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Tag: cinema americano

“Frankenstein”, de Guillermo del Toro [download: filme]

frankenstein (2025)

Um homem é socorrido no ártico pela tripulação de um navio encalhado ao ser perseguido por uma criatura forte e misteriosa, e então conta sua história para o capitão. Ele é Victor Frankenstein, que quando criança, após perder a mãe no parto do irmão, desafia o seu pai cirurgião, jurando se tornar melhor que ele. Muitos anos depois recebe a visita de seu irmão, sua futura cunhada e o tio desta, um rico mercador de armas que resolve patrocinar as pesquisas de Victor.
Em ocasiões eventuais, a Netflix resolve isentar-se de seu estilo de produção formulaica e dispor de seus fundos (tão imensos que está a ponto de adquirir e assimilar toda a corporação Warner) para financiar grandes nomes do cinema em projetos autorais – foi assim com Alfonso Cuarón e seu “Roma” e Martin Scorsese e seu “O Irlandês”. No ano passado foi a vez de Guillermo del Toro realizar o sonho que nutria pelo menos desde 2007: fazer a sua versão do clássico Frankenstein. Dispondo de um vistoso orçamento na casa dos 120 milhões de dólares, o diretor dá vazão ao seu estilo grandiloquente em cenários deslumbrantes com uma produção rica e detalhada. Porém, mesmo que o cineasta mexicano sempre impressione com o visual muito particular dos seus filmes, ele nem sempre acerta no campo artístico.
Em sua interpretação da obra-prima da britânica Mary Shelley, que também roteirizou, Del Toro a transpõe para o industrial e bélico século XIX, divide-a em quatro atos – prólogo, história de Victor, história da criatura e epílogo – e promove modificações na trama – Elizabeth, por exemplo, não é esposa de Victor, mas sua cunhada. As mudanças não são acidentais: ao situar a trama mais de cem anos adiante del Toro suavizou os aspectos de horror e trouxe modernidade e luxo; ao dividir o ponto de vista do desenvolvimento da trama, o mexicano tentou condicionar o público à sua perspectiva sobre os protagonistas; e mudanças como a promovida sobre Elizabeth extirparam o caráter romântico da trama para dedicar-se mais a relação entre Vitor e criatura. Juntas, todas essas propriedades permitem a Del Toro realizar completamente sua visão da obra, onde Victor é o vilão e a criatura é o herói – e a meu ver é aí que está o problema de seu filme.

frankenstein (2025) movie stills 01
Removidos horror e romance, Guillermo del Toro concentra-se na personalidade de seus protagonistas

Em seu longa-metragem, Victor Frankenstein é egoísta, narcisista, arrogante, insensível, invejoso, inconsequente e obcecado. A grande motivação emocional de sobrepujar a inevitabilidade da morte deixa de ser o trauma pela perda da mãe e passa a ser o orgulho infantil de superar seu pai rígido e frio. A criatura, por sua vez, além de visivelmente menos grotesca, é retratada como inocente, amorosa e pura, naturalmente com boas intenções e incapaz de causar mal que não seja para sua própria defesa. Mesmo ao atacar Victor, ela o faz por se sentir rejeitada, traída e ignorada por este. Ou seja, Del Toro não apenas removeu de seu Victor quaisquer traços que poderiam lhe angariar alguma simpatia ou mesmo identificação com o público, ele os transferiu para a criatura. Como consequência, a despeito de suas duas horas e meia, a trama de seu “Frankenstein” se torna menos complexa do que a da história original e seus personagens mais caricatos – o impacto e densidade da obra de Shelley, com seus personagens multifacetados, dão lugar ao higienismo narrativo e a simplificação de seus agentes. Embora isso não seja, a meu ver, alguma novidade na filmografia do Guillermo Del Toro, isso nunca esteve tão visível quanto agora, ao adaptar uma das obras mais seminais da literatura mundial, transformando-a, a despeito de toda a estética apurada e a sanguinolência explícita, em uma trama piegas perpetrada por personagens flagrantemente rasos – algo que não difere muito de boa parte das novelas produzidas em seu país de origem.

