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Tag: pop

AaRON – Birds in the Storm. [download: mp3]

Aaron - Birds in the Storm

Simon Buret e seu fiel comparsa musical, Olivier Coursier, que forma com ele a dupla AaRON, voltaram ao mercado este mês com o sucessor de Artificial Animals Riding On Neverland, o disco Birds in the Storm. Como aconteceu no primeiro trabalho, os dois músicos põe seu bom gosto à serviço do pop e do eletrônico da França, criando mais um álbum recheado de melodias esplêndidas, crivadas de beats elegantes, uma programação irreprimível e vocais irresistíveis de Simon. “Ludlow”, faixa inspirada em um passeio pela rua homônima em New York, já abre o disco matadora com sua melodia contruída aos poucos em uma marcha onde os instrumentos e elementos da programação vão se sucedendo uns aos outros até formarem uma melodia pop homogênea e incandescente. “Rise”, apesar do nome, é levada em um pulso de peso mais melancólico, com guitarras e bateria de toques conformados e vocal sôfrego e consternado. “Seeds of Gold”, porém, encaminha-se para uma trilha liricamente mais esperançosa e melodicamente menos triste, sendo conduzida por acordes de piano singelos, uma batida firme, riffs de guitarra ondulantes e vocais doces e delicados que unidos finalizam um pop simples e eficiente. “Inner Streets” também convoca o piano para dar guia à melodia, que tem como base um beat moderadamente agitado, feito de loops e sintetizações que marcam a melodia dramaticamente em conjunto com o piano – a canção ganha uma versão alternativa no final do disco, “Inner Streets (3rd Street)”, que remove o piano e intensifica a base eletrônica com loops e sintetizações mais sujas, o que confere um caráter mais dançante à canção, porém também imprimindo uma indentidade mais soturna. Também partilham o caráter electronic-heavy e dark da versão alternativa de “Inner Streets” a faixa-título de Birds in the Storm, exibindo traços melódicos mais polidos, com reversões sonoras e solos de piano que inserem lirismo na canção, e “Passengers”, que é introduzida por uma guitarra com sombreado grunge que, ao longo da música, vai aos poucos sendo encoberta por uma programação eletrônica densa e múltiplas harmonias e riffs mais intensos do próprio instrumento, exalando vapores sutis das guitarras que os britânicos do Portishead tanto adoram. De concepção semelhante à esta última, na triste “Arm Your Eyes”, a dupla conduz a melodia com harmonias melancólicas de piano e guitarra, inserindo aos poucos, em um crescendo discreto, a base eletrônica e os próprios acordes de guitarra e piano, que intensificam-se em um todo tão melancólico quando o vocal de Simon.
Mas o traço melancólico, bem como as feições sombrias de algumas composições da dupla, que já existiam no primeiro disco, são ressaltadas quando os franceses se livram do apoio de elementos eletrônicos, atendo-se apenas à acústica de violões ou piano, como ocorre na última faixa do disco, “Embers”, onde os acordes etéreos e difusos do piano, bem como o vocal entre o amargor e o lamento, soam tão estranhamente fantasmagóricos quanto as composições de PJ Harvey em White Chalk, deixando em quem ouve uma enorme curiosidade sobre como seria se a dupla produzisse um disco que se resumisse apenas à este folk tão peculiar. Curiosidades à parte, porém, Birds in the Storm é a confirmação do talento desta dupla francesa, que foge da pasmaceira muitas vezes enjoativa e um tanto rotineira produzida por parte das duplas do electro-pop ao injetar uma dinâmica e calor melódicos que dificilmente são encontrados no trabalho destes músicos, tudo ainda coroado pelos traços sombrios e tristes que emanam de algumas faixas, o que dá todo sentido ao título deste segundo disco, já que, como os pássaros marinhos, a dupla prefere se arriscar nas rajadas traiçoeiras de uma intempérie do que repousar na segurança previsível da brisa de climas mais amenos – e em nome da beleza da música, eu espero que isso seja sempre assim.

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Hoje – Amália Hoje. [download: mp3]

