Introduzido por guitarras rascantes e um baixo econômico, mas que marca a melodia com um tom de suspense, o single “Murder Me”, lançado em 2022 pela dupla Blood Red Shoes, faz parte do álbum Ghosts on Tape, inspirado em parte por podcasts de crimes que a dupla ouvia enquanto estava enclausurada pelo famigerado isolamento da pandemia no início da década. O vocal de Laura-Mary Carter, ecoando distante na melodia guiada pela bateria em toques firmes e ritmados, concede o ar sinistro necessário para os versos compostos sob o ponto de vista de Myra Hindley, que junto com Ian Brady cometeu crimes bárbaros de menores de idade nos anos 60 nos arredores de Manchester, no Reino Unido. É um contexto bastante sombrio, mas abstraindo-se o tema bastante pesado, a música tem uma pegada intoxicante que fica nos ouvidos logo na primeira audição.
Depois de mais uma tentativa fracassada de vender o apartamento, os pais de Alyosha, que na prática já estão separados e vivendo suas vidas com seus novos parceiros, brigam e discutem sobre o destino do garoto. Inconformado com o que escutou, Alyosha sai na manhã seguinte e desaparece.
O russo Andrey Zvyagintsev já mostrou o seu interesse por dramas familiares em “O Retorno”, de 2003, em que dois meninos são levados pelo pai, há muito afastado, para passarem alguns dias juntos. Zvyagintsev voltou seus olhos novamente para o universo familiar em 2017 e, apesar de a história não ser retratada sob o ponto de vista do menino, como ocorreu no filme anterior, a criança é a força que move o enredo de “Sem Amor”. O que não mudou, no entanto, é o realismo brutal de Zvyagintsev ao contar estas histórias.
O título do filme já entrega sua premissa: embora se possa pensar que se refira apenas ao fato de que Alyosha não é amado pelos próprios pais, ele também se aplica aos demais personagens: seja pela revelação de jamais ter experimentado o amor, seja pelo seu comportamento ou pelo mais absoluto silêncio em resposta a uma confissão provavelmente dissimulada de amor, os personagens não demonstram nutrir amor sincero, e a maior parte deles só demonstra amar a si mesmo. Nesta realidade, em que o “amor” existe apenas como moeda de troca pelo conforto material e em que as aparências importam mais do que a felicidade e os sentimentos, conexões afetivas genuínas são a exceção, não a regra. Assim, crianças, como Alyosha, tornam-se “casualidades” indesejadas no contexto da vida, e como consequência, seu desaparecimento torna-se uma trivialidade inconveniente. Em “Sem Amor”, Andrey Zvyagintsev usa o desaparecimento de um menino para criticar uma sociedade apática, incapaz de estabelecer vínculos afetivos genuínos
O cineasta russo, porém, não se contenta em retratar o materialismo e a indiferença de uma sociedade contemporânea disfuncional. Ele também expõe sua descrença sobre o futuro desta ao mostrar que a experiência traumática em nada mudou o comportamento daqueles nela envolvidos: Boris, o pai, rascunha na relação atual o desenho da anterior, e Zhenia, a mãe, desfruta do conforto que desejava sem o “estorvo” por quem nunca nutriu apreço. O trauma vivenciado anteriormente vira apenas mais um dissabor em uma vida dessensibilizada que já era regida pela falta de amor, enquanto a culpa é abafada pela provável negação sobre o destino final de Alyosha, o que apaga a existência do garoto, meramente sinalizada pela permanência da fita lançada em uma árvore por Alyosha no início do filme e pelos cartazes antigos com sua foto espalhados pela cidade. O cineasta russo mostra como os passantes podem dirigir um olhar passageiro aos sinais da vida do menino, mas estes vestígios são imediatamente deixados para trás em meio à rotina e ao distanciamento das pessoas em relação a um drama que não é o seu.
Em “Sem Amor”, Andrey Zvyagintsev mais uma vez demonstra com sua crueza e ceticismo que é um dos cineastas mais destemidos da atualidade: em um mundo em que a indústria cinematográfica insiste há anos em operar a partir de um didatismo narrativo e da imposição de agendas, práticas que condenam a dúvida, a reflexão, a ambiguidade e a dissidência, o diretor russo leva adiante um cinema rigorosamente realista cuja brutalidade não faz concessões nem mesmo ao seu público — certamente não é um cinema agradável, mas é essencial que continue existindo para a saúde do cinema contemporâneo.
