Pular para o conteúdo

Categoria: musica

críticas e comentários sobre álbuns musicais, singles e similares com download disponível

Fascinoma – “I’m Walking This Road Because You Stole My Car (Don’t Go)”. [download: mp3]

Alanna Lin - FascinomaNa noite do último sábado para o domingo, numa dessas pouquíssimas madrugadas as quais tenho me dado o direito de permanecer acordado no últimos anos, estava papeando com o Pelvini quando, assistindo descompromissadamente um episódio do desenho animado “American Dad” que eu descobri estar sendo exibido pela Rede Globo, tive minha atenção chamada para a música que servia de trilha para uma sequência hilariante em que o filho da família retratada no desenho tinha um sonho romântico-erótico com um gato de rua que tentou salvar, mas que não foi muito cordial com o pobre garoto. A canção trazia o vocal macio de uma garota sobre uma melodia de extrema suavidade que contava com nada muito além de que uma guitarra de acordes cálidos e uma bateria igualmente confortante. Como adorei a música, eu obviamente fiz uma anotação mental imediata: “descobrir e baixar com urgência”. Apesar do sono já me cercar, tão logo o episódio terminou, me voltei para a internet um busca da tal música. Em poucos minutos eu já tinha as informações que queria: a canção, que se chama “I’m Walking This Road Because You Stole My Car (Don’t Go)”, é obra de uma americana de traços orientais chamada Alanna Lin, mas que se identifica artisticamente como Fascinoma. Baixando a faixa pude dar atenção as letras que misturam saborosamente ironia, rancor e súplica, já que nelas a garota ao mesmo tempo que diz que só vai acreditar nos sentimentos do homem que ama quando ele lhe devolver suas coisas também avisa que enterrou os livros do rapaz debaixo de uma árvore e afirma que os seus esquilos de estimação morreram – quanta maldade. Depois de me encantar com a música, fucei a web em busca do único álbum lançado, apenas em formato digital, pela garota. Agora me perguntem se eu encontrei o bendito? Nem traço dele, nadinha, niente, zero. A única idéia que se pode ter do restante das canções compostas pela garota, além de algumas poucas faixas no seu Myspace oficial, são os previews da página do disco na Amazon.com, e que não despertam tanto interesse quanto a sua música mais conhecida. Deste modo, por conta de não ter conseguido o restante do disco e também porque muito pouco desse restante – umas duas outras faixas – me pareceu realmente atraente, estou abrindo uma exceção e disponibilizando apenas esta faixa. Vocês já sabem que não costumo e não gosto de fazer isso – sei lá por qual razão -, mas não há outro jeito e também acho que seria mesmo só isso o que interessa de Alanna Lin, pelo menos pelo pouco que se pode ouvir do trabalho dela.

rapidshare.com/files/262362690/fascinoma_-_stole_my_car.mp3

1 comentário

Lolly Jane Blue – “White Swan” (dir. Sil van der Woerd). [download: vídeo + mp3]

Lolly Jane Blue – White SwanA cantora Lolly Jane Blue esta há cerca de um ano e meio gestando o lançamento de seu primeiro trabalho musical, e apesar de toda demora, parece que o lançamento em questão será somente um EP. Pode até ser que a demora tenha algo a ver com o financeamento do seu trabalho, mas se formos pensar nos requintes da faixa “Worms” e o vídeo que a acompanhou, aparentemente a produção seria consideravelmente abastada, visto que há uma fartura orquestral na canção bem como um luxo transbordante no vídeo desta, dirigido e criado pelo também holandês Sil van der Woerd, que trabalha em parceria com a artista respondendo por toda a arquitetura visual que a cerca. E, como já seria de se esperar, a dupla volta a cena com uma nova música e um novo vídeo, “White Swan”, mais uma vez carregando as tintas no luxo em ambas as contrapartes do lançamento. A canção desta vez não conta com interferências eletrônicas, mas nem por isso espere economia na sonoridade da música, já que ela apresenta uma fartura de orquestração de cordas para fazer companhia à um violão resignado de cadência lenta e, claro, à bela voz da cantora holandesa, que se derrama em um canto longo, lento e emocionado para fazer jus a melodia já bastante triste. A porção visual da produção também prossegue ignorando qualquer menção de simplicidade, já que a composição da velha fábrica que é cenário do curta-metragem é feita nos mínimos detalhes de sombras, luzes, proporções e movimentos. A diferença é que desta vez o diretor e artista gráfico holandês não faz uso de diferentes sequências apresentando cenografias e figurinos diversos entre si – o que lhe possibilitou mostrar sua versatilidade e criatividade mas acabou fazendo com o que o vídeo anterior fosse apenas um apanhado de sequências luxuosas desconexas -, preferindo desta vez concentrar-se em criar apenas uma história, o que com certeza dá uma melhor identidade à canção que ele ilustra. Nesta história, a artista encontra-se abandonada no que parece ser uma fábrica antiga e escura, completamente nua sob um incessante feixe de água. Aos poucos, o ambiente vai sendo invadido por uma espécie de fungo algodoado, que vai crescendo ao redor da garota, tomando conta do espaço ao seu redor e envolvendo ela própria, trajando-a com um vestido escalafobético feito de tranças e nós. Ainda que eu ache que tanto música quanto vídeo continuam ali no limite do cafona, sempre correndo o risco de cair numa coisa nauseante meio Sarah Brightman, meio Enya, há de se admitir que tanto Lolly Jane Blue quanto Sil van der Woerd se lambuzam em uma exuberância criativa capaz de fazer Jean Paul Gaultier e Luc Besson saírem esbaforidos com um ataque de inveja histérica pelas ruas da Paris, sacodindo os braços, abanando as mãos e gritando coisas desconexas – e eu não duvido nada que eles dessem de cara com Björk fazendo a mesma coisa pelo caminho.
Agora fica à sua escolha: assista em HD (ou seja, em alta resolução), faça o download em alta ou baixa resolução e, se ficar animado o suficiente, também disponibilizo a música no formato mp3.

