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Sete Ventos Posts

“Backrooms: Um Não-Lugar”, de Kane Parsons [download: filme]

backrooms (2026)

Nos anos 90, Clark, um homem recém-separado, descobre que uma parede no andar inferior de sua loja de móveis dá acesso a uma interminável sucessão de salas onde ocorrem coisas bizarras que desafiam a lógica.
Após Hollywood ter encontrado muito sucesso adaptando quadrinhos de heróis até o final da década passada, e ter desde então se dedicado a arruinar todo este empreendimento, os olhos dos produtores e estúdios de Los Angeles têm se voltado para adaptações de games e, eventualmente, de algum fenômeno derivado da internet como os novos filões a serem explorados. Foi assim que o estúdio A24 decidiu bancar a primeira adaptação em longa-metragem de “backrooms”, um dos “creepypastas” (as ficções de horror coletivas da internet) mais populares dos últimos anos que teve sua origem no famoso fórum 4chan, a partir da publicação anônima de uma imagem acompanhada de uma descrição vaga, e que também contribuiu na formação da estética dos “espaços liminares” – muito popular nas plataformas de mídia e redes sociais da web. A condução do longa-metragem ficou a cargo do jovem Kane Parsons, criador da série de curtas (publicados no seu canal “Kane Pixels” no YouTube) mais amplamente conhecida explorando a idéia. Não há dúvidas de que Parsons foi a escolha acertada por ser uma das pessoas que mais obteve êxito explorando esse conceito tão inóspito, mas o resultado final também exibe os problemas relacionados com essa idéia.
O jovem diretor de apenas 20 anos consegue não apenas recriar de modo convincente toda a singularidade do conceito dos “backrooms”, dominando com propriedade toda a estética disruptiva da aparente casualidade de seus espaços que se replicam em variações sucessivas e apresentam características e elementos cada vez mais bizarros, mas também – com o auxílio do roteirista Will Soodik – criar uma “lore” ou mitologia preliminar que serve como explicação rudimentar para certas características do fenômeno. O novo cineasta americano também demonstra competência ao dirigir seu elenco, que encarna de forma convincente personagens com vidas ordinárias e dramas pessoais capturados pelo sentimento de estupefação ao testemunharem a surrealidade inusitada dos “backrooms”, e inteligência na co-composição da trilha sonora com Edo Van Breemen, aplicada de modo econômico e basicamente composta por ruídos sintéticos e melodias minimalistas que refletem bem a anormalidade desses espaços aparentemente casuais.

backrooms (2026) post 01
“Backrooms” é uma das primeiras adaptações fiéis de um fenômeno nascido na internet. E isso também acaba sendo seu maior problema.

No entanto, é justamente pelo diretor e seu roteirista optarem por escorar tanto o filme na estética e atmosfera inóspita inerente a esse “creepypasta” que o longa-metragem deságua no seu maior problema. Decorridas suas duas horas de duração, fica nítido que Parsons e Soodik passaram todo o tempo evitando enquadrá-lo em um gênero: “Backrooms” nunca chega a ser um filme de horror ou de suspense, mas também não pode ser descrito como um drama. Por consequência desta falta de aprofundamento em seu caminho dramático, o impacto necessário para conquistar a empatia do espectador não se realiza, e este termina o longa-metragem com uma certa sensação de insatisfação por não concretizar o suficiente seu envolvimento emocional com este universo incomum e os personagens que o habitam.
Sim, “Backrooms: Um Não-Lugar” merece ser celebrado por ser uma das primeiras obras a adaptar com admirável fidelidade e formidável respeito uma ficção nascida de um fenômeno contemporâneo singular e ainda muito recente como as “creepypastas” e a estética singular dos espaços liminares. Entretanto, parece ter passado despercebido pelo jovem diretor e seu roteirista consideravelmente inexperiente que a aridez dramática intrínseca a todo o conceito não se enquadraria bem em um longa-metragem de quase duas horas de duração. Assim, “Backrooms” acaba se configurando como um filme ao mesmo tempo satisfatório e frustrante – ironicamente habitando um espaço tão idiossincrático quanto aquele que o próprio longa-metragem explora em sua premissa temática fundamental.

