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Tag: rock alternativo

Karen O & Danger Mouse – Lux Prima [download: mp3]

Karen O, vocalista da banda Yeah Yeah Yeahs é uma daquelas artistas inquietas que necessita de vez em quando colocar seu barco a navegar por oceanos que não o seu, e entre um álbum ou outro de sua banda, Karen já lançou um disco solo e compôs músicas para filmes e até mesmo um game (Rise of the Tomb Raider). No recém-lançado Lux Prima, Karen tem companhia para guiar seu barco nesta nova empreitada: o produtor musical Danger Mouse. O álbum que é resultado da parceria está permeado por nostalgia e mistério e uma névoa de coloração cinematográfica suspensa na atmosfera das suas nove canções que navegam no pop, no rock e no trip-hop. A faixa título que abre o disco exibe estas matizes, ilustrando bem a fusão da personalidade musical de ambos os artistas: durante seus mais de nove minutos, uma intro com teclado e vocalizações que vertem psicodelias sobre uma bateria narcotizada encerra-se, dá lugar à uma melodia de bateria, baixo e teclado com gingado elegante sobre a qual Karen desfila seu vocal, e por sua vez é também encerrada e sucedida por um amálgama sonoro de ambas, numa música que não soaria estranha tocando em um cabaret – ou até mesmo em um motel. “Ministry” e “Turn the Light” prosseguem com suavidade, a primeira com vocais e sintetizações etéreas sobre um violão de acordes radiantes, numa ambiência de delírio e fantasia, enquanto a última investe na requebrado sensual do baixo como base para o vocal e sintetizações charmosas e românticas. “Woman” e “Redeemer”, as duas faixas seguintes, optam por se desfazer das sutilezas em troca de uma sonoridade que suscita as trilhas sonoras selecionadas a dedo por Quentin Tarantino para seus longas-metragens: “Woman” com bateria, guitarra e vocal acelerados e ferinos, “Redeemer” com bateria bem compassada e guitarra e teclado cheios de malícia musical. Tirando o pé do acelerador, “Drown” insere ocasionais orquestrações de cordas e metais e um teclado adocicado em meio ao andamento manso da bateria enquanto o vocal de Karen é submerso em um filtro aquoso – referência clara ao título da faixa. Quase no fim do disco, surge algo de genuinamente Yeah Yeah Yeahs em “Leopard’s Tongue”, e isso se deve muito provavelmente ao refrão da canção, que cairia bem em algum canto de Show Your Bones ou It’s Blitz, e mesmo a cadência firme e ligeira da bateria e baixo não soaria completamente estranha na acervo melódico da banda de Karen O. A penúltima faixa do disco, “Reveries”, parece continuar aproveitando referências ao trabalho da cantora, já que a crueza sonora da base de vocal e violão descende diretamente de “Crush Songs”, disco solo de Karen, mas a sobreposição desta base por uma sequência de nuances celestiais, com direito a coro e orquestração de cordas, faria certamente a faixa destoar muito do conjunto daquele álbum. Última faixa do disco, a idiossincrática, “Nox Lumina” parece pairar no ar com suas reminiscências à trilhas antigas de western clássicos italianos compostas por Ennio Morricone, recedendo ao fim para recuperar a intro psicodélica que abriu o álbum, ao mesmo tempo encerrando e retornando ao início da lisérgica jornada sonora dos dois músicos norte-americanos, cuja idéia surgiu lá em 2008, quando Karen, em plena embriaguez, fez um telefonema para Danger Mouse. Não que isso seja ruim, pelo contrário, mas tendo ouvido o disco já diversas vezes, tenho a impressão que a artista jamais tenha se refeito daquele porre.

