Sol Seppy – The Bird Calls, and Its Song Awakens the Air, and I Call


Se você acha que Fiona Apple é a mais reclusa e obtusa artista que se conhece é porque nunca ouviu falar de Sol Seppy. Pra se ter uma idéia, seis anos se passaram desde The Bells of 1 2, o imensamente belo álbum solo de estréia da cantora, e desde então, a única coisa que a talentosa artista concedeu ao público foi uma faixa (“I Am Snow”) para a compilação Carteir – Love (que conta, inclusive, com uma canção da atriz francesa Marion Cotillard), lançada em 2008. E, diferentemente da cantora americana, que deu toneladas de entrevistas para o lançamento neste ano do seu álbum, até hoje muito pouco se viu, leu ou ouviu da cantora britânica de origem grega (seu nome verdadeiro é Sophie Michalitsianos) que não fosse suas músicas. Até mesmo fotos da moça não passam de alguns punhados que se encontra na internet. Apresentações ao vivo e vídeos? Esqueça. São ainda menos numerosos que imagens. Ao que parece, a artista trabalha no seu ritmo, sem se preocupar com a frequência de lançamentos estabelecido como padrão pela indústria da música ou com a panacéia de ritos necessários para se chegar ao conhecimento púlico ou para mantê-lo. Por conta disso, só fiquei sabendo há poucos dias que a cantora deu o ar de sua graça em fevereiro deste ano para lançar um EP de apenas três faixas. Parece pouco, mas para o seu público, sedento há anos por alguma de suas composições tão singulares, já é motivo suficiente para se comemorar. As três canções foram nomeadas de forma que compõe um verso, “Part of/ Music/ Live in Me”, o que já indica a sua semelhança na tonalidade melódica: todas lidam com não mais do que piano, violão e violoncelo para tecer as harmonias delicadas, etéreas, difusas e distantes que marcaram boa parte das composições do disco de estréia da britânica. De uma melancolia não propriamente triste, mas reflexiva e contemplativa, as faixas são pontuadas e atravessadas por silêncios profundos e tão significativos quanto a própria melodia, o que permite ao vocal sempre calmo e terno, que por vezes ecoa longínquo e abissal e em outras familiar e reconfortante, elevar-se sob a frágil tecitura musical que lhe serve de acompanhamento. A única coisa ruim que fica do lançamento deste pequeno EP (além da capa, que resolvi ignorar e criar outra um pouco mais interessante) é a impressão de que com ele a profundamente talentosa artista se dará por satisfeita por mais um longo período sem lançar qualquer outra coisa. Vamos torcer para que isto não passe de uma impressão e tenhamos logo uma fantástica surpresa reservada para breve.

senha: seteventos

mediafire.com/?1bawei5bkqbps0d

P.S. – apesar de estar oferecendo link para o material, sugiro que em apoio à uma artista que produz tão pouco, todos comprem o lançamento pelos canais oficiais. Você pode fazê-lo neste link do loja de música online Indie Torrent, que apoia artistas independentes como Sol Seppy. Apesar do nome, o link oferecido é por download direto, e não torrent, e custa apenas U$3,50 dólares em formato mp3 ou FLAC, o que é uma vantagem sobre todas as outras lojas online que costumam cobrar mais por este formato que preserva a máxima qualidade de áudio. Não deixe de fazê-lo, porque vale cada centavo.