Hoje - Amália Hoje

Criação paralela de quatro músicos de diferentes bandas do cenário atual da música portuguesa, o projeto Hoje, muito semelhantemente ao disco solo de Fernanda Takai, foi criado especialmente com a idéia de produzir regravações de faixas emblemáticas gravadas por uma das mais célebras cantoras de fado, a portuguesa Amália Rodrigues. Para a nada fácil tarefa de dar voz aos versos tornados famosos por Amália, foram chamados Fernando Ribeiro, parte da banda Moonspell, Paulo Praça e Sónia Tavares, esta última membro do The Gift e detentora de uma voz grave, de matizes líricas, que ecoa fundo nas músicas. A caprichadíssima produção do disco, a cargo de Nuno Gonçalves, também membro do The Gift, mistura o transbordamento luxuoso de arranjos orquestrais com o sutil experimentalismo de elementos eletrônicos. É o caso exemplar de “Abandono”, que com um andamento acelerado de bateria, acordes marcantes de piano e várias camadas de vocais é mergulhada em sintetizações espiralantes e em um arranjo de violinos incessante e vertiginoso. “Grito”, que é iniciada com uma base suave de um bolero, mas em pouco tempo é inundada por um onda de violinos intensamente melancólica e dramática que é a combinação ideal à voz triste de Fernando e ao vocal de apoio de Sónia, e “Gaivota”, cuja melodia pomposa devido à programação e acordes de piano espalhados pela canção vai crescendo paulatinamente e ganha um acabamento cada vez mais épico pela orquestração farta, pela percussão em tom marcial na ponte sonora e pelo arranjo escandalosamente cinematográfico de cordas, são também faixas que aliam camadas sinfônicas com intervenções eletrônicas sutis.
Há, porém, momentos em que um elemento sonoro sobressai na melodia, como em “Formiga Bossa Nova”, famosa neste lado do Atlântico na voz de Adriana Calcanhotto, que apesar de não ter ganho dos portugueses uma versão tão lúdica quanto a da brasileira, recebeu um tratamento modernoso e upbeat, cujo ritmo sutilmente swingado da percussão eletrônica e do solo de trompete é salpicado por ruídos, distorções e iluminuras sonoras que aquecem a melodia. Já na belíssima versão de “Medo” acontece o oposto: é a veia sinfônica do álbum que se projeta dona da melodia, acompanhando a espetacular interpretação teatral do vocal de Sónia, que se debulha em sofrimento para fazer frente ao arranjo orquestral inacreditavelmente impecável da London Session Orchestra.
Mas é talvez a sensibilidade na seleção das faixas a grande sacada deste projeto português, como bem se percebe na abertura e fechamento do álbum do grupo: enquanto a suntuosa versão de “Fado Português” apresenta ao conhecimento dos ouvintes uma das prováveis origens deste gênero musical, que dizem deter em si tanta melancolia e nostalgia porque foi criação daqueles que lançaram-se aventureiros ao mar há tantos séculos atrás para desbravar os oceanos, “Foi Deus” fecha o disco chorando admirada as belezas do mundo e divagando sobre a melancolia do fado em uma melodia elegante, que inicia calma e balanceada com o vocal de Paulo Praça e avoluma-se repentinamente ao ser tomado pela extensão do vocal esplêndido de Sónia Tavares e ganhar o peso do arranjo orquestral soberbo que encerra o disco majestosamente.
Muitos em Portugal, em sua maioria fãs de Amália Rodrigues, torceram o nariz para o disco, isso quando não fizeram questão de vociferar toda sua ira por considerar uma heresia regravar deste mito da música portuguesa. A revolta faria algum sentido se o projeto não tivesse respeitado a essência original das canções e resultasse em um apanhado de covers equivocados e de mau gosto, mas não é este o caso de Amália Hoje, que consegue preservar a aura do fado mesmo embalando as canções em uma produção requintada e instrumentalmente rica – o resultado, claro, é gritantemente pop, mas isso nunca vai ser um defeito quando é de bom gosto, não?

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a dica da banda foi dada pelo leitor raukai – levou 10 meses, mas eu resenhei, viu?

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Yoav – Charmed and Strange. [download: mp3]

