Estórias de vários personagens se entrelaçam na sua relação com ONGs beneficentes e as falcatruas resultantes destas.
Não há muito como fazer um resumo de um filme do diretor brasileiro Sérgio Bianchi: seus filmes lembram a estrutura de alguns longas de Robert Altman e, no conteúdo, suscitam a ousadia de tratamento do tema que Lars Von Trier costuma ter. A diferença é que Bianchi enxerga o mundo – mais espeficamente o Brasil – de uma maneira ainda mais caótica e pessimista – alguns poderiam chama-lo de “porra louca”, e não estariam muito errados. No filme anterior, “Cronicamente Inviável”, Bianchi já fazia um ensaio sobre este seu novo longa, mostrando a miséria social e a inobservância governamental sobre os males que afligem o povo. Quando retratava as classes mais altas, ou mesmo aqueles que não eram ricos mas que não poderiam ser classificados como “miseráveis”, foi apenas para mostrar que na sua relacão com os párias da sociedade só poderia haver desprezo ou cinismo predatório travestido de caridade. No entanto, o filme não se concentrava em um único tema, discutindo de maneira caleidoscópica várias questões ao mesmo tempo.
Talvez por isso Bianchi tenha decido que em “Quanto vale ou é por quilo?” iria aprofundar sua investigação sobre esta relação e as suas consequências. Toda a crítica fundamentada neste seu último filme tem as organizações não-governamentais e seus inúmeros projetos socias como fio condutor e relacional: todos os personagens se encontram de alguma forma relacionados com estas entidades e suas ações. ONGs, para o diretor brasileiro, são apenas o mais novo mecanismo de exploraração social e econômica, a maneira legalizada daqueles que não pertencem a classe política de agir de maneira tão condenável quanto estes no exercício de suas funções.
Os personagens criados por Bianchi sempre agem movidos por intenções excusas, com o objetivo de lucrar – quaisquer que sejam os lucros – a todo custo. Todos acabam sendo corrompidos ou coniventes em algum momento por uma razão qualquer, e se causam algum benefício para o outro, isto acaba sendo puramente acidental, uma vez que a motivação sempre é o benefício próprio. Para Bianchi, as pessoas não costumam ter mais nenhuma ingenuidade ou inocência e, se por um acaso mostrem ter, eles a perdem tão logo o filme chegue ao seu final, independentemente de classe social ou raça ao qual pertençam: pobres, ricos, brancos, negros, qualquer pessoa acaba contribuindo para o conservação do estado de pobreza e violência em que se encontra a sociedade brasileira.
É bem verdade que isso acaba cansando, para não dizer ser bastante discutível, pois seu pessimismo e descrença no ser humano acaba sendo por demais radical e anárquico. No entanto, mesmo que você discorde da maneira como a gênese da inter-relação do problemas é pelo diretor vista, ninguém pode negar que Bianchi é dos únicos diretores que tem a coragem de realizar obras que devassam, de maneira tão sincera e crua, a realidade social brasileira – e por que não dizer, mundial? Tendo assistido apenas dois de seus filmes, posso ter alguma segurança em declarar que o diretor basicamente quer mostrar que muita coisa melhoraria se extinguíssemos duas coisas em nosso comportamento social/pessoal: o cinismo e a demagogia. São apenas duas atitudes com os quais podemos desenvolver nossa relação com o mundo, mas se livrar delas não é tão fácil quanto parece, como pode-se observar em “Quanto vale ou é por quilo?”. Infelizmente, sou obrigado a concordar pelo menos em um ponto com o diretor brasileiro: não há uma solução fácil para o caso. Isto se realmente existir alguma solução.
Mês: junho 2006
O Uruguaio Jorge Drexler foi revelado para os meios de comunicação de forma repentina através da indicação, e subsequente vitória, de sua composição, para o filme “Diários de Motocicleta”, para o Oscar de Melhor Canção. Quem é inteligente sabe aproveitar as oportunidades e reduzir um pouco mais a sua ignorância cultural. Visto que meus conhecimentos de música latina são irrisórios – e, por favor, não estou falando de Shakira -, aproveitei a ocasião para chafurdar a internet em busca de seu disco mais recente, e o maior responsável pela sua popularização, Eco/Eco 2.
