Enquanto os amantes do rock observam o cenário da música mainstream com pesar há longos anos, tendo a impressão inefável de que o gênero está morrendo, o inquieto Jack White parece nunca se ocupar de tais preocupações e continua lançando seus discos do mais puro rock, seja em carreira solo ou projetos paralelos ocasionais. Foi o que fez esta semana o ex-The White Stripes ao liberar duas faixas que demonstram uma energia e um improviso que poucos artistas conseguem ou mesmo se permitem levar para o estúdio. Em “G.O.D. And The Broken Ribs”, a primeira faixa, Jack usa o mito bíblico de Adão e Eva para guiar sua base de guitarra e bateria em um galope robusto sobre o qual destila imperativos vocais e breves interstícios instrumentais envenenados de uma espontaneidade vibrante. Jack White retorna em 2026 entregando a mesma energia e improviso vibrantes que lhe são característicos
Em “Derecho Demonico”, também preenchida pela parceria entre guitarra e bateria, aqui mais gingadas, Jack investe ainda mais na jam session, pontuando a melodia insinuante com solos delirantes de guitarra e teclado que soam saídos diretamente de um palco. E assim podemos dormir tranquilos: no que depender do apetite musical do cantor americano, o rock não morre tão cedo.
Ao lançar os álbuns Transatlanticism (2003) e Plans (2005), a banda americana Death Cab For Cutie ocupou um espaço importante nos domínios do indie rock ao unir melodias intimistas, mas muito bem construídas, com letras emotivas e profundamente poéticas. Contudo, a partir do final da década, isso foi deixando de ser o foco do grupo, que passou a desenvolver uma musicalidade que só consigo definir como mais “cerebral” – isso não significa que a música da banda perdeu qualidade, mas ela certamente foi deixando de lado a forte identidade com a qual tinha se associado antes em detrimento de um rock às vezes mais expansivo e experimental (como em “I Will Possess Your Heart”), em outras mais disciplinado e acessível (como em “The Ghosts of Beverly Drive”). Death Cab For Cutie equilibra o rigor melódico que preserva há tantos anos com uma boa dose de espontaneidade juvenil no single “Riptides”
O compasso bem marcado da bateria e baixo em “Riptides”, o novo single liberado pela banda como prévia do disco I Built You a Tower, preserva esse caráter mais polido das músicas que a banda vem compondo ao longo de cerca de quinze anos. Ao mesmo tempo, porém, a evolução e o adensamento melódico da canção, onde se destacam os acordes progressivos das guitarras, retoma algo daquela espontaneidade com a qual a banda passou a ser conhecida há cerca de vinte anos. Esse amálgama melódico é intencional, pois reflete as letras nas quais o vocalista Ben Gibbard confessa que o conformismo que sustentava seus relacionamentos chegou ao ponto de exaustão e rompimento. Depois de tantos anos depurando rigor melódico, talvez a banda tenha sentido a necessidade de temperar essa maturidade com boas pitadas de emoção juvenil – descobriremos se isso se confirma em junho, na chegada de I Built You a Tower.
Estabelecida no advento do sangrento conflito nos Balcãs, a organização War Child foi criada com o objetivo de ajudar as crianças afligidas pelo conflito que fraturou a Iugoslávia no início dos anos 90. Uma das ações na época foi o lançamento em 1995 do disco beneficente Help, que trazia canções de artistas de renome, como Sinéad O’Connor, Portishead, Radiohead e Oasis. Trinta anos depois, a organização repete o feito com um álbum repleto de artistas consagrados e independentes, e entre o grande número de canções cedidas para a iniciativa, três dos convidados conseguiram se destacar com suas contribuições. Pulp, o grupo veterano que lançou ano passado um novo disco depois de quase 25 anos, traz “Begging For Change”, uma canção original em seu rock intrépido com uma súcia de guitarras encadeadas sobre bateria vigorosa e uma fartura de vocais de fundo, enquanto Jarvis Cocker, com seu clássico vocal petulante, distribui deboche sem poupar ninguém, seja a elite que controla o mundo, seja a militância de butique que vomita seu discurso vazio e demagógico. A banda Pulp, junto com Bat For Lashes e Olivia Rodrigo contribuíram com as melhores canções da antologia beneficente
Compatriota da banda de Jarvis, Natasha Khan (mais conhecida como Bat For Lashes) também tem êxito com a sua composição “Carried My Girl”, uma faixa guiada por um piano lento e apreensivo que ecoa em uma atmosfera mística na qual o vocal poderoso da inglesa ressoa o conto sofrido de uma mãe que percorre um mundo desolado carregando em seus braços a filha sem vida. A terceira faixa que se distingue na antologia sonora é da americana Olivia Rodrigo em um cover de “The Book of Love”, composição lançada em 1999 pela banda indie “The Magnetic Fields” e que já foi alvo de outros artistas, como Peter Gabriel e Tracey Thorn. Como todos anteriormente, Olivia preserva a delicadeza da melodia transformando-a em uma balada folk ao sabor de um violão carinhoso, orquestração adocicada e vocal meigo, fechando o disco com uma canção que adentra os ouvidos com mansidão e ali permanece, tocando fundo os sentidos com uma eficiência jamais atingida pelas palavras de ordem pueris e o ativismo oportunista daqueles que – lamentavelmente – usam estas causas para fins políticos e ideológicos.