Yoav - Charmed and Strange

Conheço o disco de estréia do cantor e compositor israelense Yoav desde que foi lançado, mas como acontece com alguns discos e alguns artistas, Charmed & Strange foi relegado à um repouso por tempo indeterminado em minha biblioteca de música. Quando isso acontece, revisito descompromissidamente o álbum de quando em quando até que ele atinja um nível aceitável de simpatia. Claro que às vezes isso simplesmente não ocorre, e o destino do disco é o irremediável descarte, mas se insisto por um longo tempo, neste caso praticamente dois anos, é porque sei que a hora certa vai chegar.
A música criada pelo rapaz moreno com rosto de traços rudes e expressivos e voz juvenil é predominantemente acústica, em grande parte armada tão somente sobre guitarra e violão. Normalmente, a limitação de um músico à estes instrumentos invariavelmente enquadra sua produção dentro dos domínios do folk, mas nas mãos desse cantor dotado de uma destreza e flexibilidade impressionantes no manejo deles e, principalmente, dono de uma grande criatividade, ela não se contenta em permanecer dentro das fronteiras deste gênero: usando e abusando das alterações obtidas por pedais, Yoav engendra loops e beats tanto no dedilhar das cordas quanto tirando proveito do corpo dos instrumentos, fazendo as vezes de bateria e percussão batendo com as mãos – o resultado é uma música que emana um fulgor que na vertente acústica dificilmente seria obtido por apenas uma pessoa em um estúdio ou palco, já que em suas apresentações ao vivo o rapaz repete, em real-time, grande parte dos procedimentos. A faixa de abertura, “Adore Adore”, deixa nítido o que ele é capaz de fazer com sua técnica, já que tanto a batida que cresce ligeira quanto os toques precisos que o cantor arranca de sua guitarra, tão cortantemente amargurados quanto o seu vocal melancólico, impressionam sem muito esforço. E se a primeira música não for suficiente pra mostrar a versatilidade do cantor com sua guitarra e pedais, da segunda, “Club Thing”, isso não passa despercebido: introduzida por um beat marcadíssimo e sutilmente dançante e entoada em um registro vocal que alterna entre a voz macia e um falseto delicado, Yoav vai encorpando a melodia com a alquimia dos seus riffs, live loops e toques em sua guitarra e violão até fazer surgir uma mistura de pop e rhythm’n blues que ferve com uma soturna sensualidade. Isso, não significa, porém, que o compositor omita de suas criações a utilização de instrumental de apoio, como pode ser visto na discreta sintetização ao fundo em “Sometimes…”, que tem como destaque o beat curto e veloz que o cantor arranca do violão enquanto seus toques em segundo plano nas cordas fazem a melodia brilhar com luminosidade e calor, e em “Wake Up”, cuja batida e acordes tão característicos do estilo acústico do cantor arrastam-se em marcha até serem encorpados e continuamente acompanhados por uma sintetização de cordas que potencializa a enorme beleza da melodia. Mas mesmo resumindo-se ao seu pequeno arsenal, o cantor consegue mergulhar em ritmos e influências: “There Is Nobody”, por exemplo, tem a sutilíssima fragância do pop europeu dos anos 90 tanto na sua metade inicial, feita de acordes secos e ásperos sobre o ecoar de um pulso bem marcado, quanto no sua última parte, um intenso cavalgar mais melódico de riffs e uma batida mais consistente que nas mãos de um bom produtor de música eletrônica certamente seria convertida e uma faixa inusitadamente dançante, como aquelas feitas à época. Contudo, provavelmente é a angústia e melancolia palpáveis de “Beautiful Lie” que a põe como a melhor faixa deste primeiro disco do cantor isrealense: introduzida pelos acordes espaçados da guitarra que reverberam enquanto o cantor lança sua bela voz, a canção tem mais da metade de sua duração constituída de um vibrante solo harmônico de guitarra, feito de toques breves, ligeiros e virtuosos, que expande-se em uma harmonia de exuberante emoção. E pra quem está pensando que o rapaz só gosta de exibir-se virtuoso, o tradicionalismo das notas suaves, simples e discretas da triste balada “Angel and the Animal” comprovam que ele sabe compor dentro do estilo pop/rock mais clássico, o que também, espertamente, serve como “respiro” para não cansar o público em meio à quase um álbum inteiro de experimentações percussivas e acústicas – ufa!

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Mates of State – Crushes (The Covers Mixtape). [download: mp3]

Mates Of State - CrushesVendo o casal de cantores americanos que compõe a dupla Mates of State fazendo biquinho na capa do seu disco de covers, a impressão mais imediata não é exatamente relacionada à um sentimento de confiança e credibilidade, mas a sensação que acompanha esta, de que o disco envereda descaradamente pelo pop rasgado, não está errada – e a foto escolhida não tenta esconder isso, pelo contrário. Vencendo, porém, a resistência deixada por essa impressão, o público vai descobrir que as versões elaboradas por Jason Hammel e Kori Gardner, que entraram também pela primeira vez na produção do lançamento, concedem às faixas uma jovialidade extraordinária e um clima de contentamento irrefreável – é quase herético, por exemplo, o modo como o melancólico folk-country de Tom Waits em “Long Way Home” foi subvertido sem pudor em uma faixa festiva, literalmente um “yeah-yeah-yeah” esfuziante recheado de riffs caudalosos de guitarra e salpicado por trompetes gloriosos, ou então como em “Son Et Lumiere”, faixa-intro do primeiro álbum do The Mars Volta, trocou-se guitarras por pianos e teclados, revertendo a escalada de suspense original em um trotar delicado que lança-se ao sabor do arranjo de metais e backing vocal celestial. Fleetwood Mac também foi alvo dos pombinhos em “Second Hand News” que teve a sua aura upbeat não apenas preservada, mas consideravelmente ressaltada no arranjo que borbulha sintetizações crispantes e toques cálidos nos teclados. Em “Love Letter” a dupla se livrou da belíssima orquestração de cordas e do piano da versão original e, inevitavelmente, substitiu o vocal imponentemente melancólico de Nick Cave por um dueto que investe em um registro mais calmo e adocidado, acompanhando a melodia crivada de órgãos de tonalidades tão confortantes quanto uma morna noite de primavera. “Technicolor Girls”, de autoria de Death Cab for Cutie, teve a sua simplicidade acústica transposta para um pop de irresistível delicadeza marcado pelo lirismo do backing vocal que pontua brevemente a canção e pela meiguice dos teclados e xilofones que espocam por toda a música. Abrindo o disco, “Laura”, música dos californianos da banda Girls, e fechando-o, “True Love Will Find You in the End”, do compositor marginal Daniel Johnston, também ganharam banhos melódicos que, em ambos os casos, só fez bem as músicas: a primeira perdeu todo o ranço de banda indie da esquina e vestiu-se em scratches de disk jockey e teclados e sintetizações redondinhos, ganhando até direito a um gracejo do casal na letra da canção; a segunda teve o caráter embaçado de folk-rock-gravado-em-K7-Basf magneticamente apagado pelo beat pop saltitante e pelo ukelele e piano elétrico de acordes afetuosos da dupla.
Por uma contradição que so é possível no tempo das facilidades da hiperconectividade, o pop de ontem é o alternativo de hoje e, assim sendo, música como essa que a dupla fez seria em outras épocas muito mais popular por conta desta despretensiosa autenticidade que afasta qualquer menção à profundas – e infundadas – ambições artísticas, coisa tão em voga nos top-ten de MTVs e estações de rádio de hoje em dia. Mas não existe drama: essa mesma hiperconectividade é responsável por esse infindável mundo de opções que temos hoje pra nos salvar dos embustes pop que nos atacam sem piedade – porque, convenhamos, leituras histórico-sociológicas em videoclipe dirigido por uma diva fashionista é uma coisa difícil de engolir.

