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Categoria: cinema & TV

comentários e críticas de filmes e seriados com download disponível

“Drácula”, de Luc Besson [download: filme]

dracula (2025)

Tomado pela fúria após perder sua amada, o príncipe Vlad é amaldiçoado por Deus por profanar e blasfemar, tornando-se um vampiro. Após séculos de procura, Vlad encontra a reencarnação de sua amada e planeja reunir-se com ela.
Dirigido, produzido e adaptado do clássico de Bram Stoker por Luc Besson, a mais nova encarnação de Drácula é entregue em um pacote muito bem produzido e luxuoso, em um surpreendente orçamento de cerca de 50 milhões de dólares, o que demonstra que o cineasta francês detém a capacidade invejável de aproveitar ao máximo um orçamento modesto, algo há muito tempo desconhecido por seus colegas de Hollywood – os grandes trunfos de seu mais novo longa-metragem, porém, param por aqui.
Por ter sido batizado de “Drácula – Uma História de Amor Eterno”, era de se supor que Besson colocaria um pouco mais de foco no romance entre Drácula e sua amada Mina, que é a reencarnação de Elisabeta. Na realidade, a versão de Luc Besson é um romance de fato, e o horror, gênero intrínseco à lendária história criada pelo britânico Bram Stoker, é tão atenuado que chega ao ponto de subordinar-se ao cerne romântico do longa-metragem.
Mas além de ser desbotado nesta versão do clássico, adicionalmente o horror também tem que dividir espaço com um hóspede estranho, que como um vampiro é convidado a entrar pelo diretor e roteirista francês e acaba por “parasitar” o enredo: o humor. A maior vítima deste “parasita” é Van Helsing, que ao ser removido do enredo leva consigo a tensão da história original. Em seu lugar é trazido o maior agente humorístico, o padre-investigador de Christoph Waltz, criação do cineasta francês, que enfrenta todos os perigos com a graciosidade de um bailarino. O humor, porém, não tem apenas o representante de Deus em sua defesa: Jonathan Harker, noivo de Mina/Elisabeta, e os curiosos servos do castelo do príncipe vampiro, outra criação original de Besson, também são seus agentes no enredo.

dracula (2025) movie stills 01
Besson atenua o horror, ressalta o romance e introduz o humor em sua adaptação do clássico de Bram Stoker

Mas é ao finalizar a primeira parte da história que Besson abandona qualquer vestígio de horror e consuma a visão que traçou para o Conde. Para tanto, o francófono aplicou mais duas mudanças cruciais que atuam neste sentido. No segundo ato, Besson desloca o palco da trama de Londres para Paris, acabando por dissipar a densidade da atmosfera gótica da história clássica em detrimento do ambiente de frivolidade da capital francesa, o qual utiliza para promover o reencontro do príncipe com sua amada e retomar a relação de ambos. E na conclusão do enredo (não se preocupe, evitarei spoilers), o cineasta francês aplica aquela que é certamente a mudança mais controversa, operando através do padre-investigador de Christoph Waltz para alterar o desfecho do príncipe vampiro, que não apenas contrasta com a resolução da trama original como destoa da própria narrativa do Drácula projetada pelo próprio Besson no decorrer de todo o seu filme – é tão abrupto e incoerente que você se detém para confirmar se aquilo realmente aconteceu.
Ao término, a impressão que Luc Besson deixa com seu longa-metragem é de que ele diluiu todos os elementos mais simbólicos da história (inclusive o sangue) para adequar seu filme a geração acostumada com as produções algorítmicas da Netflix e com a futilidade da Marvel Disney, num filme que, assim como parte significativa da produção dos dois estúdios citados, é colocado num catálogo para ser consumido, descartado e esquecido logo em seguida – ironicamente, não muito diferente do que faria Drácula com suas próprias vítimas.

