Apesar de ter um doutorado em matemática, o canadense Dan Snaith atua desde o início do milênio no mundo da música eletrônica independente com dois pseudônimos diferentes. Daphni, o mais recente, é utilizado para dar vazão ao seu lado DJ, seja nos palcos de clubes ou em álbuns mais focados no frenesi sonoro que acaba embalando estes locais. Já Caribou é o alter ego musical que normalmente utiliza para lapidar trabalhos mais experimentais e intrincados. E é desta persona que advém a sua música mais conhecida até hoje.

Single do álbum Swim, lançado em 2010, “Odessa” ilustra bem esta vertente mais “elaborada” de Dan Snaith. Sampleando e processando diversos instrumentos acústicos tradicionais, como bateria, caixa e triângulo, o artista canadense alcança tanto a cadência sombria e dançante da faixa quanto o misterioso e aflitivo gancho sonoro que pontua a música que, apesar de lembrar o estertor de um pássaro, é na verdade uma micro-harmonia de flauta e saxofone recortada e trabalhada pelo produtor e multi-instrumentista canadense. Sobre esse clima de soturna ansiedade, Dan desliza seu falsete suave e fleumático, num contraste que suscita a elegância inabalável de um felino em seu lento caminhar em meio ao delírio estroboscópico de uma pista de dança. Encaminhando o fechamento da música, uma cascata de notas sintetizadas e um teclado cintilante derramam harmonias cristalinas e luminosas que amenizam a tensão dark preponderante da faixa.
“Odessa” não é a música mais conhecida deste músico por mero acidente: muito além de ser o cartão de visita de seu projeto musical mais autoral, ela demonstra como a música eletrônica pode ir além do estigma pueril e comercial, tanto no seu processo criativo como nas texturas e ambientes sonoros que materializa. Afinal de contas, não é só de Björk e Massive Attack que o cenário da música menos tradicional foi feito.
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