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Autor: giovanealex

“Guerra Fria”, de Pawel Pawlikowski [download: filme]

zimna wojna (cold war, 2018)

A crônica da conturbada relação amorosa entre o músico Wiktor e a cantora Zila, de origem simples, atravessa quase duas décadas, começando na Polônia comunista do início dos anos 50 e cruzando fronteiras até a França.
“Guerra Fria”, lançado em 2018 com passagem pelo Festival de Cannes e tendo competido no Oscar com 3 indicações, tem como seus melhores aspectos a fotografia em preto e branco, que concede uma beleza elegante mesmo aos cenários mais humildes, e as músicas que compõe a trilha sonora, que apresenta canções da tradição camponesa da Polônia tanto na sua faceta folclórica quanto em versões mais sofisticadas. Nada mais neste longa-metragem que retrata a história da relação amorosa entre o compositor e pianista Wiktor e a jovem cantora de origem camponesa Zila é digno de um parecer favorável, a começar pelos dois protagonistas, cujas personalidades carecem de qualquer elemento cativante: Wiktor é apático, taciturno e submisso, Zila é insegura, passional e incontida – fica difícil para o espectador desenvolver qualquer tipo de empatia por ambos e, em consequência, qualquer interesse pelo destino e o relacionamento dos dois.

zimna wojna (cold war, 2018) movie still 01
Tanto os protagonistas quanto o enredo de “Guerra Fria” carecem de maior dimensão

O roteiro também é bastante falho em mais de um atributo: a construção dos personagens é superficial, não há profundidade histórica que fundamente seus comportamentos e deliberações; o desenvolvimento dos eventos é precipitado, e embora tecnicamente anos se passem entre as situações apresentadas, lhes falta sutileza para imprimir a veracidade do tempo ocorrido; e por último, os conflitos presentes na trama (e no relacionamento de Wiktor e Zila) inicialmente parecem coerentes com o cenário da Polônia subjugada ao regime comunista, mas quando o palco do enredo muda para a França livre e republicana, os entraves parecem pueris e artificiais, deliberadamente concebidos para manter a concepção de um relacionamento impossível. Quando o espectador alcança o estúpido desfecho da trama, depois de aproximadamente noventa minutos que se arrastam com lentidão, fica o sentimento de que os dois protagonistas passaram a vida com a firme disposição de inviabilizarem ao máximo suas próprias vidas. No fim, a expressão que melhor define todos os problemas do filme do diretor e co-roteirista Pawel Pawlikowski é “‘falta de dimensão” – elemento essencial em qualquer obra nos domínios do drama para estabelecer afinidade com o público.

Baixe: “Guerra Fria”, de Pawel Pawlikowski (Zimna Wojna/Cold War, 2018)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português english

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Lucrecia Dalt – Caes (EP) [download: mp3]

lucrecia dalt - caes (ep, 2025)

