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seteventos Posts

Isaac Gracie (LP) e Close Up – Looking Down (EP) [mp3: download]

Acabei conhecendo Isaac Gracie através do vídeo do seu single “The Death of You & I”, e apesar do o clip não ir muito além do clichê mais batido possível do rock, com o jovem músico britânico destroçando tudo o que vê pela frente, é impossível não ficar impressionado com a voz ao mesmo tempo macia e potente do jovem dândi. A canção, por si só, também é irresistível, com bateria e guitarras que transitam entre um bolero tépido e o ardor de um rock furiosíssimo onde o jovem britânico solta sem receios a sua voz potente. O disco homônimo que contém a canção, porém, ainda guarda outras belas canções. “Terrified”, a faixa de abertura onde o cantor inglês expõe seus temores de não corresponder as expectativas de alguém que ama, adiciona na família de instrumentos um piano de toques suaves que banha a linda voz de Isaac de modo – perdão do trocadilho – gracioso. “Last Words”, logo em seguida, é uma balada com vocais de fundo e orquestrações que acolchoam os acordes melancólicos do violão do jovem músico que canta sobre alguém que, depois de abusar de sua sorte, pergunta-se como pode ter se permitido chegar à este ponto. Logo depois de “Running On Empty”, gostosa faixa de ritmo acelerado, na tradição do pop/rock inglês, temos “Telescope”, onde o cantor, com vocal, violão e pianos sofridos e bateria bem marcada, canta sobre um amor que percebeu não lhe fazer bem, e do qual agora que se desfazer. “That Was Then”, com uma melodia triste e bem ritmada da guitarra, baixo e bateria sobre a voz em tom penoso de Isaac, investe ainda mais em romances disfuncionais em letras como “she says I’ll never understand, begging me to let her go, if you never lose, will you ever know how to be a better man”. Em “When You Go”, o violão de sutil cadência matinal constrói um lamento que casa perfeitamente com as letras sobre mais um amor disfuncional. Amores despedaçados também são tema de “Silhouettes Of You”, onde o violão e a vocalização de fundo do refrão são a base para um crescendo instrumental da bateria e guitarra que incrementa o flagelo vocal de Isaac. Algumas faixas mais à frente, fechando o disco, a música de “Reverie” alterna entre a prece sorumbática da guitarra, percussão, piano e vocais abatidos e a pujança sonora em sua sequência final, em um deslumbrante despertar melódico.


Porém, se a tônica do LP de estréia é de uma melancolia cálida, Close Up – Looking Down, o EP lançado no final do ano passado, reúne canções mais ritmadas, com uma energia pop/rock que o cantor e seu produtor aparentemente decidiram resguardar em grande parte do disco de estréia. “Show Me Love”, uma faixa clássica do gênero com um andamento rápido da bateria e guitarra acompanhando um vocal mais solto e intenso do cantor britânico, deixa isso claro já na abertura do EP, ainda que a faixa seguinte, “Broken Wheel”, desacelere um pouco com sua harmonia mais cadenciada do violão, percussão e piano sobre um vocal que conserva o mesmo vigor da faixa anterior. “?No, Nothing at All” é a faixa mais bem estruturada do disco, onde a guitarra e a bateria bem compassadas preparam-se para um refrão onde ganham uma maior densidade instrumental que lembra os inesquecíveis hits das rádios FM do início dos anos 90. “You Only Live Once”, cover de uma faixa do The Strokes calcada nos alicerces do rock, conclui o pequeno compêndio musical desacelerando o ritmo com a parceira perfeita entre guitarra, bateria e vocal em uma versão mais contemplativa, mas que também convida o corpo a embalar-se em seu compasso manso e sereno.
É uma grata surpresa ainda encontrar bons e jovens artistas interessados em desnudar seus sentimentos e devassar seus corações ao ritmo do velho, bom e insuperável rock. O filão mais popular da música mundial, aquele que ganha todos os holofotes, está tomado por artistas cujo trabalho se assemelha tanto a ponto de você não encontrar algo que os diferencie, num pastiche sonoro que parece ter sido fielmente elaborado pelos produtores baseados em algoritmos que apontam inequivocamente aquilo que vai capturar a atenção da massa de ouvintes, mas o rock sobrevive, ainda que ele esteja discretamente alojado lá na mesa do canto da cafeteria, calma e pacientemente degustando um café, esperando todos aqueles que tem bom gosto e inteligência sentar em sua mesa para apreciar a sua companhia.