Baixe: https://www.mediafire.com/file/x8e286nwfn3zsuh/karen-mouse-prima.zip

Ouça:

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My Brightest Diamond – A Million and One [download: mp3]

Shara Nova, também conhecida como My Brightest Diamond, vem desde o seu primeiro disco flertando com matizes eletrônicas: seus dois primeiros álbuns foram completamente remixados, faixa a faixa, por vários DJs bastante conhecidos (Tear It Down e Shark Remixes, respectivamente). Por essa razão, não é nenhuma surpresa que Shara tenha finalmente decidido inserir as referências mais diretamente em suas composições. Em A Million and One, seu mais recente lançamento, Shara não tem temores de meter a mão nas sonoridades mais vibrantes para dar à luz faixas bastante cintilantes, como o single “Champagne”, com uma programação hipnótica e recheado de vocalizações que “pegam” nos ouvidos na primeira audição, contando também com uma breve aparição de alguns arfantes acordes da guitarra característica de Shara. Em “Supernova” a artista também se refestela no eletronismo, abusando do vocal “sampleado”, beats encadeados e vocais de fundo adocicados. E “White Noise”, que fecha o disco, alterna uma cadência mais sintética e “suja”, com beat e ruídos concebidos na mesa de programação, com outra baseada em um baixo insinuantemente gingado e floreios vocais perpassados por diferentes filtros.
Apesar da forte carga eletrônica destas faixas, porém, não é possível dizer que com A Million and One a cantora pisa com ambos os pés firmemente na pista de dança, como o fazem pensar os títulos das duas primeiras faixas, “It’s Me on the Dance Floor”, onde guitarras, baixos e percussão malemolentes acolchoam o vocal aveludado e quente da cantora norte-americana, e “Rising Star”, concebida sobre uma harmonia de vocais de fundo contínua e bateria e base eletrônica de andamento moderado que suscitam uma atmosfera com algo do hip-hop levemente temperado com rock industrial. Para o bem e para o mal, este é um disco que ainda carrega a personalidade musical da cantora, particularmente de suas últimas produções, onde Shara flertou não só com sonoridades sintéticas, mas com o experimental, a ponto de algumas vezes soar quase cacofônica e atonal. Assim é “Sway”, uma “jam session” cansativa com percussão e vocal soturnos que só é iluminada pela interferência eventual da guitarra, e em menor grau “You Wanna See My Teeth”, menos apática com sua música elaborada, onde camadas de vocais cascateantes serpenteiam sobre a ansiedade sonora de sintetizações, guitarras, percussão e bateria que em grande parte silenciam-se ao final, dando lugar à uma sonoridade etérea e reflexiva. Porém, é com a simplicidade da contemplativa faixa seguinte que a artista atinge o balanceamento ideal do experimento a que se propôs neste disco: com vocal amargurado e melancólico selando o espaço entre ruídos e silêncios do órgão, Shara capta aquela singularidade sonora única de Björk no clássico Homogenic, fabricando uma sutil e elegante balada que rola facilmente ouvidos adentro. E é o contraste desta com outras faixas do disco que faz notar que, assim como a artista islandesa hoje, é por Shara optar muito mais pela forma do que pelo conteúdo melódico que A Million and One acaba perdendo grande parte do seu impacto sonoro – tivesse Shara abraçado com mais ardor e sem hesitação a sua faceta pop em todo o álbum e este certamente figuraria entre os melhores de sua carreira.

Baixe: https://www.mediafire.com/file/4cs7xgr7gk81sf7/bright-million.zip

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Julia Jacklin – Crushing [download: mp3]