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Goldfrapp – Head First. [download: mp3]

Goldfrapp - Head FirstA sonoridade obscura e complexa do disco Felt Mountain, que deu partida na carreira da dupla Alison Goldfrapp e Will Gregory, e a musicalidade lambuzada de todas as possíveis combinações do eletrônico com o pop, adotada por eles nos dois discos posteriores – Black Cherry e Supernature -, ganhou seu meio-termo nas melodias de contornos sutis entre o folk e o eletrônico do álbum Seventh Tree, lançado em 2008, servindo assim como um resumo do que a dupla já tinha produzido até então. Sem muito o que inventar no seu campo de atuação musical, os dois resolveram voltar os seus olhos (e ouvidos) ao passado, buscando nos anos 80 a inspiração para o novo disco, Head First. Inspiração é até um termo um tanto inexato, já que o disco cai de cabeça no estilo dominante do pop daqueles já distantes anos. Isso é pra lá de perceptível já na abertura do disco, “Rocket”, (já comentada por aqui), por conta dos volteios caudalosos dos sintetizadores e o beat comportado escandaradamente surropiados dos grandes hits da época. O artifício prossegue sem receios em “Alive”, porém aqui, além do groove pop e dos teclados cintilantes, há também a participação de acordes de piano e riffs de guitarra e baixo que bem poderiam ter servido de trilha para aqueles filmes em que os jovens da época enfrentavam os obstáculos mais tolos para só então perceber que o amor morava o tempo todo ao lado. “I Wanna Life”, mais ao final do disco, também fica na minha cabeça como soundtrack de sessão de cinema de sábado, mas a programação mais reflexiva das sintetizações, cheia de claps marcantes, e o vocal mais contido, com refrão marcado pela título da canção, me soa mais como aquelas sequências que preparam a “virada” do protagonista de um daqueles romances urbanos que mostram a busca da felicidade e do sucesso. Fazendo um pouco diferente, “Dreaming” sai um pouco do 80’s americano e envereda por uma programação eletrônica e sintetizações mais harmoniosas que caem nos ouvidos lembrando a combinação de ambientação e cadência sutilmente dançante matadora da New Wave européia – pense em algo feito há muito tempo por Depeche Mode e você vai ter idéia do que se trata. Os toques doces e nostálgicos de piano voltam para dar partida à faixa-título do disco, “Head First”, apoiados por ondas de sintetizadores e vocais tingidos da primeira a última nota nas harmonias que tanto se ouvia na frequências das FMs. Apesar do banho de atmosfera vintage, há em uma ou outra canção um certo vento de contemporaneidade, já que a batida quente que pulsa como base para a melodia, os samplers e loops que pontuam o refrão, a sintetizações que inundam a ponte melódica e o vocal aveludado à meia-voz de Alison em “Shiny and Warm” vibram na tonalidade inconfundível da sonoridade que lançou a dupla britânica à notoriedade tanto no segundo quando no terceiro álbum.
Agradável aos ouvidos nos primeiros contatos, um disco que se traveste com tanta firmeza com um som tão datado e não insere suficiente caráter de contemporaneidade corre o risco quase certeiro de cansar com o passar do tempo. Isso não ocorreria por ausência de qualidade, já que não é o caso, mas apenas porque a música que serve de referência tem uma identidade muito forte, fazendo quem ouve Head First se questionar se não seria melhor folhear o passado logo de uma vez e ouvir aquilo tudo que serviu de fonte para o duo Goldfrapp neste álbum. Mas mesmo que o déjà vu sonoro da dupla tenha essa consequência, o simples fato de jogar alguma luz para os ouvintes de hoje sobre a música da década de 80 já um fato bastante positivo. Apesar de considerado por muitos um período artisticamente fraco, se comparado com o que temos hoje, mesmo aqueles hits grudentos e batidinhos que ouvíamos tanto são um bálsamo para os ouvidos – e mesmo para o cérebro.

