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Sete Ventos Posts

Camille O’Sullivan – Changeling [download: mp3]

camille o'sullivan - changeling (2012)

No passado, o hábito de clicar em algum vídeo ou disco de algum artista que desconhecia me proporcionou o deleite de descobrir bandas e artistas que hoje são realmente populares, como Muse e Florence + The Machine, e gente que até hoje só é popular nos círculos mais descolados, como My Brightest Diamond, Woodkid, Frida Hyvonen e Joan As Police Woman. Apesar de que tem se tornado cada vez menos frequente me agradar ao clicar em algo de um artista que desconheço, a expectativa persiste e por isso preservo esse hábito, que por sorte recentemente me rendeu a feliz descoberta do belíssimo disco da dupla neozelandesa Luckless. Porém, esse não foi o único disco que descobri este ano e me agradou.
Camille O’Sullivan, inglesa de nascença e irlandesa de criação, produz concertos onde recria composições de artistas e bandas que admira. Sua tônica é lançar discos ao vivo de suas apresentações no palco, mas ela já gravou um par de discos de estúdio – entre eles está Changeling, lançado em 2012, onde recria algumas músicas conhecidas (e outras nem tanto) de artistas e bandas que admira, mas também dá voz à um par de composições inéditas. Com experiência como atriz, notadamente o maior atributo de Camille é mesmo a capacidade de usar seus dotes interpretativos para incutir emoção nas canções que escolhe recriar, e isso fica aparente já na faixa que abre o disco, “Revelator”, que é introduzida por um piano lento, mas repleto de expectativa, e cresce com a bateria, guitarra e sopro para uma harmonia marcial que corresponde ao ressentimento que Camille expressa no vocal, diferindo radicalmente do tom contemplativo do country-folk da versão original da americana Gillian Welch. Também contrastante é o cover de “Wake Up”, do Arcade Fire: ao invés da melodia grandiosa e efusiva dos canadenses, Camille abre espaço para que os instrumentos surjam com delicadeza, preenchendo aos poucos a atmosfera com a melodia graciosa do piano e da orquestração de cordas e amplificando o escopo emocional da canção através do seu canto profundamente emotivo sobre o alerta de um adulto, que ao sentir a proximidade do fim da vida, clama para que crianças aproveitem sua juventude. Em “Hurt” e “Nude” a britânica também ostenta sua habilidade interpretativa: na canção do Nine Inch Nails que foi famosamente “reapropriada” por Johnny Cash, apesar da melodia de início resignada, Camille enleva seu vocal em um crescendo onde acolhe suas dores e reivindica sua autonomia; na segunda, da banda Radiohead, a cantora preserva a melancolia da versão da banda britânica, mas através do seu vocal e das várias camadas de guitarras distorcidas, mergulha a canção em um tom de aflição. É porém em atmosfera completamente oposta, no segundo cover do Radiohead no disco, que Camille estampa toda sua perícia em expressar emoção: em uma melodia que preserva a ternura e quietude da versão original, com não mais do que violão, guitarra, percussão e piano de sonoridades calmas, a artista britânica consegue exprimir toda a devoção amorosa das letras de “True Love Waits” sem nunca levantar a sua voz, inteiramente mantida em um tom doce e sereno, como numa canção de ninar.
Mas se engana quem pensa que o disco é feito só de canções serenas e emotivas: mesmo com um pouco mais de comedimento devido a ausência do piano virtuoso do original de David Bowie, “Lady of Grinning Soul” mantém a atmosfera de gracejo pelo vocal em tom petulante e as camadas de guitarra distorcida que tomam a canção na sua parte final, e “It Just Won’t Do” vai adiante na galhofa com seu clima de “big band” se apresentando no palco de um cabaret. Mas certamente é a música “These Days”, escrita para a artista por Gary Lightbody que se encontre o ponto mais acessível do disco para o público, já que a harmonia obedece a cartilha de uma power ballad, com bateria e guitarras mais proeminentes acompanhando o vocal determinado em uma competente atmosfera pop/rock – algo característico do líder da banda Snow Patrol.
Contudo, Camille sabe que seu trabalho se diferencia por agregar uma maior carga emotiva em seus covers, e é por isso que o disco fecha com duas canções que voltam a investir nesse recurso: a penúltima faixa traz um cover de “Dark Roman Wine” do Snow Patrol, com vocal confiante em uma melodia madrigal onde violão, piano e bateria crescem vagarosamente com instrumentos de sopro para um apogeu solar elegante que subtrai um pouco da pieguice da versão original; já em “The Ship Song” a artista despe a balada grandiosa de Nick Cave em puro vocal e piano, expandindo ainda mais o horizonte emocional da canção que compara os apaixonados como caravelas que deixam tudo pra trás para em uma imprevisível, mas também imprescindível viagem – como esse belo disco de Camille O’Sullivan.