Com seu segundo álbum, Crushing, lançado semana passada, a australiana Julia Jacklin ainda é uma novata no meio musical, tendo confessado que só em meados de 2016 se deu conta que a música tinha se tornado sua principal ocupação, já que pouco tempo lhe sobrava para seu emprego “tradicional”. Apesar disso, a garota parece ter adquirido maturidade artística suficiente para compor algumas faixas de imensa beleza, caso de “When The Family Flies In”, uma elegia tocante de vocal sofrido e piano abafado que recorda a triste banalidade dos últimos momentos na companhia de um amigo que se foi, e da faixa “Comfort”, que fecha o disco com a simplicidade de um violão de tonalidade folk e um vocal desconcertantemente resignado onde Julia trata sobre alguém que, após abandonar uma relação, tenta se convencer que seu ex-companheiro está bem – como ilustra o verso “don’t know how he’s doing, but that’s what you get, you can’t be the one to hold him when you were the one who left”. “Body”, faixa de abertura e single do disco, é outra amostra da qualidade musical que a australiana já atinge: com um vocal letárgico em letra episódica sobre uma mulher que decide abandonar um relacionamento que percebe não ser saudável e uma melodia enxuta baseada em uma harmonia quase imutável de bateria e baixo e um discreto piano na sequência final, Julia captura a atenção do ouvinte desde o princípio, fatalmente enlaçando-o na cadência melancólica e algo soturna da canção. Há, no entanto, como encontrar no disco tecituras de outros gêneros, como a leve coloração country nas guitarras e na bateria da balada “Don’t Know How to Keep Loving You”, na qual Julia fala de uma paixão que foi exaurida pela convivência de um casal, e o pop/rock moderadamente ritmado da guitarra, baixo e bateria em “You Were Right”, onde, após o término de uma relação, uma mulher confessa ter prazer em desfrutar de todas as coisas então recomendadas por seu companheiro, mas que nunca experimentara por contrariedade à forma insistente que ele as fazia.
No entanto, a australiana ainda é uma artista em formação, e por isso é compreensível que boa parte de suas composições ainda soem tanto opacas (caso de “Head Alone”, com guitarra e bateria abatidos e vocal pouco inspirado, e de “Good Guy”, faixa com instrumental de toques espaçados e um vocal sem brilho em que Julia suplica pela atenção de um rapaz que claramente não tem o mesmo interesse) quanto irregulares (como “Turn Me Down”, que inicia desprovida de ânimo até reverter-se em um frenesi melódico onde a cantora solta a voz sem receios, mas consciente de suas limitações). Ainda assim, o saldo final é compensador, e pelo que se observa nas melhores canções do disco, com mais alguns pés na bunda que a garota dê ou leve, quem sabe, poderemos ter um “breakup album” genuinamente rock n’roll.

Baixe: https://www.mediafire.com/file/mrpceg0zigq6u64/jacklin-crush.zip

Ouça:

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Isaac Gracie (LP) e Close Up – Looking Down (EP) [download: mp3]

Acabei conhecendo Isaac Gracie através do vídeo do seu single “The Death of You & I”, e apesar do o clip não ir muito além do clichê mais batido possível do rock, com o jovem músico britânico destroçando tudo o que vê pela frente, é impossível não ficar impressionado com a voz ao mesmo tempo macia e potente do jovem dândi. A canção, por si só, também é irresistível, com bateria e guitarras que transitam entre um bolero tépido e o ardor de um rock furiosíssimo onde o jovem britânico solta sem receios a sua voz potente. O disco homônimo que contém a canção, porém, ainda guarda outras belas canções. “Terrified”, a faixa de abertura onde o cantor inglês expõe seus temores de não corresponder as expectativas de alguém que ama, adiciona na família de instrumentos um piano de toques suaves que banha a linda voz de Isaac de modo – perdão do trocadilho – gracioso. “Last Words”, logo em seguida, é uma balada com vocais de fundo e orquestrações que acolchoam os acordes melancólicos do violão do jovem músico que canta sobre alguém que, depois de abusar de sua sorte, pergunta-se como pode ter se permitido chegar à este ponto. Logo depois de “Running On Empty”, gostosa faixa de ritmo acelerado, na tradição do pop/rock inglês, temos “Telescope”, onde o cantor, com vocal, violão e pianos sofridos e bateria bem marcada, canta sobre um amor que percebeu não lhe fazer bem, e do qual agora que se desfazer. “That Was Then”, com uma melodia triste e bem ritmada da guitarra, baixo e bateria sobre a voz em tom penoso de Isaac, investe ainda mais em romances disfuncionais em letras como “she says I’ll never understand, begging me to let her go, if you never lose, will you ever know how to be a better man”. Em “When You Go”, o violão de sutil cadência matinal constrói um lamento que casa perfeitamente com as letras sobre mais um amor disfuncional. Amores despedaçados também são tema de “Silhouettes Of You”, onde o violão e a vocalização de fundo do refrão são a base para um crescendo instrumental da bateria e guitarra que incrementa o flagelo vocal de Isaac. Algumas faixas mais à frente, fechando o disco, a música de “Reverie” alterna entre a prece sorumbática da guitarra, percussão, piano e vocais abatidos e a pujança sonora em sua sequência final, em um deslumbrante despertar melódico.