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Sarah Blasko – As Day Follows Night (+5 faixas bônus). [download: mp3]

Sarah Blasko - As Day Follows NightA australiana Sarah Blasko gosta de cercar suas canções em discos com forte identidade sonora. Foi assim na sua estréia fabulosa, com o pop/rock vibrante e poético de The Overture & The Underscore, e também no esplendoroso disco seguinte, What The Sea Wants, The Sea Will Have, que verteu uma melancolia com timbres metálicos, além da tecitura marítima que sugere o título. Para o seu terceiro lançamento, porém, Sarah resolveu deixar a terra natal e rumar para bem longe, almejando ares ainda mais diversos para seu novo álbum. A Suécia e o produtor Bjorn Yttling, do trio Peter, Bjorn and John, foram respectivamente as escolhas para ambiente e parceria na concepção do disco. E foi por conta da companhia e influência do músico sueco que a maior parte da energia algo elétrica que caracterizou a música da cantora australiana nos seus dois primeiros lançamentos acabou desaparecendo, cedendo lugar a arranjos mais macios, algo que se reflete inclusive no vocal da cantora, notadamente entoado em um matiz de diferente suavidade que encobre os versos de um caráter nostalgicamente menlancólico. Por conta disso, acostumado que estava com a identidade da cantora até então, estranhei imensamente este caminho sonoro um tanto diverso, e assim releguei o disco ao limbo da minha coleção de música, aguardando por meses o momento certo para reavaliá-lo.
E como já aconteceu antes, ao descobrir a beleza de uma única música acabei encontrando o caminho certo para outras: foi a elegância e sutil sensualidade exalada pelo groove suavemente jazzístico da percussão e piano de “Bird On A Wire”, a ondulação radiante do arranjo de cordas e o vocal sublime de Sarah que inicitaram finalmente meu encanto por outras faixas do disco. A partir daí, entendi que o talento da cantora e compositora, apesar de consideravelmente alterado, não foi desperdiçado, já que há sim belas faixas distribuídas pelo disco, como a batida hipnótica da bateria, percussão, piano e baixo de “No Turning Back”, reforçada por sopros graves e de fluxo breve, todos a certa altura evadidos por violões e backing vocals telúricos na ponte melódica da canção. “We Won’t Run”, de compasso bem marcado pela bateria, salpicada por delicados toques ao piano durante o refrão que é pontuado dramaticamente pelo ressoar dos pratos e cuja melodia encorpa-se pelo arranjo de cordas que avolumam sua base, exibe enorme graça e suavidade e ilustra com perfeição o novo estilo vocal incorporado pela cantora neste álbum. “All I Want”, conduzida pelos acordes sutis no violão e pela bateria em andamento quase fúnebre, conjuga cordas, sopros e um temerim para evocar uma marcante atmosfera de quimera. “Lost & Defeated” prossegue vagueando em devaneio sonoro sustentado pelo dedilhar das notas de um piano taciturno que pontua a música, feita de violões e percussão sutis e firmes e aos poucos ocupada por cordas e sopros que intensificam a sonoridade de delírio errante. Com uma percussão e violões de toques curtos, mas em franca cadência lúdica e gracejante, ressaltada pela tonalidade jovial do xilofone e do vocal de Sarah, “Over and Over” quebra um pouco esta tonalidade idiossincrática do disco, ainda que partilhe algo dela por fazer uso de instrumentação semelhante. Por sua vez, “I Never Knew”, o lamento de alguém que dolorosamente entende o bem que trará o fim de seu relacionamento, vagueia por um doce romantismo, ilustrado pela vibração suave do violão e da percussão, que flutuam ao fundo com brandura, e que é brevemente assinalado no seu trecho final por um vocal e cordas mais ardentes até ser novamente revertido na ternura melódica que é sua marca mais evidente.
Mas ao que parece, Sarah não atravessou oceanos, mares e continentes para deixar qualquer desejo, por mais extravagante que parecesse, sem ser atentido. Ocupando-se da composição de todas as músicas deste As Day Follows Night, já que dispensara a parceria do ex-companheiro Robert Cranny, Sarah Blasko achou por bem também alimentar a sua faceta de intérprete. Louca por cinema e adoradora de musicais, teve a belíssima idéia de selecionar canções dos que mais adora, como “A Noviça Rebelde” e “Cabaret”, para compor uma disco bônus do álbum. Deste segundo disco, batizado de “Cinema Blasko”, apenas uma música não é oriunda de um musical, tendo sido retirada de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, clássico dirigido por Woody Allen nos seus bons tempos de cineasta. As que resultaram nas melhores, porém, são as que eram as mais rasgadamente pop das cinco que compõe o disco: em interpretações intimistas, que não vão além de piano e voz, Sarah encobre “Out Here on My Own” (originalmente cantada por Irene Cara no musical “Fame”) de renovada camada de emoção e desnuda “Xanadu” (deliciosa na primeira versão pela voz de Olivia Newton-John no filme homônimo) de toda a sua cintilação setentista, pluralizando a sensibilidade de suas letras e melodia.
A mudança no estilo certamente não era necessária, mas é sempre bem-vinda. Faltou apenas acertar um pouco mais o “fuso-horário artístico” na viagem entre Oceania e Europa, já que a adoção desta nova musicalidade, que centra-se em uma ambiência mais apoiada em percussão e piano, também rendeu algumas composições um tanto frias e aborrecidas. Isso, porém, não reduz a força do seu maior êxito: o amálgama gracioso da acusticidade dos arranjos com o timbre nostálgico adotado por Sarah ao cantar suas novas composições na longínqua escandinávia. E quem aí não sabia que o velha Europa ainda tem charme suficiente para encantar o novo mundo?

