Reunindo-se no fim da década passada depois do rompimento em 2012, a banda americana The Mars Volta decidiu que o retorno deveria ser um “reset” completo, deixando para trás não apenas as desavenças passadas como a sonoridade anterior, o rock progressivo calcado em álbuns conceituais, narrativamente ambiciosos, com uma mistura complexa de synths psicodélicos, orquestrações luxuosas e rock frenético. Reunido em 2022, The Mars Volta retornou com uma sonoridade pop mais tradicional “Vigil”, single que deriva do álbum homônimo de 2022, entrega prontamente a mudança de sonoridade. Ao invés de uma suíte de quase meia hora de duração audaciosamente fundindo ritmos como jazz e rock, temos uma canção mais “tradicional”, vertendo um pop que mescla harmoniosamente sintetizações, baixo, guitarra e bateria em uma música sofisticada e inteligente que permite até mais espaço para o vocalista Cedric Bixler-Zavala demonstrar seu conhecido virtuosismo. A princípio pode parecer uma jogada de risco esta guinada considerável no estilo musical, porém o tempo não passou apenas para a banda: seus fãs também amadureceram. Pensando deste modo, a mudança estilística não soa assim tão radical.
Passados nove anos do último disco (e do trabalho na trilha sonora do enfadonho “Emília Pérez”), a francesa Camille Dalmais retorna em setembro com The Sound of Milk, um projeto que construiu lentamente ao longo de mais de uma década e que reflete sobre o íntimo de sua vida familiar.
Deste álbum, a artista lançou um single com três faixas que adiantam um pouco o espírito do disco. A primeira faixa, “Si Tu Souris Aux Anges” traz a mesma sonoridade orgânica que a francesa lapidou com tanto cuidado ao longo da carreira, com baixo e percussão formando um tecido acústico sobre o qual Camille canta suavemente, como numa canção de ninar, mas no refrão, onde Camille fala à filha sobre a importância de sorrir, vocal e instrumentação se entrelaçam em um andamento mais lúdico, como em uma dança. Na faixa seguinte, “No Miracle”, Camille envereda por um caminho menos tradicional, dispensando refrão e apoiando-se em pouco mais que baixo e percussão esparsos para sobrepor vocalizações serenas enquanto divaga sobre a beleza de manifestações da natureza e reforça, como mantra, o amor pelos filhos. Na última canção, “La Terre”, o vocal da cantora apresenta-se inicialmente em um registro sintético, um tanto robótico, mas tão logo a delicada melodia orquestral surge, a voz de Camille reaparece em seu estado natural, em uma ode ao planeta, aos elementos e às estações, e prossegue deste modo até que seu canto se torna a única presença, em uma vocalização etérea que fecha a canção com um banho de luz celestial. As 3 canções delicadas de sonoridade em grande parte acústica adiantam a atmosfera do novo disco
A julgar por essa prévia musical, esse promete ser um disco que conjuga elementos de vários trabalhos anteriores da artista – o experimental de Le Fil, o orgânico de Ilo Veyou, o artesanal de Ouï –, todos conectados e encobertos por uma atmosfera telúrica e intimista que reflete a temática do projeto. Não é uma tarefa fácil, pois corre-se o risco de o projeto, que divide um total de 29 faixas em 3 discos (uma delas com 32 minutos de duração), soar monótono e pretensioso. Porém, Camille já demonstrou ao longo da carreira não ter receio de ousadias, mesmo que às vezes esse espírito indomável a conduza a resultados irregulares, como ocorreu com o álbum Music Hole — vamos torcer para que isso acabe não acontecendo desta vez.
Common People foi formada há poucos anos quando seus membros se conheceram na faculdade do sul da Califórnia. Ao se aventurarem no cenário musical, acabaram cruzando o caminho do guitarrista Brad Schultz, membro da banda Cage The Elephant. Brad gostou da sonoridade do grupo, e deste modo tem apoiado os garotos produzindo alguns dos seus singles e colocando-os como uma das primeiras bandas do selo musical que criou, Parallel Vision. É com esse suporte artístico que Common People lançou o mais recente single — e a canção sugere que os rapazes talvez já estejam encontrando o seu norte. A banda Common People traz no single um rock lânguido e sensual com rompantes de furor indie
Introduzida com guitarras de acordes lânguidos e baixo sutil sobre a bateria bem marcada, o vocal suavemente grave e rouco de Nick Winegardner exala segurança e uma tênue sensualidade para falar de um romance que simultaneamente o frustra e fascina. O paradoxo emocional sublima-se no refrão, quando a profusão de guitarras segue a bateria rápida e densa sob o vocal firme do cantor, materializando toda essa insatisfação, mas ao cantar sobre “aqueles olhos azuis”, fica claro que a desilusão aparente não sobrevive ao desejo que alimenta esta dependência emocional. A julgar pela sonoridade bastante polida e pela melodia confiante desta nova canção, felizmente a relação do grupo com o “padrinho” Brad Schultz aparenta ser muito mais saudável e frutífera.