Porém, se a tônica do LP de estréia é de uma melancolia cálida, Close Up – Looking Down, o EP lançado no final do ano passado, reúne canções mais ritmadas, com uma energia pop/rock que o cantor e seu produtor aparentemente decidiram resguardar em grande parte do disco de estréia. “Show Me Love”, uma faixa clássica do gênero com um andamento rápido da bateria e guitarra acompanhando um vocal mais solto e intenso do cantor britânico, deixa isso claro já na abertura do EP, ainda que a faixa seguinte, “Broken Wheel”, desacelere um pouco com sua harmonia mais cadenciada do violão, percussão e piano sobre um vocal que conserva o mesmo vigor da faixa anterior. “?No, Nothing at All” é a faixa mais bem estruturada do disco, onde a guitarra e a bateria bem compassadas preparam-se para um refrão onde ganham uma maior densidade instrumental que lembra os inesquecíveis hits das rádios FM do início dos anos 90. “You Only Live Once”, cover de uma faixa do The Strokes calcada nos alicerces do rock, conclui o pequeno compêndio musical desacelerando o ritmo com a parceira perfeita entre guitarra, bateria e vocal em uma versão mais contemplativa, mas que também convida o corpo a embalar-se em seu compasso manso e sereno.
É uma grata surpresa ainda encontrar bons e jovens artistas interessados em desnudar seus sentimentos e devassar seus corações ao ritmo do velho, bom e insuperável rock. O filão mais popular da música mundial, aquele que ganha todos os holofotes, está tomado por artistas cujo trabalho se assemelha tanto a ponto de você não encontrar algo que os diferencie, num pastiche sonoro que parece ter sido fielmente elaborado pelos produtores baseados em algoritmos que apontam inequivocamente aquilo que vai capturar a atenção da massa de ouvintes, mas o rock sobrevive, ainda que ele esteja discretamente alojado lá na mesa do canto da cafeteria, calma e pacientemente degustando um café, esperando todos aqueles que tem bom gosto e inteligência sentar em sua mesa para apreciar a sua companhia.

Baixe (Isaac Gracie, LP, 2018): http://www.mediafire.com/file/h9itucp2kq5za07/gracie.zip

Ouça (Extended Edition, inclui 3 faixas do EP):

Baixe (Close Up – Looking Down, EP): https://www.mediafire.com/file/s8towi6llyssbfx/gracie-up-down.zip

Ouça (faixa “You Only Live Once”):

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Natalie Prass & Among Savages – “When I Am Alone” (single) [download: mp3]

Colaboração entre os músicos de Nashville Natalie Prass e Peter Barbee, mais conhecido pela alcunha Among Savages, “When I Am Alone” é, segundo a dupla, uma entre cerca de dez canções compostas pelos dois artistas num período de duas semanas há um ano atrás. Com uma base simples de bateria e guitarra de toques bem marcados e intervenções eletrônicas suficientes apenas para incrementar a atmosfera dark, a melodia marcada por silêncios concede espaço generoso para que Natalie explore com um vocal doce, melancólico e sutilmente sensual os versos que tratam, segundo a própria, dos temores e companhias imaginárias da infância de muitas pessoas – em outras palavras, dos amigos imaginários que algumas crianças tinham como companhia constante – por azar ou felicidade. Depois de ouvir essa faixa tão inspirada, resta saber se a dupla vai reunir o súbito surto criativo em um álbum – se as outras faixas tiverem a atmosfera e qualidade desta, torço para que isso aconteça logo.

baixe: http://www.mediafire.com/?22vyu9bpb8yjgi6

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Sol Seppy – The Bird Calls, and Its Song Awakens the Air, and I Call (EP) [download: mp3]