Quando ainda se encontrava na Colômbia, em meados dos anos 2000, a artista de hoje no Sete Ventos se apresentava simplesmente com o primeiro nome, Lucrecia, criando algumas composições de indie pop com matizes de synth e dream pop. Passados alguns anos, a cantora avaliou que seu país oferecia oportunidades muito limitadas para seguir com sua carreira musical, e deste modo mudou-se para a Europa, mais especificamente Barcelona. Uma vez lá, sua música tornou-se mais experimental e arrojada, levando-a realizar várias colaborações com artistas do cenário alternativo do continente e oportunidades para compor trilhas de seriados e filmes independentes. Contudo, seu espírito irrequieto não a permitiu permanecer definitivamente na Espanha: mudando sua alcunha para Lucrecia Dalt, a colombiana se estabeleceu por anos em Berlim e atualmente está ainda mais longe, no estado do Novo México, nos Estados Unidos, onde vive com seu namorado, o cantor alternativo David Sylvian (que já colaborou com o músico japonês Ryuichi Sakamoto).
Ontem Lucrecia lançou o EP Caes, canção derivada do seu mais recente disco, A Danger To Ourselves. A faixa título é a mesma versão presente no álbum, trazendo uma percussão de ritmo arrastado sobre a qual soa o belo vocal de Dalt em tom suplicante, que acompanhada de vocais ao fundo de Camille Mandoki, em alternância com um coro de vozes masculinas e uma série de “eletronismos” contidos, constroem uma sonoridade entre sensual e misteriosa que talvez possa ser classificada como art-pop. A segunda faixa, “Caes (u Suerte)”, despe a canção de todos os componentes percussivos e eletrônicos, e ao trazer a acústica do violão melancólico de Victor Herrero e a emoção da voz de Luz Elena Mendoza (acompanhada do seu grupo Y La Bamba) e do vocal cálido e grave de Niño de Elche, incorpora na melodia texturas da música tradicional latino-ibérica com um delicado véu de suspense e horror. Por fim o produtor de música eletrônica de Miami, Nick Léon, retoma a canção original acelerando um pouco o andamento da harmonia para inserir um beat da cadência sutilmente dançante e uma série de ecos, delays e reverberações sintéticas que transmutam a canção para uma atmosfera mais clubber – o que levou a última versão alternativa da canção no EP/single a ser apropriadamente intitulada de “Caes (Nick Léon Dub)”.

Baixe: Lucrecia Dalt – Caes (EP)[mp3]

Ouça (Spotify):

Lucrecia Dalt - Caes (EP)
Lucrecia Dalt - Caes (EP)

Ouça (Deezer):

Lucrecia Dalt - Caes (EP)
Lucrecia Dalt - Caes (EP)

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Blood Cultures – Skate Story: Vol. 1 [download: mp3, vídeo]

blood cultures - skate story vol 1 (2025)

O anonimato, ou um simulacro dele, é um artifício que alguns músicos costumam adotar por razões diversas. Sem que seus rostos sejam de fato um segredo, Jonathan Bree e Orville Peck o fizeram como uma tentativa marketeira de diferenciação no gênero musical que atuam. Sia e Björk adotaram o mecanismo tardiamente em suas carreiras, possivelmente como um modo de retardar a percepção do público sobre o seu envelhecimento. Já grupos como Daft Punk até hoje preservam segredo sobre esse aspecto para manter os benefícios da privacidade – ou talvez para tentar sustentar o interesse contínuo do público através do mistério de sua aparência.

blood cultures - before
Blood Cultures em sua primeira fase, com apenas um integrante.

O banda de indie pop eletrônico Blood Cultures, composta inicialmente por um único músico, mas agora com quatro, pode ser encaixada nesse último grupo, mas vai um pouco mais fundo no expediente: ninguém sabe nem mesmo o nome dos sujeitos que sempre se apresentam com o rosto encoberto, normalmente com uma máscara artesanal sobreposta a camadas de capuz (antes eram burkas cobrindo um traje executivo).
blood cultures - after
O grupo na fase atual, com quatro membros.

Na semana passada, os “tímidos” rapazes lançaram um novo disco, o segundo pelo selo Pack Records, depois de dois outros álbuns produzidos e distribuídos sem este suporte. Servindo como trilha sonora do indie game de mesmo nome e trazendo vocais processados em estúdio e uma produção bem cuidada, Skate Story: Vol. 1 é um compêndio de doze faixas onde o pop eletrônico é a chave mestra que abre as portas de diferentes influências sonoras. “Emptylands”, por exemplo, é moderadamente uptempo, mas tem como seu elemento principal os sintetizadores, hora como uma harmonia ondulante vintage que suscita o cinema de mistério dos anos 80, hora como um denso fluxo melódico de puro neon noturno. Já em “Where The City Can’t See”, a intro com vocal e teclado de sonoridade abafada e envelhecida não deixa dúvidas de sua herança lo-fi, mas logo a doçura da harpa e das harmonias sintetizadas trazem generosas doses de chillwave, por sua vez adornado com a urbanidade de samples dos anúncios do metrô de New York que pontuam a música – não é puro acidente, uma vez que o grupo reside na região da metrópole e o videoclipe da música (abaixo), com uma edição arrojada e moderna, a usa como cenário, seja com imagens de arquivo ou de registros atuais – e apesar de todo o esmero, os rapazes ainda deixam escapar algumas provas do péssimo estado atual de uma das cidades mais famosas do planeta.

