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Rufus Wainwright – Release The Stars (+ 3 faixas bônus) [download: mp3]

E depois dos dois volumes do projeto Want, discos densos tanto em caráter melódico quanto temático, Rufus Wainwright volta a baila com Release The Stars. Mas, ao contrário dos lançamentos simultâneos de Tori Amos e Björk, o disco do artista americano mostra-se um tanto apagado na primeira escuta do disco, já que nesta situação a única faixa que salta estrondosamente aos ouvidos acaba sendo mesmo o single “Going To A Town”, onde Rufus declara estar cansado da América que temos hoje, por tudo o que ela faz e representa, e declara estar disposto a ir para outro lugar que já foi “queimado” e “arruinado”. Bem, como uma canção poderia não agarrar o ouvinte logo em sua primeira experiência se ela divide tão bem seus elementos melódicos, já que o vocal é pleno de emoção, os acordes do piano, da guitarra e do baixo e o toque da bateria transmitem imensa melancolia, e os vocais de fundo e a orquestração, que permeia tudo e constrói o clímax no fim da canção, estão repletos de um triste protesto sonoro?
Eu pensei desistir do disco e temi, verdadeiramente, que eu me apaixonasse apenas por esta faixa, que é responsável por esta fase inicial de lançamento do disco. Mas eu resolvi insistir. Apenas mais uma audição foi necessária para que outras duas faixas caíssem com sinceridade no minha preferência. A primeira, “I’m No Ready To Love”, em que Rufus revela para sua paixão que sente-se inapto para amar adequadamente, é uma balada de beleza e sensibilidade tão penetrante quanto é “Want” – a música – e recorre, do mesmo modo, à simplicidade e ao silêncio para tanto. O piano, bateria, guitarra e baixo constroem um fundo suave e vagaroso para que a voz de Rufus soe plena de franqueza romântica, dando espaço ainda para que os vocais de fundo e a orquestração sutis complementem irretocavelmente a melodia – e novamente a instrumentação de cordas volta a apelar para a emoção, na sequência harmônica que fecha a canção de maneira esplêndida. A outra, “Slideshow”, em que o cantor reclama mais atenção de seu amado e questiona a veracidade de seus próprios sentimentos, apenas para confirma-los solicitamente no fim, é feita de uma sequência intercalada de momentos mais tranquilos, onde tanto o vocal quanto a bateria, a guitarra e os violões soam graciosamente delicados, e outros mais orquestralmente efusivos, onde os metais surgem em rompantes epopéicos.
Com mais algumas audições insistentes outras faixas revelaram sua beleza escondida. À primeira vista, “Nobody’s Off The Hook” não surpreende. Mas, tão logo compreenda-se seus versos, nos quais Rufus lembra, para um homem que sustenta uma vida de aparências, que cedo ou tarde tudo desaba, e atente-se à sua melodia cheia de mágoa, onde a voz do cantor ganha a companhia do seu piano e de uma elaboradíssima orquestração de cordas, e a avaliação desta faixa sobe muito no conceito de qualquer pessoa. “Sanssouci”, que passou despercebida nas primeiras vezes, agora mostra o apuro de suas letras – onde Rufus imagina-se no palácio alemão que dá nome a música, a espera de um amor que transmute a entediação que sente – e de sua melodia pop – extremamente cuidadosa, com vocais serenos, uma instrumentação tranqüila de violão, bateria e piano ocasional e arranjo orquestral no qual flautas e harpas sutilmente demonstram as delícias de suas sonoridades. E “Between My Legs”, que parecia um tanto plana, logo demonstra a mordacidade de seus versos – já que o cantor jura nutrir só descaso por um amor do passado, mas não nega que a porta esteja aberta para qualquer tipo de necessidade repentina – e de sua sonoridade pop-rock, que sustenta o vocal, as guitarras, a bateria e o baixo quase no mesmo tom vibrante só para que a melodia seja suplantada por uma harmonia emocional tremenda na sua metade final.
E, no final, tudo acaba fazendo mais sentido. Apesar de correr um certo risco de soar datado e limitado, por não exibir mudanças que sejam realmente notáveis no seu estilo melódico e lírico, por outro lado Rufus Wainwright ganha muito por mostrar-se um artista com um trabalho de composição realmente coeso, onde mudanças só são feitas em doses homeopáticas, lentas, gradativas e sutis – quase desapercebidas, eu diria. De fato, seu trabalho mais recente difere dos lançados por Tori Amos e Björk: enquanto as duas primeiras fazem um apanhado do que construíram em sua carreira, ao mesmo tempo que experimentam novos caminhos e adicionam novas experiências, Rufus Wainwright aprimora o seu estilo desde o primeiro disco, sem nunca exibir uma mudança radical de um trabalho para o outro, já que toda a herança anterior é preservada, e não apenas a mais recente. Isso sustenta o que aparenta ser uma contínua linearidade mas que é, na verdade, a forma cuidadosa, suave e gradual com que o artista experimenta novos caminhos. O que ele ganha com isso? Bem, enquanto os outros dois discos podem tornar-se um, em certos momentos, um pouco cansativos a médio prazo, o do cantor e compositor canadense tem efeito exatamente oposto: Release The Stars, que parecia a primeira vista um tanto repetitivo e plano, cresce e ganha importância cada vez maior a longo prazo – e não há mais como ficar sem ter contato com sua sonoridade que revela sua beleza tão devagar.
Baixe o disco utilizando link a seguir.

Baixe: http://www.mediafire.com/file/7q4jidxe5kcfjj6/rufus-release.zip

Ouça:

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