Se você acha que Fiona Apple é a mais reclusa e obtusa artista que se conhece é porque nunca ouviu falar de Sol Seppy. Pra se ter uma idéia, seis anos se passaram desde The Bells of 1 2, o imensamente belo álbum solo de estréia de Sol Seppy, e desde então, a única coisa que a talentosa artista concedeu ao público foi uma faixa (“I Am Snow”) para a compilação Love Cartier (que conta, inclusive, com uma canção da atriz francesa Marion Cotillard), lançada em 2008. E, diferentemente da cantora americana, que deu toneladas de entrevistas para o lançamento neste ano do seu álbum, até hoje muito pouco se viu, leu ou ouviu da cantora britânica de origem grega (seu nome verdadeiro é Sophie Michalitsianos) que não fosse suas músicas. Até mesmo fotos da moça não passam de alguns punhados que se encontra na internet. Apresentações ao vivo e vídeos? Esqueça são ainda menos numerosos que imagens. Ao que parece, a artista trabalha no seu ritmo, sem se preocupar com a frequência de lançamentos estabelecido como padrão pela indústria da música ou com a panacéia de ritos necessários para se chegar ao conhecimento púlico ou para mantê-lo. Por conta disso, só fiquei sabendo há poucos dias que a cantora deu o ar de sua graça em fevereiro deste ano para lançar um EP de apenas três faixas. Parece pouco, mas para o seu público, sedento há anos por alguma de suas composições tão singulares, já é motivo suficiente para se comemorar. As três canções foram nomeadas de forma que compõe um verso, “Part of/ Music/ Live in Me”, o que já indica a sua semelhança na tonalidade melódica: todas lidam com não mais do que piano, violão e violoncelo para tecer as harmonias delicadas, etéreas, difusas e distantes que marcaram a maior parte das composições do disco de estréia da britânica. De uma melancolia não propriamente triste, mas reflexiva e contemplativa, as faixas são pontuadas e atravessadas por silêncios profundos e tão significativos quanto a própria melodia, o que permite ao vocal sempre calmo e terno, que por vezes ecoa longínquo e abissal e em outras familiar e reconfortante, elevar-se sob a frágil tecitura musical que lhe serve de acompanhamento. A única coisa ruim que fica do lançamento deste pequeno EP (além da capa, que resolvi ignorar e criar outra um pouco mais interessante) é a impressão de que com ele a profundamente talentosa artista se dará por satisfeita por mais um longo período sem lançar qualquer outra coisa. Vamos torcer para que isto não passe de uma impressão e tenhamos logo uma fantástica surpresa reservada para breve.

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Menomena – Moms [download: mp3]