P.S.: agradeço muito à dica do leitor Thiago.

Lolly Jane Blue – “White Swan” (mp3)

Lolly Jane Blue – “White Swan”: assista em HDdownload HDdownload baixa resolução

1 comentário

David Fonseca – “A Cry 4 Love” (single). [download: mp3]

David Fonseca - A Cry 4 LoveDepois de merecidamente muito aproveitar o sucesso do delicioso disco Dreams In Colour nos shows que se sucederam ate há pouco, o cantor e compositor português David Fonseca anunciou há pouco mais de um mês por newsletter e post no seu blog oficial que o dia de entrar em estúdio para gravar um novo álbum tinha chegado. As gravações foram rápidas, e pelo que o próprio artista revelou em seu blog, pouco depois do início deste mês ele já estava deixando o estúdio para refletir sobra a pós-produção e tudo o que cerca um novo lançamento – como as idéias para um videoclipe, por exemplo. Enquanto se ocupa com sua febre criativa, para não deixar os fãs se contorcendo em avidez para botar logo nos ouvidos suas novas canções, David resolveu liberar para download gratuito o primeiro single do novo trabalho, “A Cry 4 Love”, uma balada bem ao sabor do disco lançado em 2007 e com a inconfundível pegada pop-rock do compositor, introduzida nostalgicamente por um arranjo de cordas e logo ganhando a companhia de acordes quase monotonais na guitarra, um baixo discreto e uma bateria de síncope equilibrada – uma bela amostra daquilo com o qual o artista pretende em breve presentear o seu público. Para baixar a faixa, basta clicar aqui para ir ao site do cantor, criar um registro como qualquer outro que se costuma fazer por toda a internet e logo em seguida se recebe um email com o link para o download da faixa. Os fãs com certeza nao vão se importunar com essas formalidades típicas de internet – e para os que ainda não são fãs e que com certeza já se importunam previamente com essas burocracias virtuais, fica aqui o lembrete: é de graça, oferecido pelo próprio cantor. Não custa nada gastar os dedinhos digitando meia-dúzia de dados para ter os ouvidos preenchidos com prazer em estado sonoro, não é?

1 comentário

Kasabian – West Ryder Pauper Lunatic Asylum (+ 2 faixas bônus). [download: mp3]