Baixe: “Frankenstein”, de Guillermo del Toro (Frankenstein, 2025)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português español english

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“Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski [download: filme]

a quiet place (2018)

Um casal e seus três filhos tentam sobreviver em um mundo devastado por criaturas que caçam qualquer coisa que produza algum som.
A princípio pensei ser este filme a estréia de John Krasinski atrás das câmeras, mas na verdade o diretor já tem duas comédias indies no currículo. “Um Lugar Silencioso” é, no entanto, seu primeiro filme de sucesso: tendo gasto não mais do que 20 milhões na produção, o filme teve rendimento de mais de 200 milhões de dólares em bilheteria nos cinemas e arrancou elogios tanto da crítica quanto do público. A boa recepção certamente se deve ao balanceamento inteligente do argumento original (criado por Bryan Woods e Scott Beck e roteirizado por ambos com o auxílio do diretor) que bebe em fontes consagradas cinema ao mesmo tempo que introduz o seu próprio elemento de estranhamento.
Apesar de esta ser a sua primeira incursão nos gêneros do horror e ficção-científica, Krasinski consegue injetar frescor mesmo recorrendo à elementos familiares dessa seara para a construção do seu longa-metragem: há sim fartas doses de inspiração originária de filmes como “Alien”, representado na ameaça do predador alienígena, mas os predadores de “Um Lugar Silencioso” guiam-se unicamente pelo som; também há muito da desolação do planeta de longas clássicos como “O Último Homem da Terra” ou contemporâneos como “Extermínio” presente no longa de Krasinski, porém o diretor americano o faz situando quase a totalidade do seu filme em ambiente não-urbano – decisões que distanciam razoavelmente seu longa da idéia de “mais um filme de alienígena que arrasou o planeta”.
No entanto, o que chama a atenção do espectador desde o início do filme são os aspectos inusitados da história composta por Woods, Beck e Krasinski, que ao compor os características do predador alienígena que dizimou a humanidade, acabam por consequência também concedendo ao longa uma atmosfera singular, perpassado-o por um silêncio sepulcral onde os barulhos mais inaudíveis do nosso cotidiano acabam enormemente amplificados – como o rolar de dados em um tabuleiro e mesmo o suave pisar dos pés na areia -, o que potencializa o suspense ao soar dos ruídos mais pueris que sequer notamos no nosso dia-a-dia. Essa característica bastante particular não fez, no entanto, com que o diretor eximisse seu longa do suporte de uma trilha sonora: ela está lá, cumprindo o seu papel dentro dos padrões mais clássicos do horror e do suspense para preservar o efeito dramático. Krasinski explicou que tomou essa decisão de modo consciente para que o seu longa não soasse como um experimento e pudesse ter uma relação de familiaridade com a platéia, o que faz sentido e, mais uma vez, mantém um equilíbrio entre inovação e tradição na tessitura do longa-metragem.
Devido à eficácia do filme na relação custo x benefício, não é difícil supor que os produtores de Hollywood já pensem em formular uma sequência para o longa – ela, aliás, já foi listada no portal IMDB. Sinceramente, espero que isso fique apenas na idéia: a obra de Krasinski e seus dois roteiristas é daqueles filmes simples e objetivos que funcionam muito bem como em volume único, mas cujo charme e força não sobreviveria ao estender-se por demais capítulos. Vamos torcer para que Hollywood, desta vez, tenha um lampejo de bom senso.