Na faixa seguinte, porém, o tom é outro: iniciada com synths e vocalizações discretas ao fundo que sugerem um clima quase fantástico, “Into Pure Momentum” é logo conduzida por um beat rápido que não nega seu gosto pelo drum ‘n’ bass e a pista de dança. Mas o ritmo diminui em sequência, já que as agudas sintetizações extraterrenas, o longínquo teclado envelhecido e o distorcido vocal melancólico são todos conduzidos pela lenta cadência pulsante de um synth de tessitura eletro-dark em “Overlord”. “Unarchiver” chega na sequência querendo voltar para a pista com sua batida sintética e uma fartura de camadas de distorção nos vocais e no coral ao fundo, concedendo um ar psicodélico à canção. Já no fim do disco, a aceleradíssima batida densa, suja e caótica, repleta de distorções, que se alterna a uma ambiência soturna e misteriosa sugere “Hole In The Sun” como a trilha sonora ideal para uma boss fight tensa e caótica em uma atmosfera sombria, enquanto a delicadeza da textura rarefeita do mezzo lo-fi fractal de “The Age of Disbelief”, por sua vez, atua como um lenitivo, concluindo a trilha do game Skate Story com a placidez aliviada de quem acabou de enfrentar, com sucesso, uma dura batalha.

Baixe: Blood Cultures – Skate Story: Vol. 1 [mp3]

Ouça:

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Tori Amos – “Growin’ Up” (single) [download: mp3]

tori amos - growin up (single, 2025)

Com o anúncio do relançamento de uma versão expandida de Strange Little Girls, o disco de covers lançado em 2001, Tori Amos disponibilizou há poucas horas um pequeno aperitivo para os fãs: o single “Growin’ Up”, canção originalmente lançada por Bruce Springsteen em 1973, será uma das 4 faixas extras incluídas na nova versão do álbum – que também incluirá a faixa inédita “Hoover Factory”, de Elvis Costello. No cover de Amos, a bateria de Matt Chamberlain soa lépida e faceira, construindo volteios com uma destreza que claramente inspirou Tori a dedilhar o seu piano Bösendorfer com genuíno entusiasmo. O vocal da cantora também foi contagiado pelo ritmo lúdico da melodia, e surge tomado por um frescor e vitalidade que não se encontram presentes na maior parte das composições que a cantora vem lançando há mais de uma década – é uma demonstração indiscutível de toda a impetuosidade, energia e vigor que a pianista americana foi deixando pelo caminho ao longo dos anos, lamentavelmente.

Baixe: Tori Amos – “Growin’ Up” (single) [mp3]

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Telenova – Vapor/Slow Dance (EP) [download: mp3]

telenova - vapor/slow dance (ep, 2025)