KasabianOlhe bem para a capa do novo disco da banda britânica Kasabian. Olhou? Agora leia bem o título ali em cima. Não custa repetir: West Ryder Pauper Lunatic Asylum. Até alguém com meio cérebro percebe que com este novo lançamento os rapazes resolveram se aventurar no filão da música conceitual e experimental. A bem da verdade, a sonoridade não é assim tão experimental, diria que é ainda bem linear, e o conceitual não vai tão longe, fica tão somente na capa do disco – imagem sobre a qual, por sinal, já falei antes em um post no meu outro blog -, onde os rapazes se fantasiam com o intuito de melhor ilustrar a insanidade dos pacientes da instituição psiquiátrica que inspirou o título do disco e também se resume à algumas declarações de Sergio Pizzorno e Tom Meighan, que garantem que as canções foram imaginadas como trilha sonora de algum filme avant-garde como “A Montanha Sagrada” , de Alejandro Jodorowsky – essa sim uma obra experimental e conceitual com todas as idiossincrasias a que tem direito. Nem é preciso parar pra pensar muito pra se dar conta de que, na verdade, o disco é mais uma tentativa de atrair uma aura cult à banda, e eu já devo ter dito por aqui que tudo o que é intencionalmente cult acaba nunca atingindo o seu objetivo – ou seja, ser cult -, ao menos não de um modo que soe natural. No entanto, mesmo tendo-se conhecimento de que tudo está encoberto por boas doses de pretensão, isso não impede de reconhecer que, sim, West Ryder Pauper Lunatic Asylum é um disco com uma boa quantidade de belas canções compostas pela banda.
Começando pelo começo, “Underdog” é um single típico da banda, misturando muito bem os riffs arfantes de guitarra e do vocal sempre britanicamente petulante de Tom Meighan com uma batida que bebe direto no gargalo da cadência ligeira do trip-hop. Mas é a sacolejante “Fast Fuse” que consegue de fato embriagar a bateria na síncope acelerada da música eletrônica, compondo com os acordes precisos da guitarra e do baixo, com o vocal aos brados de Meighan e com os vocais de fundo de Pizzorno uma melodia hipnoticamente dançante. “Take Aim” entra em ação logo em seguida, e apresenta o flerte da banda com elementos orquestrais, como mostra a introdução triste, algo fúnebre, feita de um arranjo de sopros e cordas e acompanhada por um violão e baixo que respiram latinidade e infectam a bateria com o mesmo ar ibérico. “West Rider Silver Bullet”, que surge um pouco mais a frente, também experimenta com elementos orquestrais, mas o faz de outro modo: a canção, que inicia com uma breve narração feita pela atriz Rosario Dawson, usa ostensivamente um arranjo cortante de cordas para pontuar dramaticamente a música, que incorpora baixo e violão em um andamento que remonta as trilhas sonoras de filmes clássicos de faroeste – Ennio Morricone sendo o criador de algumas das mais emblemáticas composições para o gênero.
Esta, por sinal, parece ter sido uma obsessão do Kasabian neste disco, visto que “West Rider Silver Bullet” não é a única canção que suscita as composições que ficaram no imaginário popular como trilha para paisagens áridas e empoeiradas do meio-oeste norte-americano. “Thick as Thieves” assume a empreitada sem receios, invocando no seu banjo, bateria, vocais e violões todo o tracejado do estilo e a melodia de “Fire” prossegue forte nesta mesma toada, investindo no violão, no baixo e na bateria de inconfundível fragrância western, ainda que as guitarras do refrão destoem para um leve perfume oriental.
Mas como o álbum foi gestado com as pretensões artístico-conceituais em mente, não poderia faltar canções que respondessem à este propósito, e “Secret Alphabets”, a meu ver, seria a que melhor materializa a idéia: desda a introdução de vocais e pratos reverberando brevemente, passando pela melodia de andamento algo minimalista, guiada pela bateria e temperada por uma sintetização contínua e por econômicos acordes de guitarra, até o fechamento conduzido por cordas e um teremim ameaçadores, tudo procura conjugar uma atmosfera de estranheza e mistério que imagina-se ser a dos filmes experimentais que inspiraram os membros da banda neste lançamento. Mas se o cinema experimental foi fonte de inspiração para o Kasabian de West Ryder Pauper Lunatic Asylum é devido ao poder exercido pela música da época sobre este cinema, e que também é palpável neste disco, haja visto que a balada “Happiness” escancara suas influências, contando com a sempre infalível beleza de um coral gospel armado de suas vozes e palmas acompanhando a melodia que, claro, vai sem medo transitando pelo blues, o que dá um evidente “Beatles touch” à canção. É claro que essa música, e pra ser sincero, o disco como um todo não é diferente de um sem número de outros tantos que já ouvimos por aí, mas se por um lado a banda se acomoda copiando fórmulas consagradas, ao menos deve-se reconhecer que o Kasabian o sabe fazer muito bem.

rapidshare.com/files/251669686/kasabian_-_asylum.zip

senha: seteventos.org

Deixe um comentário

Jarvis Cocker – Further Complications. [download: mp3]

