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Categoria: cinema & TV

comentários e críticas de filmes e seriados com download disponível

“Piquenique na Montanha Misteriosa”, de Peter Weir [download: filme]

picnic at hanging rock (1975)

Na Austrália da virada para o século 20, três garotas e uma professora de um colégio para meninas somem ao subirem em um pequeno monte rochoso durante um passeio.
Peter Weir mostra na sua filmografia a sua capacidade de lidar com temas complexos e personagens insólitos, como em O Show de Truman, Sem Medo de Viver e A Testemunha.
Porém, foi ao audaciosamente adaptar para o cinema “Piquenique em Hanging Rock”, obra de Joan Lindsay, que o australiano demonstrou toda a sua perspicácia e sensibilidade ao tratar de enredos incomuns em atmosferas idílicas.
Preservando a ambientação da história no ano de 1900, o cineasta reproduz com fidelidade elementos requintados da época, como o vestuário e penteados típicos que integravam o dia-a-dia da burguesia naquela era, e transpõe a atmosfera ao mesmo tempo bucólica e enigmática da trama fazendo uso de uma fotografia radiante, que banha as cenas em um clima de sonho, e de uma trilha sonora onde uma flauta folclórica combinada a um órgão de tons sacros produzem a sonoridade singular que o enredo exige.
Além disso, o diretor contou com o roteiro bem escrito de Cliff Green e a edição sem concessões de Max Lemon para obter em “Piquenique na Montanha Misteriosa” o aspecto místico que a “montanha” (na verdade um pequeno morro rochoso chamado Monte Diógenes) tem na história de Joan Lindsay. Já o elenco, todo com ótimo desempenho, traz com propriedade ao filme o efeito de encantamento que o monte desperta em alguns dos personagens, sendo crucial também para que o cineasta australiano consiga dissecar na trama o impacto na vida de todos ligados ao ocorrido e os conflitos entre os personagens em consequência desse estranho acontecimento.

picnic at hanging rock (1975) post 01
Com o belo e enigmático “Piquenique na Montanha Misteriosa”, Peter Weir já demonstrava, nos anos 70, sua habilidade de lidar com histórias incomuns

Transferir para a tela uma trama que trata de um evento extraordinário se dando em meio a beleza imutável de um cenário bucólico não é uma tarefa trivial, mas foi com ela que Peter Weir exibiu a habilidade, a versatilidade e a ousadia que ficariam conhecidas em suas obras posteriores. Ao decidir se aposentar 16 anos atrás, o cineasta preservou esta filmografia de ser conspurcada pelas pressões e influências das novas forças que se apossaram de toda a indústria do entretenimento pouco depois de seu último longa-metragem, forças estas que em boa parte causaram a ruína do cinema contemporâneo que até mesmo porta-vozes de Hollywood, como Variety e The Hollywood Reporter, não conseguem mais driblar em seus artigos. Tenha sido por casualidade ou astúcia, Peter Weir permanece, desse modo, como um dos exemplos do cinema de outrora, aquele que despertava um fascínio genuíno nas platéias, e não o que vemos hoje sendo fabricado por pautas artificialmente embutidas por departamentos de RH e por equipes de marketing movendo exércitos de “bots” em redes sociais.

Baixe: “Piquenique na Montanha Misteriosa”, de Peter Weir (Picnic at Hanging Rock, 1975)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“Conclave”, de Edward Berger [download: filme]

conclave (2024)

Com a morte do papa, um conclave é formado para a eleição do novo pontífice. E este será tudo, menos pacífico.
O conceito de um filme de duas horas que se resume a retratar o decorrer de um conclave provavelmente não pareceria muito atraente para o público em geral – o primeiro obstáculo seria desconhecer do que se trata um conclave. No entanto, o longa-metragem de Edward Berger não apenas passa longe de ser chato mesmo para o público médio como também recupera um cinema que a Hollywood de hoje tem deixado cada vez mais para trás.
Em cada um dos seus componentes, “Conclave” apresenta o que há de melhor: um elenco afinadíssimo que reúne estrelas consagradas (como Ralph Fiennes, sublime ao dimensionar com precisão cada pequeno detalhe, físico ou emocional, do seu decano) e atores menos conhecidos; um diretor de fotografia capaz de composições elegantes mesmo nas sequências mais simples; o compositor que cria uma trilha sonora que a princípio soa insistente, mas que logo entende como potencializar os eventos do longa-metragem com sua beleza; o diretor de som que capta a magnitude deste ambiente mesmo nos sons mais delicados; um editor que compõe sequências com apurada perspicácia; o roteirista que consegue adaptar a história de Robert Harris em uma trama instigante e envolvente. De posse dessa equipe tão capacitada, Edward Berger transforma um evento que parece austero e burocrático em uma trama de investigação que prende o espectador, sustentando a atenção deste durante o decorrer de seus 120 minutos.

