Reunindo-se no fim da década passada depois do rompimento em 2012, a banda americana The Mars Volta decidiu que o retorno deveria ser um “reset” completo, deixando para trás não apenas as desavenças passadas como a sonoridade anterior, o rock progressivo calcado em álbuns conceituais, narrativamente ambiciosos, com uma mistura complexa de synths psicodélicos, orquestrações luxuosas e rock frenético. “Vigil”, single que deriva do álbum homônimo de 2022, entrega prontamente a mudança de sonoridade. Ao invés de uma suíte de quase meia hora de duração audaciosamente fundindo ritmos como jazz e rock, temos uma canção mais “tradicional”, vertendo um pop que mescla harmoniosamente sintetizações, baixo, guitarra e bateria em uma música sofisticada e inteligente que permite até mais espaço para o vocalista Cedric Bixler-Zavala demonstrar seu conhecido virtuosismo. A princípio pode parecer uma jogada de risco esta guinada considerável no estilo musical, porém o tempo não passou apenas para a banda: seus fãs também amadureceram. Pensando deste modo, a mudança estilística não soa assim tão radical.
Influenciado pelo seu estado de espírito após o término com sua então noiva, Beck mudou a percepção pública de sua música ao lançar Sea Change em 2002, um álbum introspectivo e melancólico que conquistou fãs e público com suas composições de base acústica com uso de harmonias orquestrais. O artista voltou a revisitar o estilo em 2014 ao produzir ele mesmo Morning Phase, posicionando-o como sucessor espiritual do disco Sea Change ao ponto de buscar grande parte dos músicos que trabalharam nas gravações em 2002.
Passados doze anos, e contando com a mesma equipe e com o retorno do produtor Nigel Godrich (que não participou do disco de 2014), o americano foi mais uma vez tomado pelo espírito criativo com o qual concebeu os dois discos anteriores: seu novo single, “Ride Lonesome”, compartilha ainda mais a atmosfera de vulnerabilidade emocional de 2002 do que Morning Phase, trazendo o mesmo clima country/folk através de um violão consternado, bateria de toques lentos, guitarra melódica triste e vocais sobrepostos, abatidos e distantes.
O videoclipe da canção, gravado na região do deserto de Mojave e exibindo uma fotografia em matizes amareladas, utiliza como inspiração a atmosfera de vastidão e solidão de faroestes americanos como os de Budd Boetticher, cujo filme de 1959, Ride Lonesome, inspirou o nome do single. Entre campos de turbinas eólicas, árvores de Joshua, longas estradas e linhas de trem infinitas, o cantor caminha aparentemente sem destino, refletindo o estado de desolação e falta de rumo do homem que nas letras lamenta o fim do seu relacionamento. Como se observa nesta canção, felizmente o estado de espírito do personagem é oposto ao do compositor e cantor americano, que mostra nesse single ter ainda disposição criativa de sobra.
Fazendo o caminho inverso de neo-zelandesa Ivy Rossiter (da dupla Luckless, já resenhada por aqui), que mudou-se para Berlim para deixar para trás sua banda e dedicar-se a carreira de DJ e produtora musical, Avalon Emerson é uma americana que ao viver longos anos em Berlin acabou “transmutando” sua carreira como DJ e produtora para a criação de álbuns e singles com composições mais tradicionais que situam-se entre o dreampop e o synthpop. Esta, ao menos, é a impressão que trazem as 3 faixas liberadas como EP de Written Into Changes, seu álbum a ser lançado em março, e em cuja primeira canção, “Eden”, a americana faz uso de sua experiência como produtora para construir uma melodia dançante, com baixo gingado, violão de acordes sutis e bateria eletrônica bem cadenciada sobre as quais deslizam sintetizações atmosféricas e o vocal vaporoso de Avalon. Americana vive em Berlim e ao lado da carreira com DJ vem experimentando composições pop mais tradicionais
Guitarras e violões também se fazem presentes na faixa seguinte, “Jupiter and Mars”, mas aqui eles servem ao propósito de estruturar uma base para, junto com uma bateria eletrônica discreta e synths adicionais, confeccionar uma atmosfera dreampop doce e nostálgica. A prévia do álbum termina com a faixa título, “Written Into Changes”, que não inicia do melhor modo, com um vocal distorcido e um registro que soa dissonante das faixas anteriores, mas felizmente é logo suprimido no refrão por vocais mais graciosos e coerentes com a melodia ambiente pop em downtempo atmosférico e pontuado por sintetizações cintilantes – um lembrete de que ainda que seja mais convencional do que a cena eletrônica, é necessário muita sensibilidade para não cometer deslizes ao aventurar-se no mundo do pop.