Baixe: “Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski (A Quiet Place, 2018)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Baixe: legendas (português)

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“A Árvore da Vida”, de Terrence Malick (+ soundtrack oficial e não-oficial) [download: mp3, filme]

the tree of life (2011)

Jack, executivo de meia idade de uma grande companhia, enfrenta uma crise existencial e mergulha em recordações de grande parte de sua infância ao lado dos dois irmãos mais novos, seu pai, um engenheiro militar ao mesmo tempo rígido e afetuoso, e sua mãe, doce, alegre e compreensiva, revivendo inclusive a dor da perda do irmão do meio, quando este tinha cerca de 18 anos de idade.
Ao invés de uma narrativa convencional e linear com um roteiro palpável, Terrence Malick procura retratar em seu mais novo filme com contornos autobiográficos, “A Árvore da Vida”, como imagina ser a experiência de recordações da infância através da utilização de sequências de imagens, sensações, sons e emoções deste período, o que resulta em um retrato sensorial da infância, de forma absolutamente não-narrativa, tudo ainda entrecortado ou correndo paralelamente à uma ilustração sobre o surgimento do universo e da vida. Os críticos e o público mais impressionados com o longa-metragem, muitos destes declarando-se profundamente tocados e emocionados por ele, o definem como uma “poesia visual”, e em sua grande maioria utilizam este termo como defesa de sua qualidade, o que, muito proveitosamente, também lhes garante o direito de afirmar que os que não se impressionaram e não apreciaram o filme certamente não conseguiram atingir e compreender sua profundidade, atitude totalmente análoga à de uma experiência esotérica/mística/religiosa – não me surpreendo com tamanha tolice: esta é uma tendência bastante comum entre fãs que nutrem paixão cega por algo que julgam profundo (e que, muitas vezes, assim o vêem porque consideram estar a obra além de seu entendimento e compreensão).
De fato, nem se discute que “A Árvore da Vida” é poesia visual. Porém, dizer isso é tão somente descrever sua essência e estrutura, e não um argumento para defender sua qualidade, uma vez que poesia, como qualquer outra coisa existente, pode ser boa ou ruim – não é por ser poesia que necessariamente vai ser boa. É verdade que a fotografia, cenografia e ambientação do filme são estupendas, mas elas tornam-se entediantes com sua brancura cristalina e higienismo inexpugnáveis; claro que a seleção de peças clássicas que servem de trilha sonora é fantástica, mas a sua utilização insistente, quase ininterrupta, seus contornos etéreos/sacros e principalmente sua aplicação na montagem a fazem um chavão cinematográfico dos mais batidos, já que praticamente qualquer coisa, mesmo a mais banal e ordinária, não acontece sem ser acompanhada por um “batismo” sonoro de esplendor celestial; a edição, em grande parte feita de sequências dentro da casa de um minuto ou menos, é interessante e peculiar, porém acaba cansando logo com este amontoamento gigantesco de pequenos fragmentos de cenas.

the tree of life, movie stills 01
Um dos incontáveis fragmentos de cena que compõe “A Árvore da Vida”