Baixe: “Backrooms: Um Não-Lugar”, de Kane Parsons (Backrooms, 2026)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português español english

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Caribou – “Odessa” (single) [download: mp3]

caribou - odessa (single, 2010)

Apesar de ter um doutorado em matemática, o canadense Dan Snaith atua desde o início do milênio no mundo da música eletrônica independente com dois pseudônimos diferentes. Daphni, o mais recente, é utilizado para dar vazão ao seu lado DJ, seja nos palcos de clubes ou em álbuns mais focados no frenesi sonoro que acaba embalando estes locais. Já Caribou é o alter ego musical que normalmente utiliza para lapidar trabalhos mais experimentais e intrincados. E é desta persona que advém a sua música mais conhecida até hoje.

caribou - odessa (single, 2010) post 01
A soturna aflição de “Odessa” é que tornou esta a faixa mais conhecida da projeto Caribou

Single do álbum Swim, lançado em 2010, “Odessa” ilustra bem esta vertente mais “elaborada” de Dan Snaith. Sampleando e processando diversos instrumentos acústicos tradicionais, como bateria, caixa e triângulo, o artista canadense alcança tanto a cadência sombria e dançante da faixa quanto o misterioso e aflitivo gancho sonoro que pontua a música que, apesar de lembrar o estertor de um pássaro, é na verdade uma micro-harmonia de flauta e saxofone recortada e trabalhada pelo produtor e multi-instrumentista canadense. Sobre esse clima de soturna ansiedade, Dan desliza seu falsete suave e fleumático, num contraste que suscita a elegância inabalável de um felino em seu lento caminhar em meio ao delírio estroboscópico de uma pista de dança. Encaminhando o fechamento da música, uma cascata de notas sintetizadas e um teclado cintilante derramam harmonias cristalinas e luminosas que amenizam a tensão dark preponderante da faixa.
“Odessa” não é a música mais conhecida deste músico por mero acidente: muito além de ser o cartão de visita de seu projeto musical mais autoral, ela demonstra como a música eletrônica pode ir além do estigma pueril e comercial, tanto no seu processo criativo como nas texturas e ambientes sonoros que materializa. Afinal de contas, não é só de Björk e Massive Attack que o cenário da música menos tradicional foi feito.

Caribou – “Odessa” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

Interpol - Iron City (Single) - 2026
Interpol - Iron City (Single) - 2026

Ouça (Deezer):

Caribou - Odessa (Single) - 2010
Caribou - Odessa (Single) - 2010

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Interpol – “Iron City” (single) [download: mp3]

interpol - iron city (single, 2026)

Quando a banda americana Interpol lançou seu primeiro disco em 2002, foi logo agrupada por críticos e entusiastas da música no movimento denominado post-punk revival, então composto por bandas que em sua maioria nunca me arrebatou – incluindo a própria banda de Paul Banks. Com o passar do tempo, porém, grande parte dos grupos musicais e cantores promovem mudanças estilísticas (às vezes de forma até abrupta), e a banda de New York não é uma exceção, tendo lançado discos onde realizou modificações consideráveis na musicalidade que apresentava no início dos anos 2000. E a julgar pelo mais recente single do novo disco agendado para o final de agosto, a banda parece continuar interessada em experimentar sonoramente.
“Iron City”, cujas letras retratam alguém caminhando pelo Central Park enquanto dialoga imaginariamente com uma inteligência artificial futurística, apresenta uma atmosfera de ansiedade resignada, com um piano de toques longínquos, bateria precisa, baixo e guitarra contidos e teclados delicados e intimistas. O conjunto instrumental, unido ao vocal de Banks, que alterna entre fragilidade e reflexão, tece uma atmosfera distante e fria que reflete bem o dilema da permanência da experiência humana em meio à crescente predominância tecnológica.

interpol - iron city (single, 2026) post 01
A banda Interpol, agora com 5 integrantes, experimenta novas sonoridades sem abandonar o estilo que a consagrou