Sem a companhia dos amigos depois de anos do “feitiço do esquecimento” do Dr. Estranho, Peter Parker, o Homem-Aranha, começa a experimentar estranhas transformações físicas ao mesmo tempo que tem que enfrentar uma misteriosa força que ataca setores de New York.
Um dos poucos sucessos de bilheteria dos últimos anos, o filme livremente inspirado no quadrinho “Spider-man: Brand New Day” (o quarto longa-metragem estrelado por Tom Holland) acertadamente amplia o escopo emocional da história do herói aracnídeo. O esmero de investir no carisma do ator e de seu personagem, porém, parece ter cobrado um preço alto no restante do enredo.
Como era a intenção dos produtores, em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” o jovem herói atua boa parte do tempo por conta própria, ainda que também conte com a ajuda (ou tenha como obstáculo eventual) de outros heróis, como o Justiceiro e o Hulk. Porém, não é apenas o Homem-Aranha que se encontra sem o apoio anterior, Peter Parker, seu alter ego, encontra-se sozinho, lidando com a perda da tia e com o auto-infligido afastamento de todos os que conhecia. Esperto, Tom Holland aproveita o quanto pode todos os aspectos emocionais do roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers para, em ótima atuação, humanizar ainda mais um dos personagens mais tradicionalmente carismáticos do universo dos quadrinhos. Aliás, o jovem ator tem química de sobra com todo o elenco, em especial com o Justiceiro de John Bernthal, tornando crível uma parceria (e até mesmo uma amizade) que normalmente seria vista como improvável devido às personalidades tão antagônicas de ambos.
Contudo, quando não está tratando do aspecto emocional da jornada do herói de New York, a história criada por McKenna e Sommers, com o perdão do trocadilho, se perde no personagem – ou melhor, nos personagens. Desde o princípio introduzido como um repórter fotográfico, Peter sempre teve grandes habilidades científicas. Aqui, porém, ele vira basicamente um protótipo do Homem de Ferro, configurando-se em um engenhoso cientista capaz de invenções complexas com nada mais do que um breve papo com Bruce Banner – o retrato aqui ficou pouco convincente. Para agravar, o longa-metragem jamais explica como ele dispõe de tantos recursos materiais e de onde tira seu sustento, uma vez que fica claro que Peter não tem qualquer tipo de ocupação remunerada. Ironicamente, se Peter fosse aqui um repórter, como tradicionalmente é retratado, esse problema seria em boa parte resolvido. A jornada emocional do herói aracnídeo em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” é tocante, mas o filme erra no tratamento dado a uma famosa mutante
Porém, o mistério do sustento do Homem-Aranha é detalhe perto do grande problema do enredo: o modo como é apresentado no universo Disney Marvel o seu primeiro herói mutante. Sem trazer spoilers, o personagem é introduzido como alguém não apenas inconsequente com relação ao bem-estar da população de New York e daqueles que Peter ama, todos rendidos e controlados pelos seus poderes especiais, mas também como uma pessoa cruel a ponto da psicopatia. Os dois roteiristas tentam justificar o comportamento deplorável do personagem com o que seria o grande mistério da trama, e acreditam que isto basta para justificar sua impunidade moral (diga-se, expediente semelhante ao utilizado com Wanda Maximoff em outra produção da Marvel, WandaVision, pra citar apenas um exemplo). Em um filme protagonizado por um dos personagens mais nobres dos quadrinhos, que passou por situação muito semelhante no longa-metragem anterior e conseguiu manter toda a sua integridade moral, isso soa ainda pior.
Desta forma, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” acaba como o episódio mais agridoce desta saga para o público, que termina satisfeito com a resolução da jornada emocional do adorado herói aracnídeo, mas com motivo suficiente para se sentir desapontado com o tratamento dado a um mutante tão icônico dos quadrinhos, que ironicamente só encontraria paralelo em sua famosa forma cósmica, pela qual algumas vezes não responderia mais por si mesma. Estivessem McKenna e Sommers nas mãos dela, teriam destino pior do que o dos habitantes de New York pelo tratamento dado a ela no filme – mas nesse caso, eu definitivamente a absolveria.
Garoto que perdeu a mãe em Tóquio muda-se com o pai para a propriedade da família materna, onde passa a viver com a tia, a nova esposa de seu pai, que está grávida. É nessa propriedade que ele encontra uma torre misteriosa e uma garça bizarra que lhe propõe ajuda.
