No final de “X-Men 2″, a câmera opera um vôo sobre o lago criado com o rompimento de uma represa e focaliza-se sobre o que parece ser a forma de um pássaro de fogo no fundo de suas águas. Ninguém precisava ser maníaco por quadrinhos para ter se arrepiado com esta sequência, bastava gostar do grupo de mutantes e ter algum contato com uma das histórias mais dramáticas envolvendo os X-Men, que ocorreu nos gibis por volta do fim dos anos 80. Estou falando do episódio da Fênix Negra. E, felizmente, os roteiristas Zak Penn e Simon Kinberg tomaram este como um dos fios condutores daquele que afirmam ser o último capítulo da saga dos mutantes – para mais completo desespero de fãs como eu. Obviamente a estória foi devidamente atualizada e adaptada para o cinema, pois deve fazer sentido que os acontecimentos dos dois filmes anteriores. Resta saber se o resultado foi bom ou ruim. Além da fúria da Fênix Negra, a história da “cura” desenvolvida para eliminar os poderes dos mutantes também é tratada no filme. Para aqueles que não aguentam de tanta ansiedade, segue abaixo o endereço do trailer e também o endereço de uma imagem que reúne os 6 pôsteres/teaser do filme – que, como diz o próprio nome, não são ainda o pôsteres oficiais, mas apenas um aperitivo para atiçar a massa de maníacos. E, tendo já visto o trailer, posso afirmar: parece que a trilogia ganhou uma conclusão absolutamente épica e apocalíptica. Apertem os cintos!
Tudo bem, há de se compreender a dro desolamento dos americanos com os eventos do 11 de setembro – apesar de que não se deve esquecer do cárater cosmopolista das vítimas, pois os mortos não foram somente de nacionalidade norte-americana. Porém,fazer um filme sobre o único dos aviões que não atingiu um alvo, espatifando-se no chão do estado da Pennsylvania depois da ação dos passageiros contra os terroristas, já é demais. Isso mesmo: um filme sobre o ocorrido. Acho que vocês já tiveram o bom senso de perceber que as chances de algo assim resultar em bom cinema são ínfimas, não é mesmo? Quer mais um dado que confirma as chances disso ser verdade? Aí está: a produção do filme foi toda feita, segundo noticiado, com o apoio dos parentes das vítimas do vôo. Pronto, isso basta. Claro que só podemos confirmar e comentar sobre a qualidade do filme depois de assisti-lo. Porém, em se tratando de um filme americano que fala sobre este evento, já dá para prever o tom da estória: ufanismo exacerbado, demonstrações de heroísmo e honradez do americano comum, enaltecimento da nação americana. Ou você acha mesmo que uma produção feita envolvendo os parentes dos mortos não ia dar este tratamento à estória. Recomendação de equipamento indispensável para acompanha-lo na pareciação do longa, quando de sua estréia: saco de vômito. Tudo bem que o filme pode ser bom (quase impossível), mas não custa se prevenir. Lembrem que nem todo mundo enjôa em uma viagem de avião, mas os tais saquinhos estão sempre estrategicamente à disposição dos viajantes. Clique no link abaixo para assistir ou baixar o trailer do filme. E não esqueça de opinar e deixar suas impressões usando os comentários!
Depois da experiência em Dogville, onde a presença de Grace alterou os rumos da vida de todos os que lá viviam, a jovem chega a Manderlay, acompanhada de seu pai e seus gangsters. No momento em que se preparavam para ir embora uma mulher negra implora por socorro. Entrando nas dependências da fazenda descobrem que os proprietários do local mantém o regime da escravatura, mesmo depois de 70 anos de sua abolição. Grace interpela pelos escravos subjugados e decide ali permanecer, acompanhada de gangsters de seu pai, até garantir que os ex-escravos descubram como (sobre)viver em regime de liberdade e que seus ex-senhores tenham assimililado a concepção de que eles agora são livres e tão plenos de direitos quanto eles próprios. Lars Von Trier é, como alguns diretores que constroem um projeto cinematográfico, presunçoso e ególatra. Porém, vindo dele isso é plenamente aceitável, já que ele possui todos os fundamentos para sê-lo: o diretor dinamarquês é um dos cineastas vivos mais geniais. Enquanto a imprensa propaga que o cinema oriental é a vanguarda do novo século, Von Trier mantém o trabalho mais verdadeiramente coeso, ousado e “avant-garde” da atualidade, criando e recriando seu cinema de uma forma inimaginável.