Mas se sua análise isolada revela sua problemática, em conjunto os elementos não se revelam mais felizes: o caráter poético, que resulta desta união e do olhar que o organiza (de Malick, obviamente), é o mesmo que encontramos nos clichês mais caros ao mundo da publicidade, com toda a sua carga cafona e simplista – imagine uma peça publicitária de ano novo de uma mega-corporação bancária e você já vai ter uma idéia muitíssimo aproximada da aura poética de “A Árvore da Vida” (isso sem falar na novelesca sequência final com todo o elenco e figurantes, que ninguém ousou falar que é de gosto duvidoso só porque se trata de Malick). E mesmo que se façam interpretações profundas de sua trama não-narrativa (desnecessário chegar a tanto, a compreensão do que Malick pretendia com o filme está longe de ser difícil, nem foi esta sua intenção), estas não lhe removem seus defeitos e equívocos – a bem da verdade, apenas os ressaltam.
Deste modo, afora os requintes técnicos e o bom desempenho dos atores – que estão muito bem, é verdade, mas suas atuações estão o tempo todos submersas pelo imenso peso dos elementos que compõe o filme -, restaria a ousadia de Terrence Malick em ter produzido um longa-metragem pouco convencional, mas mesmo isto é discutível. A colossal empreitada do cineasta americano não é tão ousada quanto aparenta ser: o documentário experimental “Koyaanisqatsi”, colaboração do diretor Godfrey Reggio com o espetacular compositor Philip Glass que influencia até hoje a produção cultural audiovisual contemporânea, trilhou caminho semelhante bem antes deste filme – obviamente que ambas são películas bastante diversas, mas a essência poética não-narrativa e a reflexão sobre a vida, o universo/mundo, a humanidade e a espiritualidade são essencialmente as mesmas – com o agravo de que o filme de Reggio é impecavelmente esplêndido em todos os seus aspectos.
Ao fim, penso que apesar e justamente por conta de sua irrefreável beleza imponente, “A Árvore da Vida” acaba subjugando às intenções elevadas de seu conteúdo à ela, o que, muito ironicamente, subverte todo o requinte de seu conjunto sonoro e visual romântico em algo um tanto ordinário e vulgar e consequentemente o seu conteúdo solene em um conjunto de reflexões sobre a perda, o perdão e a transcendência da existência que não difere muito da falácia espiritual e de auto-ajuda que infecta as editoras literárias do mundo inteiro. É provável – e admito – que o diretor tenha alcançado e realizado aqui muito do que pretendia, os méritos técnicos são inquestionáveis, porém, a relevância, a mais nobre da pretensões que se pode alimentar, não consegue sobreviver à longa jornada de quase duas horas e meia que vai desde a origem do universo até a redenção e iluminação humana em “A Árvore da Vida”.

Baixe: “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick (The Tree of Life, 2011)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português español

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BÔNUS: apesar de ter sido lançada oficialmente a trilha sonora do filme, composta por Alexandre Desplat, pouco desta música em grande parte contemplativa e serena é de fato utilizada no filme, já que é uma seleção de peças clássicas compostas por Taverner, Preisner (genial compositor parceiro de trabalho do inesquecível cineasta polonês Kieslowski), Respighi, Holst, Smetana, Górecki, Couperin, Berlioz e Patrick Cassidy que são utilizadas em grande parte de “A Árvore da Vida” e que de fato ficam associadas na memória devido à sua imensa beleza e imponência. Como disse na resenha acima, apesar do modo como foi utilizada ser justamente um dos grandes problemas do filme de Malick, seria estúpido não admitir que a seleção é das mais belas e primorosas. Não se sabe se Malick vai ou não liberar a coletânea de peças eruditas oficialmente, mas mesmo que não o faça, as boas almas da internet já tomaram para si a tarefa: aqui está, então, tanto a trilha oficialmente lançada quanto a compilação não-oficial com as composições clássicas dos mestres da música acima citados. Bom proveito!

the tree of life original soundtrack (2011)
Baixe: Alexandre Desplat – The Tree Of Life: Original Motion Picture Soundtrack [mp3]

Ouça:

the tree of life classical soundtrack (2011)
Baixe: Music From The Motion Picture The Tree of Life (não-oficial) [mp3]

Ouça:

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“Gente como a Gente”, de Robert Redford [download: filme]