Baixe (Isaac Gracie, LP, 2018): http://www.mediafire.com/file/h9itucp2kq5za07/gracie.zip

Ouça (Extended Edition, inclui 3 faixas do EP):

Baixe (Close Up – Looking Down, EP): https://www.mediafire.com/file/s8towi6llyssbfx/gracie-up-down.zip

Ouça (faixa “You Only Live Once”):

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“The Tree”, de Han Yang e Basil Malek [curta-metragem]

Um homem, já com certa idade e que vive em um desetto, persiste em buscar água para regar uma planta aparentemente sem vida já há muito tempo.
Este pequeno curta de seis minutos e meio, criado por um jovem artista chinês e outro jordaniano, não reinventa a roda, já que aos dois minutos de duração sem tem claramente idéia do que virá a seguir. Sua previsibilidade, no entanto, não se constitui em um defeito, pois é tão somente parte de sua dinâmica que não diminui em nada seu maior trunfo: a emoção. Com uma premissa e traços simples, os dois jovens artistas conseguem, de modo poderoso em um vídeo tão pouco ambicioso, captar uma emoção tão universal e profunda à vida humana que é provável que o espectador se pegue com os olhos cheios d’água no seu final.

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Emily King – Scenery [download: mp3]

Apesar da carreira iniciada em 2004 e de seu primeiro disco em 2007, a jovem cantora americana Emily King lançou, há poucos dias, apenas o seu terceiro LP, chamado Scenery. Rotulada como uma artista de r&b e de soul, há de se reconhecer matizes e influências do ritmo, mas neste disco, ao menos, a moça parece ter escolhido embanhar suas canções com uma boa camada de pop, particularmente na primeira metade disco, onde está o single “Remind Me”, faixa com baixo e guitarras sutis, mas muito bem gingadas e um beat que aquece a melodia, sem queimar sua sutileza sonora. “Teach Me”, segunda faixa do disco onde violões de sabor latino, um piano parcimonioso e uma percussão quase muda tecem um tapete para que o vocal doce e morno da cantora dance harmoniosamente é, de longe, o maior acerto do álbum. O que não significa que não há outras boas faixas no disco. “Caliche”, a quinta canção, é uma delas. Com vocais de fundo generosos, piano e violões de reminiscências jazzísticas e um refrão gostosamente ritmado, constrói-se uma atmosfera algo nostálgica que tem um parentesco distante com o fabuloso disco “Birds”, da neo-zelandesa Bic Runga, que já resenhei aqui no seteventos.com há muitos anos atrás. Mais à frente, “Running” não surpreende ao pagar a cota de gospel da artista, como normalmente o faz boa parte dos artistas do soul e r&b. Fechando o disco está “Go Back”, que com seu discreto crescendo melódico pop/rock de bateria, guitarra e vocais de fundo é a provável candidata a novo single.
Ainda que a decisão da Emily King de não soltar a voz em nenhuma das doze faixas que selecionou para o lançamento seja bastante frustrante, a produção caprichada, melodias bem cuidadas e a bela voz da artista valem uma conferidinha no álbum.

Baixe: http://www.mediafire.com/file/5v8i48tcq5xn4dx/emiking-scene.zip

Ouça:

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“But Milk is Important”, de Anna Mantzaris e Eirik Grønmo Bjørnsen [curta-metragem]

Um homem que sofre de um transtorno de ansiedade ganha repentinamente uma indesejada e insólita companhia.
Utilizando a técnica de stop-motion em um curta de pouco mais de dez minutos, a dupla de diretores Anna Mantzaris e Eirik Grønmo Bjørnsen aborda com muita leveza, humor e sensibilidade a fobia social, um dos transtornos de ansiedade mais debilitantes. Os personagens, criados com um design bastante original, quase não fazem uso de falas, mas elas se fazem desnecessárias, uma vez que o enredo do curta-metragem está baseado em interações tão simples e cotidianas que não apenas fica fácil entender o que está acontecendo, mas consegue eficientemente aproximar o espectador dos conflitos vividos pelo protagonista vítima de um transtorno psicológico. O grande charme da animação, aliás, reside na interação entre este homem e a criatura fofinha, mas tão comicamente impertinente que, afrontando e testando o limite de seus receios, acaba o auxiliando a ousar fazer o que jamais conseguira antes.