Apesar de avaliar o primeiro filme da chamada trilogia “Terra das oportunidades” como o mais fraco já produzido por Von Trier, ainda assim um filme seu é sempre melhor do que a maior parte do que é lançado durante todo o ano. Meus problemas com “Dogville” são a sua estética seca, seu argumento um pouco infantil e a óbvia presença de Nicole Kidman, que apresentou uma boa atuação mas que também causou enjôo, já que na época ninguém conseguia pisar em uma videolocadora sem trombar com algum dos inúmeros filmes que ela vinha fazendo. No entanto, em “Manderlay” Lars conseguiu amadurecer sua crítica aos Estados Unidos e à seu povo, concebendo uma fábula mais sombria e desesperançada.
À exceção de Lauren Bacall, que marca uma presença rápida como outro personagem, e do onipresente Jean-Marc Barr – ator fetiche do diretor dinamarquês – os personagens que marcaram presença no filme anterior retornam neste longa personificados por outros atores. Grace, por exemplo, muda de aparência, sendo aqui interpretada por Bryce Dallas Howard – filha do diretor Ron Howard. Esta é uma idéia interessante do diretor, já que ao mesmo tempo que abre caminho para novas nuances na personalidade do personagem ainda tem a obrigação de preservar os traços que foram anteriormente apresentados. Isso acabou gerando um problema, percebido por alguns críticos: Grace volta neste filme com um furor idealístico ainda maior, reforçando o caráter ingênuo da personagem. Isso não deixa de ser uma contradição, visto a experiência que Grace viveu em Dogville. No entanto, também não deixa de ser relevante a insistência nestes mesmos traços da personalidade da jovem ruiva, já que tudo nela é uma metáfora da América e de sua cruzada pela justiça, liberdade e democracia pelo mundo.
E já que entramos na questão do simbólico, qualquer pessoa mais esclarecida que assista ao novo filme de Lars Von Trier vai reconhecer na estória uma analogia à invasão americana ao Iraque: os delírios idealistas de Grace; a imposição na vida alheia daquilo que acha moralmente correto, e com o uso da força, se necessário; seus atos baseados em decisões impensadas; sua ingênua ignorância das diferentes concepções de valores e conceitos – tudo remete ao modo de pensar e agir da América e da maior parte de seu povo.
A cenografia da segunda parte da trilogia continua minimalista: um palco com fundo escuro, iluminação teatral, objetos cenográficos pontuais, marcações no chão propositalmente visiveis. Já comentei não ter gostado do experimentalismo teatral em Dogville, mas é fato que neste segundo filme o público já entra mentalmente pré-disposto a assimila-lo mais rapidamente. E Lars consegue mostrar estranha simbiose entre o visual desidratado da ambientação das cenas e o esporádico uso de alguns efeitos especiais muito bem aplicados, que servem de apoio direto ao argumento do filme. O efeito de uma tempestade de areia em pleno palco, por exemplo, é ao mesmo tempo de constraste e complementação.
Depois de toda essa experiência de cinema, ironicamente concebida com uso violento de recursos teatrais, Lars ainda reserva uma surpresa – das mais chocantes – nos créditos finais do filme, ao som da famosa canção “Young Americans” do britânico David Bowie. Não cometa o pecado venial de parar o longa antes de observa-lo até o fim. O diretor dinamarquês evita poupar seu público até mesmo neste momento, normalmente a sequência mais puramente formal de um filme. Lars Von Trier não tem mesmo quaisquer pudores em concretizar suas idéias, por mais doentias que possam parecer.
Ao tomar conhecimento do assassinato de toda uma família em Holcomb, uma cidadezinha interiorana dos Estados Unidos, o jornalista e escritor Truman Capote parte para o local para escrever um artigo sobre o acontecido para a famosa revista The New Yorker. Ao chegar na cidade o seu interesse sobre o ocorrido se amplia, e ao invés de um simples artigo Capote sente que deve escrever um livro. Assim, ele passa a dedicar alguns anos da sua vida envolvendo-se intensamente com a estória, fazendo pesquisas e entrevistas com os amigos da família e seus assassinos, produzindo aquilo que viria a ser considerado uma obra-prima, o livro “À sangue frio”. Bennet Miller foi sábio e astuto ao decidir sobre a estrutura de sua cine-biografia de Capote: ao invés de se utilizar de todo o material disponível no livro de Gerald Clark resolveu retratar apenas o breve período que descreve a gênese do livro mais famoso do jornalista americano. Com essa decisão, Miller evitou uma enxurrada de sequências desnecessárias e tornou “Capote” uma das melhores biografias filmadas por Hollywood nos últimos anos, afastando do seu filme o traço mais comum em obras do gênero: a pieguice e apelação ao sentimentalismo fácil produzidos em cima de momentos dramáticos da vida do biografado. Porém, o longa metragem de Bennet Miller não se contenta apenas com a função de retratar o figura de Capote, formando ainda um discurso notadamente contrário à pena de morte ao explorar o sofrimento do jornalista durante o longo processo de sucessivas apelações para cancelamento da pena concedida aos crimininosos. O diretor também foi inteligente ao escolher o tom de seu longa-metragem, construindo um silêncio inquietante e seco durante todo o filme, o que torna ainda mais brutal a chocante sequência que retrata os assassinatos. Nada mais sensato: o silencio que percorre a maior parte de “Capote” é análogo àquele encontrado nas comunidades mais tradicionais dos Estados Unidos, que sempre tem algo de soturno e mórbido escondido sob sua atmosfera de aparente tranquilidade – quem conhece o trabalho de David Lynch sabe muito bem disso.