JarvisApós uma estréia solo bastante elogiada pelos críticos por conta do seu rock embebido em elegantes pitadas pop, Jarvis Cocker, mais conhecido por ter sido o vocalista da banda britânica Pulp, lançou este ano Further Complications, um disco cuja sonoridade rock depojada é resultado consciente de um trabalho de composição mais concentrado na instrumentação básica do rock – guitarra, baixo e bateria. Em consequência disso, boa parte das canções ganha ares de first take, como se tudo tivesse sido produzido sem muito ensaio e esmero de produção, emulando uma sonoridade simples e direta. Os acordes curtos e certeiros da guitarra e baixo e os toques quase rudimentares da bateria na faixa “Angela” ilustram bem esse estilismo musical que permeia grande parte do disco, assim como acontece em “Fuckinsong”, onde a cadência forte da bateria e os riffs graves de guitarra, combinados ao vocal algo afetado de Cocker, que não tem a menor vergonha de decorá-lo com deliciosos artifícios, como gritos, sussuros e gemidos, resultam em uma música petulantemente dançante. Há, claro, algumas faixas em que há um maior esmero na produção e instrumentação, como em “Homewrecker!”, que inclui um saxofone desvairado em consonância com a melodia efusiva, mas ainda assim Jarvis preserva a atmosfera de improviso com seu vocal extravagante.
Porém, é bom ressaltar que muito da graça das composições de Jarvis Cocker não nasce apenas das melodias, mas de suas letras irônicas, que satirizam a vida moderna com um histrionismo que foge do prosaico – como acontece em meio a aglomerada agitação da bateria, baixo, guitarra e backing vocals nostálgicos de “Further Complications”, onde encontramos versos como “saí do útero com três semanas de atraso, sem a menor pressa de me juntar ao resto da humanidade” ou “eu preciso de um vício, eu preciso de uma aflição para cultivar uma personalidade”. Em outras canções, Jarvis enfatiza nas letras sua verve intelectual sem resvalar no pedantismo – como na balada “Leftovers”, com guitarras, bateria, baixo e vocais cheios de malemolente dramaticidade, que mesmo ao situar um flerte em um museu de paleontologia não transforma em clichê o trocadilho dos versos “aprisionado em um corpo que me denuncia, me permita ser sucinto, antes que nós dois nos tornemos extintos” – ou revela conhecimento de causa nas ambições afetivas do homem moderno, sem cair em vulgaridades mesmo sendo bastante direto – como em “I Never Said I Was Deep”, onde os acordes abatidos de guitarra, baixo, saxofone e bateria formam uma melodia triste que partilha o desencanto da letra em que Jarvis diz “se você quer alguém pra conversar, você está perdendo seu tempo, se você quer alguém pra dividir a vida, então você precisa de alguém vivo”.
Apesar de seu estilo bastante formal de se vestir sugerir austeridade e serenidade musical dignas de um João Gilberto, cujo imaginário mítico dele derivado nos faz pensar ser capaz de passar horas em cima de um acorde para atingir exatamente aquilo que almeja, em todo o decorrer de Further Complications, Jarvis Cocker prova exatamente o oposto – que é muito mais um cara descoladíssimo que, imagino eu, é muito mais afeito a improvisações descompromissadas saborosíssimas que depois ele nem vai lembrar exatamente como repetir. Isso sem nunca perder de vista o gosto em explorar em sua música todas as nuances de sua idiossincrasia cult encoberta por uma fina ironia britânica – porque só um cara muito bem-humorado teria a idéia de fechar um disco disco tão rockeiro com “You’re In My Eyes (Discosong)”, uma balada disco-soul swingada cheia de glamour setentista.

rapidshare.com/files/249707281/cocker_-_complications.zip

senha: seteventos.org

Deixe um comentário

Tori Amos – Abnormally Attracted to Sin (+ 1 faixa bônus) [download: mp3]

tori amos - abnormally attracted to sin (2009)