Com seu segundo álbum (The Warning) agendado para o final de fevereiro de 2026, o trio australiano Telenova, nascido em um workshop musical co-organizado pelo ex-Death Cab for Cutie Chris Walla, liberou esta semana um generoso EP com cinco canções que dão uma prévia do lançamento. Contando com a inventividade dos multi-instrumentalistas Joshua Moriarty e Edward Quinn, o EP traz faixas recheadas com o indie pop apurado e elegante que a banda vem aprimorando, como em “Mountain Lion/Adore”, que dá bastante espaço para o vocal de Angeline Armstrong e vai sobrepondo harmonias de guitarra, baixo, bateria e sintetizações em um compasso vertiginoso que tem tanto algo de Tennis quanto de JJAMZ (banda de um disco só que passou aqui pelo sete ventos), “Bitcrush”, que logo após a intro onde surge uma rarefeita Angeline com reminiscências do downtempo de bandas como Morcheeba, lança o ouvinte em um ruidoso refrão com bateria e sintetizações caleidoscópicas, e “The Deep”, introduzida e pontuada por um synth ondulante e conduzida por uma bateria fortemente sincopada, entrega no refrão uma cadência uptempo intoxicante para que Angeline incorpore de modo genuíno versos que tratam de estados conflitantes de submissão e libertação emocional: “sozinha na sua casa, onde caio aos seus pés, sigo suas palavras até a beira do abismo, choro ao ver o amanhecer”.
O trio, porém, não se contenta em limitar suas composições aos domínios do synth e dream pop, e em duas faixas se aventura a sair caminhando por outros terrenos: enquanto “Vapor/Slow Dance” traz percussão e synths compondo uma vaga ambientação jazzística onde guitarra, bateria e drum machine somam-se em uma atmosfera lenta e vaporosa onde o vocal etéreo e distante de Armstrong adere harmoniosamente, “Paralysis Ghosts” envereda por uma melodia de sensualidade sutil e contemplativa, onde o baixo e a guitarra de riffs bem marcados flertam com o rock alternativo de bandas como Howling Bells para que Angeline, com doçura, dê voz nas letras a um astronauta, que ao sentir-se tão só no desconhecido, deseja lançar-se na atmosfera para reencontrar a terra e as pessoas que conhece. Nada mal para um trio que se conheceu por acaso em um workshop, de onde — como de todos os outros — você não espera que saia nada útil.

Baixe: Telenova – Vapor/Slow Dance (EP) [mp3]

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Tori Amos – Spark [Part 2] [UK] (single) [download: mp3]

tori amos - spark [part 2] [uk] (single) 1998

Lançado em 1998 por Tori Amos, from the choirgirl hotel foi o primeiro disco onde foram observados sinais de mudança na música da cantora americana que hoje em dia, para fãs de décadas como eu, contrasta com a produção dos seus 3 primeiros discos a ponto de ser uma artista quase completamente diferente. Ao mesmo tempo, esse quarto disco ainda preservou hábitos que a artista sustentou desde o início da carreira, como o lançamento de vários singles contendo B-sides tão preciosos quanto as faixas selecionadas para integrar o disco. Um deles foi o da canção “Spark”, tendo uma versão exclusiva disponibilizada no Reino Unido contendo um cover e também um dos B-sides mais “míticos” da carreira de Tori. “Spark”, a faixa que também abre o disco do qual é derivada, inicia com acordes metálicos de uma guitarra dissonante e uma bateria de cadência espaçada, compondo a textura soturna e um tanto claustrofóbica que permeia o disco de origem, mas na chegada do refrão ambos são adocicados com o canto e o piano melancólicos que extravasam no “outro” melódico da canção em um frenesi sonoro que metaforicamente retratava o estado emocional da cantora no período que sofreu um aborto espontâneo. Na faixa seguinte, um cover demoníaco de “Do It Again”, de Steely Dan, onde a bateria em compasso marcado prepara o palco para que Tori Amos passeie com desenvoltura com seu vocal e seu piano, temos uma das últimas demonstrações genuínas da furiosa energia e capacidade de improvisação que eram sinônimos da cantora americana até então, mas que infelizmente Tori foi abandonando aos poucos com o passar do anos. O single se encerra com uma das baladas mais adoradas pelos fãs de Tori: em “Cooling”, com nada além de sua voz meiga e seu inseparável piano Bösendorfer, a cantora americana demonstrou a incrível habilidade de compor baladas doces onde sua emoção fluía sem qualquer tipo de contenção, como as correntes de um rio desaguando no oceano – um clássico inesquecível de seu catálogo.

Baixe: Tori Amos – Spark [Part 2] [UK] (single) [mp3]

Ouça: Tori Amos – Spark [Part 2] [UK] (single)

1. “Spark”

2. “Do It Again”

3. “Cooling”

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005