“This Mirror Weighs a Ton”, faixa título do disco que se aproxima, desacelera ainda mais, trazendo baixo, bateria, teclados e vocais de fundo que criam uma densa bruma downtempo através da qual a banda infiltra riffs distorcidos de guitarra, resultando em um proto-trip hop difuso e obscuro cujas letras refletem sentimentos imprecisos de pertencimento e permanência. Na última faixa do single que precede o novo disco, “See Out Loud”, a banda deixa de lado os exercícios sonoros e traz uma canção bem calcada na sonoridade pela qual é historicamente conhecida, com bateria e baixo impondo a velocidade da melodia enquanto as guitarras não deixam espaço para o silêncio, vertendo tanto harmonias ondulantes quanto riffs pulsantes que pontuam a faixa enquanto Paul Banks e Daniel Kessler cantam versos crípticos que tratam de inquietação e renúncia.
As três faixas de prévia não deixam dúvidas de que a banda está disposta a flertar sem receios com novas sonoridades, mas também afirmam que o Interpol não se propõe a abandonar o passado que a consagrou no cenário da música contemporânea. Em meio a tantas bandas e cantores que abandonaram sua musicalidade original e acabam até mesmo pouco lembrando a música que um dia produziram (Tori Amos, PJ Harvey e até mesmo Björk são exemplos disso), o grupo americano consegue agregar novos sons ao mesmo tempo que reafirma sem pudores sua origem – o que, infelizmente, muitos parecem não saber ser possível.

Interpol – “Iron City” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

Interpol - Iron City (Single) - 2026
Interpol - Iron City (Single) - 2026

Ouça (Deezer):

Interpol - Iron City (Single) - 2026
Interpol - Iron City (Single) - 2026

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Gurriers – “Party Lines” (single) [download: mp3]

gurriers - party lines (single, 2026)

A banda Kasabian construiu uma forte identidade até meados da década passada, muito pela presença vocal do britânico Tom Meighan. Porém, após um episódio de violência doméstica contra sua noiva (que hoje é sua esposa), Tom foi forçado a deixar a banda. Passado o tempo, nem a banda e nem seu ex-vocalista conseguiram preservar a identidade que possuíam. No entanto, após ouvir o último single dos irlandeses do Gurriers (um sinônimo da gíria “chav” inglesa), podemos ter novos herdeiros deste caráter particular daquela era da banda Kasabian.

gurriers - party lines (single, 2026) post 01
Gurriers emula muito bem o som da primeira fase dos britânicos do Kasabian

Em “Party Lines”, faixa título do lançamento, fica cristalino o elemento que mais recorda a primeira fase do grupo britânico: o vocal entre petulante e confiante de Dan Gannon é assustadoramente semelhante àquele que Tom utilizava em sua época no Kasabian. Porém, a melodia também tem muito da era inicial da banda britânica, com guitarras em acordes ferinos, baixo firme e bateria determinada em um groove intenso e acelerado que expressa sonoramente a letra caótica sobre violência e miséria. A outra faixa, “Nobody’s Coming to Save You” ainda tem muito da atmosfera “kasabiana”, contando com o mesmo vocal arrastado e algo arrogante guiando o baixo bem pronunciado, os riffs fortes de guitarra e a bateria bem sincopada. O diferencial aqui é que em vários momentos da canção a massa instrumental chega a se sobrepor ao vocal de Dan Gannon. Apesar de toda a determinação do irlandês no microfone ao narrar confusão emocional e ceticismo existencial, há um nítido afogamento vocal que provavelmente é fruto do trabalho desenvolvido até então pela banda, mais aproximado do post-punk.
É nítido que a banda tem potencial para angariar públicos mais amplos, como o fez o Kasabian com maestria por vários anos, mas os rapazes precisam polir certas arestas melódicas, evoluir o trabalho sonoro para um patamar mais equilibrado e buscar um maior foco lírico. Não é algo que se faz num estalar de dedos, mas não é nada que um pouco de tempo não resolva.

Gurriers – “Party Lines” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

Gurriers - Party Lines (Single) - 2026
Gurriers - Party Lines (Single) - 2026

Ouça (Deezer):

Gurriers - Party Lines (Single) - 2026
Gurriers - Party Lines (Single) - 2026

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Dead Poet Society – “Sinner Systems/Roach” (single) [download: mp3]

dead poet society - sinner systems/rouch (single, 2026)