Drexler mostrou-se, neste álbum, uma grata surpresa. Textos da internet comparam seu trabalho ao de Caetano Veloso, chamando a atenção para o uso de sutis ruídos eletrônicos. É certo que sua semelhança com o que de melhor há na MPB contemporânea salta aos ouvidos de qualquer brasileiro, mas a similiradede com a obra do mais famoso compositor baiano não é exatamente correspondente. A música de Drexler tem muito mais a ver com a poética sutil e o encantamento melódico de Adrina Calcanhotto e, em menor grau, com os últimos trabalhos de Marisa Monte. As composições do uruguaio transpiram delicadaza, classe, elegância e suavidade, tanto em seu caráter harmônico quanto lírico. A inspiração na sonoridade brasileira contemporânea fica bastante clara em “Don de Fluir”, com suave batida eletrônica e cadência deliciosa e elegante, na irresistível “Transporte”, com estupenda combinação de violões e bases eletrônicas, e na percussão macia e bem trabalhada dos versos doces de “El Monte y El Rio”. Porém, a qualidade da musicalidade de Jorge Drexler também revela-se nas sua composições de raízes mais românticas, como na reverberação algo cíclica da bela faixa-título, “Eco”, na harmonia que funde o melhor do pop com bases orquestradas e que adorna os versos de sincera sensiblidade de “Deseo”, e na linda melodia compassiva de “Todo se Transfoma”. A destreza do artista é tanta que ele conseguiu reservar espaços até para arroubos sonoros, com uso perfeito de instrumentação erudita em “Se Va, Se Va, Se Fue”, e também para demonstrar a sua habilidade como letrista nos versos de “Guitarra y Voz”, que guarda impressionante parantesco com as composições mais poéticas de Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes e também no electro-contemporanismo explícito de “Oda al Tomate”. A latinidade, claro, está presente em todas as faixas, mas é sempre algo exposto de forma tranquila e plácida, como em “Milonga Del Moro Judio” e na música ganhadora do Oscar, “Al Otro Lado Del Río”, realmente uma das poucas merecedoras da premiação, com sua letra e melodia melancólicas, ainda que perseverantes. É ouvindo todo o disco que nota-se que Drexler não força jamais sua voz, entoando suas canções com um cantar suave, calmo e aveludado, poucas vezes levantando mais sua voz, como no refrão de “Polvo De Estrellas”, música que reúne de forma sublime todos os predicados do artista: música, melodia, poesia e raízes culturais.
Sem dúvidas Jorge Drexler é daqueles poucos artistas dos quais nos orgulhamos de ter em nosso país: se sentimos imenso prazer na brasilidade pós-moderna e literária da música de Adriana Calcanhotto e na elegância popular de algumas facetas de Marisa Monte, assim deve ser com Drexler no Uruguai, ainda mais agora, depois de conquistar um dos prêmios mais cobiçados do mundo, graças ao seu convite para deixar seu registro no filme do brasileiro Walter Salles. Depois de tanto tempo sem mostrar qualquer interesse pelos novos artistas da chamada nova MPB, só me restou mesmo ampliar minha busca além de nossas fronteiras culturais e linguísticas. Ainda bem que, geralmente, consigo superar certos preconceitos e me dar ao prazer de arriscar novas experiênciais musicais. Não fosse isso estaria ainda tentando entender o que há de tão bom em Max de Castro e Luciana Mello – deus me perdoe. Baixe o álbum utilizando os links que seguem depois da lista de faixas e use a senha para descompactar os arquivos.
senha: seteventos.org
http://www.badongo.com/pt/file/5321505
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Este é um daqueles vídeos sem qualquer sentido, mas repletos de glamour, que os diretores de videoclipes adoram fazer. Uma velha montanha russa, um enorme descampado, que mais parece resultado de mineração, e nossos amados Cardigans em roupitchas pra lá de fashion: note, em especial, a blusa de fitinhas da Nina Persson – é de matar qualquer drag queen se suicidar inveja tomando um frasco de barbitúricos, a la Marylin Monroe. Baixe o vídeo utilizando o link abaixo.
Em um vídeo proprositalmente melancólico, Justine Electra, deitada em uma cama, canta os versos de seu pop sublime e compassado. Com algumas iluminuras eletrônicas e um belo traje folk/pop, a cantora australiana, radicada em Berlim, embala o ouvinte com sua voz doce, que guarda enorme semelhança com a voz e a obra da suprema musa “indie”, a alternativérrima americana Cat Power. O robôzinho, de aparência pra lá de nostálgica, que protagoniza o vídeo junto com a artista, é uma graça – e quase rouba a cena da produção com sua surpreendente sensibilidade. Baixe o vídeo no link a seguir.
Com a liberação na internet do primeiro single do aguardadíssimo novo disco da banda britânica Muse, um verdadeiro furor discursivo tomou de assalto as comunidades dedicadas ao trio. A sonoridade de “Supermassive Black Hole” assustou os fãs mais ferrenhos, angariando o ódio destes e a simpatia dos mais despreocupados. No entanto, a suspeita de ambas as “facções” que rapidamente se formaram era quase idêntica: o novo disco da banda mostraria um Muse bem diferente daquele adorado e conhecido pelos fãs.
Agora, depois de semanas de bate-boca e ofensas mútuas, o álbum vazou na internet – para variar – e as expectativas amainaram: há traços que diferenciam Black Holes & Revelations dos álbuns anteriores do Muse, mas nada que transforme radicalmente a identidade da banda.