Desde que abandonou a gravadora Atlantic, a cantora americana Tori Amos lança discos que pecam pelo exagero, em mais de um sentido. Primeiro, pela insistência em arquitetar um conceito ou temática que unifique ou englobe todas as canções. Segundo, pela criação de um personagem – ou bem mais de um – que “assume” a interpretação das canções ou que incorpore o conceito destas ou da narrativa composta no disco. Terceiro, pelo número excessivo de faixas, que dilui e tira a força das melhores canções. Quarto, por um excesso de ornamentos e backing vocals adocicados de alto teor lírico. O primeiro álbum que reuniu estes elementos, Scarlet’s Walk – já que Strange Little Girls, a priori, não é um trabalho de composição da cantora e contou com apenas doze faixas, a mesma média dos primeiros lançamentos da artista -, foi o que teve melhores resultados ao utilizar-se destes recursos. Desde então, a insistência neste modelo de criação tem trazido aos fãs da cantora discos que não conseguem sintetizar toda a beleza, força e capacidade de Tori Amos em compor canções ao mesmo tempo tocantes e eletrizantes. Infelizmente, Abnormally Attracted to Sin, seu novo disco lançado há pouco, também sofre um pouco deste mesmo mal, ainda que ele seja o menos rigoroso na temática e conceito desde Scarlet’s Walk e sua utilização de personagens não seja tão efetiva – mas no que tange à algumas melodias o problema foi reiterado. Faixas como o single “Welcome To England”, cujo refrão está cercado de alguns acordes graves e dramáticos de piano típicos do estilo da artista, “Fire To Your Plain”, que tem arranjo leve e harmonioso de bateria, guitarrra e teclado, e “500 Miles”, com seu refrão liricamente equilibrado e sua sequência final com bateria, guitarras, piano e vocal absolutamente empolgantes como há muito não se via em uma canção de Tori, poderiam ter outro resultado, muito mais elegante, emocionante e encantador, não fosse os excessos melódicos glicosados, cuja herança imediata é proveniente de The Beekeeper.
Porém, é preciso dizer que Abnormally Attracted to Sin é o disco que tem um punhado de canções que são as mais bem resolvidas em sua atmosfera melódica desde o álbum lançado em 2002. Algumas delas recuperam o viço e sonoridade de trabalhos de Tori anteriores ao início deste século, outras até mesmo captam vibrações de outros artistas ou bandas. Este é o caso específico da primeira faixa do disco, “Give”. A melodia da canção que claramente trata de prostituição tem algo da perversa morbidez do Portishead nos toques fortes mas exaustos da bateria e na presença distante de uma guitarra que vibra em acordes soturnos e arrepiantes – o piano e as sintetizações também contribuem para a construção desta atmosfera, mas o fazem ao modo da cantora. Já “Flavor” resgata toda a beleza de baladas compostas em discos como To Venus and Back: há reminescências de “Lust” na programação que é base da canção, bem como no vocal distante e difuso e nos toques suaves e esparsos no piano – há alguns discos que não se via uma balada tão perfeita da cantora, que extrai tanta força e emoção de uma melodia tão simples. A faixa-título do álbum também se apóia sem medo na programação eletrônica, e o faz muito bem: banhada por uma hemorragia ocasional de acordes de guitarra e vocais etéreos no refrão, o conjunto de sintetizações que preenche o fundo da canção com a bateria hipnótica cria uma música sensual e sedutora como um ritual ocultista. “Curtain Call” é outra que evoca o clima nebuloso do álbum duplo de Tori lançado em 1999: as notas suaves, curtas e contínuas no piano, a reverberação dos toques da bateria, a ambiência dos acordes da guitarra e o vocal algo arrastado concedem a melodia triste o mesmo sabor elétrico de “Bliss”.
Algumas faixas específicas deste novo disco trazem uma Tori Amos que se aventura a fugir de suas próprias convenções mergulhando em uma certa formalidade melódica, seja lidando tão somente com seu velho e admirável piano Bösendorfer ou colocando-o na penumbra para trabalhar com instrumentação mais farta. No primeiro caso, “Mary Jane”, revela-se absolutamente encantadora devido ao incomum rigor tradicional de seus acordes no piano, ainda que esta melodia seja pontuada por pausas e desvios tão emblemáticos no repertório da cantora americana. Os versos, porém, não enganariam seus fãs: a dramatização do diálogo entre uma mãe e seu filho adolescente sobre o efeito que Mary Jane tem na vida do garoto se mantém fiel ao estilo de composição da cantora até mesmo pelo simbolismo da personagem que nomeia a canção. Já “That Guy” responde ao segundo caso com sua melodia idílica congestionada de orquestrações, cuja teatralidade mostra imediato parentesco com trilhas de musicais. Nas letras, Tori dá voz ao inconformismo de uma mulher que confessa não compreender como um homem que lhe dá tanto amor e conforto na cama possa perder todo seu encanto quando está fora dela.
Mas ainda não foi desta vez – e sabe lá se isso voltará a acontecer – que Tori Amos conseguiu transgredir a condição da sua própria musicalidade e voltar a surpreender com um disco que não sofra engasgos nem contenha vácuos criativos, sendo apenas pontuado por momentos fascinantes. Alguns dizem que isso é culpa de sua rotina de mulher realizada e feliz, mas eu não afirmaria isso com tanta segurança. De qualquer modo, já que ela há algum tempo adora incorporar personagens e não parece que vá mudar de estratégia tão cedo, esse poderia ser um meio de encontrar novamente a química da sonoridade esquecida.

Baixe: Tori Amos – Abnormally Attracted to Sin [mp3]

Ouça:

2 Comentários
O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005