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Ano: 2008

“Feriado de Mim Mesmo”, de Santiago Nazarian

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Jovem tradutor, que tem o hábito de passar a maior parte do tempo sozinho no seu apartamento, começa a desconfiar de que alguém o está invadindo, ainda que admita a possibilidade de que isso talvez seja fruto de sua imaginação.
O terceiro livro publicado pelo paulista Santiago Nazarian constitui-se em uma história econômica na exploração de espaço e de personagens, possuindo uma estrutura fortemente teatral. Mas enquanto qualquer obra desta monta tem como fundamento o diálogo entre os personagens, o livro de Nazarian prima pela exploração do diálogo internalizado, pela construção deste na mente do protagonista que habita sua história. Nela, o leitor é levado à um acreditar e desacreditar constantes, suspenso na atmosfera de uma narrativa que mesmo tendo os pés bem fincados no real explora de modo primoroso aquilo que aparentemente não o é – mas seria mesmo apenas aparente? Afinal, tudo – as impressões do “eu”, os vestígios do “outro”, as até um tanto inofensivas perturbações cotidianas – seria fruto de um estado de alteração perceptiva ou sintoma de um invasor sorrateiro?
É certo que muitas histórias já foram escritas versando sobre a substância com a qual “Feriado de Mim Mesmo” lida, mas a abordagem dada por Nazarian à esta substância é seu grande diferencial: este “monólogo mental”, por assim dizer, é fruto de uma escrita direta e sucinta, expressa em períodos curtos de caráter bastante objetivo que procuram a maior parte do tempo afastar-se de metáforas. Assim, essencialmente, “Feriado de Mim Mesmo” desenvolve um enredo que lida com a umidade complexa do psicológico paradoxalmente construído sobre a secura pragmática da linguagem realista.
Contudo, a consequência mais interessante que se obtém da leitura de “Feriado de Mim Mesmo” – ao menos na minha leitura – é outra: o jogo arquitetado entre as noções de biografia e ficção. Se iniciada a apreciação da obra depois de obtidas as informações sobre o seu autor em uma das orelhas do livro, haveremos de encontrar algumas prováveis similaridades entre o escritor e o protagonista da história, o que faz a leitura ser contaminada pela idéia de que a trama parte de alguns pressupostos biográficos. Porém, à medida que as páginas avançam os resquícios biográficos vão desmanchando suas formas, que passam a ser tomadas paulatinamente pela substância própria de uma ficção que alimenta-se destas, assimilando-as numa antropofagia narrativa visceral e violenta – não à toa a própria conclusão da trama materializa a noção antropofágica de modo bastante literal. É desta devoração da biografia pela ficção que nasce uma narrativa de dinâmica complexa, uma “ficção de si mesmo” que se utiliza dos artifícios tradicionais da literatura para subvertê-los em um jogo meta-ficcional e meta-literário que pulsa em uma esquizofrenia narrativa ascendente. É dessa forma que o sonho e pesadelo da produção cultural pós-moderna são materializados simultaneamente na escrita de “Feriado de Mim Mesmo” – um livro que ilustra com maestria como uma trama que lida com as conflitos e terrores do “supra-eu” contemporâneo podem interessar ao público, ao contrário do que foi feito no mais recente longa-metragem de Murilo Salles.

P.S.: Alguém me disse certa vez, não recordo se foi o ou o Pelvini, que faltava ao meu blog resenhas de livros. Bem, este é o post que inaugura minha tentativa de suplantar com sinceridade a minha vergonhosa preguiça de manter o hábito da leitura – também ofuscado pelas toneladas de músicas, filmes e informação ofertados na internet. Daqui em diante procurarei manter uma frequência razoável na publicação de textos sobre literatura – particularmente sobre livros de ficção.

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“Cadê a tesoura?” ou “Não quer? Tem quem queira!”

E aí que, não tendo mais esses sites de celebridades o que fazer, a revista Quem, assim como o Ego – tudo a mesma coisa, diga-se -, fizeram copy & paste do post do blog Just Jared do “flagra” de Ben Affleck com seu visual incomum – para seu histórico, claro: cabelos longos e barba densa.

Há poucas semanas o Ego, com a sensibilidade que lhe é comum , sem nem desconfiar do fato de que Ben ainda é um ator e que eles costumam preparar seu visual para algum personagem, publicou a foto abaixo dele, com um texto que dizia parecer “que os tempos de galã de Ben acabaram com a paternidade”.

