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Tag: cinema americano

“Devoradores de Estrelas”, de Christopher Miller e Phil Lord [download: filme]

project hail mary (2026)

Um professor cientista acorda como o único sobrevivente em uma nave espacial viajando por outro sistema solar. Inicialmente sem saber como e por que foi parar ali, aos poucos ele recorda os eventos que revelam a importância de sua missão.
Anunciado com toda a pompa e circunstância no CinemaCon de 2024, “Project Hail Mary” teve anteriormente um leilão disputado por Ryan Gosling estar atrelado à produção e por ser uma adaptação de uma história de Andy Weir, cujo livro “Perdido em Marte” virou um sucesso de crítica e público ao parar nas mãos do cineasta Ridley Scott em 2015. Toda essa expectativa sobre “Devoradores de Estrelas” se confirmou em elogios da crítica e um ótimo desempenho ao ser lançado nas salas de cinema de todo o mundo. Agora, depois de assisti-lo, entendo como o filme foi planejado para esse feito.
Iniciando com o protagonista desorientado e isolado no espaço sideral junto de dois outros membros mortos da missão, “Devoradores de Estrelas” começa intrigando o espectador. Por que ele não recorda de nada? Por qual razão ele está tão longe do nosso sistema solar? Que missão é esta? Quanto tempo já se passou desde a partida da Terra? O que aconteceu com os dois membros da equipe? A atmosfera inicial de mistério e a densidade emocional que envolvem o espectador, porém, vão se desfazendo não apenas porque flashbacks vão elucidando parte destas incógnitas, mas também por serem introduzidas sequências e elementos humorísticos recorrentes no enredo, a ponto de beirar a infantilidade, em detrimento de estabelecer uma maior credibilidade a pontos cruciais da trama. Dentro da narrativa estabelecida no filme, por exemplo, é pouco crível a capacidade do microrganismo de sobreviver no vácuo do espaço sideral cobrindo infindáveis distâncias entre os astros da nossa galáxia. A facilidade e rapidez com as quais Ryland e Rocky conseguem estabelecer comunicação plena, sendo ambos seres de constituição e culturas radicalmente diferentes, também não é nada convincente. Mas isso não parece ter incomodado os diretores Phil Lord e Christopher Miller e o roteirista Drew Goddard, uma vez que eles preferem priorizar sequências dignas dos filmes mais pueris da Sessão da Tarde, em uma tentativa preguiçosa e cansativa de estabelecer empatia com o público.

project hail mary (2026) post 01
Ao longo do filme a dupla de diretores vai deixando a história de lado para apelar para a emoção fácil através dos protagonistas

Porém, não há elemento mais flagrante da tentativa dos diretores e roteiristas de fazerem seu filme cair nas graças da platéia que Rocky. A caracterização da criatura rochosa alienígena como um mascote fofo, engraçadinho e até mesmo descolado é tão ostensiva que chega a ser um tanto ofensiva à inteligência do espectador – ao menos daquele pouco sujeito a artifícios dramáticos óbvios. A partir do momento em que o personagem é introduzido no filme, Lord, Miller e Goddard abandonam de vez qualquer intenção de construir uma trama que equilibre sobriamente entretenimento e densidade argumentativa e apelam sem receios a soluções fáceis, ao sentimentalismo e à pieguice – nem mesmo a competência e o carisma de Ryan Gosling conseguem atenuar a visível perda de profundidade da história.
É compreensível que “Devoradores de Estrelas” prefira se ocupar de tomar atalhos emocionais e narrativos para cair no gosto do público quando você descobre que o currículo da dupla de diretores, responsáveis por animações como “Uma Aventura Lego” e “Tá Chovendo Hambúrguer” e comédias como “Anjos da Lei”, é basicamente composto por produções que realmente não tem como maior preocupação a qualidade argumentativa. Contudo, é curioso que o roteirista Goddard tenha conseguido dosar muito melhor a verossimilhança e o humor na sua primeira adaptação de um livro de Andy Weir, “Perdido em Marte”. Há que considerar, claro, que o próprio enredo deste livro posterior de Weir talvez tinha sido parte do problema, mas acredito que o maior diferencial no filme anterior tenha sido o diretor Ridley Scott, cujo currículo assegura que o público não será ludibriado com um filme trajado de ficção científica, mas que na verdade não passa de um “O Mandaloriano e Grogu” gourmetizado.