O anonimato, ou um simulacro dele, é um artifício que alguns músicos costumam adotar por razões diversas. Sem que seus rostos sejam de fato um segredo, Jonathan Bree e Orville Peck o fizeram como uma tentativa marketeira de diferenciação no gênero musical que atuam. Sia e Björk adotaram o mecanismo tardiamente em suas carreiras, possivelmente como um modo de retardar a percepção do público sobre o seu envelhecimento. Já grupos como Daft Punk até hoje preservam segredo sobre esse aspecto para manter os benefícios da privacidade – ou talvez para tentar sustentar o interesse contínuo do público através do mistério de sua aparência. Blood Cultures em sua primeira fase, com apenas um integrante.
O banda de indie pop eletrônico Blood Cultures, composta inicialmente por um único músico, mas agora com quatro, pode ser encaixada nesse último grupo, mas vai um pouco mais fundo no expediente: ninguém sabe nem mesmo o nome dos sujeitos que sempre se apresentam com o rosto encoberto, normalmente com uma máscara artesanal sobreposta a camadas de capuz (antes eram burkas cobrindo um traje executivo). O grupo na fase atual, com quatro membros.
Na semana passada, os “tímidos” rapazes lançaram um novo disco, o segundo pelo selo Pack Records, depois de dois outros álbuns produzidos e distribuídos sem este suporte. Servindo como trilha sonora do indie game de mesmo nome e trazendo vocais processados em estúdio e uma produção bem cuidada, Skate Story: Vol. 1 é um compêndio de doze faixas onde o pop eletrônico é a chave mestra que abre as portas de diferentes influências sonoras. “Emptylands”, por exemplo, é moderadamente uptempo, mas tem como seu elemento principal os sintetizadores, hora como uma harmonia ondulante vintage que suscita o cinema de mistério dos anos 80, hora como um denso fluxo melódico de puro neon noturno. Já em “Where The City Can’t See”, a intro com vocal e teclado de sonoridade abafada e envelhecida não deixa dúvidas de sua herança lo-fi, mas logo a doçura da harpa e das harmonias sintetizadas trazem generosas doses de chillwave, por sua vez adornado com a urbanidade de samples dos anúncios do metrô de New York que pontuam a música – não é puro acidente, uma vez que o grupo reside na região da metrópole e o videoclipe da música (abaixo), com uma edição arrojada e moderna, a usa como cenário, seja com imagens de arquivo ou de registros atuais – e apesar de todo o esmero, os rapazes ainda deixam escapar algumas provas do péssimo estado atual de uma das cidades mais famosas do planeta.
Na faixa seguinte, porém, o tom é outro: iniciada com synths e vocalizações discretas ao fundo que sugerem um clima quase fantástico, “Into Pure Momentum” é logo conduzida por um beat rápido que não nega seu gosto pelo drum ‘n’ bass e a pista de dança. Mas o ritmo diminui em sequência, já que as agudas sintetizações extraterrenas, o longínquo teclado envelhecido e o distorcido vocal melancólico são todos conduzidos pela lenta cadência pulsante de um synth de tessitura eletro-dark em “Overlord”. “Unarchiver” chega na sequência querendo voltar para a pista com sua batida sintética e uma fartura de camadas de distorção nos vocais e no coral ao fundo, concedendo um ar psicodélico à canção. Já no fim do disco, a aceleradíssima batida densa, suja e caótica, repleta de distorções, que se alterna a uma ambiência soturna e misteriosa sugere “Hole In The Sun” como a trilha sonora ideal para uma boss fight tensa e caótica em uma atmosfera sombria, enquanto a delicadeza da textura rarefeita do mezzo lo-fi fractal de “The Age of Disbelief”, por sua vez, atua como um lenitivo, concluindo a trilha do game Skate Story com a placidez aliviada de quem acabou de enfrentar, com sucesso, uma dura batalha.