Menomena – Moms


Menomena, a agora dupla de Seattle, depois da partida de Brent Knopff para se dedicar ao seu projeto Ramona Falls, segue seu caminho sem esmorecer pela saída de um dos membros, já que Moms, o novo disco da banda, foi gestado com uma rapidez considerável para o histórico dos rapazes de Portland. O primeiro trabalho em que Justin Harris e Daniel Seim trabalham sozinhos é um disco que apesar de manter a mesma energia que estamos acostumados a esperar nas composições da banda traz harmonias que estão na maior parte do tempo mais focadas do que no álbum anterior. Porém, o grande diferencial de Moms, que o coloca como o divisor de águas na carreira da banda são as suas letras: com a saída de Knopff, pela primeira vez Harris e Seim permitiram-se abordar temas mais íntimos para si próprios, inquietações altamente pessoais, mas também enormemente universais, como a família, o envelhecimento e a morte. Em outras palavras, é um disco mais maduro liricamente e emocionante como nunca antes a banda se deu o direito de ser. “Pique” é um exemplo, com a intensidade da percussão, piano e baixo, os acordes vibrantes da guitarra e o saxofone em participação impecavelmente espetacular acompanhando Justin Harris desmanchando sua alma no vocal ao descortinar de modo amargurado a sua criação sem a presença do pai, que o abandonou logo cedo: “now I’m a failure, cursed with male genitalia, a parasitic fuck with no clue as to what men do, impossible to love”. Mas é difícil, se não impossível, a tarefa de apontar a canção mais emocionante do disco, já que em “One Horse”, onde a banda pela primeira vez emprega o uso de orquestrações na melodia, Seim acompanha a letárgica melancolia do piano e a sôfrega harmonia de violinos e violoncelos despedaçando o coração ao cantar com uma crueza impressionante a perda da mãe quando ainda adolescente: “I had a mother who swam in your streams, I know the ending, yet I’m faking suspense, more fertilizer for the trees”. “Heavy is as Heavy Does”, cantada por Harris, é mais uma ode ferina à desestruração familiar, onde versos como “as powerfull as a man he was, pride my father never was of me” são acompanhados por um piano em cadência imutável, enquanto aos poucos crescem guitarra e bateria que explodem em uma orgia sonora desesperada no marco dos 2 minutos e meio.
Contudo, as canções de Moms não chafurdam apenas o sofrimento e o rancor como um lamento. Apesar do abandono e solidão serem temas constantes, nem sempre eles são acompanhados por melodias tristes e resoluções amargas, como em “Plumage”, que abre o disco com palmas, piano, guitarra e bateria em vibrante comunhão, incluindo um solo de saxofone bem à moda da banda, enquanto Harris compara a dança do acasalamento das aves com a sedução de uma mulher que acaba grávida e sozinha – uma referência clara à situação de sua própria mãe. Outras faixas que não deixam os versos agridoces afetar a melodia são “Capsule”, cuja bateria sincopada é marcada por solos ásperos de guitarra e breves toques ao piano que se sobrepõem à observações precisas sobre viver tendo perdido quem se ama (“while i’m evolving from a child to an aging child you’re maturing from a memory to a legacy”), “Skintercourse”, com Harris cantando o amor e a invevitável dependência e repúdio que algumas vezes o acompanham, ao mesmo tempo que guitarra, baixo, piano e bateria alternam-se, misturam-se e apoiam-se ao melhor estilo da banda, “Giftshoppe”, com sonoridade profusa onde todos os instrumentos mesclam-se em uma espiral melódica e onde Seim divaga sobre seu amadurecimento enquanto caminha para os 40 anos (“you perverted aging fuck, what age did your mind get stuck?”) e “Tantalus”, também com uma composição cíclica típica da banda, cuja base está na cadência trabalhada, re-trabalhada e subvertida muitíssimo bem por Daniel na bateria enquanto piano, guitarra e teclado intervém na síncope percussiva e as letras refletem sobre a inevitabilidade da morte, a percepção da efemeridade da vida e do que foi feito até então dela (“volcanic dirt stains feet and won’t wash out of clothing, this is where your ashes should be strewn instead of some cold mainland suburb”). No fim, a saída de Brent Knopff não apenas fez bem ao Menomena, como até tenho a audácia de dizer que foi necessária para o seu crescimento: se antes o trabalho do Menomena seduzia os fãs pela sua energia e vibração na mais pura celebração hedonista, agora ela os conquista e arrebata definitivamente por não mais esconder que aqueles garotos são na verdade tão humanos quanto eles próprios, sujeitos assim à sofrer com os mesmos sentimentos de revolta, rancor e perplexidade diante das arbitrariedades da vida.