Menomena, a agora dupla de Seattle, depois da partida de Brent Knopff para se dedicar ao seu projeto Ramona Falls, segue seu caminho sem esmorecer pela saída de um dos membros, já que Moms, o novo disco da banda, foi gestado com uma rapidez considerável para o histórico dos rapazes de Portland. O primeiro trabalho em que Justin Harris e Daniel Seim trabalham sozinhos é um disco que apesar de manter a mesma energia que estamos acostumados a esperar nas composições da banda traz harmonias que estão na maior parte do tempo mais focadas do que no álbum anterior. Porém, o grande diferencial de Moms, que o coloca como o divisor de águas na carreira da banda são as suas letras: com a saída de Knopff, pela primeira vez Harris e Seim permitiram-se abordar temas mais íntimos para si próprios, inquietações altamente pessoais, mas também enormemente universais, como a família, o envelhecimento e a morte. Em outras palavras, é um disco mais maduro liricamente e emocionante como nunca antes a banda se deu o direito de ser. “Pique” é um exemplo, com a intensidade da percussão, piano e baixo, os acordes vibrantes da guitarra e o saxofone em participação impecavelmente espetacular acompanhando Justin Harris desmanchando sua alma no vocal ao descortinar de modo amargurado a sua criação sem a presença do pai, que o abandonou logo cedo: “now I’m a failure, cursed with male genitalia, a parasitic fuck with no clue as to what men do, impossible to love”. Mas é difícil, se não impossível, a tarefa de apontar a canção mais emocionante do disco, já que em “One Horse”, onde a banda pela primeira vez emprega o uso de orquestrações na melodia, Seim acompanha a letárgica melancolia do piano e a sôfrega harmonia de violinos e violoncelos despedaçando o coração ao cantar com uma crueza impressionante a perda da mãe quando ainda adolescente: “I had a mother who swam in your streams, I know the ending, yet I’m faking suspense, more fertilizer for the trees”. “Heavy is as Heavy Does”, cantada por Harris, é mais uma ode ferina à desestruração familiar, onde versos como “as powerfull as a man he was, pride my father never was of me” são acompanhados por um piano em cadência imutável, enquanto aos poucos crescem guitarra e bateria que explodem em uma orgia sonora desesperada no marco dos 2 minutos e meio.
Contudo, as canções de Moms não chafurdam apenas o sofrimento e o rancor como um lamento. Apesar do abandono e solidão serem temas constantes, nem sempre eles são acompanhados por melodias tristes e resoluções amargas, como em “Plumage”, que abre o disco com palmas, piano, guitarra e bateria em vibrante comunhão, incluindo um solo de saxofone bem à moda da banda, enquanto Harris compara a dança do acasalamento das aves com a sedução de uma mulher que acaba grávida e sozinha – uma referência clara à situação de sua própria mãe. Outras faixas que não deixam os versos agridoces afetar a melodia são “Capsule”, cuja bateria sincopada é marcada por solos ásperos de guitarra e breves toques ao piano que se sobrepõem à observações precisas sobre viver tendo perdido quem se ama (“while i’m evolving from a child to an aging child you’re maturing from a memory to a legacy”), “Skintercourse”, com Harris cantando o amor e a invevitável dependência e repúdio que costumam acompanhá-lo ao mesmo tempo que guitarra, baixo, piano e bateria alternam-se, misturam-se e apoiam-se ao melhor estilo da banda, “Giftshoppe”, com sonoridade profusa onde todos os instrumentos mesclam-se em uma espiral melódica e onde Seim divaga sobre seu amadurecimento enquanto caminha para os 40 anos (“you perverted aging fuck, what age did your mind get stuck?”), “Tantalus”, também com uma composição cíclica típica da banda, cuja base está na cadência trabalhada, re-trabalhada e subvertida muitíssimo bem por Daniel na bateria enquanto piano, guitarra e teclado intervém na síncope percussiva e as letras refletem sobre a inevitabilidade da morte, a percepção da efemeridade da vida e do que foi feito até então dela (“volcanic dirt stains feet and won’t wash out of clothing, this is where your ashes should be strewn instead of some cold mainland suburb”). No fim, a saída de Brent Knopff não apenas fez bem ao Menomena, como até ouso dizer que foi necessária para o crescimento dela: se antes o trabalho da banda seduzia os fãs pela sua energia e vibração na mais pura celebração hedonista, agora ela os conquista e arrebata por não mais evitar revelar que aqueles garotos são na verdade tão humanos quanto eles próprios, sujeitos assim à sofrer com os mesmos sentimentos de revolta e perplexidade diante da enorme confusão que não poucas vezes a vida mostrar ser.

http://www.mediafire.com/file/dj7twf948mowb5m/mem_-_moms.zip

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Menomena – “Heavy is As Heavy Does” (single)

Duas notícias para os que, como eu, são fãs dos rapazes de Portland da banda Menomena, uma ruim e outra boa. A ruim, que nem é notícia por ser já um tanto velha, é que um de seus três componentes, Brett Knopf, deixou a banda para dedicar-se ao seu projeto particular, Ramona Falls, depois de não conseguir mais se entender com os companheiros Justin Harris e Daniel Seim. Apesar de inicialmente nutrirem dúvidas se deveriam ou não seguir juntos, ambos chegaram a conclusão de que valeria a pena tentar. E aí é que temos a notícia boa: Moms, o novo álbum da agora dupla de Portland, será lançado dia 18 de Setembro. A partida de Knopf abriu a possibilidade para a dupla remanescente enveredar por um trabalho mais pessoal, sem receios de destrinchar intimidades particulares, daí o nome do álbum, que é focado em experiências e histórias relativas à vivência de ambos e de suas respectivas famílias. “Heavy is as Heavy Does”, uma das faixas do novo disco, foi liberada hoje e já dá aos fãs um pequeno aperitivo de qual será a musicalidade da banda, agora que Seim e Harris podem trabalhar de modo mais focado. A bem da verdade, ela não difere muito da musicalidade mais harmoniosa e menos esquizofrênica de parte das faixas de Mines, o disco anterior: um piano em registro baixo revira ciclicamente os mesmos acordes enquanto versos como “Heavy are the branches hanging from my fucked up family tree, and heavy was my father, a stoic man of pride and privacy” descortinam a intimidade de Justin Harris sobre uma percussão mais organizada e solícita – mas apesar do saxofone hipnótico do Menonema que todos amamos não desempenhar mais do que um papel pontual nesta nova música, um solo rascante de guitarra e uma bateria ensandecida não se fazem de rogados e transbordam no outtro melódico da faixa – bom saber que os rapazes ainda tem gosto por estripulias.

