Dois jovens americanos do interior são contratados para trabalho de pastoreio em uma montanha. Com o passar dos dias e a revelação de seus anseios e afinidades mútuas, Jack consegue vencer a natureza fechada de Ennis e aproximar-se dele. A partir daí nasce uma intimidade que ambos tentam sustentar em meio ao rumo que cada um deles toma em suas vidas.
Inicialmente, é interessante observar que embora o filme de Ange Lee seja de fato um drama/romance “gay”, tanto Ennis quanto Jack seriam, na realidade, bissexuais: ambos desenvolvem relações estáveis com suas respectivas esposas ao longo de todos os anos da história. Naturalmente, no decorrer do filme percebe-se que se um dia Ennis e Jack sentiram algo por estas, esse amor foi completamente sufocado pelo que sentiam um pelo outro – mas isso é da natureza do amor verdadeiro entre duas pessoas que se encontram impedidas de concretizá-lo plenamente, qualquer que seja a sexualidade delas.
Deixando de lado o mérito puramente classificatório da sexualidade dos dois “cowboys”, após terminar de assisti-lo, fica claro para qualquer pessoa sensata porque foi feita tanta celeuma sobre este novo longa-metragem do diretor Ang Lee. Tecnicamente o filme demonstra enorme excelência: a fotografia que tira proveito tanto das belas paisagens naturais quanto de ambientes menos deslumbrantes; as atuações que estão impecáveis, atingindo a medida correta de emoção para os personagens na época e região em que se situam; a trilha sonora que reflete a profundidade do sentimento que permeia os protagonistas ao mesmo tempo que expressa a auto-contenção imposta a natureza do relacionamento deles; e o roteiro que desenrola a história desse amor sem pressa, tomando o tempo necessário para extrair seus conflitos intrínsecos.

No plano artístico, podemos pontuar alguma ressalva com relação à considerável timidez da produção nas cenas de romance, e esta seria de fato uma consideração válida. Porém também podemos fundamentar a defesa desse caráter do filme usando os próprios personagens, suas realidades e suas histórias como argumento – e o trabalho dos dois protagonistas do filme é a maior testemunha na defesa deste aspecto da produção. Jake Gyllenhaal, com a sua performance passional na medida exata, consegue transpor o modo como seu Jack tenta durante todos os anos convencer seu amado a esquecer o mundo e viver plenamente o amor que sentiam – é comovente ver como Gyllenhaal conseguiu, em cada toque em Heath, transmitir o carinho e o desejo de seu personagem por libertar seu amado de suas amarras internas. Ledger, por sua vez, reveste seu Ennis em uma personalidade algo reprimida e arredia que é tangível inclusive fisicamente, em sua postura, em seu rosto, em seu olhar, o que deixa claro para o público como Ennis, apesar de não conseguir na maior parte do tempo externalizar adequadamente o que sentia nem em palavras nem em gestos, amava intensamente Jack, cada toque como se fosse o último, tomado por uma inquietação e melancolia que são a tradução da angústia de estar vivendo um amor que a realidade a sua volta sempre condenou. É por essas performances que se explica a relativa timidez das cenas de amor e sexo: os agentes deste amor estão aprisionados em um mundo onde não se consegue satisfazê-lo plenamente, onde este amor, se não expressamente condenado, é no mínimo mal visto.
A certa altura, quando se entende tanto a realidade dos amantes quanto suas inseguranças e conflitos internos, não há como esperar um final feliz para a história. Criados em um ambiente que reprimia, as vezes até com violência, um amor desta natureza, é de se compreender que ao longo de todos os anos de relação nenhum dos dois conseguiu formular aquela frase simples, mas que talvez ajudaria a dissipar quaisquer receios e temores: eu te amo. Nem mesmo o passional Jack conseguiu fazê-lo, apenas confessando que não suportaria viver sem seu companheiro. Ennis, muito menos vence sua rigidez emocional para afirmar seu amor de forma plena, chegando até mesmo, a certa altura na vida de ambos, a dizer que a montanha Brokeback era o mais longe que ele conseguiria chegar com esse relacionamento e que essa paixão jamais desceria dali – e é neste momento que a montanha, antes o símbolo do amor entre ambos, se coloca como um obstáculo aparentemente intransponível para sua realização.
Infelizmente, apenas quando acaba sendo tarde demais é que Ennis se dá conta de que a motivação para levar sua vida em frente sempre foi o amor de Jack. A sua origem rude, e o preconceito internalizado contra a exposição daquilo que sentiam um pelo outro foi o maior obstáculo ao romance dos dois. E a promessa solitária de Ennis para Jack na cena final, já na impossibilidade de retomar seu grande amor, foi a que tristemente ele nunca conseguiu fazer antes para o homem que amava tanto.
Baixe: “O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee (Brokeback Mountain, 2005)
[áudio original, 1080p, mp4]Baixe: legendas (português)
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