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Camille O’Sullivan – Changeling [mp3]

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Vanessa Carlton – “Animal” (single) [download: mp3]

Vanessa Carlton - Animal (single, 2025)

Quando Vanessa Carlton lançou o seu hit pegajoso “A Thousand Miles” em 2002, com apenas 21 anos, não deve ter imaginado que poucos anos depois, devido a uma cena com o ator Terry Crews na comédia de 2004 “As Branquelas”, se tornaria parte integral de um meme que figura como um clássico da internet, com incontáveis variações (como gamer, acho que esta aqui esta entre as melhores). Também não deve ter previsto o quanto a canção, já um tanto enjoativa em seu estado natural de power ballad açucarada, se tornaria ainda mais cansativa quando o meme (e por consequência a canção) acabou recentemente transmutado no mote publicitário das liquidações mensais de uma das maiores varejistas online do mundo, a Shopee, sendo interminavelmente veiculado em plataformas de vídeo como o Youtube. É certo que a artista não deve estar exatamente chateada por estar embolsando generosas quantias pelo uso ostensivo da canção no mundo todo pela empresa sul-coreana, mas o fato é que o estigma de cantorinha romântica fofa e bonitinha, que já existia, se aprofundou. A americana deve estar ciente do fato há muito tempo, pois mesmo antes da sacada publicitária da Shopee, Vanessa vem tentando se distanciar dessa imagem. Em seus últimos discos ela pouco lembra ser aquela mesma moça que ao vinte e tantos anos sentava ao piano para tocar melodias óbvias e emprestar sua voz doce à perspectivas juvenis: a americana, hoje com 42 anos, tem investindo em harmonias mais elaboradas, vem usando seu vocal de modo menos trivial e até colocou o piano em segundo plano para tirar proveito de instrumentação mais variada. Esse objetivo continua de pé com o lançamento, na segunda passada, do single “Animal”, primeira canção liberada do seu próximo disco, Veils. Sobre piano soturno e beat hipnótico contínuo de uma drum machine, surgem sopros fugazes de synths intencionalmente “vintage” enquanto Vanessa mais recita do que canta os versos que falam sobre encontrar o animal dentro de si e descobrir se você é a presa ou o caçador, e quando rende-se a este animal metafórico é que a canção ganha amplitude, com a entrada de uma reverberante bateria e a harmonia refinada de instrumentos de sopro. Esse conjunto musical tem uma elegância que suscita nuances de darkwave e trip-hop, mas todo esse requinte melódico tem um preço: certamente não veremos essa canção de Vanessa como trilha sonora de liquidações na Temu.

