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Sarah Blasko – As Day Follows Night (+5 faixas bônus). [download: mp3]

Sarah Blasko - As Day Follows NightA australiana Sarah Blasko gosta de cercar suas canções em discos com forte identidade sonora. Foi assim na sua estréia fabulosa, com o pop/rock vibrante e poético de The Overture & The Underscore, e também no esplendoroso disco seguinte, What The Sea Wants, The Sea Will Have, que verteu uma melancolia com timbres metálicos, além da tecitura marítima que sugere o título. Para o seu terceiro lançamento, porém, Sarah resolveu deixar a terra natal e rumar para bem longe, almejando ares ainda mais diversos para seu novo álbum. A Suécia e o produtor Bjorn Yttling, do trio Peter, Bjorn and John, foram respectivamente as escolhas para ambiente e parceria na concepção do disco. E foi por conta da companhia e influência do músico sueco que a maior parte da energia algo elétrica que caracterizou a música da cantora australiana nos seus dois primeiros lançamentos acabou desaparecendo, cedendo lugar a arranjos mais macios, algo que se reflete inclusive no vocal da cantora, notadamente entoado em um matiz de diferente suavidade que encobre os versos de um caráter nostalgicamente menlancólico. Por conta disso, acostumado que estava com a identidade da cantora até então, estranhei imensamente este caminho sonoro um tanto diverso, e assim releguei o disco ao limbo da minha coleção de música, aguardando por meses o momento certo para reavaliá-lo.
E como já aconteceu antes, ao descobrir a beleza de uma única música acabei encontrando o caminho certo para outras: foi a elegância e sutil sensualidade exalada pelo groove suavemente jazzístico da percussão e piano de “Bird On A Wire”, a ondulação radiante do arranjo de cordas e o vocal sublime de Sarah que inicitaram finalmente meu encanto por outras faixas do disco. A partir daí, entendi que o talento da cantora e compositora, apesar de consideravelmente alterado, não foi desperdiçado, já que há sim belas faixas distribuídas pelo disco, como a batida hipnótica da bateria, percussão, piano e baixo de “No Turning Back”, reforçada por sopros graves e de fluxo breve, todos a certa altura evadidos por violões e backing vocals telúricos na ponte melódica da canção. “We Won’t Run”, de compasso bem marcado pela bateria, salpicada por delicados toques ao piano durante o refrão que é pontuado dramaticamente pelo ressoar dos pratos e cuja melodia encorpa-se pelo arranjo de cordas que avolumam sua base, exibe enorme graça e suavidade e ilustra com perfeição o novo estilo vocal incorporado pela cantora neste álbum. “All I Want”, conduzida pelos acordes sutis no violão e pela bateria em andamento quase fúnebre, conjuga cordas, sopros e um temerim para evocar uma marcante atmosfera de quimera. “Lost & Defeated” prossegue vagueando em devaneio sonoro sustentado pelo dedilhar das notas de um piano taciturno que pontua a música, feita de violões e percussão sutis e firmes e aos poucos ocupada por cordas e sopros que intensificam a sonoridade de delírio errante. Com uma percussão e violões de toques curtos, mas em franca cadência lúdica e gracejante, ressaltada pela tonalidade jovial do xilofone e do vocal de Sarah, “Over and Over” quebra um pouco esta tonalidade idiossincrática do disco, ainda que partilhe algo dela por fazer uso de instrumentação semelhante. Por sua vez, “I Never Knew”, o lamento de alguém que dolorosamente entende o bem que trará o fim de seu relacionamento, vagueia por um doce romantismo, ilustrado pela vibração suave do violão e da percussão, que flutuam ao fundo com brandura, e que é brevemente assinalado no seu trecho final por um vocal e cordas mais ardentes até ser novamente revertido na ternura melódica que é sua marca mais evidente.
Mas ao que parece, Sarah não atravessou oceanos, mares e continentes para deixar qualquer desejo, por mais extravagante que parecesse, sem ser atentido. Ocupando-se da composição de todas as músicas deste As Day Follows Night, já que dispensara a parceria do ex-companheiro Robert Cranny, Sarah Blasko achou por bem também alimentar a sua faceta de intérprete. Louca por cinema e adoradora de musicais, teve a belíssima idéia de selecionar canções dos que mais adora, como “A Noviça Rebelde” e “Cabaret”, para compor uma disco bônus do álbum. Deste segundo disco, batizado de “Cinema Blasko”, apenas uma música não é oriunda de um musical, tendo sido retirada de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, clássico dirigido por Woody Allen nos seus bons tempos de cineasta. As que resultaram nas melhores, porém, são as que eram as mais rasgadamente pop das cinco que compõe o disco: em interpretações intimistas, que não vão além de piano e voz, Sarah encobre “Out Here on My Own” (originalmente cantada por Irene Cara no musical “Fame”) de renovada camada de emoção e desnuda “Xanadu” (deliciosa na primeira versão pela voz de Olivia Newton-John no filme homônimo) de toda a sua cintilação setentista, pluralizando a sensibilidade de suas letras e melodia.
A mudança no estilo certamente não era necessária, mas é sempre bem-vinda. Faltou apenas acertar um pouco mais o “fuso-horário artístico” na viagem entre Oceania e Europa, já que a adoção desta nova musicalidade, que centra-se em uma ambiência mais apoiada em percussão e piano, também rendeu algumas composições um tanto frias e aborrecidas. Isso, porém, não reduz a força do seu maior êxito: o amálgama gracioso da acusticidade dos arranjos com o timbre nostálgico adotado por Sarah ao cantar suas novas composições na longínqua escandinávia. E quem aí não sabia que o velha Europa ainda tem charme suficiente para encantar o novo mundo?