conclave (2024) post 01
“Conclave” não traz apenas intriga e mistério no Vaticano – traz também o cinemão que Hollywood esqueceu

Porém, isso não é feito apenas ao compor com maestria uma série de mistérios e intrigas que despertam o interesse do público na trama. Até mesmo quando as chamadas “temáticas sociais” que há mais de dez anos têm pautado, com seu didatismo pedante e moralista, boa parte das produções de cinema e TV, saturando e afastando grande parte do público, Berger o faz sob a luz do dogma cristão, que se enquadra perfeitamente na temática da sua obra, e não como mecanismo de doutrinação político-ideológica. É por isso que mesmo ao eventualmente abordar estes assuntos que têm sido empurrados ad nauseam em um caráter manipulativo, “Conclave” não causa repulsa e desdém, mas sim uma solidária aceitação: ao tratar este temas sob a ótica da compaixão religiosa, Berger recupera a universalidade com a qual temas como estes eram abordados na Hollywood de outrora, uma prática que a “meca” do cinema abandonou há muito tempo.
“Conclave” acaba se materializando como a recordação da excelência em grande parte perdida pelo cinema americano: um cinema do tempo em que Hollywood ainda mantinha viva a preocupação de entreter platéias com excelência técnica e artística e mantendo a ótica universal ao apresentar suas histórias. É triste perceber que a era desse cinema, que carregava milhões de pessoas fascinadas às salas de exibição todos os anos, provavelmente não voltará mais. Com sorte, ainda teremos filmes como o de Edward Berger, insistindo em nos lembrar que o cinema pode ser muito mais do que ele é hoje.

Baixe: “Conclave”, de Kane Parsons (Backrooms, 2024)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

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“Backrooms: Um Não-Lugar”, de Kane Parsons [download: filme]

backrooms (2026)

Nos anos 90, Clark, um homem recém-separado, descobre que uma parede no andar inferior de sua loja de móveis dá acesso a uma interminável sucessão de salas onde ocorrem coisas bizarras que desafiam a lógica.
Após Hollywood ter encontrado muito sucesso adaptando quadrinhos de heróis até o final da década passada, e ter desde então se dedicado a arruinar todo este empreendimento, os olhos dos produtores e estúdios de Los Angeles têm se voltado para adaptações de games e, eventualmente, de algum fenômeno derivado da internet como os novos filões a serem explorados. Foi assim que o estúdio A24 decidiu bancar a primeira adaptação em longa-metragem de “backrooms”, um dos “creepypastas” (as ficções de horror coletivas da internet) mais populares dos últimos anos que teve sua origem no famoso fórum 4chan, a partir da publicação anônima de uma imagem acompanhada de uma descrição vaga, e que também contribuiu na formação da estética dos “espaços liminares” – muito popular nas plataformas de mídia e redes sociais da web. A condução do longa-metragem ficou a cargo do jovem Kane Parsons, criador da série de curtas (publicados no seu canal “Kane Pixels” no YouTube) mais amplamente conhecida explorando a idéia. Não há dúvidas de que Parsons foi a escolha acertada por ser uma das pessoas que mais obteve êxito explorando esse conceito tão inóspito, mas o resultado final também exibe os problemas relacionados com essa idéia.
O jovem diretor de apenas 20 anos consegue não apenas recriar de modo convincente toda a singularidade do conceito dos “backrooms”, dominando com propriedade toda a estética disruptiva da aparente casualidade de seus espaços que se replicam em variações sucessivas e apresentam características e elementos cada vez mais bizarros, mas também – com o auxílio do roteirista Will Soodik – criar uma “lore” ou mitologia preliminar que serve como explicação rudimentar para certas características do fenômeno. O novo cineasta americano também demonstra competência ao dirigir seu elenco, que encarna de forma convincente personagens com vidas ordinárias e dramas pessoais capturados pelo sentimento de estupefação ao testemunharem a surrealidade inusitada dos “backrooms”, e inteligência na co-composição da trilha sonora com Edo Van Breemen, aplicada de modo econômico e basicamente composta por ruídos sintéticos e melodias minimalistas que refletem bem a anormalidade desses espaços aparentemente casuais.

backrooms (2026) post 01
“Backrooms” é uma das primeiras adaptações fiéis de um fenômeno nascido na internet. E isso também acaba sendo seu maior problema.