senha: seteventos

mediafire.com/?dj7twf948mowb5m

Menomena – “Heavy Is As Heavy Does” (single)

Menomena - Justin Harris and Daniel Seim
Duas notícias para os que, como eu, são fãs dos rapazes de Portland da banda Menomena, uma ruim e outra boa. A ruim, que nem é notícia por ser já um tanto velha, é que um de seus três componentes, Brett Knopf, deixou a banda para dedicar-se ao seu projeto particular, Ramona Falls, depois de não conseguir mais se entender com os companheiros Justin Harris e Daniel Seim. Apesar de inicialmente nutrirem dúvidas se deveriam ou não seguir juntos, ambos chegaram a conclusão de que valeria a pena tentar. E aí é que temos a notícia boa: Moms, o novo álbum da agora dupla de Portland, será lançado dia 18 de Setembro. A partida de Knopf abriu a possibilidade para a dupla remanescente enveredar por um trabalho mais pessoal, sem receios de destrinchar intimidades particulares, daí o nome do álbum, que é focado em experiências e histórias relativas à vivência de ambos e de suas respectivas famílias. “Heavy is as Heavy Does”, uma das faixas do novo disco, foi liberada hoje e já dá aos fãs um pequeno aperitivo de qual será a musicalidade da banda, agora que Seim e Harris podem trabalhar de modo mais focado. A bem da verdade, ela não difere muito da atmosfera mais polida e menos esquizofrênica de parte das faixas de Mines, o disco anterior: um piano em registro baixo revira ciclicamente os mesmos acordes enquanto versos como “Heavy are the branches hanging from my fucked up family tree, and heavy was my father, a stoic man of pride and privacy” descortinam a intimidade de Justin Harris sobre uma percussão mais organizada e solícita – mas apesar do saxofone hipnótico do Menonema que todos amamos não desempenhar mais do que um papel pontual nesta nova música, um solo rascante de guitarra e uma bateria ensandecida não se fazem de rogados e transbordam no outtro melódico da faixa – bom saber que os rapazes ainda tem gosto por estripulias sonoras.

Menomena – “Heavy Is As Heavy Does” (do álbum Moms)

Play

{mediafire.com/?larlexk57jtp62x}

Fiona Apple – The Idler Wheel (faixa bonus + 5 faixas ao vivo) [download: mp3]