Baixe: “Devoradores de Estrelas”, de Christopher Miller e Phil Lord (Project Hail Mary, 2026)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“Conclave”, de Edward Berger [download: filme]

conclave (2024)

Com a morte do papa, um conclave é formado para a eleição do novo pontífice. E este será tudo, menos pacífico.
O conceito de um filme de duas horas que se resume a retratar o decorrer de um conclave provavelmente não pareceria muito atraente para o público em geral – o primeiro obstáculo seria desconhecer do que se trata um conclave. No entanto, o longa-metragem de Edward Berger não apenas passa longe de ser chato mesmo para o público médio como também recupera um cinema que a Hollywood de hoje tem deixado cada vez mais para trás.
Em cada um dos seus componentes, “Conclave” apresenta o que há de melhor: um elenco afinadíssimo que reúne estrelas consagradas (como Ralph Fiennes, sublime ao dimensionar com precisão cada pequeno detalhe, físico ou emocional, do seu decano) e atores menos conhecidos; um diretor de fotografia capaz de composições elegantes mesmo nas sequências mais simples; o compositor que cria uma trilha sonora que a princípio soa insistente, mas que logo entende como potencializar os eventos do longa-metragem com sua beleza; o diretor de som que capta a magnitude deste ambiente mesmo nos sons mais delicados; um editor que compõe sequências com apurada perspicácia; o roteirista que consegue adaptar a história de Robert Harris em uma trama instigante e envolvente. De posse dessa equipe tão capacitada, Edward Berger transforma um evento que parece austero e burocrático em uma trama de investigação que prende o espectador, sustentando a atenção deste durante o decorrer de seus 120 minutos.

conclave (2024) post 01
“Conclave” não traz apenas intriga e mistério no Vaticano – traz também o cinemão que Hollywood esqueceu

Porém, isso não é feito apenas ao compor com maestria uma série de mistérios e intrigas que despertam o interesse do público na trama. Até mesmo quando as chamadas “temáticas sociais” que há mais de dez anos têm pautado, com seu didatismo pedante e moralista, boa parte das produções de cinema e TV, saturando e afastando grande parte do público, Berger o faz sob a luz do dogma cristão, que se enquadra perfeitamente na temática da sua obra, e não como mecanismo de doutrinação político-ideológica. É por isso que mesmo ao eventualmente abordar estes assuntos que têm sido empurrados ad nauseam em um caráter manipulativo, “Conclave” não causa repulsa e desdém, mas sim uma solidária aceitação: ao tratar este temas sob a ótica da compaixão religiosa, Berger recupera a universalidade com a qual temas como estes eram abordados na Hollywood de outrora, uma prática que a “meca” do cinema abandonou há muito tempo.
“Conclave” acaba se materializando como a recordação da excelência em grande parte perdida pelo cinema americano: um cinema do tempo em que Hollywood ainda mantinha viva a preocupação de entreter platéias com excelência técnica e artística e mantendo a ótica universal ao apresentar suas histórias. É triste perceber que a era desse cinema, que carregava milhões de pessoas fascinadas às salas de exibição todos os anos, provavelmente não voltará mais. Com sorte, ainda teremos filmes como o de Edward Berger, insistindo em nos lembrar que o cinema pode ser muito mais do que ele é hoje.

Baixe: “Conclave”, de Kane Parsons (Backrooms, 2024)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

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“Backrooms: Um Não-Lugar”, de Kane Parsons [download: filme]

backrooms (2026)

