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Categoria: vídeos

análises e comentários de vídeos disponíveis para download ou streaming

Sinéad O’Connor – “Chiquitita” (single) [vídeo, download: mp3]

sinead o'connor - chiquitita (single, 1998)

A irlandesa Sinéad O’Connor ganhou projeção internacional em 1990 com sua versão de “Nothing Compares 2U”, originalmente composta por Prince para sua então banda The Family. O impacto da interpretação da irlandesa foi imenso, transformando a canção em ícone da história do pop/rock e causando rejeição do autor original. No entanto, esse não foi o único cover feito pela artista: durante sua carreira, Sinéad regravou canções de diversos outros artistas e em diferentes gêneros, indo de musicais até o reggae. Porém, uma das suas interpretações mais radiantes, de uma composição da banda sueca ABBA, é quase desconhecida.
Sinéad trouxe em 1998 uma versão luminosa de um dos maiores hits do ABBA
Gravada e lançada originalmente em 1999 como parte do álbum beneficente Across The Bridge of Hope (em suporte às vítimas do ataque a bomba de 1998 na Irlanda da Norte), a “Chiquitita” de Sinéad inicia com os mesmos acordes doces e melancólicos do violão que caracterizam tão bem a versão original, mas logo é tomada por uma instrumentação mais contemporânea, em uma produção onde a programação de teclados, a bateria e o baixo formam um rio denso por onde a voz luminosa da cantora irlandesa navega ao mesmo tempo meiga e confiante.

No videoclipe que promoveu a canção, a diretora Sophie Muller consegue preservar essa atmosfera cintilante e madrigal, mas vai além: ao colocar a irlandesa para cantar em uma cozinha preparando a mesa para o chá, referenciando a câmera com gestual amistoso, Muller dá visibilidade para as letras da música, trazendo um ambiente caseiro onde Sinéad pode incorporar com perfeição uma confidente que tenta passar segurança e conforto para a amiga. É lamentável que tenhamos perdido há alguns anos a artista irlandesa, mas felizmente Sinéad foi generosa o suficiente para nos ofertar uma variedade enorme de canções onde nos deixou seu maior presente: a sensibilidade com a qual assinou todas as músicas onde deixou a sua voz.

Sinéad O’Connor – “Chiquitita” (Single) [mp3] Deixe um comentário

Beck – “Ride Lonesome” (single) [vídeo, download: mp3]

beck - ride lonesome (single, 2026)

Influenciado pelo seu estado de espírito após o término com sua então noiva, Beck mudou a percepção pública de sua música ao lançar Sea Change em 2002, um álbum introspectivo e melancólico que conquistou fãs e público com suas composições de base acústica com uso de harmonias orquestrais. O artista voltou a revisitar o estilo em 2014 ao produzir ele mesmo Morning Phase, posicionando-o como sucessor espiritual do disco Sea Change ao ponto de buscar grande parte dos músicos que trabalharam nas gravações em 2002.

beck - ride lonesome (single, 2026) post 01
Com seu novo single, Beck retorna à sonoridade do country/folk melancólico de Sea Change

Passados doze anos, e contando com a mesma equipe e com o retorno do produtor Nigel Godrich (que não participou do disco de 2014), o americano foi mais uma vez tomado pelo espírito criativo com o qual concebeu os dois discos anteriores: seu novo single, “Ride Lonesome”, compartilha ainda mais a atmosfera de vulnerabilidade emocional de 2002 do que Morning Phase, trazendo o mesmo clima country/folk através de um violão consternado, bateria de toques lentos, guitarra melódica triste e vocais sobrepostos, abatidos e distantes.

O videoclipe da canção, gravado na região do deserto de Mojave e exibindo uma fotografia em matizes amareladas, utiliza como inspiração a atmosfera de vastidão e solidão de faroestes americanos como os de Budd Boetticher, cujo filme de 1959, Ride Lonesome, inspirou o nome do single. Entre campos de turbinas eólicas, árvores de Joshua, longas estradas e linhas de trem infinitas, o cantor caminha aparentemente sem destino, refletindo o estado de desolação e falta de rumo do homem que nas letras lamenta o fim do seu relacionamento. Como se observa nesta canção, felizmente o estado de espírito do personagem é oposto ao do compositor e cantor americano, que mostra nesse single ter ainda disposição criativa de sobra.

