelo sobre um arranjo de cordas e metais de sutil tecitura circense.

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Woodkid - Run Boy Run - Remixes EP

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“Run Boy Run”, o último single lançado pelo artista francês, tem melodia tão intensa e apoteótica quando a do primeiro lançamento: com percussão e arranjo de cordas e metais em perfeita comunhão, a canção é galgada em um crescendo espetacular até alçar vôo em um final arrebatador. O videoclipe não deve nada em qualidade ao anterior e recupera em seus instantes inicias a imagem do templo que fechou o vídeo de “Iron”. É dele que foge correndo o garoto que também participou brevemente do primeiro curta: alternando com cenas de uma cidade com edifícios de arquitetura imponente com fachadas em mármore, o garoto, em trajes aparentemente escolares, corre acompanhado por corvos e auxiliado por criaturas que erguem-se do chão e são uma mistura de gnus com o corpo encoberto elementos arbóreos. No fantástico epílogo, juntam-se uma imensa caravela e uma criatura gigante para contemplar a misteriosa cidade. As faixas que acompanham o single são remixes da canção, sendo que o melhor é o do também francês SebastiAn. Agora é esperar o futuro álbum do cantor e compositor, torcendo para que o artista frânces tanto reserve outra canções tão imponentes para o lançamento quanto dê continuidade à trama instigante iniciada em seus dois vídeos.

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Frida Hyvönen – To The Soul. [download: mp3]

Frida Hyvonen - To the Soul
A estranha capa de To the Soul, novo disco da sueca Frida Hyvönen, a meu ver, mais atrapalha do que ajuda: diferentemente da capa de seu disco anterior, Silent is Wild, de uma beleza poética e resignada, esta não funciona como cartão de visitas ao seu mundo de composições melancólicas recheadas de uma ironia peculiar. O nome, no entanto, resume perfeitamente a matéria do qual é feito o novo lançamento da artista européia: este é um conjunto de músicas que falam diretamente à alma, e Frida é uma das melhores à dilacerar a sua na atualidade, uma especialista em derramar a vida pessoal, sem hesitação, em faixas de despedaçar o coração, como “Farmor”, uma ode à avó recentemente falecida, onde Frida, sobre pianos e vocais tristes e uma orquestração impecável, revive lembranças da infância ao seu lado e constrói uma breve narrativa da vida dela. Os episódios em família continuam nas duas faixas seguintes, “Picking Apples” – uma faixa com um groove bem equilibrado entre piano, orgão, bateria e baixo que aproveita o hábito de catar frutas na casa de parentes para lembrar o quanto é ao mesmo tempo perecível, ordinária e marcante a passagem humana pelo mundo – e “Hands” – que com andamento lento e pesado ao piano e bateria e alguns violinos lentos e cheios de remorso que soltam-se um pouco mais na ponte melódica, dão um tom mais sério para o refrão onde a cantora repete “hands, look at my hands, they are my mother’s hands” para salientar que, inevitavelmente, acabamos por levar muito de nossos pais conosco, ainda que muitas vezes não nos damos conta disso.
Assim como em Silent is Wild, estão presentes no disco tanto canções irônicas que satirizam hábitos da vida moderna, caso da divertida “California”, que tem como principal personagem o stalker pós-moderno às voltas com um álbum de fotos em uma rede social e é composta de versos como “it’s been a while now since we last meet but we are friends on the internet, its a shortcut to all the new acquaintances”, como baladas irremediáveis e sentimentais, que sempre estão entre as melhores coisas que se pode ouvir no estilo. Além da doce “Enchanted”, que apesar de triste, tem leveza e até ingenuidade com seu feitio quase nostálgico de trilha plena de romantismo para baile adolescente dos anos 60, de “In Every Crowd”, com orquestrações de cordas transbordantes acompanhando o piano amuado de Frida, tão característico quanto a ironia de versos como “this evening could have been such a delight if it wasn’t for the unfortunate fact that I am here”, e de “The Wild Bali Nights”, misto de narrativa de uma noite romântica à beira do mar e de homenagem à ilha da Indonésia com piano, bateria e múltiplos vocais servindo de trilha, há ainda as baladas “Gold”, que fecha o disco com direito à violinos pomposos e piano ressoando a belíssima narrativa episódica e enormemente simbólica de dois amantes e uma aliança de casamento destruída, e “Saying Goodbye”, um baladão que põe os dois pés nos anos 80 sem medo de ser feliz, incluindo versos que remetem ao lirismo grandiloquente da época e uma melodia que lembra o estilo então preponderante, como a presença de uma segunda voz e de uma bateria em cadência crescente para intensificar o caráter dramático à medida que a canção aproxima-se do refrão.
A referência nostálgica, porém, não fica resumida à balada de despedida: o primeiro single do álbum, “Terribly Dark”, é uma faixa equilibrada e dançante com sintetizações, órgãos e vocais alterados eletronicamente que visitam a irresistível década que se tornou a fonte de inspiração para muitos artistas nos últimos anos. Em outra faixa, a referência de carinho e saudade pela época é ainda mais direta, já que nos versos de “Postcard”, enquanto piano e percussão gingam faceiros e brincalhões pelos ouvidos, Frida cita uma musa do cinema americano da década quando diz que “there is no easier way to please me now than to remind me of Diane Keaton”. É Frida, e o que eu posso dizer depois de ouvir To The Soul é que não há modo de me agradar mais do ouvir um novo disco seu.