Fiona Apple - The Idler Wheel
Reza a lenda que a primeira versão do terceiro disco de Fiona Apple, Extraordinary Machine, jamais viu oficialmente a luz do sol porque os executivos da gravadora Sony/Epic o acharam sem qualquer apelo comercial, e por conta disso, o disco, em boa parte remodelado, só foi lançado dois anos depois – e isso graças à intensa mobilização dos fãs. Fico curioso imaginando o que os atuais executivos da gravadora pensaram ao ouvir o novo disco da cantora, The Idler Wheel. Se a primeira versão de Extraordinary Machine, com suas orquestrações transbordantes, baterias imponentes e pianos retumbantes foi avaliada daquele modo por eles, o que dizer de um disco tão, mas tão seco que pouco se pode notar da presença de um baixo, quem dirá de uma guitarra? Só posso pensar que eles não ouviram o disco. Ou vai ver os novos chefes do selo musical são mais afeitos à uma cantora que dispensa um produtor musical e se deixa aventurar em melodias enormemente despojadas e improvisadas em companhia apenas do seu novo comparsa, o baterista Charlie Drayton. Afora algumas pequenas, pontualíssimas inserções de alguns intrumentos – como celestes e violões – em participações tímidas, todas as melodias do disco se apoiam em percussão, muitas vezes produzida de modo nada ortodoxo, e no piano da cantora – que nem mesmo aparece em todas as melodias. É uma abordagem bastante radical, embora esse caminho faça algum sentido depois de Extraordinary Machine ter se despido melodicamente de sua primeira versão, produzida por Jon Brion, para a segunda, a cargo de Mike Elizondo e Brian Kehew. Por conta disso, mesmo já tendo sido preparados com o lançamento de algumas músicas do disco na internet, os fãs certamente vão estranhar o primeiro contato com o álbum, já que canções como “Daredevil”, com sua percussão ao mesmo tempo frenética e discreta como o bater de asas de um beija-flor, o piano de toques espaçados e o vocal esquizofrênico no refrão, “Jonathan”, com pianos mais oblíquos até do que se poderia esperar da cantora e com percussão e ruídos mecanizados que lembram o trabalho de Björk em algumas faixas de Selmasongs, “Left Alone”, com uma jam session solo de bateria, piano impromptu e sequências vocais inesperadas e “Periphery”, com piano de acordes minimalistas e sampler do que parece ser um calçado sendo esfregado em um tapete, entram um tanto quadradas no ouvido – mas há chances de que elas sejam amaciadas um pouco mais em posteriores audições.
Isso não quer dizer, porém, que o minimalismo preponderante resulte apenas em canções difíceis que necessariamente precisam de algum tempo sendo processadas nos tímpanos. Várias faixas igualmente espartanas já caem no gosto de pronto, caso do já conhecido single “Every Single Night”, com suas cintilações delicadas onde a cantora declara o frágil equlíbrio de um relacionamento amoroso nas letras ao afirmar “the rib is the shell, and a heart is a yolk,…and if we had a double, king-sized bed, we could move in and I’d soon forget”, do harmonioso piano solo de “Werewolf”, que ao ser aberta com os versos “I could liken you to a werewolf the way you left me for dead, but I admit that I provided a full moon” revela como a cantora amadureceu sua visão sobre relações amorosas, de “Regret”, faixa onde a cantora solta a voz num refrão bem ao seu estilo, cantando “I ran out of white dove feathers to soak up the hot piss that comes through your mouth every time you address me” com a já sua característica verve furiosa, de “Anything We Want”, que soa melodicamente familiar, já que a percussão mais encorpada que acompanha o piano lembra bastante o trabalho de Jon Brion ao lado da cantora, e da divertidíssima canção que fecha o disco, “Hot Knife”: o trabalho conjunto da percussão ritmada, do piano de cabaret e dos vocais em coro no refrão, junto com metáforas de caráter ambíguo como “If I’m butter, then he’s a hot knife, he makes my heart a cinemascope, he shows me the dancing bird of paradise”, fariam Fiona Apple entrar no palco de um musical da Broadway com a confiança de uma corista experiente no ramo – e esta é exatamente a palavra que define este disco, tanto para a artista quanto para seus admiradores: só uma artista em uma fase bastante segura de si poderia produzí-lo; em contrapartida, só o tempo vai dizer se com o despojamento de The Idler Wheel os fãs continuarão seguros de toda admiração que tem por ela. Eu acredito que alguns corações podem ficar estremecidos, mas ao final, mesmo que esse não seja no seu todo o disco que os fãs esperaram tanto tempo, é uma obra tão sinceira e intensamente pessoal como nunca Fiona havia feito – algo que raramente se vê hoje em dia, infelizmente.

senha: seteventos

mediafire.com/?tc1oo5sn4dcqii6

Birdy (+ 3 faixas bônus e 2 versões acústicas). [download: mp3]