Nos anos 90, Clark, um homem recém-separado, descobre que uma parede no andar inferior de sua loja de móveis dá acesso a uma interminável sucessão de salas onde ocorrem coisas bizarras que desafiam a lógica.
Após Hollywood ter encontrado muito sucesso adaptando quadrinhos de heróis até o final da década passada, e ter desde então se dedicado a arruinar todo este empreendimento, os olhos dos produtores e estúdios de Los Angeles têm se voltado para adaptações de games e, eventualmente, de algum fenômeno derivado da internet como os novos filões a serem explorados. Foi assim que o estúdio A24 decidiu bancar a primeira adaptação em longa-metragem de “backrooms”, um dos “creepypastas” (as ficções de horror coletivas da internet) mais populares dos últimos anos que teve sua origem no famoso fórum 4chan, a partir da publicação anônima de uma imagem acompanhada de uma descrição vaga, e que também contribuiu na formação da estética dos “espaços liminares” – muito popular nas plataformas de mídia e redes sociais da web. A condução do longa-metragem ficou a cargo do jovem Kane Parsons, criador da série de curtas (publicados no seu canal “Kane Pixels” no YouTube) mais amplamente conhecida explorando a idéia. Não há dúvidas de que Parsons foi a escolha acertada por ser uma das pessoas que mais obteve êxito explorando esse conceito tão inóspito, mas o resultado final também exibe os problemas relacionados com essa idéia.
O jovem diretor de apenas 20 anos consegue não apenas recriar de modo convincente toda a singularidade do conceito dos “backrooms”, dominando com propriedade toda a estética disruptiva da aparente casualidade de seus espaços que se replicam em variações sucessivas e apresentam características e elementos cada vez mais bizarros, mas também – com o auxílio do roteirista Will Soodik – criar uma “lore” ou mitologia preliminar que serve como explicação rudimentar para certas características do fenômeno. O novo cineasta americano também demonstra competência ao dirigir seu elenco, que encarna de forma convincente personagens com vidas ordinárias e dramas pessoais capturados pelo sentimento de estupefação ao testemunharem a surrealidade inusitada dos “backrooms”, e inteligência na co-composição da trilha sonora com Edo Van Breemen, aplicada de modo econômico e basicamente composta por ruídos sintéticos e melodias minimalistas que refletem bem a anormalidade desses espaços aparentemente casuais.

backrooms (2026) post 01
“Backrooms” é uma das primeiras adaptações fiéis de um fenômeno nascido na internet. E isso também acaba sendo seu maior problema.

No entanto, é justamente pelo diretor e seu roteirista optarem por escorar tanto o filme na estética e atmosfera inóspita inerente a esse “creepypasta” que o longa-metragem deságua no seu maior problema. Decorridas suas duas horas de duração, fica nítido que Parsons e Soodik passaram todo o tempo evitando enquadrá-lo em um gênero: “Backrooms” nunca chega a ser um filme de horror ou de suspense, mas também não pode ser descrito como um drama. Por consequência desta falta de aprofundamento em seu caminho dramático, o impacto necessário para conquistar a empatia do espectador não se realiza, e este termina o longa-metragem com uma certa sensação de insatisfação por não concretizar o suficiente seu envolvimento emocional com este universo incomum e os personagens que o habitam.
Sim, “Backrooms: Um Não-Lugar” merece ser celebrado por ser uma das primeiras obras a adaptar com admirável fidelidade e formidável respeito uma ficção nascida de um fenômeno contemporâneo singular e ainda muito recente como as “creepypastas” e a estética singular dos espaços liminares. Entretanto, parece ter passado despercebido pelo jovem diretor e seu roteirista consideravelmente inexperiente que a aridez dramática intrínseca a todo o conceito não se enquadraria bem em um longa-metragem de quase duas horas de duração. Assim, “Backrooms” acaba se configurando como um filme ao mesmo tempo satisfatório e frustrante – ironicamente habitando um espaço tão idiossincrático quanto aquele que o próprio longa-metragem explora em sua premissa temática fundamental.

Baixe: “Backrooms: Um Não-Lugar”, de Kane Parsons (Backrooms, 2026)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“Frankenstein”, de Guillermo del Toro [download: filme]

frankenstein (2025)

Um homem é socorrido no ártico pela tripulação de um navio encalhado ao ser perseguido por uma criatura forte e misteriosa, e então conta sua história para o capitão. Ele é Victor Frankenstein, que quando criança, após perder a mãe no parto do irmão, desafia o seu pai cirurgião, jurando se tornar melhor que ele. Muitos anos depois recebe a visita de seu irmão, sua futura cunhada e o tio desta, um rico mercador de armas que resolve patrocinar as pesquisas de Victor.
Em ocasiões eventuais, a Netflix resolve isentar-se de seu estilo de produção formulaica e dispor de seus fundos (tão imensos que está a ponto de adquirir e assimilar toda a corporação Warner) para financiar grandes nomes do cinema em projetos autorais – foi assim com Alfonso Cuarón e seu “Roma” e Martin Scorsese e seu “O Irlandês”. No ano passado foi a vez de Guillermo del Toro realizar o sonho que nutria pelo menos desde 2007: fazer a sua versão do clássico Frankenstein. Dispondo de um vistoso orçamento na casa dos 120 milhões de dólares, o diretor dá vazão ao seu estilo grandiloquente em cenários deslumbrantes com uma produção rica e detalhada. Porém, mesmo que o cineasta mexicano sempre impressione com o visual muito particular dos seus filmes, ele nem sempre acerta no campo artístico.
Em sua interpretação da obra-prima da britânica Mary Shelley, que também roteirizou, Del Toro a transpõe para o industrial e bélico século XIX, divide-a em quatro atos – prólogo, história de Victor, história da criatura e epílogo – e promove modificações na trama – Elizabeth, por exemplo, não é esposa de Victor, mas sua cunhada. As mudanças não são acidentais: ao situar a trama mais de cem anos adiante del Toro suavizou os aspectos de horror e trouxe modernidade e luxo; ao dividir o ponto de vista do desenvolvimento da trama, o mexicano tentou condicionar o público à sua perspectiva sobre os protagonistas; e mudanças como a promovida sobre Elizabeth extirparam o caráter romântico da trama para dedicar-se mais a relação entre Vitor e criatura. Juntas, todas essas propriedades permitem a Del Toro realizar completamente sua visão da obra, onde Victor é o vilão e a criatura é o herói – e a meu ver é aí que está o problema de seu filme.