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Soap&Skin – Narrow. [download: mp3]

Soap and Skin - NarrowApesar do aspecto ligeiramente mais harmonioso do que na capa de Lovetune for Vacuum, primeiro disco da austríaca Anja Plaschg, a expressão mais uma vez melancólica da garota indica que no seu segundo disco sob o pseudônimo Soap&Skin, Anja continua a decantar a dor com sutis lampejos de contentamento. A impressão que se tem ao ouvir Narrow é que desta vez a artista austríaca compôs melodias mais mais polidas e menos afeitas à experimentações com ruídos obscuros e sintetizações iluminadas, como é o caso da faixa de abertura, “Vater”, cantada em alemão: o eletronismo gótico fica restrito à sequência final da canção, já que grande parte da melodia está calcada em vocal e piano em puro virtuosismo melódico com algumas orquestrações de cordas aqui e ali para aprofundar o efeito da música. A impressão, no entanto, não corresponde exatamente à verdade, uma vez que este segundo disco da artista européia é consideravelmente menor do que o primeiro, contando com apenas oito faixas, e lida com o mesmo material melódico e emocional do primeiro: tanto em “Deathmetal” quanto em “Big Hand Nails Down”, por exemplo, temos a intensa metalurgia melódica complexa e obtusa que beira o atonal que já se tornou marca registrada da compositora, a primeira acompanhada por um órgão igualmente insólito e um vocal de múltiplas camadas de um tonalidade obscura e a segunda atravessada por um registro vocal potente e cortante. Ao mesmo tempo, há neste pequeno disco faixas com exibem a mesma faceta terna e delicada que se pode conferir no primeiro disco, caso da soturna melancolia ao piano de “Cradlesong” e de “Wonder”, que além do piano triste conta com um órgão e sintetizações sutilíssimas em harmonia algo reflexiva e vocais de apoio de um coro gospel em registro singular que subverte consideravelmente sua identidade costumeiramente sacra. Não poderia faltar uma canção que reúna todas as predileções melódicas de Anja, e esta é o single “Boat Turns Toward the Port”, que conta com piano elétrico de acordes espaçados e órgão fluído e distante sobre o singelo loop de um sample do que parece ser uma antiga caixa registradora e vocais em plena extensão harmônica, tendo como resultado uma paradoxal atmosfera contemporânea e nostálgica. E por falar em nostalgia, Narrow conta ainda com um cover do clássico do eurodance “Voyage Voyage”, faixa da francesa Desireless que foi um dos marcos do pop dançante borbulhante de sintetizadores que embalou Europa e recantos do Brasil no final dos anos 80 e início dos 90. A versão da austríaca, claro, é embebida em seu soturnismo particular, transmutada em piano, orquestração de cordas e vocais encobertos de amargura, mas também preserva e transforma em sua a melancolia que a faixa já detinha originalmente. Ao que parece, Anja não consegue resistir esquadrinhar a tristeza mesmo quando envereda pelos cânones do pop – e espero que ela não deixe de fazê-lo tão cedo.

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