Entre os hits populares que tomaram as rádios FMs no final da década de 80 e inícios dos anos 90 com certeza se encontra “Silent Morning”, o único single de sucesso do cantor americano Noel Pagan, conhecido apenas como Noel, e que foi lançado em 1987. O artista de origem latina, mas nascido em New York e criado num dos distritos mais pobres e conturbados da metrópole, o Bronx, é um dos precursores do gênero chamado na época de “freestyle”, que na verdade se tratava de um pop dançante com batida viciante e fartura de sintetizadores. Apesar de não se tratarem de composições que se destacavam pela inovação, é inegável que eram dotadas de melodias infectantes e irresistíveis. Além do inconfundível synth pulsante que introduz a canção e se tornou sua assinatura mais evidante, a vibrante batida sincopada que compõem sua base e a fartura de iluminuras eletrônicas que a pontuam manifestam com clareza as inspirações do gênero, entre as quais inegavelmente estão as eufóricas composições dos britânicos do Depeche Mode na época.
Natalie Mering, cantora e compositora americana nascida na Califórnia, mas criada na Pennsylvania, adotou o críptico e soturno pseudônimo Weyes Blood como sua alcunha musical, mas suas composições, na verdade, estão distantes de qualquer obscurantismo, muito pelo contrário: seu quarto e mais recente disco, Titanic Rising, é iluminado por um pop etéreo e melancólico, eventualmente tomado por euforias momentâneas, mas que nunca deixa de sustentar uma implacável placidez e contemplação. Tudo isso é facilmente perceptível nas faixas “Andromeda”, “Picture Me Better” e “Wild Time”: na primeira, o vocal sedoso, acompanhado por guitarra e sintetizações melosas, faz ser possível visualizar Natalie fitando um céu estrelado, com olhar resignado, enquanto canta impassível os versos de abertura; em “Picture Me Better”, o violão, orquestrações de cordas e vocal leves e singelos suscitam algo de Rufus Wainwright em sua fase mais contida; e em “Wild Time”, apesar de a melodia de guitarra, bateria e piano adensar-se, efusiva, à medida que a faixa avança, a atmosfera meditativa e serena persiste, continuamente realçada pelo vocal macio e celestial da cantora americana, mesmo entoando a tristeza de versos como “everyone’s broken now and no one knows just how we could have all gotten so far from truth”. Esse amálgama de encantamento e amargura, por sinal, se realiza por completo na melodia de “Something to Believe”, onde a guitarra e o cravo de toques cintilantes e o piano e a bateria delicadas servem como a moldura perfeita para que Natalie solte a voz, em versos como “instead of dropping the ball, I seem to carry so many”, e se entregue à canção, em uma balada tão apaixonante quanto as melhores dos suecos do Abba. Porém, ainda que esta melancolia contemplativa seja a malha básica da qual é composto o álbum, isso não quer dizer que não se possa encontrar Natalie em estado de absoluto gozo, como em “Everyday”, que lembra muito a dupla The Carpenters com seu instrumental e vocais de fundo em um arranjo radiante e jovial, mesmo servindo de trilha sonora para versos agridoces como “true love is making a comeback, for only half of us, the rest just feel bad”, ou mesmo como que tomada por um intenso delírio, como na atmosfera de devaneio quase místico de “Movies”, um esplendoroso desvario sonoro onde uma hipnótica base de sintetizações ondulantes vai aos poucos colocando os ouvidos em transe, até repentinamente lançar o ouvinte para a mais sublime ascensão com uma sequência de orquestração de cordas que cresce até desfazer-se no êxtase do arrebatamento – tudo isso em uma única faixa, sem nunca resvalar na cafonice um único instante que seja. É justamente aí que se encontra a grande qualidade de Titanic Rising: um disco de pop nostálgico elegante que transita entre a contemplação e a psicodelia, sem jamais soar kitsch.