A atuação de Phillip Seymor Hoffman é, de fato, excelente: o ator soube incorporar o tom certo para não retratar de forma caricata um intelectual homossexual, construindo um Truman Capote que é sim egocêntrico e afetado, mas nunca é fresco e arrogante. Deve-se dar o devido mérito ao ator por conseguir atrair a simpatia do público ao compor um personagem que poderia facilmente ser mal compreendido por um ator menos atento. Mas Hoffman soube captar as sutis nuances do personagem: apesar de acreditar ser insensível à situação e pensar estar apenas usando os criminosos com o intuito de produzir seu livro, Capote se descobre sensibilizado com a estória dos assassinos e do crime em si, e acaba profundamente deprimido pelo misto de carinho e horror que nutre pelos homens reponsáveis pelo crime que queria retratar. É por compor um trabalho tão complexo que Hoffman merece o Oscar de melhor intepretação que ganhou este ano. E já que estou falando de Oscar, é bom informar que Miller consegue deixar para trás o celebrado – com justiça, admito – filme de Ang Lee, conseguindo fazer de seu sutil e brutal “Capote” o maior merecedor dos prêmios da Academia. No entanto, mais uma vez, Hollywood se recusou à ser sensata.
Thomas Seyr trilha o mesma caminho de seu pai fracassado Robert, fazendo parte de um grupo de violentos corretores que agem criminosamente, sabotando imóveis para obter lucro com sua revenda. Robert, imoral e insensível, só faz manipular emocionalmente seu filho para que intimide comerciantes que lhe devem dinheiro de seus imóveis. Apesar de estar há muito tempo anestesiado por um cotidiano tão opressor, o jovem acaba animado-se com o convite para uma audição por um amigo de sua falecida mãe, que era uma promissora pianista. Tendo abandonado a prática com o instrumento há anos, Thomas contrata uma pianista chinesa para aprimorar seus dotes musicas até o dia da audição.
O filme da Jacques Audiard é um remake de um longa americano de 1978 chamado “Fingers” – raro que a Europa apresente uma refilmagem de uma obra americana -, com Harvey Keitel no papel que é, neste filme, de Romain Duris. Não tenho conhecimento sobre o filme original, mas Audiard foi competente na sua empreitada, concebendo um filme atualíssimo, ao revelar a face derrotada do seu país: sem identificar exatamente a cidade onde decidiu encenar sua estória – supõe-se ser Paris -, o diretor revela na sua película uma França miserável e infeliz através da fotografia realista e das sequências em que mostra desabrigados rufigiando-se em edifícios rotos.
Porém, o filme também revela-se poético na importância da música na trama – particularmente da música clássica, já que a música eletrônica, que Thomas insiste em ouvir é mais um reflexo de sua personalidade explosiva. É atraves de elementos como estes que se instaura um paradoxo entre a delicadeza e brutalidade estética do filme, que são a exteriorização do idílio do protagonista, que interioriza o conflito: luta com seu própria natureza rude e primitiva, herança do seu pai, vislumbrando o oportunidade de cultivar a sensibilidade artística, legado da mãe pianista. Sensato, Audiard concebe um protagonista de personalidade realista: ao mesmo tempo que Thomas por vezes emociona, com sua dedicação à sua aprimoração como músico, ele também pode ser extremamente repulsivo e deplorável, como na sua visão machista sobre as mulheres. O ponto que trará equilíbrio no seu conflito de personalidade é a jovem pianista chinesa com quem ele decide ter aulas: na quase total incomunicabilidade com a jovem, Thomas tenta controlar sua personalidade irascível através da única coisa que os une – a música erudita. Ao final do filme vemos que o diretor foi sensato até mesmo aonde seria mais fácil se perder – na conclusão da estória. É ali que Audiard mostra que apesar de todo nosso esforço, nem sempre o que almejamos é por nós alcançado – ao menos não da forma que, ingenuamente, idealizamos.
Dois jovens americanos do interior são contratados para trabalho de pastoreio em uma montanha. Com o passar dos dias e a revelação de seus anseios e afinidades mútuas, Jack consegue vencer a natureza fechada de Ennis e aproximar-se dele. A partir daí nasce uma intimidade que ambos tentam sustentar em meio ao rumo que cada um deles toma em suas vidas.