frankenstein (2025) movie stills 01
Removidos horror e romance, Guillermo del Toro concentra-se na personalidade de seus protagonistas

Em seu longa-metragem, Victor Frankenstein é egoísta, narcisista, arrogante, insensível, invejoso, inconsequente e obcecado. A grande motivação emocional de sobrepujar a inevitabilidade da morte deixa de ser o trauma pela perda da mãe e passa a ser o orgulho infantil de superar seu pai rígido e frio. A criatura, por sua vez, além de visivelmente menos grotesca, é retratada como inocente, amorosa e pura, naturalmente com boas intenções e incapaz de causar mal que não seja para sua própria defesa. Mesmo ao atacar Victor, ela o faz por se sentir rejeitada, traída e ignorada por este. Ou seja, Del Toro não apenas removeu de seu Victor quaisquer traços que poderiam lhe angariar alguma simpatia ou mesmo identificação com o público, ele os transferiu para a criatura. Como consequência, a despeito de suas duas horas e meia, a trama de seu “Frankenstein” se torna menos complexa do que a da história original e seus personagens mais caricatos – o impacto e densidade da obra de Shelley, com seus personagens multifacetados, dão lugar ao higienismo narrativo e a simplificação de seus agentes. Embora isso não seja, a meu ver, alguma novidade na filmografia do Guillermo Del Toro, isso nunca esteve tão visível quanto agora, ao adaptar uma das obras mais seminais da literatura mundial, transformando-a, a despeito de toda a estética apurada e a sanguinolência explícita, em uma trama piegas perpetrada por personagens flagrantemente rasos – algo que não difere muito de boa parte das novelas produzidas em seu país de origem.

Baixe: “Frankenstein”, de Guillermo del Toro (Frankenstein, 2025)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

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“Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski [download: filme]

a quiet place (2018)

Um casal e seus três filhos tentam sobreviver em um mundo devastado por criaturas que caçam qualquer coisa que produza algum som.
A princípio pensei ser este filme a estréia de John Krasinski atrás das câmeras, mas na verdade o diretor já tem duas comédias indies no currículo. “Um Lugar Silencioso” é, no entanto, seu primeiro filme de sucesso: tendo gasto não mais do que 20 milhões na produção, o filme teve rendimento de mais de 200 milhões de dólares em bilheteria nos cinemas e arrancou elogios tanto da crítica quanto do público. A boa recepção certamente se deve ao balanceamento inteligente do argumento original (criado por Bryan Woods e Scott Beck e roteirizado por ambos com o auxílio do diretor) que bebe em fontes consagradas cinema ao mesmo tempo que introduz o seu próprio elemento de estranhamento.
Apesar de esta ser a sua primeira incursão nos gêneros do horror e ficção-científica, Krasinski consegue injetar frescor mesmo recorrendo à elementos familiares dessa seara para a construção do seu longa-metragem: há sim fartas doses de inspiração originária de filmes como “Alien”, representado na ameaça do predador alienígena, mas os predadores de “Um Lugar Silencioso” guiam-se unicamente pelo som; também há muito da desolação do planeta de longas clássicos como “O Último Homem da Terra” ou contemporâneos como “Extermínio” presente no longa de Krasinski, porém o diretor americano o faz situando quase a totalidade do seu filme em ambiente não-urbano – decisões que distanciam razoavelmente seu longa da idéia de “mais um filme de alienígena que arrasou o planeta”.
No entanto, o que chama a atenção do espectador desde o início do filme são os aspectos inusitados da história composta por Woods, Beck e Krasinski, que ao compor os características do predador alienígena que dizimou a humanidade, acabam por consequência também concedendo ao longa uma atmosfera singular, perpassado-o por um silêncio sepulcral onde os barulhos mais inaudíveis do nosso cotidiano acabam enormemente amplificados – como o rolar de dados em um tabuleiro e mesmo o suave pisar dos pés na areia -, o que potencializa o suspense ao soar dos ruídos mais pueris que sequer notamos no nosso dia-a-dia. Essa característica bastante particular não fez, no entanto, com que o diretor eximisse seu longa do suporte de uma trilha sonora: ela está lá, cumprindo o seu papel dentro dos padrões mais clássicos do horror e do suspense para preservar o efeito dramático. Krasinski explicou que tomou essa decisão de modo consciente para que o seu longa não soasse como um experimento e pudesse ter uma relação de familiaridade com a platéia, o que faz sentido e, mais uma vez, mantém um equilíbrio entre inovação e tradição na tessitura do longa-metragem.
Devido à eficácia do filme na relação custo x benefício, não é difícil supor que os produtores de Hollywood já pensem em formular uma sequência para o longa – ela, aliás, já foi listada no portal IMDB. Sinceramente, espero que isso fique apenas na idéia: a obra de Krasinski e seus dois roteiristas é daqueles filmes simples e objetivos que funcionam muito bem como em volume único, mas cujo charme e força não sobreviveria ao estender-se por demais capítulos. Vamos torcer para que Hollywood, desta vez, tenha um lampejo de bom senso.