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Vanessa Carlton – “Animal” (single) [mp3]

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Ronboy – “Forget It” (single) [download: mp3]

ronboy - forget it (single) 2022

Julia Laws, mais conhecida pelo codinome Ronboy, artista originária da costa oeste americana, confessou em entrevistas recentes ter descoberto a satisfação de criar música de forma colaborativa, e tem o feito com artistas mais conhecidos e populares que ela, como Matt Berninger, vocalista da banda The Nationals. No entanto, a maior parte do seu catálogo musical até o momento é fruto genuíno do que se convenciona chamar de “indie”: foi praticamente quase todo escrito e produzido exclusivamente por ela (até mesmo de modo caseiro) e distribuído sem o suporte de um selo ou gravadora. É o caso de “Forget It”, single lançado em 2022: iniciado com um beat manso e espaçado sob teclados nostálgicos e mornos que emolduram o vocal sereno, doce e algo deprimido de Julia em uma atmosfera melancólica volátil, no refrão essa harmonia pacata ganha corpo com synths trovejantes que parecem atravessar o ar, que juntamente a múltiplas camadas vocais, a reverbs e a sintetizações radiantes integra-se em um dream pop que consegue dosar muito bem sobriedade e vigor.

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Ronboy – “Forget It” (single) [mp3]

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Orville Peck – “Drift Away” (single) [download: mp3]

orville peck - drift away/appaloosa (single)

Orville Peck, cujo texto que escrevi em fevereiro sobre seu segundo disco acordou o sete ventos de sua segunda fase de hibernação, em muito breve lançará um novo EP, Appaloosa. No dia de ontem o cantor americano liberou “Drift Away”, a segunda faixa do projeto, como single de divulgação deste novo lançamento: uma power ballad no familiar country (e um tiquinho rock) de Peck com violões e guitarras dedilhados em toques doces e vibrantes, bateria lenta, porém decidida e teclado Rhodes melancólico sobre o vocal suplicante do cantor, as letras, bem ao gosto do compositor, refletem nostalgicamente expectativas de jovens do interior sobre a vida adiante, mas nos versos “veja as crianças andando de carona pelas estradas, em 2021 todos os cinemas fecharam, desamparados, eles não tinham para onde ir”, que abrem a canção, Orville aproveita para lembrar como há pouco tempo parte considerável da infância e juventude de muitas pessoas foi afetada pelo infame confinamento da pandemia, cujos (ir)responsáveis também obrigaram cadeias inteiras de serviços a fecharem as portas, uma insanidade asquerosa, que além de todas as consequências econômicas e sociais (com reflexos até hoje) prejudicou uma geração inteira de crianças e jovens por mantê-los confinados e com imensas restrições de interação social e lazer – e nisso concordamos plenamente, Orville.

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Orville Peck – “Drift Away” (single) [mp3]

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Rosalía – “Berghain” [feat. Björk & Yves Tumor] (single) (dir. Nicolás Méndez) [vídeo, download: mp3]

Com um videoclipe arquitetado pela companhia Canada, que apesar do nome é baseada em Barcelona, a cantora espanhola Rosalía parece querer fazer bastante barulho para seu próximo disco, Lux, a ser lançado no início novembro. O vídeo do single “Berghain” alterna momentos da rotina mundana da personagem, que aparentemente trabalha como diarista, sendo inusitadamente acompanhada por todos os lugares pelo corpo de músicos da London Symphony Orchestra e um coral completo, ambos em plena execução de suas funções na canção, e sequências mais crípticas e surrealistas, como um pássaro que canta na voz de Björk (uma das convidadas para a canção), um cervo que verte sangue pelos olhos e adquire feições humanas enquanto o americano Yves Tumor faz sua participação na faixa, até encerrar-se com a cantora na cama, transmutada em uma pomba branca que levanta-se voando. É difícil tentar tirar significados para todas as imagens criadas pelo diretor Nicolás Méndez, mas é possível entender que na narrativa a personagem sofre de algum mal cardíaco, podendo ser literal, haja visto a sequência no médico onde faz um exame do coração, ou metafórico, já que o objeto que conecta toda a narrativa é justamente uma jóia dourada em formato de coração, que ela examina para penhora em uma das cenas. Há também referências fáceis de captar, como o conto da Bela Adormecida na sequência onde a artista contracena com animais selvagens em um quarto decorado como uma floresta, e outras que apenas os mais experientes podem perceber alguma influência, afinal de contas, para mim, um fã absoluto do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, é difícil não enxergar a brevíssima sequência do cubo de açúcar, suspenso acima de uma xícara de café e lentamente sendo umedecido pela bebida, como uma referência discretíssima a “A Liberdade é Azul” – mesmo a enfermidade cardíaca e a sequência do exame podem ser vistos como referências a outro filme do mestre polonês, “A Dupla Vida de Véronique”. Porém, muito provavelmente eu esteja querendo enxergar demasiada profundidade em um vídeo de uma artista que eu confessadamente não tenho grande intimidade, mas cujo trabalho até então não deixava dúvidas de que se encaixa no que há de mais pueril e mainstream.