Inicialmente, é interessante observar que embora o filme de Ange Lee seja de fato um drama/romance “gay”, tanto Ennis quanto Jack seriam, na realidade, bissexuais: ambos desenvolvem relações estáveis com suas respectivas esposas ao longo de todos os anos da história. Naturalmente, no decorrer do filme percebe-se que se um dia Ennis e Jack sentiram algo por estas, esse amor foi completamente sufocado pelo que sentiam um pelo outro – mas isso é da natureza do amor verdadeiro entre duas pessoas que se encontram impedidas de concretizá-lo plenamente, qualquer que seja a sexualidade delas.
Deixando de lado o mérito puramente classificatório da sexualidade dos dois “cowboys”, após terminar de assisti-lo, fica claro para qualquer pessoa sensata porque foi feita tanta celeuma sobre este novo longa-metragem do diretor Ang Lee. Tecnicamente o filme demonstra enorme excelência: a fotografia que tira proveito tanto das belas paisagens naturais quanto de ambientes menos deslumbrantes; as atuações que estão impecáveis, atingindo a medida correta de emoção para os personagens na época e região em que se situam; a trilha sonora que reflete a profundidade do sentimento que permeia os protagonistas ao mesmo tempo que expressa a auto-contenção imposta a natureza do relacionamento deles; e o roteiro que desenrola a história desse amor sem pressa, tomando o tempo necessário para extrair seus conflitos intrínsecos. Um romance ao mesmo tempo delicado e intenso entre dois homens que não conseguem afirma-lo em sua plenitude
No plano artístico, podemos pontuar alguma ressalva com relação à considerável timidez da produção nas cenas de romance, e esta seria de fato uma consideração válida. Porém também podemos fundamentar a defesa desse caráter do filme usando os próprios personagens, suas realidades e suas histórias como argumento – e o trabalho dos dois protagonistas do filme é a maior testemunha na defesa deste aspecto da produção. Jake Gyllenhaal, com a sua performance passional na medida exata, consegue transpor o modo como seu Jack tenta durante todos os anos convencer seu amado a esquecer o mundo e viver plenamente o amor que sentiam – é comovente ver como Gyllenhaal conseguiu, em cada toque em Heath, transmitir o carinho e o desejo de seu personagem por libertar seu amado de suas amarras internas. Ledger, por sua vez, reveste seu Ennis em uma personalidade algo reprimida e arredia que é tangível inclusive fisicamente, em sua postura, em seu rosto, em seu olhar, o que deixa claro para o público como Ennis, apesar de não conseguir na maior parte do tempo externalizar adequadamente o que sentia nem em palavras nem em gestos, amava intensamente Jack, cada toque como se fosse o último, tomado por uma inquietação e melancolia que são a tradução da angústia de estar vivendo um amor que a realidade a sua volta sempre condenou. É por essas performances que se explica a relativa timidez das cenas de amor e sexo: os agentes deste amor estão aprisionados em um mundo onde não se consegue satisfazê-lo plenamente, onde este amor, se não expressamente condenado, é no mínimo mal visto.
A certa altura, quando se entende tanto a realidade dos amantes quanto suas inseguranças e conflitos internos, não há como esperar um final feliz para a história. Criados em um ambiente que reprimia, as vezes até com violência, um amor desta natureza, é de se compreender que ao longo de todos os anos de relação nenhum dos dois conseguiu formular aquela frase simples, mas que talvez ajudaria a dissipar quaisquer receios e temores: eu te amo. Nem mesmo o passional Jack conseguiu fazê-lo, apenas confessando que não suportaria viver sem seu companheiro. Ennis, muito menos vence sua rigidez emocional para afirmar seu amor de forma plena, chegando até mesmo, a certa altura na vida de ambos, a dizer que a montanha Brokeback era o mais longe que ele conseguiria chegar com esse relacionamento e que essa paixão jamais desceria dali – e é neste momento que a montanha, antes o símbolo do amor entre ambos, se coloca como um obstáculo aparentemente intransponível para sua realização.
Infelizmente, apenas quando acaba sendo tarde demais é que Ennis se dá conta de que a motivação para levar sua vida em frente sempre foi o amor de Jack. A sua origem rude, e o preconceito internalizado contra a exposição daquilo que sentiam um pelo outro foi o maior obstáculo ao romance dos dois. E a promessa solitária de Ennis para Jack na cena final, já na impossibilidade de retomar seu grande amor, foi a que tristemente ele nunca conseguiu fazer antes para o homem que amava tanto.
LINKS ATUALIZADOS EM: 07/01/2026
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