Beck – “Ride Lonesome” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

Beck - Ride Lonesome (Single) - 2026
Beck - Ride Lonesome (Single) - 2026

Ouça (Deezer):

Beck - Ride Lonesome (Single) - 2026
Beck - Ride Lonesome (Single) - 2026

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Hayla – “Heal” (single) [vídeo, download: mp3]

hayla - heal (single, 2026)

Desde 2018 a voz da britânica Hayley Williams, conhecida como Hayla, tem batido ponto na cena eletrônica em faixas de artistas como Kx5 (projeto conjunto de Deademau5 e Kaskade) e John Summit, e até mesmo em Dusk, seu único álbum lançado até hoje, a artista continuou mergulhando fundo no gênero ao fundi-lo com elementos pop. No entanto, isso mudou no último dia 10, quando a inglesa lançou “Heal”, seu mais novo single.

hayla - heal (single, 2026) post 01
Conhecida na cena eletrônica, a britânica Hayla lançou uma balada melancólica e luxuosa onde demonstra todo o potencial de sua voz

Contando com a participação do norueguês Magnus Skylstad, parceiro constante da cantora Aurora, Hayla investe no potencial emotivo de sua voz para construir uma melodia poderosa que difere radicalmente de seu trabalho até hoje. A faixa é introduzida com não mais do que um piano de toques misteriosos e algumas distorções atmosféricas que materializam uma bruma sonora por onde a voz da cantora abre caminho entre o silêncio para manifestar sua ansiedade afetiva cantando “quero que você cure as partes de mim que ninguém vê, tenho medo, mas é bom para mim o que se esconde por trás do despertar”. Uma percussão lenta e sofrida adentra a sequência melódica final para intensificar o drama ostentado no vocal da inglesa, agora pronunciado em toda sua melancolia épica.

A versão ao vivo, gravada este ano em uma sessão na igreja antiga de St. Pancras de Londres com a adição de um quarteto de cordas, traz ainda mais a superfície o tecido soturno e cinemático da faixa e comprova que o vocal de Hayla é um atributo natural, sem o apoio de artifícios de estúdio. Como fã de baladas pujantes que fogem do pop convencional, espero que a artista adote essa nova persona dark imagética para um novo álbum.

Hayla – “Heal” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

Hayla - Heal (Single) - 2026
Hayla - Heal (Single) - 2026

Ouça (Deezer):

Hayla - Heal (Single) - 2026
Hayla - Heal (Single) - 2026

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Blood Cultures – Skate Story: Vol. 1 [download: mp3, vídeo]

blood cultures - skate story vol 1 (2025)

O anonimato, ou um simulacro dele, é um artifício que alguns músicos costumam adotar por razões diversas. Sem que seus rostos sejam de fato um segredo, Jonathan Bree e Orville Peck o fizeram como uma tentativa marketeira de diferenciação no gênero musical que atuam. Sia e Björk adotaram o mecanismo tardiamente em suas carreiras, possivelmente como um modo de retardar a percepção do público sobre o seu envelhecimento. Já grupos como Daft Punk até hoje preservam segredo sobre esse aspecto para manter os benefícios da privacidade – ou talvez para tentar sustentar o interesse contínuo do público através do mistério de sua aparência.

blood cultures - before
Blood Cultures em sua primeira fase, com apenas um integrante.

O banda de indie pop eletrônico Blood Cultures, composta inicialmente por um único músico, mas agora com quatro, pode ser encaixada nesse último grupo, mas vai um pouco mais fundo no expediente: ninguém sabe nem mesmo o nome dos sujeitos que sempre se apresentam com o rosto encoberto, normalmente com uma máscara artesanal sobreposta a camadas de capuz (antes eram burkas cobrindo um traje executivo).
blood cultures - after
O grupo na fase atual, com quatro membros.