Baixe: “Dracula – Uma História de Amor Eterno”, de Luc Besson (Dracula, 2025)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português español english

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“Guerra Fria”, de Pawel Pawlikowski [download: filme]

zimna wojna (cold war, 2018)

A crônica da conturbada relação amorosa entre o músico Wiktor e a cantora Zila, de origem simples, atravessa quase duas décadas, começando na Polônia comunista do início dos anos 50 e cruzando fronteiras até a França.
“Guerra Fria”, lançado em 2018 com passagem pelo Festival de Cannes e tendo competido no Oscar com 3 indicações, tem como seus melhores aspectos a fotografia em preto e branco, que concede uma beleza elegante mesmo aos cenários mais humildes, e as músicas que compõe a trilha sonora, que apresenta canções da tradição camponesa da Polônia tanto na sua faceta folclórica quanto em versões mais sofisticadas. Nada mais neste longa-metragem que retrata a história da relação amorosa entre o compositor e pianista Wiktor e a jovem cantora de origem camponesa Zila é digno de um parecer favorável, a começar pelos dois protagonistas, cujas personalidades carecem de qualquer elemento cativante: Wiktor é apático, taciturno e submisso, Zila é insegura, passional e incontida – fica difícil para o espectador desenvolver qualquer tipo de empatia por ambos e, em consequência, qualquer interesse pelo destino e o relacionamento dos dois.

zimna wojna (cold war, 2018) movie still 01
Tanto os protagonistas quanto o enredo de “Guerra Fria” carecem de maior dimensão

O roteiro também é bastante falho em mais de um atributo: a construção dos personagens é superficial, não há profundidade histórica que fundamente seus comportamentos e deliberações; o desenvolvimento dos eventos é precipitado, e embora tecnicamente anos se passem entre as situações apresentadas, lhes falta sutileza para imprimir a veracidade do tempo ocorrido; e por último, os conflitos presentes na trama (e no relacionamento de Wiktor e Zila) inicialmente parecem coerentes com o cenário da Polônia subjugada ao regime comunista, mas quando o palco do enredo muda para a França livre e republicana, os entraves parecem pueris e artificiais, deliberadamente concebidos para manter a concepção de um relacionamento impossível. Quando o espectador alcança o estúpido desfecho da trama, depois de aproximadamente noventa minutos que se arrastam com lentidão, fica o sentimento de que os dois protagonistas passaram a vida com a firme disposição de inviabilizarem ao máximo suas próprias vidas. No fim, a expressão que melhor define todos os problemas do filme do diretor e co-roteirista Pawel Pawlikowski é “‘falta de dimensão” – elemento essencial em qualquer obra nos domínios do drama para estabelecer afinidade com o público.

Baixe: “Guerra Fria”, de Pawel Pawlikowski (Zimna Wojna/Cold War, 2018)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português english

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“Flow – À Deriva” , de Gints Zilbalodis [download: filme]