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Goldfrapp – “Rocket” (single + 1 faixa). [download: mp3]

Goldfrapp - RocketE nesse mundão lindo de internet nem um dia se passa sem algo cair inadvertidamente na rede – algumas vezes até intencionalmente – e ser infinitamente multiplicado e distribuído. Alison Goldfrapp até pediu desculpas – precisa não, benzinho – no seu blog oficial, mas disse que o vazamento do single “Rocket”, parte do seu futuro novo disco, “Head First” não foi intencional e não poderia ser evitado. E é bom guardar as desculpas para os dias que virão, porque mais uma faixa, “Believer”, acaba de chegar aos ouvidos dos internautas. Mas, apesar de toda a nostalgia da dupla britânica, pessoas da contemporaneidade que ambos são já sabem muito bem que não adianta lutar contra a rede.
Falando em nostalgia, não saberia dizer se eles já foram mais nostálgicos, mas “Rocket” e “Believer” com certeza bebem na nostalgia dos anos 80: são tsunamis de sintetizações, toneladas de camadas de vocais e uma chuva de cintilações sonoras. “Believer” tem mais a cara dos trabalhos anteriores da dupla, e considero esta a mais fraca das duas, com uma música um tanto repetitiva, mas “Rocket” tem uma melodia pop que não faria feio combinada com aquelas dancinhas coreografadas bem soft dos musicais de cinema da época que cansamos de ver na Sessão da Tarde. Ouçam o início da faixa e me digam se Olivia Newton-John não mandou lembranças, disse que tá tudo muito “Magic” mas que essa coisa meio “Xanadu” da capa do disco é de propriedade dela? Falando na capa, mas me referindo à esta do single ao lado, eu sei que o glow nas mãos e nos pés é intencionalmente “photoshópico”, que esse raio só pode ter saído de algum canto de “Star Wars” e que essa paisagem parece ter sido retirada de uma das fases do jogo “Enduro” do saudoso Atari, mas a cereja do bolo é o combo pose de heroína de gibi + macacãozinho cor-de-rosa, heim? Isso tá bem “mamãe, acreditei!”

“Rocket” + “Believer” (clique!)

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David Fonseca – Between Waves. [download: mp3]

