Garoto que perdeu a mãe em Tóquio muda-se com o pai para a propriedade da família materna, onde passa a viver com a tia, a nova esposa de seu pai, que está grávida. É nessa propriedade que ele encontra uma torre misteriosa e uma garça bizarra que lhe propõe ajuda.
Com suas obras de fantasia divertidas e emocionantes, Hayao Miyazaki ajudou o ocidente a descobrir que os animes vão muito além do “shonen”, as animações de ação e aventura que têm como alvo o público masculino adolescente. Tendo em 2013 anunciado sua aposentadoria, o diretor japonês mudou de ideia e decidiu trabalhar em novos projetos sem se preocupar em uma data para afastar-se do mundo da animação. E assim foi lançado em 2023 seu mais recente longa-metragem – que tem charme suficiente para garantir uma identidade própria, ainda que compartilhe o mesmo diagrama temático de animações anteriores deste celebrado autor japonês.
“O Menino e a Garça” deixa claro que a capacidade criativa de Hayao Miyazaki ainda não está esgotada. O animador japonês continua trazendo personagens cativantes, como Himi, a misteriosa garota que ajuda Mahito, bem como personagens singulares adoráveis, como a maliciosa Garça Cinza e as senhoras que servem o casarão da família – com o destaque para Kiriko, que inadvertidamente vira companheira de jornada de Mahito. A conhecida habilidade do diretor de abordar temas amargos com delicadeza também se mostra bem presente, seja ao representar, logo no início do anime, o incêndio que tirou a vida da mãe do garoto Mahito, seja ao retratar a silenciosa e perigosa amargura que o luto causa no menino, bem como a tentativa de seu pragmático, mas amável pai, e de sua solícita tia de restaurarem a felicidade na vida do garoto, tudo é envolto em cuidado, mas sem nunca se desfazer do peso emocional dessas situações e acontecimentos. Mesmo o humor sutil e elegante das animações do diretor continua intacto e bem dosado em meio às emoções da trama.

Também não surpreende que “O Menino e a Garça” possua o mesmo padrão de qualidade técnica e artística dos animes anteriores do criador japonês e seu tradicional Studio Ghibli: a graciosa trilha sonora, a engenhosa composição das cenas, a luminosa fotografia e a fascinante construção de mundo, tudo exibe a emblemática beleza plástica que tornou o fundador e seu estúdio ícones da animação mundial.
É salutar observar que Miyazaki recorre, em “O Menino e a Garça”, à premissa narrativa de uma das suas animações mais celebradas, “A Viagem de Chihiro”, em que uma criança igualmente se aventura em um mundo fantástico compelida pelo ocorrido com seus pais, porém isso não chega a comprometer o longa-metragem de 2023, principalmente porque ele tem elementos estilísticos e principalmente temáticos próprios, já que a matriz emocional deste mais recente filme do diretor japonês é sobre o martírio de uma perda mais profunda e permanente, mas a recorrência argumentativa indica certa propensão do criador japonês a revisitar idéias exploradas anteriormente.
Porém, mesmo que se possa traçar semelhanças com trabalhos anteriores, “O Menino e a Garça” é a prova de que a decisão do artista de não se aposentar foi acertada. Nem todos os artistas do mundo dos animes, e mesmo do cinema em geral, têm a experiência para não escorregar na pieguice e sentimentalismo fácil ao contar como um garoto imerso no luto e na recusa de um novo afeto passa a aceitar a perda e a reencontrar o gosto pela vida. Nas mãos de Hayao Miyazaki, no entanto, nunca vamos correr esse risco.
Baixe: “O Menino e a Garça”, de Hayao Miyazaki (Kimi-tachi Wa Dô Ikiru Ka/The Boy and The Heron, 2023)
[áudio dublado em inglês, 1080p, mp4]
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