rosalia - berghain (single)
Confesso, no entanto, que a faixa “Berghain” é ambiciosa e diverge radicalmente da qualidade do que Rosalía lançou até hoje: sobre o coral escandalosamente épico e o virtuosismo barroco das cordas e percussões da London Symphony Orchestra, a cantora espanhola dá o melhor de si para incorporar uma soprano na interpretação da sua vida, tudo cantado em alemão. Calma, isso é só o início: voltando-se para seu espanhol nativo, Rosalía derrama-se em um canto sofrido e mergulhado em emoção, enquanto coral e orquestra adornam em matizes cinematográficas suas confissões de amor incondicional, ilustrado nas letras pelo cubo de açucar desmanchado-se em café. Achou excessivo? Segura a peteca, que em seguida entra Björk divagando sobre a intervenção divina ser a única capaz de salvar este amor. Nossa, que drama! Acabou? Não, por último o americano Yves Tumor surge para, junto de alguns versos vulgares que não chegam a estragar todo roteiro anterior, concluir a canção com ruídos e distorções no vocal que conferem ares mais modernos e urbanos para a faixa. Sim, “Berghain” é uma overdose teatral e a mistura de musicalidade erudita e contemporânea está longe de ser uma impactante novidade, mas eu estaria mentindo se eu dissesse que todo esse melodrama pungente não é viciante.

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Rosalía – “Berghain” [feat. Björk & Yves Tumor] (single) [mp3]

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Anna Calvi – “I See a Darkness” (feat. Perfume Genius) (single) [download: mp3]

anna calvi (featuring perfume genius) - i see a darkness (single)

A arrojada cantora britânica Anna Calvi, em entrevista recente, declarou que gosta de fazer covers de artistas que admira porque deste modo consegue “expressar coisas que não consegue articular”. Tendo lançado há mais de dez anos uma ousada versão de “Strange Weather” em companhia de David Byrne e que, verdade seja dita, não se compara a levitante beleza da versão original da franco-israelense Keren Ann, Calvi aliou-se ao americano Perfume Genius (Mike Hadreas) para recriar outra canção – e desta vez foi um pouco mais feliz, a meu ver. Originalmente lançada por Bonnie “Prince” Billy (antes conhecido como Will Oldham) em 1999 como um lamento folk sobre como o entusiasmo fraternal dos homens na juventude muitas vezes converte-se em solidão e ansiedade na vida adulta destes amigos, “I See A Darkness” foi “encontrada” por Johnny Cash no ano seguinte e transmutada em um country/folk acústico ainda mais melancólico, o que talvez tenha inspirado o próprio Bonnie Prince, anos depois, em 2012, a relança-la como um folk/rock mais leve e animado. O cover de Calvi e Hadreas, no entanto, é permeado por um ar de mistério, que no início soa um pouco confuso e a cacofônico, muito devido ao contraste entre o vocal grave de contralto da cantora e a fragilidade na voz aguda de Perfume Genius, mas à medida que a canção avança e a icônica guitarra de Calvi ecoa e treme no ar com seus riffs afiados, a melodia se encontra, ganhando sintetizações que lhe preenchem com uma textura noturna mais quente e fluorescente.

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Anna Calvi – “I See a Darkness” (feat. Perfume Genius) (single) [mp3]

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005