Baixe: “Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski (A Quiet Place, 2018)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Baixe: legendas (português)

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LINKS ATUALIZADOS EM: 15/12/2025
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“A Árvore da Vida”, de Terrence Malick (+ soundtrack oficial e não-oficial) [download: mp3, filme]

the tree of life (2011)

Jack, executivo de meia idade de uma grande companhia, enfrenta uma crise existencial e mergulha em recordações de grande parte de sua infância ao lado dos dois irmãos mais novos, seu pai, um engenheiro militar ao mesmo tempo rígido e afetuoso, e sua mãe, doce, alegre e compreensiva, revivendo inclusive a dor da perda do irmão do meio, quando este tinha cerca de 18 anos de idade.
Ao invés de uma narrativa convencional e linear com um roteiro palpável, Terrence Malick procura retratar em seu mais novo filme com contornos autobiográficos, “A Árvore da Vida”, como imagina ser a experiência de recordações da infância através da utilização de sequências de imagens, sensações, sons e emoções deste período, o que resulta em um retrato sensorial da infância, de forma absolutamente não-narrativa, tudo ainda entrecortado ou correndo paralelamente à uma ilustração sobre o surgimento do universo e da vida. Os críticos e o público mais impressionados com o longa-metragem, muitos destes declarando-se profundamente tocados e emocionados por ele, o definem como uma “poesia visual”, e em sua grande maioria utilizam este termo como defesa de sua qualidade, o que, muito proveitosamente, também lhes garante o direito de afirmar que os que não se impressionaram e não apreciaram o filme certamente não conseguiram atingir e compreender sua profundidade, atitude totalmente análoga à de uma experiência esotérica/mística/religiosa – não me surpreendo com tamanha tolice: esta é uma tendência bastante comum entre fãs que nutrem paixão cega por algo que julgam profundo (e que, muitas vezes, assim o vêem porque consideram estar a obra além de seu entendimento e compreensão).
De fato, nem se discute que “A Árvore da Vida” é poesia visual. Porém, dizer isso é tão somente descrever sua essência e estrutura, e não um argumento para defender sua qualidade, uma vez que poesia, como qualquer outra coisa existente, pode ser boa ou ruim – não é por ser poesia que necessariamente vai ser boa. É verdade que a fotografia, cenografia e ambientação do filme são estupendas, mas elas tornam-se entediantes com sua brancura cristalina e higienismo inexpugnáveis; claro que a seleção de peças clássicas que servem de trilha sonora é fantástica, mas a sua utilização insistente, quase ininterrupta, seus contornos etéreos/sacros e principalmente sua aplicação na montagem a fazem um chavão cinematográfico dos mais batidos, já que praticamente qualquer coisa, mesmo a mais banal e ordinária, não acontece sem ser acompanhada por um “batismo” sonoro de esplendor celestial; a edição, em grande parte feita de sequências dentro da casa de um minuto ou menos, é interessante e peculiar, porém acaba cansando logo com este amontoamento gigantesco de pequenos fragmentos de cenas.