Com o seu disco de 1991, a cantora brasileira Marina Lima passou a incluir seu sobrenome em sua alcunha artística, e foi apenas com a sua nova “marca” que batizou esse lançamento. A alteração não foi acidental, sinalizando uma mudança visível na sonoridade de suas canções, que ganharam ares mais sofisticados. “Acontecimentos”, de 1991, é um pop/rock dos mais sofisticados de Marina Lima e do irmão Antônio Cícero
É o que demonstram os acordes reflexivos da guitarra, a cadência comedida da bateria e a cintilância serena das sintetizações do single “Acontecimentos” (escrito em parceria com o irmão Antônio Cícero), que envolvem o saudosismo e inconformismo de versos como “me diz por onde você me prende, por onde foge, e o que pretende de mim” com a mesma maturidade e sobriedade do vocal imbuído de indignação e melancolia da cantora carioca.
Com canções refinadas como esta, Marina e seu irmão passaram a trazer para o pop/rock brasileiro uma musicalidade singular, concebendo uma elegante contemporaneidade que marcou a sonoridade de uma década, ao mesmo tempo que permanece ainda hoje imaculadamente atemporal.
A irlandesa Sinéad O’Connor ganhou projeção internacional em 1990 com sua versão de “Nothing Compares 2U”, originalmente composta por Prince para sua então banda The Family. O impacto da interpretação da irlandesa foi imenso, transformando a canção em ícone da história do pop/rock e causando rejeição do autor original. No entanto, esse não foi o único cover feito pela artista: durante sua carreira, Sinéad regravou canções de diversos outros artistas e em diferentes gêneros, indo de musicais até o reggae. Porém, uma das suas interpretações mais radiantes, de uma composição da banda sueca ABBA, é quase desconhecida.
Gravada e lançada originalmente em 1999 como parte do álbum beneficente Across The Bridge of Hope (em suporte às vítimas do ataque a bomba de 1998 na Irlanda da Norte), a “Chiquitita” de Sinéad inicia com os mesmos acordes doces e melancólicos do violão que caracterizam tão bem a versão original, mas logo é tomada por uma instrumentação mais contemporânea, em uma produção onde a programação de teclados, a bateria e o baixo formam um rio denso por onde a voz luminosa da cantora irlandesa navega ao mesmo tempo meiga e confiante.
No videoclipe que promoveu a canção, a diretora Sophie Muller consegue preservar essa atmosfera cintilante e madrigal, mas vai além: ao colocar a irlandesa para cantar em uma cozinha preparando a mesa para o chá, referenciando a câmera com gestual amistoso, Muller dá visibilidade para as letras da música, trazendo um ambiente caseiro onde Sinéad pode incorporar com perfeição uma confidente que tenta passar segurança e conforto para a amiga. É lamentável que tenhamos perdido há alguns anos a artista irlandesa, mas felizmente Sinéad foi generosa o suficiente para nos ofertar uma variedade enorme de canções onde nos deixou seu maior presente: a sensibilidade com a qual assinou todas as músicas onde deixou a sua voz.
Liderado pelo britânico Antony Hegarty, que há vários anos passou a adotar o nome Anohni, o grupo Antony And The Johnsons surgiu no final dos anos 2000 trazendo um amálgama requintado de diferentes gêneros como música clássica, rock alternativo, jazz e soul envoltos em um vocal de tonalidades andróginas, como o próprio Antony/Anohni, transitando com enorme desenvoltura entre registros mais intimistas diretamente para expressões mais operáticas e teatrais.
Exemplo da enorme versatilidade e da fusão de gêneros promovida pelo trabalho do artista e sua banda é o single de duas faixas lançado em 2009 para promoção do disco The Crying Light. “Aeon”, a faixa retirada diretamente do álbum, é introduzida por uma harmonia de piano e harpa que sugerem uma atmosfera erudita, mas ambos são rapidamente substituídos por guitarra e baixo entornados em um indie rock de riffs ondulantes que se sobrepoẽ a uma base orquestral sutil, compondo assim um todo cíclico no qual o vocal de Antony versa entre a fragilidade delicada e o clamor determinado. Antony and The Johnsons não poupa nem Beyoncé do seu banho de requinte sonoro
Na segunda faixa, o artista inglês ousa ainda mais ao desconstruir sem pudores o hit “Crazy in Love”, de Beyoncé: originalmente um pop extravagante e ruidoso, aqui a canção é recomposta em uma melodia exclusivamente orquestral na qual harpa, cordas e metais mesclam-se lentamente um finíssimo véu de melancolia que encobre o vocal sofrido e suplicante de Antony em uma música romântica e misteriosa que se enquadraria com perfeição como trilha de um clássico drama vitoriano de James Ivory ou Franco Zeffirelli. Ainda que devido ao arrojo e versatilidade de composições como “Aeon”, não seria de todo estranho vê-lo adentrar a cena de um filme, destemidamente cantando sua canção em corpo presente.