Na semana passada, os “tímidos” rapazes lançaram um novo disco, o segundo pelo selo Pack Records, depois de dois outros álbuns produzidos e distribuídos sem este suporte. Servindo como trilha sonora do indie game de mesmo nome e trazendo vocais processados em estúdio e uma produção bem cuidada, Skate Story: Vol. 1 é um compêndio de doze faixas onde o pop eletrônico é a chave mestra que abre as portas de diferentes influências sonoras. “Emptylands”, por exemplo, é moderadamente uptempo, mas tem como seu elemento principal os sintetizadores, hora como uma harmonia ondulante vintage que suscita o cinema de mistério dos anos 80, hora como um denso fluxo melódico de puro neon noturno. Já em “Where The City Can’t See”, a intro com vocal e teclado de sonoridade abafada e envelhecida não deixa dúvidas de sua herança lo-fi, mas logo a doçura da harpa e das harmonias sintetizadas trazem generosas doses de chillwave, por sua vez adornado com a urbanidade de samples dos anúncios do metrô de New York que pontuam a música – não é puro acidente, uma vez que o grupo reside na região da metrópole e o videoclipe da música (abaixo), com uma edição arrojada e moderna, a usa como cenário, seja com imagens de arquivo ou de registros atuais – e apesar de todo o esmero, os rapazes ainda deixam escapar algumas provas do péssimo estado atual de uma das cidades mais famosas do planeta.

Na faixa seguinte, porém, o tom é outro: iniciada com synths e vocalizações discretas ao fundo que sugerem um clima quase fantástico, “Into Pure Momentum” é logo conduzida por um beat rápido que não nega seu gosto pelo drum ‘n’ bass e a pista de dança. Mas o ritmo diminui em sequência, já que as agudas sintetizações extraterrenas, o longínquo teclado envelhecido e o distorcido vocal melancólico são todos conduzidos pela lenta cadência pulsante de um synth de tessitura eletro-dark em “Overlord”. “Unarchiver” chega na sequência querendo voltar para a pista com sua batida sintética e uma fartura de camadas de distorção nos vocais e no coral ao fundo, concedendo um ar psicodélico à canção. Já no fim do disco, a aceleradíssima batida densa, suja e caótica, repleta de distorções, que se alterna a uma ambiência soturna e misteriosa sugere “Hole In The Sun” como a trilha sonora ideal para uma boss fight tensa e caótica em uma atmosfera sombria, enquanto a delicadeza da textura rarefeita do mezzo lo-fi fractal de “The Age of Disbelief”, por sua vez, atua como um lenitivo, concluindo a trilha do game Skate Story com a placidez aliviada de quem acabou de enfrentar, com sucesso, uma dura batalha.

Baixe: Blood Cultures – Skate Story: Vol. 1 [mp3]

Ouça:

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Rosalía – “Berghain” [feat. Björk & Yves Tumor] (single) (dir. Nicolás Méndez) [vídeo, download: mp3]

Com um videoclipe arquitetado pela companhia Canada, que apesar do nome é baseada em Barcelona, a cantora espanhola Rosalía parece querer fazer bastante barulho para seu próximo disco, Lux, a ser lançado no início novembro. O vídeo do single “Berghain” alterna momentos da rotina mundana da personagem, que aparentemente trabalha como diarista, sendo inusitadamente acompanhada por todos os lugares pelo corpo de músicos da London Symphony Orchestra e um coral completo, ambos em plena execução de suas funções na canção, e sequências mais crípticas e surrealistas, como um pássaro que canta na voz de Björk (uma das convidadas para a canção), um cervo que verte sangue pelos olhos e adquire feições humanas enquanto o americano Yves Tumor faz sua participação na faixa, até encerrar-se com a cantora na cama, transmutada em uma pomba branca que levanta-se voando. É difícil tentar tirar significados para todas as imagens criadas pelo diretor Nicolás Méndez, mas é possível entender que na narrativa a personagem sofre de algum mal cardíaco, podendo ser literal, haja visto a sequência no médico onde faz um exame do coração, ou metafórico, já que o objeto que conecta toda a narrativa é justamente uma jóia dourada em formato de coração, que ela examina para penhora em uma das cenas. Há também referências fáceis de captar, como o conto da Bela Adormecida na sequência onde a artista contracena com animais selvagens em um quarto decorado como uma floresta, e outras que apenas os mais experientes podem perceber alguma influência, afinal de contas, para mim, um fã absoluto do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, é difícil não enxergar a brevíssima sequência do cubo de açúcar, suspenso acima de uma xícara de café e lentamente sendo umedecido pela bebida, como uma referência discretíssima a “A Liberdade é Azul” – mesmo a enfermidade cardíaca e a sequência do exame podem ser vistos como referências a outro filme do mestre polonês, “A Dupla Vida de Véronique”. Porém, muito provavelmente eu esteja querendo enxergar demasiada profundidade em um vídeo de uma artista que eu confessadamente não tenho grande intimidade, mas cujo trabalho até então não deixava dúvidas de que se encaixa no que há de mais pueril e mainstream.