Birdy
Birdy, também conhecida como Jasmine Van de Bogaerde, não tem a arte no sangue apenas por ser filha de uma exímia pianista. Quem é cinéfilo, já percebe algo no sobrenome: a garota é sobrinha-neta do já falecido ator Dirk Bogarde, de clássicos absolutos como “Morte em Veneza” e de filmes ousados e obscuros como o “O Porteiro da Noite”. Talvez daí venha a melancolia e a imensa capacidade emotiva do vocal da garota. Graças à este dom, Jasmine pode vestir uma cuidadosa seleção de faixas pinçadas do rock indie e alternativo dos últimos dez ou quinze anos – contando para tanto com a ajuda de um punhado de produtores musicais experientes da atualidade – em uma abordagem sensível que alterna delicadeza e exuberância.
Como não poderia deixar de ser, já que foram imenso sucesso na internet e até mesmo utilizadas como trilha de seriados de TV, estão presentes no debut os singles que a trouxeram ao conhecimento do público na web, como “Skinny Love”, onde apresentou seu piano triste enquanto exibia toda a extensão do seu vocal doce e macio, “Shelter”, que além do piano tão dramático e amargurado quanto o esplêndido vocal de Birdy traz sutis sintetizações etéreas, e “People Help The People”, fabulosa versão que com bateria, guitarra, baixo e violoncelo acompanhando o piano mostrou que a menina se sai tão bem dividindo seu brilho com uma banda quanto na solidão do estúdio com seu piano. Por falar na banda, na abertura do disco, quando é removida de “1901″ toda a verve brejeira e lo-fi das guitarras da versão original da banda Phoenix em detrimento de um andamento lento comandado por piano e bateria que dá direito à quem ouve a música de realmente apreciar toda sua beleza, percebe-se ali alguns vapores de Fiona Apple. A impressão não é um equívoco condicionado pelas várias semelhanças físicas, artísticas e de situação entre as duas mulheres: um dos músicos convidados, e que surge nesta primeira faixa, é o baterista Matt Chamberlain, que já trabalhou com a reclusa e idiossincrática cantora e compositora americana. Mas mesmo com uma produção de ponta e produtores consagrados, Birdy consegue instaurar em sua música ares de artista independente, como em “White Winter Hymnal”, do Fleet Foxes: o pulso mecanizado da percussão sob os acordes singelos no piano e as várias camadas de vocal sobreposto de Birdy emulam parte da atmosfera algo artesanal da versão da banda, mas investe-se aqui em uma maior simplicidade melódica, tão cativante quanto a original. Nas faixas “Young Blood” e “Terrible Love” há um polimento melódico ainda mais vigoroso: na primeira, saem de cena as guitarras e apazigua-se a multitude de sintetizações, características da versão feita pelo The Naked and Famous, para que a melodia reverbere em um todo mais homogêneo onde acordes de guitarra e teclados cintilam e vibram sobre uma programação mais leve, tudo de modo a não atrapalhar a interpretação equilibrada da britânica; na segunda, é mantido o crescendo melódico, mas ao invés das guitarras e o vocal blasé da banda The National que roubam tudo o que podem de Joy Division e The Smiths, há a voz incomparavalmente mais emotiva de Birdy, seu piano singelo e uma orquestração de cordas que laceia o esplendor sentimental desta versão.
Mas está completamente equivocado quem possa pensar que começar a carreira com um disco de covers é uma decisão que revela a opção pelo caminho mais fácil. Com a ajuda de uma boa trupe de produção e um afiado sentido melódico consegue-se aperfeiçoar muito músicas que não aproveitavam todo o seu potencial melódico, mas o desafio torna-se bem mais complexo e ousado quando se tenta reconstruir em uma nova versão o mesmo impacto de uma canção que já exibia todo o fulgor de sua melodia, exatamente o caso de “Comforting Sounds”, fabulosa já na sua primeira versão dos dinamarqueses do Mew. Como refazer toda a grandeza resplandecente do solo melódico das guitarras originais sem perder a singularidade do elemento emocional da primeira versão? Parece mesmo uma tarefa ingrata. Contudo, a menina e sua equipe, aqui lideradas pelo gabaritado produtor Rich Costey, sucedem e muito bem na missão: com Birdy derramando toda a alma nos vocais da canção e deixando espaço para que synths de orquestração de cordas refaçam o espetacular efeito maciço das guitarras na explosão melódica original, “Comforting Sounds” acaba sendo um dos covers mais belos do disco, imensamente emocionante e capaz mesmo de trazer lágrimas aos olhos. E ainda sobra ânimo e força para um delicado registro nos teclados da meiga “Farewell and Goodnight”, originalmente dos americanos do The Smashing Pumpkins, e até mesmo um aperitivo do que virão a ser composições originais desta garota-prodígio britânica, com a angustiada balada ao piano “Without a Word”. É uma estréia muito promissora, não apenas porque a garota de 16 anos prova que ainda surgem alguns artistas jovens que podem demonstrar mais maturidade e sofisticação do que cantores estreantes menos novos ou mesmo veteranos do rock e pop, mas pirincipalmente porque a menina revelou-se uma cantora segura de sua capacidade e com uma identidade que brota já com considerável consistência artística – mesmo que suas composições não frutifiquem futuramente em algo realmente proveitoso, fica a certeza de que na pior das hipóteses teremos uma interpréte das mais vigorosas da música da atualidade.