Menomena – "Heavy Is As Heavy Does" (Audio)

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Ormonde – Machine [download: mp3]

Uma dupla de músicos inquietos, até então desconhecidos entre si, resolve se isolar em uma casa rústica de uma cidadezinha do estado americano do Texas para colaborar em um álbum, ao mesmo tempo que começam a se conhecer. Desse experimento singular surgiu o disco Machine, uma seleção de canções de melodias delicadas geralmente guiadas pelo vocal singelo, porém marcante de Anna-Lynne Williams (que por vezes lembra a fantástica Sarah Blasko, em outras a reclusa Erin Moran), e que vez ou outra são embebidas no cantar preguiçoso e misterioso de Robert Gomez. A primeira metade do disco de apenas 10 canções é primorosa e demonstra o cuidado de ambos na composição de uma atmosfera atravessada por um vapor de onirismo sem que esta seja tomada por um denso nevoeiro de pasmaceira sonora. “I Can’t Imagine”, a primeira faixa, demonstra muito bem isto no tecimento da melodia, já que os instrumentos soam cristalinos, sejam os acordes leves, por vezes metálicos, na guitarra e violão ou na bateria que os acompanha contemplativamente sob o vocal melancólico de Anna-Lynne. Logo em seguida, em “Cherry Blossom” somos agraciados com a voz exótica de Gomez, que dilui-se homogênea em meio a quimera melódica de violões, pianos, bateria, baixo e iluminuras no órgão. De pronto também temos um cover de “Lemon Incest”, originalmente cantada por Serge Gainsbourg e sua filha Charlotte, que aqui transpira fantasia com a percussão macia e o cravo idílico à fazer parceria ao dueto dos artistas. “Machine”, a faixa título que tem como base um órgão malemolente como uma brisa de um dia morno de primavera, instaura uma paz tão intensa em quem a escuta que é quase impossível escutá-la sem desconectar-se da realidade. “Secret” marca a metade do disco, sendo a primeira canção a destoar da melancolia reinante até então com uma bateria bem sincopada e marcada, um piano de acordes lépidos, e solos de guitarra e de órgão mais caudalosos. A partir daqui, as faixas que se destacam são “Sudden Bright”, com sua doce e tranquila melodia ao violão lubrificada apenas por alguns riffs de guitarra e harmonias no teclado, “Hold the Water”, cuja melodia trilha por uma percussão em ritmo mecanizado imutável enquanto violão, teclado e vocais humanizam a música com brandura e “Drink”, que sobre uma bateria pacata induz um estado de completo relaxamento com a harmonia breve e contínua no teclado e piano que é convertida em um solo idílico que finaliza a faixa. “I’ll Let You Know” fecha com violões, harmônica e percussão serenos a colaboração entre os dois artistas com a mesma cálida quietude com que a abriram. Fica a torcida para que os dois artistas voltem a se reunir para amadurecer ainda mais uma parceria que surpreende por frutificar de uma experiência que poderia dar em coisa alguma. Certo, talvez não surpreenda tanto quanto se deparar em Marfa, a cidade onde o projeto musical foi concebido, com uma loja da grife Prada absolutamente perdida em meio à aridez e vastidão desértica do Texas – talvez por isso a dupla de artistas goste tanto do lugar.

http://www.mediafire.com/file/y7sfhy96xpsk87e/ormon-machi.zip

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Fiona Apple – The Idler Wheel… [download: mp3]