Com suas obras de fantasia divertidas e emocionantes, Hayao Miyazaki ajudou o ocidente a descobrir que os animes vão muito além do “shonen”, as animações de ação e aventura que têm como alvo o público masculino adolescente. Tendo em 2013 anunciado sua aposentadoria, o diretor japonês mudou de ideia e decidiu trabalhar em novos projetos sem se preocupar em uma data para afastar-se do mundo da animação. E assim foi lançado em 2023 seu mais recente longa-metragem – que tem charme suficiente para garantir uma identidade própria, ainda que compartilhe o mesmo diagrama temático de animações anteriores deste celebrado autor japonês. “O Menino e a Garça” deixa claro que a capacidade criativa de Hayao Miyazaki ainda não está esgotada. O animador japonês continua trazendo personagens cativantes, como Himi, a misteriosa garota que ajuda Mahito, bem como personagens singulares adoráveis, como a maliciosa Garça Cinza e as senhoras que servem o casarão da família – com o destaque para Kiriko, que inadvertidamente vira companheira de jornada de Mahito. A conhecida habilidade do diretor de abordar temas amargos com delicadeza também se mostra bem presente, seja ao representar, logo no início do anime, o incêndio que tirou a vida da mãe do garoto Mahito, seja ao retratar a silenciosa e perigosa amargura que o luto causa no menino, bem como a tentativa de seu pragmático, mas amável pai, e de sua solícita tia de restaurarem a felicidade na vida do garoto, tudo é envolto em cuidado, mas sem nunca se desfazer do peso emocional dessas situações e acontecimentos. Mesmo o humor sutil e elegante das animações do diretor continua intacto e bem dosado em meio às emoções da trama. Deprimido após a perda da mãe, o garoto de “O Menino e a Garça” adentra uma dimensão desconhecida com uma garça estranha para salvar a tia-madrasta
Também não surpreende que “O Menino e a Garça” possua o mesmo padrão de qualidade técnica e artística dos animes anteriores do criador japonês e seu tradicional Studio Ghibli: a graciosa trilha sonora, a engenhosa composição das cenas, a luminosa fotografia e a fascinante construção de mundo, tudo exibe a emblemática beleza plástica que tornou o fundador e seu estúdio ícones da animação mundial.
É salutar observar que Miyazaki recorre, em “O Menino e a Garça”, à premissa narrativa de uma das suas animações mais celebradas, “A Viagem de Chihiro”, em que uma criança igualmente se aventura em um mundo fantástico compelida pelo ocorrido com seus pais, porém isso não chega a comprometer o longa-metragem de 2023, principalmente porque ele tem elementos estilísticos e principalmente temáticos próprios, já que a matriz emocional deste mais recente filme do diretor japonês é sobre o martírio de uma perda mais profunda e permanente, mas a recorrência argumentativa indica certa propensão do criador japonês a revisitar idéias exploradas anteriormente.
Porém, mesmo que se possa traçar semelhanças com trabalhos anteriores, “O Menino e a Garça” é a prova de que a decisão do artista de não se aposentar foi acertada. Nem todos os artistas do mundo dos animes, e mesmo do cinema em geral, têm a experiência para não escorregar na pieguice e sentimentalismo fácil ao contar como um garoto imerso no luto e na recusa de um novo afeto passa a aceitar a perda e a reencontrar o gosto pela vida. Nas mãos de Hayao Miyazaki, no entanto, nunca vamos correr esse risco.
Michelle Fuller, CEO de corporação farmacêutica, é sequestrada por Teddy e Don, dois primos que acreditam que ela seja uma agente alienígena da galáxia de Andrômeda e que está na Terra como parte de um plano nefasto.
Conhecido pelos filmes em que costuma juntar personagens ordinários a um enredo bizarro, Yorgos Lanthimos desta vez voltou seus olhos para temáticas mais amplas, embrenhando-se no mundo das mega-corporações e na desconfiança pública sobre governos, empresas e organismos globais em um remake do filme coreano “Salve o Planeta Verde!”, de 2003. Lanthimos herdou boa parte do argumento e intenções do filme original, abordando o poder dessas empresas gigantescas e a influência de teorias conspiratórias na vida moderna, e ele tem êxito até o momento em que cai nas próprias armadilhas.