No entanto, é justamente pelo diretor e seu roteirista optarem por escorar tanto o filme na estética e atmosfera inóspita inerente a esse “creepypasta” que o longa-metragem deságua no seu maior problema. Decorridas suas duas horas de duração, fica nítido que Parsons e Soodik passaram todo o tempo evitando enquadrá-lo em um gênero: “Backrooms” nunca chega a ser um filme de horror ou de suspense, mas também não pode ser descrito como um drama. Por consequência desta falta de aprofundamento em seu caminho dramático, o impacto necessário para conquistar a empatia do espectador não se realiza, e este termina o longa-metragem com uma certa sensação de insatisfação por não concretizar o suficiente seu envolvimento emocional com este universo incomum e os personagens que o habitam.
Sim, “Backrooms: Um Não-Lugar” merece ser celebrado por ser uma das primeiras obras a adaptar com admirável fidelidade e formidável respeito uma ficção nascida de um fenômeno contemporâneo singular e ainda muito recente como as “creepypastas” e a estética singular dos espaços liminares. Entretanto, parece ter passado despercebido pelo jovem diretor e seu roteirista consideravelmente inexperiente que a aridez dramática intrínseca a todo o conceito não se enquadraria bem em um longa-metragem de quase duas horas de duração. Assim, “Backrooms” acaba se configurando como um filme ao mesmo tempo satisfatório e frustrante – ironicamente habitando um espaço tão idiossincrático quanto aquele que o próprio longa-metragem explora em sua premissa temática fundamental.

Baixe: “Backrooms: Um Não-Lugar”, de Kane Parsons (Backrooms, 2026)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“Godzilla Minus One”, de Takashi Yamazaki [download: filme]

godzilla minus one (2023)

Koishi, um aviador japonês designado como kamikaze no fim da segunda guerra, desiste de levar a cabo sua missão fatal e pousa em uma ilha habitada apenas por mecânicos da frota japonesa. Pouco depois de sua chegada, eles são surpreendidos pelo surgimento de um monstro colossal.
Em sua reimaginação da primeira aparição do lendário Godzilla, o cineasta Takashi Yamazaki preserva o contexto original das primeiras versões da criatura, situando a história do seu longa-metragem em meados dos anos 40, nos momentos finais da segunda guerra mundial. Além de uma demonstração de seu respeito às origens deste símbolo da cultura pop japonesa, a atitude foi crucial para o cineasta concretizar seu projeto tanto no aspecto técnico quanto artístico.
Fazendo uso de pouco mais de 15 milhões de dólares, Yamazaki obtém sucesso na reconstrução verossímil do Japão derrotado no pós guerra, com os distritos urbanos em reconstrução e o subúrbio entregue à miséria e ao caos, na composição convincente da fisicalidade ameaçadora e imponente da criatura, fundindo design clássico e moderno, e na criação de efeitos especiais (a cargo dele próprio) grandiosos e impactantes – tudo isso com um orçamento que, embora vistoso para os padrões japoneses, é medíocre no contexto do cinema americano onde seu filme se encaixa.

godzilla minus one (2023) movie still 01
O diretor japonês demonstra inteligência ao unir espetáculo e drama humano na sua abordagem de um dos maiores ícones da cultura pop japonesa

Todavia, os maiores proveitos obtidos pelo cineasta ao ambientar sua história no pós-guerra se encontram na narrativa de “Godzilla Minus One”, que foi composta pelo próprio Yamazaki. Ao explorar na sua história o cenário da nação japonesa debilitada pelo conflito internacional, o diretor japonês situa sim sua censura aos conflitos bélicos, mas o faz especialmente ao contexto de sua nação, tecendo críticas a falta de atenção à população pelo governo da época, tanto no desamparo de boa parte dos habitantes do país em meio a aniquilação das cidades quanto no modo frio e desumano como foram tratados os combatentes japoneses – cujo maior exemplo é a criação dos pilotos “kamikazes” -, estabelecendo a iniciativa coletiva independente como alternativa possível ao estado burocrático e deficiente. Além disso, o diretor asiático também ocupa-se do drama humano no plano mais pessoal: ainda que se possa dizer que os personagens de apoio sejam em boa medida planos, ou até caricatos, seus dois protagonistas são desenhados com densidade suficiente para que Yamazaki aborde honra, culpa, remorso, o desejo de vingança, a fraternidade e a redenção – trabalho que conta com o apoio imprescindível dos atores Ryûnosuke Kamiki (como Koshi) e Minami Hamabe (como Noriko), assim como o suporte de Naoki Satô com sua trilha esplêndida que pontua o filme apenas quando se faz necessário potencializar seus eventos, seja em uma cena mais intimista ou na sequência mais épica.
Já encarregado de uma sequência para seu grande êxito cinematográfico – e até o momento dispensando os sedutores convites de uma Hollywood que atualmente precisa mais dele do que o inverso – Takashi Yamazaki surge como um artista talentoso e sensível, capaz de conceber espetáculos visuais impactantes que não soam superficiais por contarem com um subtexto humano suficientemente rico que toca o espectador por percebê-lo genuíno e universal – uma honrosa exceção em meio a grande parte das produções do cinema mundial atual, que ao se intoxicar pela militância ideológica e política em detrimento de enredo e personagens bem construídos, tornou-se datada e irrelevante.