David Fonseca - Between Waves

David Fonseca - Between Waves
Tarefa não muito fácil a de David Fonseca de conceber o sucessor de Dreams In Colour, disco lançado em 2007 que arrebatou público e crítica. Sempre que um cantor ou banda é alçado à consagração ao lançar um álbum considerado impecável, apresentam-se os dilemas inevitáveis: encarar ou não a nova empreitada como uma tentativa de superar ou ao menos igualar o feito anterior? E quanto a manter ou não a sonoridade desenvolvida com sucesso?
As respostas às perguntas acima parecem vir de imediato, mas a verdade vai se revelando ao longo de audições mais cuidadosas. Assim, a primeira vista, “Walk Away When You’re Winning” e sua enorme energia do vocal, da bateria, da gaita, do violão e da guitarra conduzidos em uma procissão de melodiosos riffs e seguidos por muitas palmas, metais e backing vocal no trecho final, “There’s Nothing Wrong With Us” e seu xilofone hiperativo, sua bateria que entra de forma cada vez mais massiva e cadenciada, suas sintetizações insaciáveis e sua guitarra de riffs breves, que vibra simulando harmonias vocais, todos sendo silenciados para retroceder e retornar para um breve prólogo sonoro com o dobro de volume, e “Owner of Her Heart”, que ressalta o caráter faiscante de seus múltiplos riffs de guitarra e das intrépidas vocalizações que lhe fazem parceria e compõe o refrão que também introduz a canção e ganha até a companhia de um desatinado saxofone na transbordante sequência final são todas músicas que parecem não diferir em estilo de outras já compostas por David, porém nelas o artista português investe mais consideravelmente em um abarrotamento sonoro que persiste por mais tempo nas melodias – alguns ouvidos podem ficar um tanto fartos disso, mas ao longo de mais audições a sonoridade mais maciça vai entrando em acordo com os tímpanos alheios, que é exatamente o caso de “Morning Tide (I Just Can’t Remember)”: no início soando esdrúxula com seu compasso curto dos instrumentos, conduzido pelo tilintar ligeiro do xilofone e de uma programação intencionalmente amadora e nostálgica ao fundo, com algumas audições mais adiante a faixa cresce pouco a pouco a ponto de a emoção planejada por David acabar tornando-se clara ao derramar-se nos sentidos, muito por conta da latinidade melancólica do arranjo de metais que usurpa a melodia e a transmuta para o abarrotamento sonoro que é característica de grande parte das canções do disco.
Mas para os que estão acostumados à tradicional flexibilidade de David Fonseca, há faixas com sua emblemática pegada rock dançante, tanto quando há baladas de partir o coração e fazer qualquer um sonhar se jogar do Empire State Bulding de braços abertos gritando os versos até o impacto final. Integrando o primeiro perfil sonoro, “Stop 4 A Minute” provoca em quem a escuta uma desatinada vontade de dançar ao som dos “ah-hãs” e “hums” que dão partida na melodia, repleta de caudalosos riffs e solos de guitarra, com um trabalho esplendoroso na bateria e um potente vocal com o qual o cantor português testa os limites de sua verve rockeira. Já “It’s Just A Dream” representa com toda propriedade a faceta conhecidamente romântica de David: depois de uma introdução climática onde guitarra, violão e bateria encadeciam-se conjuntamente em acordes pujantes, encontramos David entoando os versos em um clamor comovido por compreensão e afeto que prossegue em um crescendo arrepiante até que a melodia é concluída exatamente como começou, novamente tomando de assalto os ouvidos e lançando-os em um epílogo sonoro emocionante – a canção é tão tocante que ela dificilmente sai da cabeça, atacando os sentidos inesperadamente a qualquer momento e em qualquer lugar. Apesar do que diz o título da faixa que encerra o disco com uma balada guiada por um violão, laceada por uma bateria ritmada em compasso firme, alguns acordes leves na guitarra e no orgão e um solo de gaita, “This One’s So Different”, “Between Waves” não é assim tão diferente. No conjunto, este novo disco traz apenas algumas ondas desconhecidas dentro do oceano sonoro tão familiar aos fãs do cantor português – o que, de modo algum esteja eu querendo dizer que seja ruim. Ao contrário, ao procurar permanecer nesse “entrelugar”, como já indica o título do disco, mergulhando apenas um pouco mais fundo, sem nunca perder de vista a segurança da praia logo atrás, David Fonseca estabelece para si e para seus ouvintes uma mudança apenas sutil em sua musicalidade, certamente procurando nunca ferir sua tão fabulosa proposta pop/rock – e qual seria a necessidade de mudá-la tão radicalmente, visto que ela é tão boa, não é mesmo?

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A Camp – Covers EP. [download: mp3]

A Camp - Covers EPEnquanto a banda The Cardigans não dá o ar de sua graça com um novo álbum, Nina Persson promove seu projeto paralelo, cujo segundo lançamento, o álbum Colonia, ganhou vida no fim de janeiro deste ano que está em vias de se encerrar. Das sessões deste disco, ao menos três regravações de canções de outros artistas e bandas foram feitas, duas das quais foram liberadas ao público como B-sides do single “Love Has Left The Room”. Em junho último, porém, a banda formada por Nina, seu marido Nathan Larson e o músico Niclas Frisk decidiu por bem reunir as duas faixas lançadas e a única ainda inédita em um álbum no formato exclusivamente digital, que foi batizado simplesmente como Covers EP. Nas três músicas que compõem o disco, Nina e seus comparsas procuraram redecorar as melodias de forma não-evasiva, impregnando-as com o estilo preponderante do A Camp de Colonia mas preservando a essência que forma a identidade original de cada uma das canções. Em “Boys Keep Swinging”, originalmente gravada por David Bowie no seu álbum Lodger, o trabalho do A Camp lembra enormemente o do cantor britânico, já que a melodia continua tomada de uma verborragia sonora proveniente da esquizofrenia das guitarras e do saturamento promovido pelos backing vocals, a diferença mais perceptível seria o andamento levemente mais acelerado da música, mas que ainda refaz a rítmica sacolejante tão famosa do Bowie dos anos 80. “Us and Them”, conhecida faixa do disco Dark Side of the Moon, dos ingleses do Pink Floyd, também mostra-se razoavelmente fiel ao original, recuperando nos vocais, tanto na reverberação dos versos entoados por Nina Persson quanto nos que preenchem o fundo com tonalidades gospel, a melancolia com ares épicos que é característica de muitas composições do Pink Floyd – algo, por sinal, que eu já tinha notado o A Camp ter utilizado de forma primorosa em Colonia na faixa “Chinatown”. E em “I’ve Done It Again”, a linha harmônica do baixo permanece com as propriedades originais da versão de Grace Jones inalteradas, assim como o ritmo da música, que ganha apenas a companhia de alguns toques ao piano, sopros e sintetizações ocasionais.
É claro que três faixas são bem pouco, mas com elas o A Camp dá uma idéia do que como a banda soaria se decidisse se aventurar em um disco de covers: cautelosa com o trabalho alheio sem deixar de colocar sua porção de charme e elegância em cada uma das canções escolhidas. Eu só esperaria um repertório um pouco mais garimpado, já que a música de Grace Jones bem poderia ter sido substituída por tantas outras muito mais interessantes.