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“Aniquilação”, de Jeff Vandermeer [livro, download: ebook]

Um grupo de quatro especialistas, de diferentes segmentos, são treinadas por uma agência governamental afim de explorar a “Área X”, uma região abandonada há muitos anos após um evento indeterminado deixá-la tão exuberante quanto ameaçadora.
Minha experiência na leitura deste livro foi tão surpreendente que senti aquela necessidade, em mim antigamente tão presente – hoje tão rara – de escrever sobre ele. Me interessei pelo livro ao ter contato com resenhas e comentários breves sobre a obra em alguns sites que eu costumava visitar há algum tempo – e que, curiosamente (mas com razão), nem visito mais. Todos que falavam sobre o livro o faziam sempre tecendo elogios à sua singularidade e bizarria. Não havia como, mais cedo ou mais tarde (e no caso foi mais tarde), eu não me aventurasse em descobrir o que de tão espetacular havia em suas páginas. De fato, encontrei idéias admiráveis ao percorrer as primeiras páginas de “Aniquilação”, no entanto, infelizmente, a medida que avançava, fui me deparando cada vez mais com algo que não deveria nem de perto ter encontrado: frustração.
Devo reconhecer que Jeff Vandermeer consegue, inicialmente, sustentar no leitor um interesse na história de seu livro devido ao engendramento de uma premissa fascinante e de uma atmosfera intrigante que, trabalhando juntas com os primeiros elementos do enredo, incutem uma curiosidade necessária para que a leitura prossiga em bom ritmo. Porém, esse efeito vai se esvaindo, aos poucos, a partir da segunda metade do livro, até que, no fim, quase nada resta a não ser uma considerável decepção. A razão para isso é apenas uma: os personagens, mal desenvolvidos, não exibem qualquer traço de carisma, elemento essencial para que o leitor sinta-se realmente conectado com o livro. É verdade que isso deve-se à própria natureza do enredo (e não há como ilustrar isso sem revelar parte da trama), mas um escritor experiente e criativo encontraria uma forma de construir a empatia entre personagens e leitor sem prejudicar a dinâmica do enredo que criou. Jeff, ao que parece, ainda não chegou nesse ponto de sua carreira, pois mesmo a protagonista do livro é despida de qualquer espécie de carisma, apesar da tentativa infrutífera de Vandermeer, lá pelas últimas cinquenta páginas de sua obra, de vestí-la em alguma sombra de encanto – e a situação só piora quando o leitor começa a notar que nem mesmo as criaturas que permeiam o mundo criado por Vandermeer, que deveriam ser formidáveis e aterradoras, não vão muito além de uma descrição confusa e pueril.
Com certeza os fãs de Jeff Vandermeer consideram que o mundo onírico criado pelo escritor americano é razão suficiente para colocá-lo entre os mais importantes do gênero na atualidade, e devo reconhecer que suas idéias, a princípio, seduzem. Porém, a meu ver, premissa e atmosfera alguma, não importa quão espetaculares sejam, serão suficientes se o leitor terminar o livro sem se importar com o destino dos personagens – tanto pior se o livro for parte de uma série, como é o caso deste, o primeiro de uma trilogia. Sim, a beleza, idiossincrasia e os mistérios da “Área X” intrigam, mas é necessário mais do que isto para que o leitor (ou um leitor como eu, ao menos) invista seu tempo em vários livros para descortinar seus segredos, isso sem falar que ele corre um risco nada desprezível de não obter a solução de boa parte daquilo que o intriga – e pelos comentários que li sobre os dois livros subsequentes, são grandes as chances de este leitor terminar a trilogia com o gosto amargo da insatisfação. É uma pena que Jeff, tão embebido em sua própria engenhosidade, tenha esquecido que sem personagens cativantes, não há paraíso que fique de pé.