rosalia - berghain (single)
Confesso, no entanto, que a faixa “Berghain” é ambiciosa e diverge radicalmente da qualidade do que Rosalía lançou até hoje: sobre o coral escandalosamente épico e o virtuosismo barroco das cordas e percussões da London Symphony Orchestra, a cantora espanhola dá o melhor de si para incorporar uma soprano na interpretação da sua vida, tudo cantado em alemão. Calma, isso é só o início: voltando-se para seu espanhol nativo, Rosalía derrama-se em um canto sofrido e mergulhado em emoção, enquanto coral e orquestra adornam em matizes cinematográficas suas confissões de amor incondicional, ilustrado nas letras pelo cubo de açucar desmanchado-se em café. Achou excessivo? Segura a peteca, que em seguida entra Björk divagando sobre a intervenção divina ser a única capaz de salvar este amor. Nossa, que drama! Acabou? Não, por último o americano Yves Tumor surge para, junto de alguns versos vulgares que não chegam a estragar todo roteiro anterior, concluir a canção com ruídos e distorções no vocal que conferem ares mais modernos e urbanos para a faixa. Sim, “Berghain” é uma overdose teatral e a mistura de musicalidade erudita e contemporânea está longe de ser uma impactante novidade, mas eu estaria mentindo se eu dissesse que todo esse melodrama pungente não é viciante.

Baixe:
Rosalía – “Berghain” [feat. Björk & Yves Tumor] (single) [mp3]

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“Lands Of Steel”, de Cyril Vrancken. [vídeo, curta-metragem]

Em um futuro onde a civilização pereceu, um robô defronta-se com criaturas perigosas (e familiares) nas ruínas de um subúrbio.
Totalmente produzido utilizando o popular aplicativo de código-aberto Blender, assim como o premiado longa-metragem letoniano “Flow”, este curta de 2024 escrito e dirigido pelo belga Cyril Vrancken utiliza-se de uma temática há décadas incansavelmente explorada pelas produções audiovisuais – a extinção dos alicerces da civilização devido a contaminação em massa de seres humanos que os converteu em alguma monstruosidade irracional. Apesar de ter nitidamente se inspirado em aspectos essenciais do enredo do clássico livro “Eu Sou a Lenda” (mais popularmente conhecido pela adaptação cinematográfica de 2007 estrelada por Will Smith), Vrancken dá sua pequena e singular contribuição ao subverter o ponto de vista da trama para um robô em sua rotina de vigilância através do mundo arruinado, decisão que afasta a produção de ser apenas mais uma entre as inúmeras que acumulam-se tratando do tão batido “apocalipse zumbi”: ao invés de enxergarmos esta realidade sombria através dos olhos destroçados e dessensibilizados de um homem emocionalmente abalado pelo declínio da sua espécie, temos o inusitado e inesperado aturdimento emocional de um andróide que normalmente teria um olhar frio e indiferente ao realizar sua rotineira eliminação de ameaças biológicas – uma decisão inteligente que assegura o impacto do pequeno filme no espectador.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005