Se há algo que permite “Bugonia” funcionar a maior parte do tempo são seus personagens, em particular os dois protagonistas, que longe de serem carismáticos, captam o interesse do público pelas suas peculiaridades, obsessões e mistérios: a CEO eficiente, vaidosa e ambiciosa de Emma Stone instiga ao revelar sua capacidade de manipular seus captores mesmo estando em flagrante desvantagem, e o obstinado e psicótico teórico da conspiração de Jesse Plemons intriga ao conseguir colocar em perspectiva seus traumas (um deles bastante perturbador) para priorizar aquele que entende ser o mais importante. Diante de ambos, Don, que apresenta déficit intelectual e com frequência é manipulado emocionalmente pelo primo, é ironicamente o único personagem que tenta como pode apelar para a sensatez e razoabilidade, e por isso mesmo o único capaz de despertar alguma empatia do espectador. Construído essencialmente sobre a atuação dos protagonistas, “Bugonia” é uma reflexão bizzara sobre a existência humana e a realidade contemporânea
É em virtude desses personagens que as várias reflexões de Lanthimos funcionam num roteiro que em grande medida carece de acontecimentos: sejam mais amplas, como a experiência humana no planeta ao longo da existência, sejam mais específicas à realidade contemporânea, como a atuação das grandes multinacionais na sociedade e na vida particular e o potencial alienante de teorias e narrativas difundidas em redes sociais e podcasts, todas são apresentadas através do comportamento e visão do mundo desses personagens, bem como dos conflitos ocorridos entre eles. Com menor ênfase, sobra tempo também para satirizar o cínico vitrinismo social das corporações ao utilizarem-se das aberrantes políticas de inclusão e diversidade, a banalização da psicologia em consequência da massificação superficial de seus conceitos e também para ironizar crenças grotescas, como a da “terra plana”, indiretamente retratada na sequência final.
Contudo, é justamente a conclusão do longa-metragem que acaba por enfraquecer todas as reflexões sobre a humanidade e a realidade contemporânea que “Bugonia” oferece: refém do seu próprio estilo, Yorgos acaba por recriar em seu remake essencialmente o mesmo desfecho do filme original, que não bastasse ser bastante previsível em decorrência do já conhecido cinema peculiar de Lanthimos, nas suas mãos acaba também por tornar-se ainda mais histriônico do que no longa-metragem coreano de 2003, o que é difícil de engolir visto que grande parte dessa ideia ainda teria sido possível, e de modo bem mais elegante, tivesse o diretor grego cortado a divisiva sequência de encerramento.
O que fica claro com “Bugonia” é que cineastas autorais com narrativas e estéticas bastante definidas, como Lanthimos, Wes Anderson e Tim Burton, com o tempo acabam perdendo ou abandonando o bom senso, passando a não examinar mais quando esse estilo tem razão de existir para o argumento do filme e quando ele é apenas um artifício frívolo que alimenta o próprio ego, sem adquirir significado na trama (algo que percebi em “La Chimera”, que resenhei há alguns meses no blog) ou, como no caso desse filme do diretor grego, se tornando uma excrescência incômoda que ao ser observada ganha mais visibilidade do que todo o restante – vítima da própria vaidade, Lanthimos parece não notar que é mais um cineasta que virou um pastiche de si próprio.
Single do terceiro e último álbum da banda britânica Klaxons, “A New Reality” é a faixa que melhor representa neste disco o que se espera de uma música do grupo: iniciando com vocais robóticos banhados por ondas de sintetizações fluídas e latejantes, em poucos instantes a melodia escala para uma súcia de sintetizadores e uma batida eletrônica efusiva que se alternam com sequências mais contemplativas (se é que se pode chamar assim) onde se sobressaem a batida sintética, a linha de baixo seca e as cintilâncias eletrônicas, tudo sempre temperado com uma fartura de vocais simultâneos dos membros da banda.
O videoclipe dirigido por Tom Beard que promoveu o single segue a proposta sonora, traduzindo visualmente toda a densidade da melodia caleidoscópica e extravagante com o branco transbordando através da fotografia, do cenário e dos trajes da banda, todos acentuados por luzes estroboscópicas pulsantes, pela edição inquieta e pelo foco intencionalmente fragmentado da câmera.
Com a banda em hiato desde 2014, do qual provavelmente não retornará, música e vídeo servem como a despedida adequada para uma banda com vida breve, mas com identidade tão própria.