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Sarah Blasko – The Overture & The Underscore. [download: mp3]

The Overture & the Underscore - Sarah BlaskoA australiana de olhos expressivos, Sarah Blasko, lançou-se em 2004 em carreira solo com The Overture & The Underscore, que reúne canções compostas por ela e seu colaborador, Robert F. Cranny. Apesar de Sarah ter comentado que procurou não delimitar e definir um estilo em sua estréia, deixando-se apenas entregar as possibilidades que surgiram durante sua criação, o ouvinte fica com uma sensação de que, dentro daquela sonoridade pop/rock, há sim uma identidade já sendo desenvolvida – sensação que é provavelmente fruto do contato com suas melodias e letras melancólicas e singelamente poéticas, bem como a impressão obtida ao ouvir sua voz de sensibilidade tão apurada.
Talvez pela consciência do dom que detém, Sarah escolheu privilegiar seu vocal no arranjo de “All Coming Back”, canção que abre o disco e fala sobre uma mulher que reflete sobre como o amor que vive é feito apenas de lembranças e momentos ruins: a instrumentação escassa é alimentada apenas por uma guitarra de acordes quase monotonais e agudos, um piano distante e ocasional e alguma programação eletrônica sutil na ponte melódica. Mas em “Beautiful Secrets”, sobre como podemos nos enganar achando que nossos segredos estão bem guardados, Blasko já apresenta suas melodias bem compostas com uma música mais farta, onde guitarras e baixos de acordes mínimos mas densos dividem espaço com sintetizações metálicas e cintilantes e um loop, fruto de programação, faz a vezes de base rítmica. Parece que não vai sobrar espaço para mais nada, porém Sarah consegue encaixar muito bem a bateria acústica na sequência final da canção e, assim, potencializa a emoção dos seus vocais. Mas na reclamação feita para um homem cujas palavras tem a intenção de lhe causar confusão e culpa, Sarah resolve deixar por um momento a melancolia e injetar mais energia com acordes rápidos de violão e toques cristalinos da guitarra, e incrementa ainda mais “Don’t U Eva” com uma bateria encorpada e furiosa. Porém, logo somos imersos novamente nas melodias e letras agridoces que Sarah mostra compor tão bem: “Perfect Now”, em que uma mulher se prepara para abandonar seu amor enquanto dorme, concluindo que é melhor deixá-lo enquanto tudo é felicidade, é uma balada suave onde violão, bateria, vocais e principalmente a base orquestrada de cordas suscitam a atmosfera harmoniosa dos primeiros trabalhos dos irlandeses do The Cranberries e em “Cinders”, a doçura da programação eletrônica, teclados e vocais contrasta com as letras em que Sarah relembra, com amargor, que não há como esquecer tudo o que aconteceu no passado e simplesmente seguir em frente. Como acontece com frequência no mundo da música, Sarah resguardou-se e deixou o melhor de si só para o final, nas duas últimas faixas do álbum, “True Intentions” e “Remorse”. Na primeira a garota atinge, tanto no vocal quanto na melodia, o crescendo emotivo, a classe e a elegância dignos de uma Nina Persson, e em “Remorse”, sobre pessoas que “parasitam” seus companheiros em uma relação afetiva para abandona-los, indefesos e frágeis, em troca de novas “vítimas”, Blasko pluraliza seu vocal, adicionando mais camadas e vocalizações eventuais ao fundo, enquanto na melodia notas leves e mínimas do piano conferem um tom dramático, as orquestrações sintetizadas promovem reflexos luminosos e a programação eletrônica discreta realça a atmosfera da canção.
É uma estréia e tanto: a menina mostra saber o que faz, exibindo muita segurança em suas melodias e letras que mesclam diferentes matizes de tristezas, rancores, arrependimentos e alguma alegria acidental e temporária. Talvez por confiar tanto em si é que Sarah escolheu estampar a capa de seu primeiro disco com toda a simplicidade possível, em um retrato expressivo que mescla confiança, ironia e ira – a síntese absoluta de seu estupendo The Overture & The Underscore.

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