Pausa para os comerciais:
1) adoro o carimbo do “Flagra”. Ninguém na redação do Ego percebeu que ele sabia que estava sendo fotografado? Flagra de quê? OI? Até parece que eles conseguem convencer alguém de que isso foi exclusividade de um stalker do globo.com
2) a ambiguidade da frase ficou fabulosa – afinal de contas, quem a lê também pode entender que ele foi um péssimo pai enquanto tinha o status de galã.

Pois bem. Agora os estúpidos que trabalham para Ego-e-companhia-limitada descobriram (duh!) que ele estava se preparando para compor um desleixado qualquer em uma bobagem hollywoodiana desinteressante.
Mas não é sobre isso que quero falar.
O fato é que Ben Affleck – que foi já uma das minhas grandes taras…e ainda é, né? -, mesmo depois de casado, de ter trezentos e cinquenta mil filhos, de não ter mais aquele corpo malhado, de colocar a carreira como ator em ponto morto, e de provavelmente ter descoberto que nunca foi exatamente um bom ator, ainda continua muito gato, mesmo cabeludo e barbudo. E olha que eu já disse aqui zilhões de vezes que tenho tanto pavor de homem com cabelos longos que já vou logo perguntando, “cadê a tesoura?” Obviamente que eu prefiro ele um big-bang de vezes com aquele visual comportado, mas até nessa situação ele me parece apetitoso. Se o pessoal do Ego acha mesmo que ele deixou de ser galã só por conta de uma barba, não tem problema não. Melhor ainda se a Jennifer Garner começar a partilhar qualquer hora da mesma opinião. Não quer mais? Tem quem queira, ué. Manda pro meu apartamento por FedEx que eu estou aceitando e mando até cartão com flores de agradecimento, pôxa. Chegando a encomenda, é só fazer uma retífica no material seguindo essa receita:
– algumas doses de Bloody Mary ou qualquer drink que seja da preferência do moreno (chegado que ele é numa “cana”, é mamão-com-açucar fazer o gajo ficar manso);
– um pouco de água;
– um estojo de Prestobarba;
– uma boa loção pós-barba (pra fazer um agrado no gatão e já preparar o terreno, digo, a cama);
– e, claro, a grande protagonista desse processo de beautification, uma tesoura. Caso ele se mostrasse um tanto indisposto a arrancar aquele aplique, no problem at all: era só cair naquele dossel translúcido, deixar o moço bem exausto com o “esforço” e aí, sem ter como protestar por ter todas as suas forças exauridas, sacar de uma outra tesoura estrategicamente colocada debaixo do travesseiro pra então, ZAPT! Fazer a tosa da juba-aplique na calada da noite. Ah…aí, com esse deus morenão de cabelo cortadinho, inerte placidamente na sua cama, qualquer um veria que tem mesmo coisas que não tem preço. Pra todas as outras existe o rentboy.com®!
Ah, aproveite aí as fotos das duas versões despojadas do Affleck, nos seus tamanhos originais.

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Emiliana Torrini – Me and Armini. [download: mp3]