Baixe (em português): https://www.mediafire.com/file/83ve3trvdwhpopp/ani-jeff.zip

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“Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski

Um casal e seus três filhos tentam sobreviver em um mundo devastado por criaturas que caçam qualquer coisa que produza algum som.
A princípio pensei ser este filme a estréia de John Krasinski atrás das câmeras, mas na verdade o diretor já tem duas comédias indies no currículo. “Um Lugar Silencioso” é, no entanto, seu primeiro filme de sucesso: tendo gasto não mais do que 20 milhões na produção, o filme teve rendimento de mais de 200 milhões de dólares em bilheteria nos cinemas e arrancou elogios tanto da crítica quanto do público. A boa recepção certamente se deve ao balanceamento inteligente do argumento original (criado por Bryan Woods e Scott Beck e roteirizado por ambos com o auxílio do diretor) que bebe em fontes consagradas cinema ao mesmo tempo que introduz o seu próprio elemento de estranhamento.
Apesar de esta ser a sua primeira incursão nos gêneros do horror e ficção-científica, Krasinski consegue injetar frescor mesmo recorrendo à elementos familiares dessa seara para a construção do seu longa-metragem: há sim fartas doses de inspiração originária de filmes como “Alien”, representado na ameaça do predador alienígena, mas os predadores de “Um Lugar Silencioso” guiam-se unicamente pelo som; também há muito da desolação do planeta de longas clássicos como “O Último Homem da Terra” ou contemporâneos como “Extermínio” presente no longa de Krasinski, porém o diretor americano o faz situando quase a totalidade do seu filme em ambiente não-urbano – decisões que distanciam razoavelmente seu longa da idéia de “mais um filme de alienígena que arrasou o planeta”.
No entanto, o que chama a atenção do espectador desde o início do filme são os aspectos inusitados da história composta por Woods, Beck e Krasinski, que ao compor os características do predador alienígena que dizimou a humanidade, acabam por consequência também concedendo ao longa uma atmosfera singular, perpassado-o por um silêncio sepulcral onde os barulhos mais inaudíveis do nosso cotidiano acabam enormemente amplificados – como o rolar de dados em um tabuleiro e mesmo o suave pisar dos pés na areia -, o que potencializa o suspense ao soar dos ruídos mais pueris que sequer notamos no nosso dia-a-dia. Essa característica bastante particular não fez, no entanto, com que o diretor eximisse seu longa do suporte de uma trilha sonora: ela está lá, cumprindo o seu papel dentro dos padrões mais clássicos do horror e do suspense para preservar o efeito dramático. Krasinski explicou que tomou essa decisão de modo consciente para que o seu longa não soasse como um experimento e pudesse ter uma relação de familiaridade com a platéia, o que faz sentido e, mais uma vez, mantém um equilíbrio entre inovação e tradição na tessitura do longa-metragem.
Devido à eficácia do filme na relação custo x benefício, não é difícil supor que os produtores de Hollywood já pensem em formular uma sequência para o longa – ela, aliás, já foi listada no portal IMDB. Sinceramente, espero que isso fique apenas na idéia: a obra de Krasinski e seus dois roteiristas é daqueles filmes simples e objetivos que funcionam muito bem como em volume único, mas cujo charme e força não sobreviveria ao estender-se por demais capítulos. Vamos torcer para que Hollywood, desta vez, tenha um lampejo de bom senso.

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“The Hungry Corpse”, de Gergely Wootsch [video, curta]

O curta-metragem de animação do húngaro Gergely Wootsch, que conta com as vozes dos atores Bill Nighy e Stephen Mangan, não é a história feliz de um velhinho e um pássaro – a começar pelos personagens, que são, na verdade, um cadáver ambulante e um pombo rejeitado -, mas tem suas pitadas de humor em alguns instantes dos seus pouco mais de oito minutos. O estilo da animação, que remete aos primeiros experimentos de Tim Burton no gênero e aos clássicos filmes de terror em preto-e-branco, casa perfeitamente com a tonalidade da história que, se tem muito de melancólico, devo dizer que também é concluída com um soluço de esperança e conforto.