flow straume 2024

Um gato, em meio a um catastrófico dilúvio, ganha a companhia de animais de outras espécies na jornada da sobrevivência.
Em seu segundo longa-metragem, o diretor letoniano Gints Zilbalodis, se utilizando de uma trupe de carismáticos animais que descobrem a força da amizade e da união para a superação de uma catástrofe, recupera em “Flow” aspectos essenciais do cinema, em grande parte esquecidos ou até mesmo rejeitados pelas produções norte-americanas (e até mesmo europeias) que ocupam telas de cinemas e TVs pelo menos nos últimos dez anos.
O primeiro aspecto é a parcimônia na utilização de recursos: por ter sido gestado na Letônia, e portanto sem um grande produtor e estúdio para financiar seu projeto, o diretor Gints Zilbalodis se viu obrigado a assumir a responsabilidade criativa de vários aspectos do longa. Além da direção, Zilbalodis também encarregou-se por parte da criação do argumento, da trilha sonora e da produção, e inteiramente pela edição e direção de fotografia. As ferramentas utilizadas também refletem a escassez de recursos disponíveis: o grosso da composição da animação e de sua renderização foi realizado na casa do diretor fazendo uso do seu computador pessoal, um laptop Macbook, utilizando um tradicional programa gratuito de código aberto, o Blender – apesar da imensa beleza estilística da animação, que remete a uma pintura, inexistiram as centenas de artistas agrupados e encarregados das diferentes partes da produção e trabalhando em uma fartura de equipamentos de última geração, como é comum em grandes estúdios de animação como a Pixar. O que se vê no filme é tudo o que foi concebido por Gints e sua diminuta equipe: não há cenas extras, pois o diretor não dispunha de tempo nem recursos para explorar cenas e tramas alternativas. Do mesmo modo não foram utilizados storyboards, artifício tradicional do cinema, e nem mesmo o roteiro teve uma segunda leitura ou manuseio pelo diretor, sendo todo recuperado de memória ao conceber as sequências de animação.
O segundo aspecto é consequência direta do primeiro: a prevalência autoral na produção. Justamente por assumir a maior parte dos aspectos criativos do longa-metragem, Zilbalodis preservou a completa integridade de sua visão artística da obra, obtendo deste modo um filme que reverbera a mesma atmosfera na composição das cenas, na música, na ambientação e no ritmo da história, obtendo-se assim uma propriedade algo idílica que permeia e recobre por inteiro o longa-metragem.
O terceiro aspecto é a não utilização de recursos e sequências expositivas para o desenvolvimento do enredo do longa-metragem. Tanto o dilúvio quanto o desaparecimento dos seres humanos são apresentados sem explicação da origem e razão, pois isso se faz desnecessário para a evolução da história que, pela total ausência de um narrador e pelo fato de os animais preservarem grande parte da sua conduta natural, tem seus aspectos narrativos construídos puramente através da linguagem visual ou sonora – não há utilização nem indícios de qualquer simbologia linguística, mesmo havendo sinais de que o ser humano habitou em algum momento este mundo tomado pela vida animal. Ao invés disso, confiando na inteligência do seu espectador, o diretor lituano pontua a trama com elementos visuais e narrativos que podem ter interpretações mitológicas e até mesmo religiosas: estamos falando de um filme cujo argumento básico traz um grupo de animais de diferentes espécies se refugiando num barco para se salvarem de um dilúvio colossal – assim, não seria despropositada uma leitura bíblica da trama de Flow.
Em meio a saída ou perda de grandes mestres da história do cinema, é um alento perceber que ainda surgem pelo mundo nomes promissores que demonstram capacidade criativa suficiente para trazer inovação ao mesmo tempo que constroem personagens cativantes e histórias comoventes, resgatando a alma da sétima arte, tão desgastada e maltratada por cineastas, produtores e estúdios americanos e europeus. Felizmente, para Gints, após vencer o prêmio de melhor filme de animação na cerimônia do Oscar deste ano, seu futuro como cineasta parece bem menos tomado por obstáculos. Sim, eu sei: as premiações do entretenimento há muito tempo perderam a relevância pelo hábito de seguidamente ignorarem o caráter técnico e artístico das obras em detrimento de aspectos políticos e ideológicos com o objetivo claro de promoverem as suas agendas que estão em voga há mais de uma década. Contudo, para um cineasta iniciante, o prêmio ainda tem serventia pela capacidade de projetar seu nome para o público e para a própria indústria do cinema – e é esta última, na verdade, a que mais merece prestar atenção nele.

Assista ou baixe: “Flow” (Straume, 2024)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski [download: filme]

a quiet place (2018)

Um casal e seus três filhos tentam sobreviver em um mundo devastado por criaturas que caçam qualquer coisa que produza algum som.
A princípio pensei ser este filme a estréia de John Krasinski atrás das câmeras, mas na verdade o diretor já tem duas comédias indies no currículo. “Um Lugar Silencioso” é, no entanto, seu primeiro filme de sucesso: tendo gasto não mais do que 20 milhões na produção, o filme teve rendimento de mais de 200 milhões de dólares em bilheteria nos cinemas e arrancou elogios tanto da crítica quanto do público. A boa recepção certamente se deve ao balanceamento inteligente do argumento original (criado por Bryan Woods e Scott Beck e roteirizado por ambos com o auxílio do diretor) que bebe em fontes consagradas cinema ao mesmo tempo que introduz o seu próprio elemento de estranhamento.
Apesar de esta ser a sua primeira incursão nos gêneros do horror e ficção-científica, Krasinski consegue injetar frescor mesmo recorrendo à elementos familiares dessa seara para a construção do seu longa-metragem: há sim fartas doses de inspiração originária de filmes como “Alien”, representado na ameaça do predador alienígena, mas os predadores de “Um Lugar Silencioso” guiam-se unicamente pelo som; também há muito da desolação do planeta de longas clássicos como “O Último Homem da Terra” ou contemporâneos como “Extermínio” presente no longa de Krasinski, porém o diretor americano o faz situando quase a totalidade do seu filme em ambiente não-urbano – decisões que distanciam razoavelmente seu longa da idéia de “mais um filme de alienígena que arrasou o planeta”.
No entanto, o que chama a atenção do espectador desde o início do filme são os aspectos inusitados da história composta por Woods, Beck e Krasinski, que ao compor os características do predador alienígena que dizimou a humanidade, acabam por consequência também concedendo ao longa uma atmosfera singular, perpassado-o por um silêncio sepulcral onde os barulhos mais inaudíveis do nosso cotidiano acabam enormemente amplificados – como o rolar de dados em um tabuleiro e mesmo o suave pisar dos pés na areia -, o que potencializa o suspense ao soar dos ruídos mais pueris que sequer notamos no nosso dia-a-dia. Essa característica bastante particular não fez, no entanto, com que o diretor eximisse seu longa do suporte de uma trilha sonora: ela está lá, cumprindo o seu papel dentro dos padrões mais clássicos do horror e do suspense para preservar o efeito dramático. Krasinski explicou que tomou essa decisão de modo consciente para que o seu longa não soasse como um experimento e pudesse ter uma relação de familiaridade com a platéia, o que faz sentido e, mais uma vez, mantém um equilíbrio entre inovação e tradição na tessitura do longa-metragem.
Devido à eficácia do filme na relação custo x benefício, não é difícil supor que os produtores de Hollywood já pensem em formular uma sequência para o longa – ela, aliás, já foi listada no portal IMDB. Sinceramente, espero que isso fique apenas na idéia: a obra de Krasinski e seus dois roteiristas é daqueles filmes simples e objetivos que funcionam muito bem como em volume único, mas cujo charme e força não sobreviveria ao estender-se por demais capítulos. Vamos torcer para que Hollywood, desta vez, tenha um lampejo de bom senso.