the tree of life, movie stills 01
Um dos incontáveis fragmentos de cena que compõe “A Árvore da Vida”

Mas se sua análise isolada revela sua problemática, em conjunto os elementos não se revelam mais felizes: o caráter poético, que resulta desta união e do olhar que o organiza (de Malick, obviamente), é o mesmo que encontramos nos clichês mais caros ao mundo da publicidade, com toda a sua carga cafona e simplista – imagine uma peça publicitária de ano novo de uma mega-corporação bancária e você já vai ter uma idéia muitíssimo aproximada da aura poética de “A Árvore da Vida” (isso sem falar na novelesca sequência final com todo o elenco e figurantes, que ninguém ousou falar que é de gosto duvidoso só porque se trata de Malick). E mesmo que se façam interpretações profundas de sua trama não-narrativa (desnecessário chegar a tanto, a compreensão do que Malick pretendia com o filme está longe de ser difícil, nem foi esta sua intenção), estas não lhe removem seus defeitos e equívocos – a bem da verdade, apenas os ressaltam.
Deste modo, afora os requintes técnicos e o bom desempenho dos atores – que estão muito bem, é verdade, mas suas atuações estão o tempo todos submersas pelo imenso peso dos elementos que compõe o filme -, restaria a ousadia de Terrence Malick em ter produzido um longa-metragem pouco convencional, mas mesmo isto é discutível. A colossal empreitada do cineasta americano não é tão ousada quanto aparenta ser: o documentário experimental “Koyaanisqatsi”, colaboração do diretor Godfrey Reggio com o espetacular compositor Philip Glass que influencia até hoje a produção cultural audiovisual contemporânea, trilhou caminho semelhante bem antes deste filme – obviamente que ambas são películas bastante diversas, mas a essência poética não-narrativa e a reflexão sobre a vida, o universo/mundo, a humanidade e a espiritualidade são essencialmente as mesmas – com o agravo de que o filme de Reggio é impecavelmente esplêndido em todos os seus aspectos.
Ao fim, penso que apesar e justamente por conta de sua irrefreável beleza imponente, “A Árvore da Vida” acaba subjugando às intenções elevadas de seu conteúdo à ela, o que, muito ironicamente, subverte todo o requinte de seu conjunto sonoro e visual romântico em algo um tanto ordinário e vulgar e consequentemente o seu conteúdo solene em um conjunto de reflexões sobre a perda, o perdão e a transcendência da existência que não difere muito da falácia espiritual e de auto-ajuda que infecta as editoras literárias do mundo inteiro. É provável – e admito – que o diretor tenha alcançado e realizado aqui muito do que pretendia, os méritos técnicos são inquestionáveis, porém, a relevância, a mais nobre da pretensões que se pode alimentar, não consegue sobreviver à longa jornada de quase duas horas e meia que vai desde a origem do universo até a redenção e iluminação humana em “A Árvore da Vida”.

Baixe: “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick (The Tree of Life, 2011)
[áudio original, 1080p, mp4]

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LINKS ATUALIZADOS EM: 18/12/2025
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BÔNUS: apesar de ter sido lançada oficialmente a trilha sonora do filme, composta por Alexandre Desplat, pouco desta música em grande parte contemplativa e serena é de fato utilizada no filme, já que é uma seleção de peças clássicas compostas por Taverner, Preisner (genial compositor parceiro de trabalho do inesquecível cineasta polonês Kieslowski), Respighi, Holst, Smetana, Górecki, Couperin, Berlioz e Patrick Cassidy que são utilizadas em grande parte de “A Árvore da Vida” e que de fato ficam associadas na memória devido à sua imensa beleza e imponência. Como disse na resenha acima, apesar do modo como foi utilizada ser justamente um dos grandes problemas do filme de Malick, seria estúpido não admitir que a seleção é das mais belas e primorosas. Não se sabe se Malick vai ou não liberar a coletânea de peças eruditas oficialmente, mas mesmo que não o faça, as boas almas da internet já tomaram para si a tarefa: aqui está, então, tanto a trilha oficialmente lançada quanto a compilação não-oficial com as composições clássicas dos mestres da música acima citados. Bom proveito!

the tree of life original soundtrack (2011)
Baixe: Alexandre Desplat – The Tree Of Life: Original Motion Picture Soundtrack [mp3]

Ouça:

the tree of life classical soundtrack (2011)
Baixe: Music From The Motion Picture The Tree of Life (não-oficial) [mp3]

Ouça:

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005