senha: seteventos

mediafire.com/?54y4bigvovgme4b

Agradecimentos ao @rainervinicius pela dica dada há alguns meses! ;)

Cowboy Junkies – Renmin Park e Demons (+ EP bônus). [download: mp3]

Cowboy Junkies - Renmin ParkA banda canadense Cowboy Junkies até hoje não consegue a merecida projeção que a qualidade de sua música merece. Afora o seu próprio país, a banda dos irmãos Margot e Michael Timmins é conhecida e apreciada por bem poucos – o disco que mais chegou perto de um sucesso foi o espetacular Lay It Down, cuja resenha do Seteventos você conferir clicando neste link. Isso, porém, não parece incomodar os músicos, já que há 25 anos eles mantém o ritmo de gravações e shows. E foi justamente em comemoração à isto que a banda concebeu o projeto The Nomad Series, um conjunto de quatro discos que estão sendo lançados dentro de um período de dezoito meses refletindo e reunindo tanto novas inspirações para a banda como velhas influências da sua carreira. Destes, dois volumes já foram lançados.
Renmin Park, cujo nome faz referência aos belos parques que enfeitam grande parte das cidades da China, país no qual Michael passou um período de três meses enquanto providenciava e aguardava o processo de adoção de duas crianças, é o Volume 1 da série de discos. A estadia no país inevitavelmente influenciou as composições do primeiro disco do projeto: quase todas as músicas contam com o apoio de sons e ruídos gravados pelas ruas chinesas enquanto Michael passeava para conhecer melhor a cultura e costumes do país. A faixa “Intro” é tão somente isto: uma mistura do registro de sons ambientes para apresentar a atmosfera na qual o disco teve sua gênese. À exceção de “A Walk In The Park”, cantada em mandarim por um cantor chinês amigo da banda e que integra ritmos, vozes da cultura musical chinesa com a ambiência rock da banda, a maior parte das outras canções utilizam estes elementos em grande parte apenas como adorno, preservando em sua integridade a já conhecida mistura de folk e rock com uma pitada de country que caracteriza as músicas da banda. É o que ocorre na faixa título, onde somos surge os violão tão conhecido da banda o vocal sempre emocionante de Margot, entoado em um registro tão triste e amargurado quanto o violino solo em um lamento tipicamente oriental que faz a ponte melódica da faixa. Outras faixas que tem a inserção de ambiências orientais temperando a melodia são “Sir Francis Bacon At The Net”, com o gingado soturno da bateria e baixo, intensificados por reverberações metálicas de guitarra e pelo cantar misterioso dos irmãos Timmins, em uma rara participação conjunta nos vocais, “(You’ve Got To Get) a Good Heart”, intoduzida por uma climática reverberação de acordes de piano e que conta com bateria e baixo em evidência na cadência discretamente soturna na qual os vocais se mantém em um registro baixo e “Cicadas”, cujo base melódica é guiada por um baixo em pulso marcado e preenchida por uma combinação da captação de sons das ruas e parques chineses e de semi-silêncios em solos de violoncelo e violino enquanto a voz macia e determinada de Margot acompanha a harmonia e prepara a entrada da bateria e do violão.
Mas há canções no disco que se limitam apenas à fronteira da tradicional musicalidade rock da banda. Entre elas, “Stranger Here”, com riffs de guitarra, violão e bateria de harmonia firme e o orgão que promove com perfeição a liga da melodia, as baladas “I Cannot Sit Sadly By Your Side” e “Little Dark Heart”, a primeira com um dos vocais mais desesperançados de Margot sobre riffs cada vez mais emaranhados e desesperados de guitarra, bateria e baixo em lento pesar e um piano que corta o coração com suas notas que despedaçam-se na melodia enquanto a segunda conta com violões pronunciados e toques malemomentes de guitarra e orgão sobre cantar levemente anasalado da vocalista e também “My Fall”, cover em inglês de uma música chinesa que com a solidez country-rock da bateria, violões, baixo e o vocal limpo e claro de Margot, adoçado pelo fremir de alguns acordes de guitarra e ocasional arranjo de violino, bem passaria por uma música composta pela própria banda.