Emiliana Torrini - Me and ArminiA islandesa Emiliana Torrini, depois de dois álbuns lançados internacionalmente – o primeiro, Love In The Time of Science, passeando pelo pop eletrônico enquanto o segundo, Fisherman’s Woman, divagando por sonoridades folk suaves – demonstra, com o lançamento do seu mais novo disco, que já não é mais uma artista com potencial, mas uma compositora amadurecida e em pleno controle e poder de sua capacidade criativa.
Em Me and Armini, a cantora exibe-se segura em compor não apenas dentro dos domínios do rock alternativo, que é a tônica maior do disco, mas de versar com toda tranquilidade e beleza em outros gêneros. A faixa título do disco, por exemplo, é um reggae recheado pela brandura do vocal de Emiliana, além do gingado tranquilo e carinhoso da bateria e guitarra – a letra também agrada aos ouvidos, tecendo uma ironia sutil ao dar voz à uma mulher que aguarda pacientemente que seu amante abandone a sua companheira em detrimento de sua própria companhia, a despeito de todos lhe dizerem que ela perde seu tempo. E as primeiras faixas só preparam os ouvidos para a qualidade inquestionável do trabalho que se testemunha à frente.
“Birds” chega arrasando sem qualquer necessidade de pisar fundo na melodia: com a segurança de quem sabe muito bem o que está fazendo, Torrini e seu produtor, Dan Carney, empregam no instrumental da canção violões, bateria, guitarra e baixo – este último dando um show à parte na “fuga” melódica da canção – manuseados com considerável parcimônia, além de algumas frugalidades à cargo de coisas como um teremin e piano, conferindo à canção uma tonalidade sonora que acaricia os ouvidos de modo fulminante. Faz sentido: a letra é de uma poesia ímpar, fascinando o ouvinte com a comparação tecida entre o desdobrar de um novo dia e a encenação de uma peça teatral a ponto de ninguém resistir acompanhar o canto da voz macia e doce de Torrini nestes versos. Na faixa seguinte, “Heard It All Before”, a islandesa já tinge o disco com as cores do seu rock: as guitarras, baixo, teclado e bateria escandidos com energia, as palmas e mandolim pra dar um tempero lúdico e o vocal no timbre e potência ideais servem como a carga inicial do armamento rock da compositora. Antes de prosseguir, porém, a garota faz graça ao colocar violão e guitarra ao mesmo tempo serenos e secos em “Ha Ha” para sonorizar o sarcasmo de uma mulher que desdenha de um sujeito que é incapaz de levar qualquer coisa à cabo, muito graças à sua boemia. “Jungle Drum” retoma a verve rock de Emiliana apresentando baixo, bateria e guitarra envenenados por um ritmo frenético, onde o vocal da cantora faz uma parceria imprescindível para compor o andamento e ilustrar com onomatopéias sonoras a louco pulsar de um coração intoxicado pela paixão, comparado nas letras à cadência feroz de tambores da selva. Mais à frente, “Gun” – que trata dos crimes e pecados de homens e mulheres mergulhados em relações fracassadas e ilegítimas – desacelera no ritmo, mas não no fervor de sua atmosfera rockeira: pontuada por gemidos, sussuros e por uma respiração ofegante carregados de erotismo, nada além de baixo e guitarras rascantes, com inserção ocasional de uma bateria febril, são usados como instrumentos para a concepção de uma melodia ferina e sensual. Algumas faixas a mais e chegamos ao fim do disco com “Bleeder”, uma canção profundamente delicada, que com a ajuda de piano de acordes ligeiros e distantes, de alguns acordes simples no violão e de uma orquestração de cordas de sutileza cativante serve ao propósito de registrar as confidências de uma mulher que tenta confortar o homem que ama, mostrando que ele é tão sujeito à ser rendido pela manifestação de emoções fortes quanto qualquer outro ser no mundo.
Comparada no ínício da carreira à conterrânea Björk por alguns críticos musicais apressados, Torrini logo reduziu essas declarações à vozes sem eco, afirmações sem relevância que merecidamente caíram em descrédito já no lançamento do seu segundo álbum. Com Me and Armini, Emiliana Torrini sedimenta de vez uma identidade musical própria – a de uma artista que ignorou o porto de idiossincrasias que a crítica musical enxerga existir na arte produzida na sua terra natal para singrar com sua nau à procura de mares e oceanos de sonoridades versáteis, porém mais simples, deixando para trás e à deriva o estereótipo com o qual os islandeses costumam ser embalados.

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The Boy / Setembro 2008: todo Felipe Torretta [fotos]