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Florence + The Machine – Lungs (4CDs: Deluxe + Special Box Edition). [download: mp3]

Florence and The Machine - LungFlorence Welch disse que deseja que sua música desperte sentimentos fortes em quem a ouça, como a sensação de atirar-se de um edifício ou de ser capturado para as profundezas do oceano sem qualquer chance de prender a respiração. Parece um tanto exasperante, para não dizer presunçoso, mas é este tipo de sensação que se tem ao ter contato com as criações de Florence + The Machine, a banda encabeçada pela artista britânica. Nela, Florence dá vazão à todo o seu impressionante furor artístico, que mistura melodias vistosas, repletas de complexas camadas sonoras à letras poéticas, em sua maioria enormemente metafóricas. O elemento que dá liga a estes ingredientes saborosos é o seu vocal, utilizado pela garota em todas as suas possíveis matizes e variações de volume, não raro emitido em gritos longos e possantes. A substância obtida desta receita é uma música sofisticada e vibrante que tem a mesma identidade idiossincrática e indefinível de artistas como Kate Bush, a Björk intimista de Vespertine, My Brightest Diamond e Bat For Lashes.
Porém, mesmo sem saber exatamente como definir as criações desta artista britânica devido à sua mistura de gêneros, se há algo que se pode dizer ser recorrente em grande parte das músicas deste seu primeiro disco é o uso extenso de uma percussão escandida com força numa síncope potente e bem marcada, concedendo às canções uma atmosfera algo ritualística. Os acordes agudos do banjo e da harpa em “Dog Days are Over”, o volumoso uso de vocais em “Rabbit Heart (Raise It Up)” e “Drumming”, o piano de toques esparsos e dramáticos e as sintetizações salpicadas em “Howl”, a harpa cheia de calor em “Cosmic Love” e o orgão e o arranjo orquestral salpicado de pizzicatos de “Blinding” chegam todos acompanhados de uma bateria e percussão que não se escondem na canção, ao contrário, mostram-se em toda sua glória, usurpando os ouvidos sem qualquer receio e emitindo uma quase imperativa necessidade de sacudir o corpo.
Mas não há erro em afirmar, no entanto, que as criações de Florence e sua máquina partem de bases rockeiras. Tanto “Kiss With a Fist”, na qual a cantora declara que um amor recheado de socos e pontapés é melhor que amor nenhum, “You’ve Got The Love”, cover de uma canção gospel que prega que o amor divino existe mesmo nos tempos difíceis, e o cover “Girl with One Eye”, apesar de sua sutil camada country, exalam a fragrância mais emblemática do gênero: uma fartura de múltiplos riffs de guitarra assaltando a melodia ou preenchendo todos os espaços possíveis. Mas mesmo neste disco tão repleto de canções fabulosas, “Bird Song”, faixa bônus da versão deluxe do disco que igualmente pertence à faceta mais nitidamente rock da artista, ainda consegue se elevar em meio as que acompanham como a música mais brilhante do lançamento: iniciando com alguns versos a capella, logo acompanhados por uma guitarra melancólica, a melodia vai alternando um crescendo de momentos reflexivos com outros repletos de ira até explodir em uma orgia sonora sem economia nos vocais, no arranjo melódico e no sentimento que jorra como lava do Monte Vesúvio ao desenhar metaforicamente nas letras a consciência arrependida de alguém como o cantar de um pássaro delator. E é assim, expelindo suas emoções sem receios de soar vibrante, urgente e épica, mas também nunca renegando o direito de soar delicada e gentil quando deseja que Florence + The Machine traz para o rock alegorias em sons e versos que enfeitiçam o espírito e hipnotizam os sentidos dos ouvintes, exigindo com toda propriedade seu lugar na seleta galeria de músicos que conseguem encobrir suas composições em erudição e sofisticação e ainda preservar o seu caráter potencialmente acessível. Sim, Florence Welch é mais uma daquelas artistas que dificilmente se contenta em soar comedida ou simples, porém o abundante requinte com o qual suas composições são impregnadas permitem que nossos sentidos captem apenas a sua fervente e quase primitiva beleza.

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