Baixe: “Godzilla Minus One”, de Takashi Yamazaki (Gojira Mainasu Wan, 2023)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“La Chimera”, de Alice Rohrwacher [download: filme]

la chimera (2023) movie stills 01

Na Itália dos anos 80, um ex-arqueologista inglês viola tumbas com antiguidades para contrabandeá-las junto do seu grupo de comparsas ao mesmo tempo que reflete sobre a ex-namorada desaparecida.
Em seu longa-metragem de 2023, “La Chimera”, fica nítida a admiração da diretora italiana Alice Rohrwacher pelo cinema da primeira metade do século passado – em particular cinema mudo e o italiano: seu enredo é povoado com figuras excêntricas e folclóricas, sua trama é pontuada por trovadores que narram musicalmente acontecimentos da trama, e no plano técnico, em alguns momentos a diretora acelera a velocidade da ação, em uma referência ao cinema mudo. Mas é também evidente que a cineasta quer definir sua própria identidade estética, como quando, em certas sequências, a câmera gira lentamente no eixo vertical em 360 graus, ou mesmo ao modificar a proporção da imagem. Porém, se não estiver apoiado em um enredo envolvente e em personagens bem desenvolvidos, nada disso atinge significado.

la chimera (2023) movie stills 01
A diretora Alice Rohrwacher se encanta demais com atmosfera e estética do que com o conteúdo em “La Chimera”

Por não se tratarem de produções que visam puramente o entretenimento, como a maioria absoluta do chamado “cinema comercial”, filmes autorais europeus (normalmente o que se entende por “cinema de arte”) se apoiam basicamente em seu roteiro e personagens como atrativos para seu público – o que levaria a crer que estes são os pontos fortes do longa-metragem da diretora italiana. Contudo, o enredo de “La Chimera” pouco ou quase nada tem a interessar, ambientado em recônditos italianos desprovidos de qualquer encanto em uma trama com tão poucos conflitos e acontecimentos tão pouco relevantes que claramente não justificam suas duas horas de duração. Os personagens que povoam esse cenário à margem da sociedade, todos a seu modo tentando levar vantagem sem fazer muito esforço, igualmente tem muito pouco a apresentar: seja a trupe de mascates violadores de tumbas ou a assembleia de filhas interesseiras da ex-sogra do protagonista, todos permanecem no plano do caricato, compostos apenas de rascunhos de personalidade usados como instrumentos ou gatilhos da comicidade (rasa) ou da emoção (superficial) dos eventos da trama – e sim, estou incluindo aqui a personagem da atriz brasileira Carol Duarte, que não vai além do arquétipo moral da trama pintado com um verniz de peculiaridade para tentar angariar a simpatia do público. O protagonista de Josh O’Connor é o único que ensaia alguma profundidade, mas o enredo do filme, escrito pela própria diretora, sabota qualquer tipo de desenvolvimento ou crescimento do ex-arquéologo, que permanece refém do seu passado e de suas ambições ordinárias, literalmente aprisionado por elas no desfecho do longa-metragem.
Quando o filme se encerra, fica nítido que Alice Rohrwacher se encantou tanto com a atmosfera “felliniana” da sua história e acabou tão enfeitiçada pela cintilância de seu próprio estilo, que não percebeu que as deficiências de seu filme transformam todas as referências artísticas de sua narrativa em puro pastiche e seus exercícios estéticos em artifícios pueris. Em seu “La Chimera”, a cineasta na verdade blefa com o público, tentando simular que tem mais a colocar na mesa do que realmente está em suas mãos – um filme que parece uma relíquia etrusca de alto valor, mas é, como um personagem do filme comenta sobre uma das relíquias contrabandeadas pela trupe, tão somente um bibelô decorativo de origem ordinária.