Apoteótica a música da banda prossegue sendo, como podemos conferir na faixa de abertura, “Take a bow” e também em “Exo-Politics”, “Assassin” e “Soldier’s Poem”, todas faixas que assemelham-se pela mensagem política – algumas mais sutis e mais citacionais, outras mais explícitas – , que se abre universalmente contra o belicismo e a manipulação da opinião pública sem apresentar, contudo, qualquer tipo de pedantismo engajado – é Muse no seu melhor, com letras trabalhadas sem nunca esquecer que é, acima de tudo, música. Porém, os delírios de derramamento amoroso do trio britânico continuam firmes e fortes, como se pode ver no amor impossível de “Hoodoo” – balada espetacular, com a típica virada melódica da banda, à maneira da música erudita, com orquestração farta de pianos em apoteose e cordas épicas -, na dependência desmedida da bárbara “Map of the Problematique” – com sequências em que a bateria se faz deliciosamente preponderante – na emoção nada contida de “Invincible” – onde contribuem a bela introdução de teclado arranjado como um orgão e a bateria em tom marcial -, no embevecimento romântico de “Starlight” – de harmonia fulgurante, com teclados nostálgicos e bateria sincopada – e no amor nevrálgico de “City of Delusion” – com energizantes riffs de guitarra e o vocal intenso e delirante de Matthew Bellamy.
Apesar da identidade da banda fazer-se presente, ela se mostra-se intensamente mesclada com sonoridades que podem apresentar inspiração mais difusa em algumas faixas – como nos teclados da faixa de abertura, “Take a bow” – e bem mais clara a algo assumida em diversas outras. A música de identidade forte do The Mars Volta, por exemplo, pode ser reconhecida no sutil apeado latino dos acordes do violão, do ritmo da bateria e metais de “City of delusion”, na guitarra e baixo grave e profundo de “Hoodoo”, e na força que estes tem em “Knights of Cydonia”, com seu refrão de vocais sobrepostos. Além da referência à esta banda, de história mais recente no cenário musical, algo do pop contagiante do Depeche Mode do fim dos anos 80, do gostoso Europop que fez tanto sucesso à época, também é adotado em “Starlight”, música de melodia pop-rock fenomenalmente esfuziante e luminosa e, principalmente, na faixa “Map of the problematique” – com um arranjo perfeito no ritmo ensaiado e sincronizado entre bateria, guitarra, baixos, teclados e também no excelente uso que Matthew Bellamy faz de seu vocal.
Em tempos de copa do mundo, podemos conferir que a atitude de tecer críticas ao trabalho de quem idolatramos, tendo contato com uma fatia tão ínfima do trabalho que seria desenvolvido – já que todo o furor crítico inicou-se com apenas uma canção do novo disco do Muse e, no caso da seleção brasileira, tendo disputado apenas uma partida -, pode ser bastante imatura, uma vez que, na verdade, a crítica antecipou-se à apropriação daquilo que se objetiva analisar. Aqui estamos então, com um belo disco do trio britânico, vigoroso e com alguma sutil renovação, que acabou desmotivando todo o bate-boca insensato e, no futebol, nos preparando para a segunda disputa, amanhã, de nossa seleção. É esperar para que o resultado do desempenho dos atletas brasileiros seja tão inspirado, genuíno e animador como o do trabalho do Muse.
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Garota é submetida a exorcismo e nao sobrevive. Em pouco tempo, o padre que efetuou o ritual é julgado pela possibilidade de ter impedido o tratamento médico de um possível quadro de distúrbio psicológico, o que teria resultado na morte da garota. No julgamento, ele conta com o apoio da familia da jovem e de uma advogada que volta de um caso vitorioso.
Scott Derrickson disse que sua intenção era construir um longa-metragem híbrido, uma mistura incomum de drama de tribunal com filme de terror, sem o uso abusivo de efeitos especiais. Para sua felicidade, o seu objetivo foi realmente alcançado – o problema é que tal realização tem seus efeitos negativos. Diante da sobriedade e frieza intrínsecas à narrativa cinematográfica ambientada em tribunais, a modalidade de terror/supense do filme perde seu impacto, deixando de exercer o seu traço mais importante: o apelo às emoções do espectador. E isso não é consequência tão somente do uso escasso de efeitos. Na verdade, foi a intenção confessa de construir uma película que diferisse enormemente do maior clássico do gênero, o filme “O Exorcista”, que acabou contribuindo para a concepção fraca das sequências de horror do filme, tanto na construção do roteiro como na materialização das cenas, que são plasticamente bonitas – com bela fotografia e cenografia muito bem planejada – mas terror mesmo, elas não tem nenhum. O desempenho pouco animador dos atores também colabora para o fracasso do filme enquanto thriller de horror: suas interpretações são até convincentes, mas não conseguem atingir o público e estimular os seus medos.
Apesar do fracasso como filme de terror, o longa-metragem tem o seu maior e único êxito na sequência que explica a estranha decisão da jovem Emily em submeter-se à uma segunda sessão de exorcismo, no seu suposto e breve contato com forças divinas – é ali o único momento em que o filme consegue alcançar o expectador e mexer com suas emoções e temores.
Ao fim, resta apenas lamentar o planejamento tão equívoco de um filme que anunciava ser tão promissor. A ambição desmedida de diretores estreantes, muitas vezes, acaba mais atrapalhando do que ajudando a realizar obras que renovem o cinema mais comercial. É preferível limitar suas intenções e propor uma obra mais coincidente com a tradição do que falhar na esmeros de inovação e acabar com uma obra incoerente e débil nas mãos.