Depois de retornar de hospital psiquiátrico, onde foi internado após tentativa de suicídio ao sentir-se culpado pela morte do irmão em um acidente, Conrad tenta retomar sua vida ao lado do carinhoso pai e da mãe com quem não consegue estabelecer uma ligação mais profunda.
“Gente como a Gente”, baseado no livro Ordinary People de Judith Guest, felicíssima estréia na direção do ator Robert Redford, é um drama americano à moda antiga: não há ousadias estéticas ou formais, apenas uma história muito bem contada com personagens cativantes e os atores ideais os interpretando, e é justamente o trio de protagonistas, composto por Donald Sutherland, Mary Tyler Moore e o então estreante Timothy Hutton como o angustiado Conrad que sobressaem logo aos olhos do público por conta da grande cumplicidade destes com seus papéis – a começar por Mary Tyler Moore, na caracterização impecável da mãe distante, fria, egocêntrica e egoísta. A personagem não é apresentada imediatamente com todas estas características, mas inicialmente como uma mulher que tenta vencer sua falta de afinidade com o filho caçula, algo que logo descobrimos ser a manifestação mais visível de sua total indisposição e inabilidade com as responsibilidades da maternidade e do matrimônio – um papel que não é apenas difícil porque distanciava-se e muito daquilo com o qual o público estava habituado a vê-la, até então conhecida por uma série familiar cômica da TV, mas porquê é o retrato de uma mulher não necessariamente má, mas que visivelmente não consegue vencer suas limitações para encarar o papel de mãe e esposa quando a vida deixa de ser o plano perfeito que se imaginava antes. Claro que para obter o tom ideal desta complexa personagem, sua composição deveria ter afinidade com o personagem do filho, e nisto Mary não teria do que reclamar: Timothy Hutton, ganhador do Oscar por esta performance, é o complemento perfeito. A composição do jovem Conrad, no começo arredio com sua mãe e por vezes com a tendência de magoá-la provocando-a ao alfinetar sua inabilidade, mas que logo tenta, com sinceridade, estabelecer um elo afetivo concreto com ela, é feita pelo ator como a de um jovem conturbado e angustiado, mas que ao mesmo tempo tenta incansavelmente buscar de volta a paz, alegria e prazer que tinha na vida – uma interpretação complexa, repleta de nuances sutis e mudanças graduais que poderiam acabar mal para um estreante, mas que teve a felicidade ser realizada pelo ator certo no seu momento ideal. Já Donald Sutherland , que era então já um ator bastante experiente que trabalhou com diretores consagrados como Altman, Pakula, Kaufman e mesmo Fellini, surge aqui em um papel bastante comum à sua trajetória cinematográfica até hoje: a do personagem que ocupa um lugar discreto na maior parte da história do filme, algo que, por sinal, impede até hoje o ator de tornar-se um rosto mais conhecido pelo público. Se ficasse a cargo de um ator menos competente, provavelmente teríamos ou um pai muito apagado ou então um homem resistindo visivelmente para não tomar para si a atenção, mas na pele de Sutherland temos a medida exata do personagem: um homem que nutre imenso carinho e preocupação pelo seu filho, mas que luta com sinceridade consigo mesmo para permitir que o garoto supere suas dores e traumas por si próprio – uma interpretação extremamente complexa porque nasce nos pequenos detalhes e preenche apenas os espaços permitidos, um feito nada menos que brilhante.
Quanto ao trabalho de Redford na direção, claro que não se deve desconsiderar a condução dada por ele à seu filme. Além da delicadeza e sensibilidade no tratamento da trama imensamente emocionante, Redford teve a sensatez e sabedoria de não usurpar o material excelente que tinha em mãos, preservando fielmente no roteiro escrito por Alvin Sargent a estrutura original da história, que centra-se nas conturbações após os eventos que desintegraram a estabilidade da família de Conrad – a morte do filho mais velho e a tentativa de suicídio dele próprio – fazendo assim um verdadeiro estudo da erosão familiar após acontecimentos que abalaram suas estruturas em uma abordagem não muito comum no cinema, mas que, ironicamente, é que normalmente acaba tendo os melhores resultados. Porém, esta que é inquestionavelmente uma das maiores obras-primas sobre dramas familiares concebidas até hoje no cinema americano é mais fruto de uma conjunção incomum de oportunidades e talentos do que da aptidão de Robert Redford como cineasta, já que depois deste longa-metragem a pequena filmografia do criador do Sundance Festival está tomada de filmes medianos e insossos que nem se comparam à estréia. É aquela velha história da obra que se torna muito maior do que o artista – e, provavelmente, até mesmo Redford concordaria com isso.