Baixe: “La Chimera”, de Alice Rohrwacher (La Chimera, 2023)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“Frankenstein”, de Guillermo del Toro [download: filme]

frankenstein (2025)

Um homem é socorrido no ártico pela tripulação de um navio encalhado ao ser perseguido por uma criatura forte e misteriosa, e então conta sua história para o capitão. Ele é Victor Frankenstein, que quando criança, após perder a mãe no parto do irmão, desafia o seu pai cirurgião, jurando se tornar melhor que ele. Muitos anos depois recebe a visita de seu irmão, sua futura cunhada e o tio desta, um rico mercador de armas que resolve patrocinar as pesquisas de Victor.
Em ocasiões eventuais, a Netflix resolve isentar-se de seu estilo de produção formulaica e dispor de seus fundos (tão imensos que está a ponto de adquirir e assimilar toda a corporação Warner) para financiar grandes nomes do cinema em projetos autorais – foi assim com Alfonso Cuarón e seu “Roma” e Martin Scorsese e seu “O Irlandês”. No ano passado foi a vez de Guillermo del Toro realizar o sonho que nutria pelo menos desde 2007: fazer a sua versão do clássico Frankenstein. Dispondo de um vistoso orçamento na casa dos 120 milhões de dólares, o diretor dá vazão ao seu estilo grandiloquente em cenários deslumbrantes com uma produção rica e detalhada. Porém, mesmo que o cineasta mexicano sempre impressione com o visual muito particular dos seus filmes, ele nem sempre acerta no campo artístico.
Em sua interpretação da obra-prima da britânica Mary Shelley, que também roteirizou, Del Toro a transpõe para o industrial e bélico século XIX, divide-a em quatro atos – prólogo, história de Victor, história da criatura e epílogo – e promove modificações na trama – Elizabeth, por exemplo, não é esposa de Victor, mas sua cunhada. As mudanças não são acidentais: ao situar a trama mais de cem anos adiante del Toro suavizou os aspectos de horror e trouxe modernidade e luxo; ao dividir o ponto de vista do desenvolvimento da trama, o mexicano tentou condicionar o público à sua perspectiva sobre os protagonistas; e mudanças como a promovida sobre Elizabeth extirparam o caráter romântico da trama para dedicar-se mais a relação entre Vitor e criatura. Juntas, todas essas propriedades permitem a Del Toro realizar completamente sua visão da obra, onde Victor é o vilão e a criatura é o herói – e a meu ver é aí que está o problema de seu filme.

frankenstein (2025) movie stills 01
Removidos horror e romance, Guillermo del Toro concentra-se na personalidade de seus protagonistas

Em seu longa-metragem, Victor Frankenstein é egoísta, narcisista, arrogante, insensível, invejoso, inconsequente e obcecado. A grande motivação emocional de sobrepujar a inevitabilidade da morte deixa de ser o trauma pela perda da mãe e passa a ser o orgulho infantil de superar seu pai rígido e frio. A criatura, por sua vez, além de visivelmente menos grotesca, é retratada como inocente, amorosa e pura, naturalmente com boas intenções e incapaz de causar mal que não seja para sua própria defesa. Mesmo ao atacar Victor, ela o faz por se sentir rejeitada, traída e ignorada por este. Ou seja, Del Toro não apenas removeu de seu Victor quaisquer traços que poderiam lhe angariar alguma simpatia ou mesmo identificação com o público, ele os transferiu para a criatura. Como consequência, a despeito de suas duas horas e meia, a trama de seu “Frankenstein” se torna menos complexa do que a da história original e seus personagens mais caricatos – o impacto e densidade da obra de Shelley, com seus personagens multifacetados, dão lugar ao higienismo narrativo e a simplificação de seus agentes. Embora isso não seja, a meu ver, alguma novidade na filmografia do Guillermo Del Toro, isso nunca esteve tão visível quanto agora, ao adaptar uma das obras mais seminais da literatura mundial, transformando-a, a despeito de toda a estética apurada e a sanguinolência explícita, em uma trama piegas perpetrada por personagens flagrantemente rasos – algo que não difere muito de boa parte das novelas produzidas em seu país de origem.

Baixe: “Frankenstein”, de Guillermo del Toro (Frankenstein, 2025)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005