Em comemoração aos 20 anos (quanto tempo!) de lançamento do disco The Greatest, a cantora americana Cat Power reuniu-se ano passado com a Dirty Delta Blues, a banda que costumeiramente a acompanha em turnês, para retomar e finalizar “Try Me”, um cover de James Brown que fez parte das sessões do álbum de 2006, mas nunca tinha sido finalizado: diferenciando-se do romantismo da gravação original, na voz e banda de Cat a faixa ganha as inevitáveis cores melancólicas do blues, mas na sequência final piano, órgão e bateria entram em absoluta comunhão para elevar o espírito da canção em um frenesi gospel. Cat Power comemora 20 anos do lançamento de The Greatest com bons covers e uma releitura de uma canção do disco de 2006
Mas além do cover que não havia sido finalizado nas sessões de vinte anos atrás, Chan Marshall (como também é conhecida a cantora) aproveitou a oportunidade para produzir mais duas gravações para o EP lançado esta semana. A primeira é uma regravação de “Could We”, faixa do álbum de 2006 que duas décadas depois é atualizado com vocal mais assertivo da artista e uma melodia mais blues-rock, onde a harmonia brilhante do piano mezzo-virtuoso ganha destaque. Fechando o EP, Cat Power optou por uma tarefa ousadíssima, voltando-se para “Nothing Compares 2U”, escrita e originalmente lançada por Prince em 1985, mas eternizada em 1990 por Sinéad O’Connor em uma versão nada menos que definitiva da faixa. Embora não se compare a gravação lendária da artista irlandesa, ao herdar o mesmo sentimento de desolação, levado a frente aqui pelos acordes tristes do violão e guitarra, pelos toques tímidos do teclado e pela bateria lenta e sofrida, o cover da cantora americana se sustenta com dignidade e tem beleza própria – como diria o ditado brasileiro: entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
Com seu segundo álbum agendado para março, a banda americana Brigitte Calls Me Baby lançou “Slumber Party” como primeiro single de prévia do disco: com guitarras de riffs densos e freneticamente acelerados em companhia de baixo e baterias muito bem sincronizados, o vocalista Wes Leavins invoca o espírito de seu crooner ancestral para narrar – com uma pontinha de melancolia – o “drama” de sua sexta-feira a noite: ser aceito ou não naquela festa “cool” da vizinhança para a qual está até mesmo levando seu DVD de “Veludo Azul” de David Lynch como oferenda. Porém, eu me pergunto: será que o povo dessa festança não preferiria “Persona” de Ingmar Bergman? Embora o visual do grupo lembre Duran Duran, o parentesco mais próximo é o post-punk do inicio dos anos 2000
Deixando o paradigma intelectual de lado, embora o visual do grupo lembre Duran Duran nos frutíferos anos 80, a faixa traz os americanos emulando o mesmo fervor juvenil do post-punk que permeou o início dos anos 2000, como Franz Ferdinand e Interpol, bem como a vigorosa espontaneidade do indie rock de bandas quase desconhecidas (menos para os leitores do Sete Ventos) dos anos 2000 e da década passada, como Scissors For Lefty e Liily – aguardemos março para constatar se o disco reflete a qualidade do single.
Com o anúncio do relançamento de uma versão expandida de Strange Little Girls, o disco de covers lançado em 2001, Tori Amos disponibilizou há poucas horas um pequeno aperitivo para os fãs: o single“Growin’ Up”, canção originalmente lançada por Bruce Springsteen em 1973, será uma das 4 faixas extras incluídas na nova versão do álbum – que também incluirá a faixa inédita “Hoover Factory”, de Elvis Costello. No cover de Amos, a bateria de Matt Chamberlain soa lépida e faceira, construindo volteios com uma destreza que claramente inspirou Tori a dedilhar o seu piano Bösendorfer com genuíno entusiasmo. O vocal da cantora também foi contagiado pelo ritmo lúdico da melodia, e surge tomado por um frescor e vitalidade que não se encontram presentes na maior parte das composições que a cantora vem lançando há mais de uma década – é uma demonstração indiscutível de toda a impetuosidade, energia e vigor que a pianista americana foi deixando pelo caminho ao longo dos anos, lamentavelmente.