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Quando olhei para a primeira foto – esta aí em cima – do ensaio apresentando o modelo Felipe Torretta no The Boy este mês, pensei de imediato: “Berenice, segura!”. A impressão que se tem olhando essa primeira imagem, com um modelo de feições aparentemente viris, com um corte de cabelo perfeito, levantando de modo insinuante a camisa para revelar um corpo que parece ser espetacular, é de que o rapaz é estonteante e de que o ensaio ficou fabuloso. Mas aí você olha a segunda sessão de fotos e, apesar da “comissão de frente” ficar linda empacotada em uma cueca branca da Calvin Klein, você fica achando que o rosto dele não é aquilo tudo e que ele é até um pouco magro demais. E logo vemos a terceira sessão de fotos, com o rapaz posando sob luz natural do sol, e já voltamos a achar ele interessante. Não demora muito e temos, depois de longo tempo, uma sessão de fotos com a famosa sunga Adidas, mas não apenas “faltou perna ali” – palavras de meu amigo Samir -, como também faltou um bocado de sensibilidade da equipe de produção sobre o melhor look do modelo, que certamente não é aquele com o cabelo arrumadinho de nerd – e assim se repete esse bate-e-volta de impressões positivas e negativas no ensaio todo.
Concluída completamente a desgutação, fica uma certeza: esse ensaio tão irregular do fotógrafo Felipe Lessa, com um modelo de beleza tão assimétrica – às vezes lindo, em outras bem pouco atraente – me levou a pensá-lo como a própria analogia da situação do The Boy nos últimos tempos: o site tem tanto a capacidade de surpreender maravilhosamente quanto, não duvido mais, de derrubar qualquer expectativa no momento seguinte. Pode ser que tenha sido sempre assim e só agora estou notando, mas fico com a impressão que não, até mesmo devido à algumas mudanças na estrutura e composição dos ensaios – vocês notaram, por exemplo, que desde o mês passado o número de fotos diminuiu consideravelmente? Sendo assim, é bom irmos nos acostumando com o fato de que toda a gama de possibilidades de equívocos que testemunhamos nos últimos meses – modelos fantásticos desperdiçados em ensaios pouco inspirados, ensaios muito inspirados desperdiçados com modelos nada fantásticos, falhas na seleção de modelos e no trabalho da equipe de produção – pode vir a se tornar a prática no melhor site de ensaios de toda a internet. Portanto, só resta aproveitar o que for bom em cada ensaio lançado, certo? Vamos começar por este aqui: aproveite o que lhe parecer interessante no ensaio aberto e deguste aquilo que for o melhor do ensaio nas fotos só para assinantes.

Acesse: Fotos de Felipe Torretta: The Boy

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Sharleen Spiteri – Melody. [download: mp3]

Sharleen Spiteri - MelodyExuberantemente pop. Essa é a definição mais breve e exata do primeiro disco de Sharleen Spiteri, vocalista da banda escocesa Texas. Com o lançamento de Melody, temos mais uma cantora se embrenhando no filão do pop nostálgico que virou a nova e mais rentável aposta das gravadoras e produtores da música britânica. E, se por um lado temos a repetição de uma fórmula já garantida de sucesso, por outro ela é feita com uma competência que garantiu um bom punhado de faixas irresistíveis no álbum – algumas até flertando com outras vertentes do pop, igualmente nostálgicas.
“It Was You”, que abre o disco, é uma delas: recheada com orquestrações de metal e sopros luxuosos em um swingue acelarado, puxado pela bateria, Sharleen já começa sem pudor de ser confessional, exorcizando o fim de um relacionamento de 10 longos anos ao declarar na letra da canção que, se algo morreu dentro dela, foi aquele que a abandonou. “All the Times I Cried”, onde vemos Sharleen dando voz à uma mulher desiludida com a mudança de comportamento do seu companheiro, continua investindo nas melodias cobertas de metais e cordas pomposas, ainda que agora, devido aos acordes delicados no piano, que é solicitado pela melodia no contraponto reflexivo da música, o tom seja ligeiramente mais triste. Já em “Stop, I Don’t Love You Anymore” a música não sossega um minuto sequer, já começando com arranjo de metais a pleno vapor e bateria e guitarra de pontuações dramáticas nos primeiros segundos da canção.
E já que se trata de um disco calcado na música pop, não poderia faltar em Melody baladas de fazer fechar os olhinhos e ficar perdido em devaneios românticos, certo? Sharleen sabe disso, pois caprichou em duas das baladas presentes no disco. Em “I Wonder” ela não deixa barato, colocando pra trabalhar um coro gospel, teclado, guitarra, baixo e bateria, todos com a malemolência do soul, dando ainda robustez ao refrão com orquestração de cordas e com o seu próprio vocal, crispando em sentimento, para sonorizar as queixas de uma mulher que diz ao companheiro que a abandonou que ela não esquecerá o sofrimento que passou quando eles se encontrarem novamente. E “Françoise” não faz por menos, explorando uma outra tonalidade, menos grandiloquente e mais sutil: apesar de ter sido feita em homenagem à cantora Françoise Hardy, o sabor que a brandura da guitarra e a docilidade do piano deixam é o daquelas músicas delicadas e de atmosfera idílica que ganharam fama em romances do cinema italiano dos anos 60, algumas das mais notórias na voz de Gigliola Cinquetti.
Contudo, é a vibrante alegria de “Don’t Keep Me Waiting” que faz desta a melhor faixa do disco: desavergonhadamente pop, a melodia transborda, sem medo de ser feliz, num ritmo intoxicante para o corpo, onde tudo, o arranjo pulsante de metais e cordas, a vivacidade do piano, da bateria e principalmente dos vocais, faz da vontade de dançar o imperativo ao ouví-la já nos seus primeiros segundos – e, diga-se, é difícil resistir à este convite.
Melody é um disco sem segredos: melodias harmonicamente perfeitas nos seus momentos inspirados, feitas sem qualquer ambição que não fosse a de colar nos ouvidos o dia inteiro e fazer quem as ouve cantarolá-las descontraidamente à qualquer momento – mesmo nos mais impróprios. Não é um álbum pra entrar na sua lista de obssessões favoritas, mas apenas pra ficar lá, na sua estante ou no seu acervo de mp3, prontinho a qualquer hora pra ser desfrutado pelo que ele é, um disco com algumas boas canções pop, sem surpresas e sem rodeios.
Baixe o disco utilizando o link abaixo e a senha para descompactar os arquivos.