Baixe: “Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski (A Quiet Place, 2018)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Baixe: legendas (português)

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LINKS ATUALIZADOS EM: 15/12/2025
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“Amor”, de Michael Haneke [download: filme]

amour (2012)

O casal Georges e Anne, no alto do seus 80 anos, tem sua rotina alterada quando Anne começa a apresentar sinais de uma enfermidade crônica.
Depois de assistir “Amor”, alguns críticos afirmaram que este é o filme no qual o característico estilo frio, seco e analítico de Michael Haneke se manifesta com mais força, mas acredito que é na verdade a combinação do estilo com a temática incômoda que acaba por tornar esse um dos filmes mais difíceis do diretor. Basicamente duas horas de um tour de force do processo de degradação da saúde de uma senhora de 80 e tantos anos, o longa metragem vai se tornando cada vez mais indigesto à medida que avança, sua última hora sendo a mais angustiante. Com o desfecho revelado logo no início, o espectador que tem a noção de que o diretor austríaco é um observador inclemente por natureza já imagina que enfrentará todo o restante do longa apenas para testemunhar a jornada de sofrimento, desilusão, e desesperança que Anne e George irão encarar – Anne penando por estar consciente de seu estado, por conformar-se com seu destino e inconformar-se com demonstrações de tristeza e piedade; Georges sofrendo com a afirmação desta de que representa um estorvo para ele, com o modo pragmático como Anne às vezes manifesta querer solucionar sua condição e principalmente por presenciar a veloz e severa deterioração da saúde de sua companheira de toda vida.
Por conta de seu naturalismo irrevogável – visível na fotografia em grande parte impessoal e compassiva e na quase completa ausência de trilha sonora – e de sua enorme proximidade com o teatro – praticamente toda a história se passa dentro do apartamento do casal -, “Amour” é um espetáculo pensado para seus poucos atores. Na pele do casal de protagonistas, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva exploram todo o peso e a experiência da idade em suas expressões e gestos, sendo até mesmo seus silêncios marcados por uma carga imensa de significados, mas é Riva, por conta da galopante piora de sua personagem, que acaba ficando com a atuação mais complexa e extenuante dentre os dois: seu trabalho é tão intensamente verdadeiro que na última metade do filme o espectador respira fundo e move-se inquieto na cadeira do cinema a cada vez que uma cena com a atriz é apresentada. A sempre irreprimível Isabelle Huppert, musa de Haneke, tem poucas sequências no longa no papel da filha do casal, mas estas são suficientes para que a atriz imprima o desespero, a dor e a impotência de uma filha diante do penoso processo de morte de alguém que lhe concedeu a vida.
Não há muito mais o que falar sobre “Amor”, a não ser que por conta de toda esta objetividade o filme acabe sendo um tanto previsível, além de arrastar-se um pouco além do necessário, coisas que o tornam o menos pungente longa-metragem do diretor austríaco. Contudo, a lentidão narrativa é uma marca já bastante conhecida do cinema de Haneke, e raramente utilizada por ele de modo gratuito, e o desenvolvimento e desfecho algo previsíveis são intencionais e inevitavelmente necessários – o propósito de um diretor tão engajado como Haneke narrando uma história como esta não é surpreender, mas atestar de modo contumaz o que já é de conhecimento do público, mas que é pouco considerado por este. Assim, despido como é de qualquer artifício que não seja a espinha dorsal do cinema e materializando-se como a mais explícita confissão de que o diretor tem tão pouca misericórdia de seus personagens quanto tem dos espectadores, “Amor” é a obra-síntese absoluta do cinema direto e incisivo de Haneke. Isso, no entanto, não significa que o diretor pormenorize a emoção: é delineando ao seu modo preciso e mordaz as dores e o sofrer do envelhecimento, da enfermidade e da morte que Haneke afirma a vida, o companheirismo e, claro, o amor. A diferença é que, sendo quem é, Haneke o faz sem as concessões, os misticismos e os esoterismos de boutique. Ainda bem.