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Sevdaliza – The Calling (EP) [download: mp3]

Sevda Alizadeh, uma bela morena iraniana radicada na Holanda, é uma jovem do seu tempo, tendo já lançado uma música de protesto, cantada em persa, contra as iniciativas anti-imigratórias do atual presidente americano, entre outras iniciativas do gênero. Isso é louvável, no entanto, para mim, que depois desse tempo todo continuo sendo um sujeito que não tem muito apreço pela correção política, o que interessa de fato é a qualidade artística. E isso, Sevdaliza – sua persona musical – tem o suficiente.
A cantora e compositora, que é formada em Ciências da Comunicação e durante a adolescência fez parte da seleção holandesa feminina de basquete, é descrita por críticos como sendo uma mistura de FKA Twigs com Björk e Portishead. As três referências são compreensíveis, mas discordo da primeira: apesar da familiaridade ser grande, FKA Twigs é por demais contemporânea da própria Sevdaliza, o que permitiria a afirmação continuar sendo válida mesmo ao ser invertida. Mas então, qual seriam as demais referências que se pode apreender ao ouvir algo da artista iraniana?
Bem, para qualquer canção que você escolha ouvir, certamente a primeira coisa que virá à cabeça é Sade: tanto o empostamento vocal quanto a tessitura da voz da cantora iraniana trazem aos ouvidos vibrações do cantar suave e sofisticado da veterana cantora nigeriana – é a sensação inequívoca que se tem ao ouvir “Observer”, por exemplo, que com sua pegada pop mais tradicional, num beat ritmado sem quaisquer volteios melódicos ou ousadias, seria certamente a canção do disco com o DNA natural de um single. Isso porém, coube à outras duas faixas do EP que apresentam mais honestamente o estilo da cantora iraniana, “Soul Syncable”, a faixa que abre o disco, e “Human Nature”. A primeira já de início apresenta aquela que é sua melhor e mais salutar característica, as orquestrações de cordas embebidas em orientalismo, que acompanham todo o andamento da melodia baseada em um beat que lembra muito bandas de verve electro-chic como Supreme Beings of Leisure e Morcheeba, além da cantora em alguns momentos fazer uso de filtros que alteram brevemente o seu vocal. Já “Human Nature” tem uma atmosfera bem mais contemplativa e melancólica, onde o sutilíssimo beat eletrônico apenas dá base para que as orquestrações e as iluminuras ao piano joguem todo o foco para o vocal algo triste, porém elegantíssimo de Sevdaliza, que ao cantar sobre as agruras de um amor despedaçado, lança ao fim uma ode à individualidade da alma humana. “Voodoov”, a faixa seguinte, com seus eletronismos algo óbvios, talvez seja a canção menos inspirada do disco que nem mesmo as orquestrações e os toques esparsos ao piano conseguem salvar. Algo que não acontece em “5d”, que com sua ambiência graciosamente dark consegue balancear muito bem a base eletrônica levemente dançante com as orquestrações tristes e o vocal bem apurado da cantora. É porém em “Soothsayer”, faixa onde a cantora mais faz uso de um falsete de registro baixo, que sobressai entre semi-silêncios, orquestrações pontuais e uma batida bem marcada, que temos a maior semelhança com Portishead, já que em muito este vocal se assemelha ao da sempre sorumbática Beth Gibbons. Por fim, a faixa “Energ1” é provavelmente a que melhor sintetiza a música de Sevdaliza, iniciando com um arranjo de vocais e orquestrações crescentes que se seguem à toques suaves no piano para introduzir o beat bem cadenciado que avança e retrocede durante toda a melodia, salpicada de distorções vocais.
Ao fim, The Calling consegue alcançar nas suas sete faixas aquilo que muitos lançamentos nem sempre conseguem: uniformidade. Com a exceção de “Observer”, em todas as outras faixas Sevdaliza consegue construir uma identidade musical consistente, com melodias refinadas, apesar das letras não exatamente acompanharem estas características. É verdade que nesta identidade carecem vigor e singularidade para lhe tornar uma artista mais do que somente competente e interessante, mas estamos falando de alguém em início de carreira – tempo para aprimorar a amadurecer seu trabalho não vão lhe faltar, certamente.