A sonoridade que os americanos do Dead Poet Society vem construindo desde seu surgimento tem vários traços relevantes que não me agradariam pelo parentesco direto com gêneros que não aprecio, como o chamado Nu Metal e Emo/Post Hardcore. Porém, há algo indefinível no som do grupo que evita que minha rejeição se manifeste, talvez porque eles conseguem depurar as melodias a ponto de filtrar boa parte daquela atmosfera excessivamente juvenil que marcou estes gêneros como um estigma. Seja qual for o motivo, a banda consegue entrar com certa tranquilidade no meu ouvido, mesmo que nos singles mais recentes ela esteja sondando um pouco mais os gêneros citados.
Primeiro single neste ano, “Sinner Systems” já mostra os rapazes adentrando uma sonoridade mais brusca e estruturada: aqui guitarras e baixo não se ocupam da progressão melódica, e sim de criar uma textura sonora mais suja que é eventualmente interrompida pelo semi-silêncio da bateria eletrônica e simultaneamente encorpada pelo impacto da forte bateria acústica de Will Goodroad. Em meio a toda essa densidade sonora, Jack Underkofler sobrepõe seu vocal que alterna registros claustrofóbicos com outros bem mais pronunciados. Essa sonoridade prosseguiu no mais recente single, “Roach”, que traz baixo, guitarra e bateria eletrônica em um pulso sincronizado com o qual Jack harmoniza com competência seus vocais sobrepostos e monotônicos, em um fluxo sonoro pontuado apenas pelo riff melódico em sequência rápida nas cordas da guitarra.

dead poet society - sinner systems/rouch (single, 2026) post 01
Os dois singles recentes dos americanos do Dead Poet Society mostram uma sonoridade mais urbana e ruidosa

Depois de ouvir os dois lançamentos, não é difícil suspeitar que o grupo americano busca uma sonoridade mais urbana e ruidosa para o próximo disco. A escalação de Paul Meany (colaborador frequente do Twenty One Pilots e creditado como co-compositor de “Roach”) como produtor das duas faixas é uma indicação desta intenção. Há sempre o risco de que o produtor esterilize a sonoridade da banda e acabe assim “clonando” a atmosfera da dupla com o qual tem colaborado tanto. No entanto, as duas novas canções mostram que esse risco é diminuto: felizmente os quatro rapazes sabem preservar sua personalidade musical mesmo quando experimentam com tais sonoridades. Pensando bem, talvez seja essa confiança artística o “algo” indefinível que acabou me fazendo apreciar o quarteto.

Dead Poet Society – “Sinner Systems/Roach” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

Dead Poet Society - Sinner Systems/Roach (Single) - 2026
Dead Poet Society - Sinner Systems/Roach (Single) - 2026

Ouça (Deezer):

Dead Poet Society - Sinner Systems/Roach (Single) - 2026
Dead Poet Society - Sinner Systems/Roach (Single) - 2026

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Bina – “Zombies” (single) [download: mp3]

bina - zombies (single, 2026)

Radicada em Londres, Sabrina Obiago percebeu que não continuaria nos estudos científicos que então frequentava, e então resolveu arriscar-se no campo do teatro e da música. Foi assim que assumiu o nome Bina como seu pseudônimo artístico e vem desde 2019 lançando canções em uma musicalidade em grande parte experimental e downtempo na qual trabalha beats com influência de R&B e jazz modernos. O seu mais recente lançamento, no entanto, sugere que a artista pode estar pegando o gosto por sonoridades bem mais ritmadas.
Lançado em abril, “Zombies” traz a cantora com o olhar voltado para os domínios do pop/rock e em uma vibe visivelmente mais acessível. A alma da faixa é a parceria entre guitarra e baixo em uma ginga intoxicante que contamina a bateria em seus toques discretos, porém firmes e ligeiros, concebendo uma atmosfera dançante sobre a qual a cantora, com muito molejo vocal, divaga sobre frustrações e desejos em versos como “quero estar no oposto de onde estou agora, no banco de trás de uma limusine com a cabeça nas nuvens, me escondendo dos zumbis que estão destruindo a cidade”.
Sendo a única canção onde a cantora desvia do caminho que vinha trilhando desde que iniciou sua carreira artística, é difícil saber se este é o início de uma guinada sonora na vida musical da jovem, mas com a destreza demonstrada no requebrado dessa faixa contagiante, fica claro que Bina tem muito jeito para sonoridades mais funkeadas – vamos torcer para que ela também tenha percebido isso.

Bina – “Zombies” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

Bina - Zombies (Single) - 2026
Bina - Zombies (Single) - 2026

Ouça (Deezer):

Bina - Zombies (Single) - 2026
Bina - Zombies (Single) - 2026

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005