Baixe: “Amor”, de Michael Haneke (Amour, 2012)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português

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“A Pele que Habito”, de Pedro Almodóvar [download: filme]

la piel que habito (2011)

Não está entre os meus favoritos o cineasta espanhol Pedro Almodóvar: poucos de seus filmes caíram no meu gosto. Mas nem por isso não consigo reconhecer em Almodóvar um cineasta com uma proposta muito clara e uma identidade forte. O seu mais recente filme, “A Pele que Habito”, porém, vai além: é um êxito que poucas vezes permito dizer ter o diretor espanhol alcançado.
O filme, baseado no romance do escritor francês Thierry Jonquet, lido por Almodóvar há cerca de dez anos atrás, é um primor da técnica e estilo: cada elemento é trabalhado ostensivamente para amplificar e apoiar os eventos e a composição dos personagens na narrativa, como se deve esperar sempre de diretores já consagrados. A fotografia cuidadosamente limpa e asséptica de José Luiz Alcaine ressalta o idílio dos protagonistas de modo assombrosamente clínico, os enquadramentos estudados por Almodóvar e sua equipe exploram esplendidamente o cerne emotivo e a tonalidade dramática das cenas e a música exuberante e sinistra de Alberto Iglesias, parcialmente baseada em obra que compôs há quase vinte anos para um espetáculo de dança, denota a paixão, o mistério e o suspense que são os principais elementos da narrativa. E por falar nela, o trabalho feito pelo diretor no roteiro que adapta a história criada por Jonquet é o maior mérito do filme: ao trabalhar na trama, que gira em torno de um cirurgião brasileiro com uma vida marcada por desgraças que tenta obter êxito na criação de uma pele sintética mais resistente e que se serve, para tanto, de uma misteriosa mulher como cobaia, o diretor espanhol removeu os excessos da trama original – como as coincidências exageradas que cercam a história – e humanizou um pouco mais os personagens, particularmente o cirurgião interpretado por Antonio Banderas, conseguindo, assim, trazer à trama o caráter mais realista que faltava em seu formato original. A edição estudada acaba aproveitando todo este potencial do roteiro, recortando o filme entre flashbacks e tempo presente para amplificar os mistérios da roteiro e não permitir que os segredos surpreendentes sejam revelados antes do momento planejado. O resultado é um filme que é ao mesmo tempo extremamente sofisticado e exibe uma sobriedade impressionante, ainda mais por se tratar de um cineasta cuja popularidade surgiu justamente pela falta desta, mas que nem por isso perde o caráter sensível e emocionante que é marca de alguns dos filmes mais celebrados do diretor espanhol, já que Almodóvar magistralmente faz com que o choque da revelação do maior mistério do filme aproxime a platéia do grande personagem da história, incutindo no público uma empatia praticamente infalível por este personagem. Calculado, porém surpreendente como uma performance de tango, “A Pele que Habito” fica, assim, como a obra mais bem acabada e madura da carreira do cineasta até hoje, um exercício magnífico e impiedoso de cinema que tem a mesma aura exuberante e intrigante dos velhos filmes de mistério de Alfred Hitchcock.

Baixe: “A Pele que Habito”, de Pedro Almodóvar (La Piel Que Habito, 2011)
[áudio original, 1080p, mp4]

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005