O glitter pop inglês ganhou um reforço com a estréia do britânico de origem libanesa Mika e do seu álbum Life In Cartoon Motion. O disco sofre dos excessos dessa vertente do pop/rock, mas a produção caprichada acerta mais nas canções que tem pretensões mais simples. Abre o disco o hit que lançou o cantor, “Grace Kelly”, de melodia com direito à piano, guitarra, bateria desmedidamente extravagantes, bastante condizentes com o uso nada econômico que Mika faz de falsettos escandalosos e de empostação “cool” no vocal. Na letra, Mika cita as personas de Grace Kelly e Fred Mercury como os exemplos de comportamento para lidar com um amor que sofre excessos de orgulho e vaidade. A faixa seguinte, “Lollipop”, mantém a atmosfera absolutamente festiva com uma música que utiliza um piano e metais bem marcados e programação eletrônica complementar, além de uma pletora de vocais de fundo, incluindo aí vocais infantis, que incrementam o tom lúdico da canção. Utilizando a insaciável vontade de comer doces na infância como analogia, vemos Mika falando nos versos desta faixa sobre como aprendeu desde cedo que os exageros podem fazer com que o amor deixe você “pra baixo”. Depois da festividade das faixas anteriores, temos uma sutil mudança em “Relax, Take It Easy” para um pop dançante mas suave, isso graças à programação eletrônica e aos vocais, ambos charmosíssimos, lembrando muito os grandes sucessos dos britânicos da dupla Erasure. A canção fala sobre tentar relevar as dificuldades da vida e do amor quando não temos uma solução em vista. Mais à frente temos a episódica “Billy Brown”, onde Mika conta a estória de um homem que tinha uma vida de casado muita tranquila, até apaixonar-se por outro homem, sofrendo atribulações daí em diante devido ao conflito existente entre o que queria viver agora e o que vivia até então. A melodia tem coloração mais triste, porém ainda animada com seu piano, bateria, arranjos de metais e vocais um tantinho mais comedidos. “Happy Ending”, que fala sobre um homem que tenta levar a vida à frente criando a ilusão de que seu grande amor não acabou, tem instrumentação e orquestrações tradicionais, mas é a canção mais bonita do disco, dentro do clima proposto desde o início, trazendo uma sequência final com uma produção excelente nos vocais de fundo. No entanto a maior surpresa do álbum e a melhor música é a faixa escondida depois de “Happy Ending”: fugindo de forma radical do estilo preponderantemente frugal-histérico, “Over My Shoulder”, em cujos versos um homem reflete sobre seu constante sofrimento, tem melodia triste, pesada e melancólica à base do vocal em falsetto de Mika e de acordes sôfregos e ponderados ao piano.
Life In Cartoon Motion não está alinhado com o meu gosto devido aos rompantes do extravasamento glitter, mas é justamente a capacidade de fazer algo interessante dentro do estilo que mostra que Mika conhece o chão em que está pisando. E apesar do que imaginamos que seja Mika, a faixa escondida deixa no ar uma pergunta: teria ele coragem de subverter o suposto rumo de sua carreira em um segundo disco, com mais músicas de enorme beleza melancólica como esta? Como eu gostei mais deste breve instante de dor e tristeza de Mika, à la Rufus Wainwright, tenho que confessar que estou torcendo para que isto aconteça.
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4 Comentários
O vídeo da canção “Gloves” é puro estilo, adicionando na sonoridade punk-rock da banda The Horrors contornos dark-góticos. O diretor fez um excelente trabalho: caprichando na uso fotografia, dos enquadramentos e movimentos ágeis da câmera, da edição neurótica e da cenografia esplendorosa – o clipe foi gravado em uma estação de tratamento de esgoto abandonada, da época da Inglaterra vitoriana. Além disso tudo, fica a observação de que a direção de elenco foi igualmente excepcional: Wolfe conseguiu injetar uma atmosfera cool-descolada-pós-moderna com a platéia de figurantes sem fazer das fórmulas mais batidas hoje em termos de videoclipe – como garotinhas se agarrando e criaturas de óculos escuros dentro de um ambiente fechado. Ponto para Daniel Wolfe, que entendeu direitinho para quem ele estava trabalhando.
Clipe do mais recente single do segundo disco da banda de Las Vegas. O clipe é bonitinho, com a banda passeando e fazendo gracinha pelo que parece ser o Japão, mas carece bastante de originalidade e charme, já que a diretora caiu na asneira de fazer uso dos maiores esteriótipos do alto oriente – como colocar os membros da banda vestidos de gueixa e enfiar alguém fantasiado de uma figura fofa qualquer que pareça ter saído de uma animação japonesa. Mas vamos combinar que, apesar dessas bobagens, o Brandon Flowers fica uma gracinha de bigode e cabelo curtinho, não é?
Mais um daqueles comerciais bacanérrimos da Pepsi: neste vídeo um sujeito toma uma latinha de Pepsi e acaba sendo arrastado por uma bola gigante de Pinball, pontuando no jogo enquanto barbariza pela cidade inteira. A maneira cuidadosa como foi feita a mistura dos efeitos digitais e do cenário e figurantes reais é fantástica. A canção utilizada, um rock cantado em francês, também confere enorme charme ao vídeo.
O filme reúne dados resultantes de pesquisas científicas, em uma apresentação feita pelo ex-vice-presidente americano Al Gore, procurando chamar a atenção sobre o quanto o aquecimento global está ocorrendo de forma cada vez mais acelerada e sobre como as suas consequências irreversíveis tomarão lugar muito antes do que imaginamos.