Reza a lenda que a primeira versão do 3o disco de Fiona Apple, Extraordinary Machine, jamais viu oficialmente a luz do sol porque os executivos da gravadora Sony/Epic o acharam sem qualquer apelo comercial, e por conta disso, o disco, em boa parte remodelado, só foi lançado dois anos depois – e isso graças à uma intensa mobilização dos fãs. Fico curioso imaginando o que os atuais executivos da gravadora pensaram ao ouvir o novo disco da cantora, The Idler Wheel. Se a primeira versão de Extraordinary Machine, com suas orquestrações transbordantes, baterias imponentes e pianos retumbantes foi avaliada daquele modo por eles, o que dizer de um disco tão, mas tão seco que pouco se pode notar da presença de um baixo, quem dirá de uma guitarra? Só posso pensar que eles não ouviram o disco. Ou vai ver os novos chefes do selo musical são mais afeitos à uma cantora que dispensa um produtor musical e se deixa aventurar em melodias enormemente despojadas e improvisadas em companhia apenas do seu novo comparsa, o baterista Charlie Drayton. Afora algumas pequenas, pontualíssimas inserções de alguns instrumentos – como celestes – em participações tímidas, todas as melodias do disco se apoiam em percussão, muitas vezes produzida de modo nada ortodoxo, e no piano da cantora – que nem mesmo aparece em todas as faixas. É uma abordagem bastante radical, embora esse caminho faça algum sentido depois de Extraordinary Machine ter se despido melodicamente de sua primeira versão, produzida por Jon Brion, para a segunda, a cargo de Mike Elizondo e Brian Kehew. Por conta disso, mesmo já tendo sido preparados com o lançamento de algumas músicas do disco na internet, os fãs certamente vão estranhar o primeiro contato com o álbum, já que canções como “Daredevil”, com sua percussão ao mesmo tempo frenética e discreta como o bater de asas de um beija-flor, o piano de toques espaçados e o vocal esquizofrênico no refrão, “Jonathan”, com pianos mais oblíquos até do que se poderia esperar da cantora e com percussão e ruídos mecanizados que lembram o trabalho de Björk em algumas faixas de Selmasongs, “Left Alone”, com uma jam session solo de bateria, piano impromptu e sequências vocais inesperadas e “Periphery”, com piano de acordes minimalistas e sample do que parece ser um calçado sendo esfregado em um tapete, entram um tanto quadradas no ouvido – mas há chances de que eles sejam amaciadas um pouco mais em posteriores audições.
Isso não quer dizer, porém, que o minimalismo preponderante resulte apenas em canções difíceis que necessariamente precisam de algum tempo sendo processadas nos tímpanos. Várias faixas igualmente espartanas já caem no gosto de pronto, caso do já conhecido single “Every Single Night”, com suas cintilações delicadas onde a cantora declara o frágil equilíbrio de um relacionamento amoroso nas letras ao afirmar “the rib is the shell, and a heart is a yolk,…and if we had a double, king-sized bed, we could move in and I’d soon forget”, do harmonioso piano solo de “Werewolf”, que ao ser aberta com os versos “I could liken you to a werewolf the way you left me for dead, but I admit that I provided a full moon” revela como a cantora amadureceu sua visão sobre relações amorosas, de “Regret”, faixa onde a cantora solta a voz num refrão bem ao seu estilo, cantando “I ran out of white dove feathers to soak up the hot piss that comes through your mouth every time you address me” com a já sua característica verve furiosa, de “Anything We Want”, que soa melodicamente familiar, já que a percussão mais encorpada que acompanha o piano lembra bastante o trabalho de Jon Brion ao lado da cantora, e da divertidíssima canção que fecha o disco, “Hot Knife”: o trabalho conjunto da percussão ritmada, do piano de cabaret e dos vocais em coro no refrão, junto com metáforas de caráter ambíguo como “If I’m butter, then he’s a hot knife, he makes my heart a cinemascope, he shows me the dancing bird of paradise”, fariam Fiona Apple entrar no palco de um musical da Broadway com a confiança de uma corista experiente no ramo – e esta é exatamente a palavra que define este disco, tanto para a artista quanto para seus admiradores: só uma artista em uma fase bastante segura de si poderia produzí-lo; em contrapartida, só o tempo vai dizer se com o despojamento de The Idler Wheel os fãs continuarão seguros de toda admiração que tem por ela. Eu acredito que alguns corações podem ficar estremecidos, mas ao final, mesmo que esse não seja no seu todo o disco que os fãs esperaram tanto tempo, é uma obra tão sincera e intensamente pessoal como nunca Fiona havia feito – algo que raramente se vê hoje em dia, infelizmente.

http://www.mediafire.com/file/unbamvuur59ov1k/apple-idle.zip

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