Cowboy Junkies - DemonsO Volume 2 do projeto é o disco Demons, uma compilação de covers de composições de Vic Chesnutt, americano cantor de folk, country e rock alternativo que morreu no final de 2009 e que era grande amigo da banda. A intimidade e liberdade dos canadenses ao lidar com o material composto pelo colega é tão grande que não há qualquer diferença realmente visível entre estas canções e o catálogo do próprio Cowboy Junkies de tão coloridas que foram pelo vigor e frescor rock dos canadenses: “Wrong Piano”, com bateria bem cadenciada sobre um órgão esfuziante e riffs caudalosos de guitarra, “Flirted With You All My Life”, com piano, bateria, guitarra, órgão e baixo em amálgama harmônico algo dançante e “Ladle”, com diversas camadas de guitarras alternando e contrapondo-se sobre a harmonia sólida de bateria e baixo e os vocais potentes dos irmãos Timmins no refrão, todas foram incrementadas com as estudadas melodias e entusiasmos sem arestas tão bem conhecidos da banda.
Porém, apesar do belo trabalho dos canadenses ao adaptar as canções mais ritmadas do amigo americano ao seu próprio estilo, é lidando com as canções mais desiludidas, onde ressaltava-se a essência mais despojada e instrospectiva e menos maciça de Vic, que o Cowboy Junkies mostra-se brilhante, refundando as melodias à luz de sua estupenda matiz musical. É o caso de “Betty Lonely”, linda balada no vocal abatido de Margot sobre um órgão melancolicamente sensual e a cadência imutável e macia da bateria e do baixo, entrecortados tão somente por algumas farpas de guitarra, de “Square Room”, que ganhou uma orquestração de cordas discreta que sopra ao fundo, solícita e triste, enquanto Margot guia o passo cálido da bateria, do violão e do órgão com seu vocal que sublima emoção, da esplêndida “Supernatural”, que também conta com uma orquestração serena e destaca-se pela viola de acordes chorosos como companhia ao vocal amargurado e resignado da cantora canadense, do contemplativo arranjo de “We Hovered With Short Wings”, com percussão que farfalha como uma brisa, acordes de um polido violão e um taciturno clarinete namorando o semi-sussurar de Margot numa espetacular comunhão sonora que toma delicadamente os sentidos, e também da cortante “Marathon”, cujos violões e percussão só não são mais plangentes que o vocal sofridíssimo de Margot e Michael Timmins, que dilaceram a alma tanto quanto o fremir glacial da guitarra solo.
Impressiona mesmo os que já conhecem a banda de longa data que os canadenses não apenas sustentem a qualidade musical que vem desde o início de sua carreira, mas que depois de tanto tempo ainda desfrutem de um frenesi criativo que transborda tamanho refinamento e densidade melódica tanto ao trabalhar com material de seu próprio punho quanto de outros artistas, um luxo o qual nem mesmo bandas mais populares e lendárias conseguem dispor por tanto tempo – abençoado seja o Cowboy Junkies!

ifile.it/pkbiv40/junkies_-_park_-_of_-_demons.zip

senha: seteventos

e mais um bônus: clique aqui e baixe “3rd Crusade”, uma das faixas de Sing In My Meadow, o Volume 3 da série que está planejado para ser lançado em Agosto.