Baixe: “Gente como a Gente”, de Robert Redford (Ordinary People, 1980)
[áudio original, 1080p, mp4]

Baixe: legendas (português)

Download: subtitles (english)

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“Cisne Negro”, de Darren Aronofsky [download: filme]

black-swan (2010)

Nina, bailarina de famosa companhia de New York luta para encontrar a interpretação perfeita de dois dos mais famosos personagens do mundo do ballet enquanto, ao mesmo tempo, é aterrorizada por situações estranhas.
Darren Aronofsky é um cineasta que costuma ter idéias promissoras e muito bem realizadas, porém, em algum ponto de sua execução o diretor americano acaba sempre cometendo equívocos que atrapalham o conjunto final do longa-metragem e frustrando, portanto, as expectativas do público. Foi assim com praticamente todos os seus filmes anteriores, sem dúvidas sendo o pior caso o de “A Fonte da Vida” – praticamente uma hecatombe. Todo o entusiasmo gerado por “Cisne Negro” me fez pensar que finalmente ele tinha encontrado a medida. Infelizmente, a tradição se manteve mais uma vez.
“Cisne Negro” é, como já poderia se prever, mais um filme de impecável realização na filmografia do diretor. Mas isso não é de causar surpresa alguma, já que Aronofsky é conhecidamente um daqueles cineastas que conseguem achar o tom certo para tramas de naturezas diversas que decide abordar, o que se configura na principal contribuição para que seus filmes sustentem um clima sólido durante toda a sua duração e para lhe conferir a ótima reputação que detém estréia após estréia – reputação um tanto quanto exagerada, já que beira o hype que cerca David Fincher, por exemplo, mas na maior parte é justificável a celeuma em torno de Darren já que isso se deve à sua competência ao lidar com as diferentes camadas de uma produção cinematográfica (técnicas e artísticas) e conceber um todo mais coeso e coerente. Com o apoio da interpretação em grande parte física e gestual de Natalie Portman, a sedutora composição de Mila Kunis, a presença sempre magnética do francês Vincent Cassel, além da fotografia e cenografia frias e depressivas e da trilha sonora climática, o diretor consegue encenar com considerável precisão o avançar de um surto psicótico e paranóico em uma mulher de personalidade reprimida e fragilizada sem que ninguém, à exceção de seu ente mais próximo, se dê conta disso – algo, diga-se, bem comum de se ocorrer. Sob esse ponto de vista, o diretor obteve sucesso e atingiu plenamente seu objetivo.

black-swan (2010) movie stills 01
Portman se destaca com sua interpretação bastante física, mas o filme peca ao trair expectativas intencionalmente

Há, porém, dois pontos que mudam consideravelmente esta avaliação, ambos da ordem da promoção e também concepção do longa-metragem que acabam, em consequência, problematizando a trama por trair prováveis expecativas do espectador. O primeiro está relacionado ao gênero ao qual o filme foi enquadrado inicialmente, o terror. Aronofsky se utiliza de alguns artifícios do cinema de horror, mas eles não apenas não são suficientes para caracterizá-lo como pertencente ao gênero como são, a meu ver, um tanto desnecessários e desconcertados. Segundo, e em parte relacionado ao primeiro, o diretor de “Cisne Negro” parece ter considerado por algum tempo durante a produção do longa-metragem sustentar nele um caráter de mistério – e “Cisne Negro” até chegou a ser promovido com tais pretensões -, o que daria sustentação à utilização das poucas e frágeis sequências de horror, mas em cerca de 20 minutos de sessão do filme já não há, intencionalmente, qualquer segredo sobre a natureza dos estranhos eventos da trama e o público já se dá conta de que qualquer perturbação experimentada pela protagonista é fruto de seu crescente estado de desequilíbrio, o que torna o filme não mais do que o retrato do gradual avançar de um surto de ordem psicótica e a platéia, portanto, a sua testemunha silenciosa. Isso de modo algum faz deste um filme ruim, mas a meu ver o longa deixaria de ser apenas um bom filme e poderia se revelar uma experiência muito mais impactante se de fato a dúvida fosse seu elemento chave e toda a subversão comportamental perpetrada por Nina não ficasse quase completamente no plano do delírio. Claro que por ser fruto de expectativa, isso não é inteiramente culpa de Aronofsky. Contudo, se desta forma considerado, o filme, que ainda assim não deixa de ser um êxito, o é sobre o alicerce de falsas ousadias escondidas sob um manto de ortodoxia dissimulada – bastava somente suprimir e inserir alguns elementos aqui e ali e o ballet mórbido de “Cisne Negro” seria convertido de um grasnido breve e tímido para um canto que ecoaria bem mais triunfante, trágico e perene.