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“Nome Próprio”, de Murilo Salles.

Nome PróprioGarota nos seu vinte e tantos anos, enquanto alimenta a esperança de vir a publicar um livro, passa seus dias entrando e saindo freneticamente de relações afetivas, das quais tira muito do que escreve em seu blog.
Em coisa de quarenta minutos de duração do filme “Nome Próprio”, me veio à cabeça as declarações de seu diretor no programa Sem Censura, onde ele afirmou perceber que seu longa versa sobre o feminino e sobre a idéia de que a internet, e particularmente o blog, estão irremediavelmente transformando a produção literária. Depois disso, passei todo o restante da projeção de “Nome Próprio” agradecendo que a noção de feminino de Salles e que a sua idéia de transformação da literatura sejam realidade apenas dentro da ficção por ele criada.
Se o feminino, esta identidade que Murilo acredita ser a força motriz por trás das grandes revoluções sociais dos últimos anos, se resume ao desatino comportamental sexual e afetivo e à sustentação de uma relação sempre parasitante, inconsequente, invejosa e displicente no que tange a vivência e os sentimentos alheios, estaríamos cercados de vadias – e vadios – que passam seus dias “atropelando” e desprezando o outro de forma gratuita tão somente para sustentar suas necessidades e seu modo de vida agressivos. Não por um acaso, isso é ao mesmo tempo a essência daquilo que o filme prega como a nova revolução na produção literária – uma literatura egocêntrica e egoísta, que nos brinda com um interminável jorro do fluxo emocional de alguém que acha que o que interessa para o mundo são as divagações e os conflitos do eu, eu, eu.
Felizmente, ambas as idéias que embasam o longa se resumem à um imenso equívoco sobre a contemporaneidade, já que o feminino, fosse ele materializado em uma figura humana, esta seria regida pela coerência, pela sensatez e por uma sensibilidade suficientemente racional, enquanto o status da literatura contemporâneia, graças à tudo que é sagrado, não apenas ultrapassa e muito as fronteiras do “supra-eu” como, mesmo quando limita-se à este âmbito, é bem mais do que um “vômito lírico” pós-adolescente sofrendo de delírios de grandeza que nem a pior corrente do romantismo ousou produzir.
Há o que se possa considerar válido na produção de “Nome Próprio” – pode-se tirar algum prazer ao testemunhar o trabalho de direção, de enquadramentos e de movimentação de câmera interessantes e competentes -, mas nada é capaz de suplantar a sensação do espectador desvendar, sem nenhum deleite, a verdadeira identidade do longa de Murilo Salles, que se revela uma apologia irritante ao pior estereótipo da “geração web 2.0” – os “posers”, aquelas criaturas mergulhadas em uma ilusão e estupidez tão colossais que os faz acreditar piamente que, a exemplo do filme, são todos a mais legítima reencarnação de, ora vejam…Clarice Lispector.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005