Baixe: http://www.mediafire.com/file/9bzuw4h4cwh6ced/sevda-calling.zip

Ouça:

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“Desert Affair”, de Sou Matsumoto [video, curta]

É difícil uma animação criada por um oriental que não tenha suas raízes bem fincadas na forte identidade das produções daquela parte do mundo, em particular dos “animes”. “Desert Affair”, pequeno curta-metragem de Sou Matsumoto, certamente não foge desta influência tanto na dinâmica do argumento simples de sua história, quanto em sua atmosfera e personagens (o monstro que persegue a jovem com um bebê se sentiria em casa em um episódio de Pokémon), porém, curiosamente, é justamente no estilo da animação que a criação de Matsumoto descartou preservar muito da afinidade com as produções de sua terra, preferindo um traço mais simples, quase ocidental – e junto com o desfecho cômico da história, este é o seu maior charme.

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David Fonseca – Seasons: Falling [download: mp3]

Lançada já no segundo semestre do ano passado, a segunda parte (Seasons: Rising, a primeira parte, você encontra neste link) do projeto concebido por David Fonseca para o ano de 2012 confirmou o incrível ciclo criativo que o grande artista português saboreou nos últimos anos. Impressiona como o arsenal de composições de Fonseca não se esgota, sempre repleto de canções que seduzem os sentidos mesmo em primeira audição, como já acontece na faixa de abertura, “I’ll Never Hang My Head Down”, que com seus riffs hipnóticos de guitarra preparam o bote irresistível do refrão e do outro da melodia, onde os instrumentos enovelam-se em uma explosão emocionante. Emoção, aliás, é algo que transborda nesta segunda parte do projeto Seasons. Apesar deste disco ser permeado por momentos mais cheios de energia, como na faixa “It Means I Love You”, uma celebração frenética ao amor com guitarras farfalhantes, pianos embevecidos, bateria acelerada e sintetizadores em pleno êxtase, Falling é um disco feito para atingir em cheio o coração do público, como na doce balada “All That I Wanted”, onde violões dão o andamento enquanto guitarras reverberam com suavidade por toda a música. “It Shall Pass”, não deixa por menos, trazendo um dueto delicado com Luísa Sobral em que os violões avançam em um crescendo onde bateria, sintetizações e arranjo de cordas comungam em plenitude. Em seguida, a fulminante “At Your Door” já traz lágrimas ao olhos ao iniciar com não mais do que a voz de David e sua guitarra cintilando como uma estrela perdida no cosmo, mas a canção ainda expande-se em uma associação infalível entre piano, bateria, violões e arranjo orquestral que deixa o refrão da canção circulando prazerosamente nos ouvidos por longas horas. Na power-ballad “Heartbroken” órgão e piano criam a atmosfera na qual o artista português pinta e borda com seu instrumental pop/rock, alternando entre momentos de extroversão e introspecção melódica. Em “On My Feet Again” múltiplos vocais de fundo harmonizam-se com a música, no qual o trabalho da guitarra e bateria despontam esplendorosos. E fechando este disco impecável, “I’ll See You In My Dreams” é uma vitrine musical onde David Fonseca exibe todo o seu talento na produção (tarefa que divide com Nelson Carvalho) e arranjo da canção, harmonizando os loops de pequenos samplers com o seu instrumental variado em uma música cujas letras expõem o arrebatamento de um homem completamente apaixonado – e apaixonados pela música de David acabam todos os que ouvem este trabalho que é, sem dúvidas, um dos mais bem acabados deste grande artista do pop/rock – aprecie sem moderação.

http://www.mediafire.com/file/w2ilvzfm2ecw1z6/fonseca-falling.zip

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