Baixe: “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky (Black Swan, 2010)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português

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“A Passagem”, de Marc Forster [download: filme]

stay (2010)

Sam Foster, psiquiatra, assume o caso de um homem amargurado e transtornado depois que a encarregada do tratamento se afasta por questões pessoais. Inicialmente contrariado, Henry Letham, o paciente, logo mostra seu apego por Sam, que não muito depois começa a se sentir envolvido em eventos incomuns relacionados à Henry.
Filme imediatamente anterior à “Mais Estranho que a Ficção”, no longa-metragem “A Passagem”, o diretor Marc Forster traz novamente personagens que atravessam juntos uma trama pontuada por elementos que destoam do plano real – porém, diferentemente do filme seguinte, onde desde o início se tem a certeza sobre o que está ocorrendo, é a dúvida que envolve o espectador neste longa-metragem com roteiro escrito por David Benioff. O texto mergulha o psiquiatra de Ewan MacGregor pouco a pouco nos aparentes devaneios do paciente com tendências suicidas de Ryan Gosling, homem torturado pela culpa relativa à um acidente que pode ou não ser real tanto quanto os distúrbios que o psiquiatra começa a vivenciar, todos relacionados ao paciente e aqueles que são de suas relações. Dando apoio à estes componentes que contrariam a percepção da realidade, além do trabalho excepcional dos protagonistas Ewan McGregor e Ryan Gosling, que projetam a alma torturada e a certeza fragilizada de seus personagens, respectivamente, e da presença magnética de Naomi Watts, a fotografia com contraste forte e ostensivo uso de halos luminosos e a edição que funde a cenografia de uma cena à seguinte e amplia a desorientação narrativa materializam fenomenalmente a sensação de incerteza do médico, levando esta sensação também ao público, que se vê o tempo todo intrigado por micro-flashes repetitivos de um evento que pode ser ilusão ou lembrança, “déjà vus” misteriosos de acontecimentos aparentemente sem importância e episódios bizarros.

stay (2010) movie stills 01
Tanto a edição quanto a fotografia estilizadas são elementos chave da narrativa de “A Passagem”

A narrativa, assim, ao mesmo tempo que é linear, avança entrecortada por uma série de sequências, eventos e falas que negam a veracidade do que está sendo visto, interrompendo a compreensão da narrativa com um pulso contínuo de dúvida cujos elementos não necessariamente se interligam, o que torna difícil, durante a desenrolar da trama, materializar uma teoria suficientemente sólida que negue ou confirme a realidade do que se vê. É apenas na surpreendente e emocionante conclusão da história que o espectador tem subsídios para por em ordem o que está ocorrendo, elucidando a dinâmica da trama e sua razão de ser e revelando que a narrativa obtusa e todo o exercício de estilo exposto na edição e fotografia não são maneirismos gratuitos, e sim um trabalho muito bem pensado que tenta “fotografar” um mecanismo complexo de um evento cujo retrato é certamente impossível de se obter, mas que nas mãos de Forster e seus colaboradores tornou-se o mosaico impressionante de um momento único e definitivo na vida de um ser humano. É mais um pequeno brilhante longa na filmografia de um diretor um pouco irregular, como muitos em Hollywood. Porém, como costuma acontecer, são cineastas com filmes bem menos intrigantes e relevantes que recebem todo o hype de público e crítica – se é que estes foram um dia relevantes.

Baixe: “A Passagem”, de Marc Forster (Stay, 2005)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português english

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005