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Categoria: musica

críticas e comentários sobre álbuns musicais, singles e similares com download disponível

Guillemots – Through The Windowpane. [download: mp3]

Guillemots - Through The WindowpaneGuillemots, que tem como membro um guitarrista brasileiro, é uma das bandas estreantes de 2006. Seu primeiro disco, Through The Windowpane, exibe um frescor melódico e lírico destoantes até mesmo no meio musical alternativo. “Little Bear”, que fala sobre alguém que tenta despedir-se antes de uma longa ausência, já denuncia a qualidade do trabalho da banda como a faixa de abertura: depois de uma introdução de orquestração sofisticadíssima, com apurada coloração cinematógráfica, surge um piano de penosa suavidade, e o vocalista Fyfe Dangerfield inunda de emoção a faixa de abertura com um vocal que causa arrepios e lágrimas quando chega ao seu ápice. O que esperar depois de uma abertura tão arrasadora? Só os versos de “Made Up Love Song #43”, canção em que Fyfe mostra que tudo, mesmo uma latinha vazia de Coca-Cola, passa a exalar poesia quando estamos apaixonados, mostra que a banda é capaz de surpreender muito além da espetacular faixa de abertura. A melodia usa uma introdução feita com a inserção de sampler de orquestração de acordas e ruído de um despertador digital, e logo é seguida por umaa guitarra de acordes fosforecentes, bateria ligeira e vocais de fundo generosamente bem postos, até encontrar seu clamor máximo na ensandecida improvisação do vocal de Dangerfield, desacelerando de maneira genial até encerrar-se. E é justamente um caráter melódico que mais me chamou a atenção depois de finalizar a primeira audição completa do disco: o excelente uso de metais, tanto em melodias animadíssimas como a de “Trains to Brazil” – sobre um homem que ao invés de dormir, remói memórias sobre um amor do passado, desprezando o caos mundial em detrimimento de seu próprio caos – como em músicas mais sorumbáticas como a de “Redwings” – sobre o lento fim de um amor, que termina com a partida de um dos amantes. E a inventividade do grupo não encontra fronteiras, como podemos ver em “Blue Would Still Be Blue”, canção sobre os lamentos de alguém que declara que seria mais fácil enfrentar a vida com seu amor ao seu lado, e “A Samba In The Snowy Rain”, feita de poucos versos que convidam a abandonar o cotidiano e aventurar-se em algo desconhecido. A primeira seria uma faixa “a capella”, não fosse por uma delicada e sutilíssima programação eletrônica que se resume a curtos acordes no teclado, o que deixa espaço de sobre para Fyfe Dengerfield tripudiar em cima da emoção do ouvinte com seu vocal esplendoroso; a segunda é feita de uma melodia algo transcendental, acolchoando o fundo da música com vocais de fundo distantes enquanto, no primeiro plano, vemos uma série de improvisações no teclado e bateria. Há muito coisa boa até chegar no final do álbum, mas é lá, assim como no seu início, que eu fiquei estupefacto – pra usar um termo bem esdrúxulo mesmo. “Sao Paulo”, que relembra amores perdidos nos passado e termina em um clamor poético enlouquecido, é um arroubo sinfônica de onze minutos, repleto de orquestrações épicas e silêncios melancólicos. A melodia divide-se em dois momentos distintos: no primeiro temos uma música mais triste, pesairosa e nostálgica, com alguns instantes mais dramáticos; no segundo temos uma euforia visivelmente improvisada, guiada pelo piano esfuziante, pela instrumentação estremecedora, e pelos vocais extravasados de Fyfe.
Ainda há espaço para surpresas em um mercado tão inflado quanto o da música. Com fartura de lirismo, improvisação e emotividade, todos devidamente envoltos em uma camada generosa de sofisticação, Through The Windowpane surpreendeu tanto crítica quando público. É tanta beleza e arrebatamento que chego mesmo a pensar se um segundo álbum tão bom quanto este é possível. Visto a habilidade de bandas alternativas como Death Cab For Cutie e Thirteen Senses em lançarem discos fantásticos, mesmo sem ousar modificar qualquer coisa no estilo, imagino que o Guillemots não vai deixar por menos em um futuro segundo álbum.
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Jenny Wilson – Love and Youth. [download: mp3]

Jenny Wilson - Love and YouthA sueca Jenny Wilson cantou, compôs as músicas, tocou todos os intrumentos e também produziu o seu disco de estréia, Love and Youth. Jesus, mais indie e alternativa do que isso só uma banda da Sibéria que toque berimbaus. Porém, não se assustem: ela fez tudo isso porque sabia que tinha cacife para tanto. Love and Youth é um disco de canções pop/folk que não te surpreendem de imediato, mas que vai construindo o seu espaço devagar no ouvinte. Duas faixas do disco, “Let My Shoes Lead Me Forward” e “Bitter? No, I Just Love To Complain”, se destacam por dividirem a mesma tônica nas letras e melodias: liricamente, ambas as canções falam sobre a resistência e a recusa em seguir regras e princípios – a primeira o faz ao recusar o que aprendemos em convívio durante nossa vida, a segunda concentra-se em recusar de modo sarcátisco e irônico os padrões estabelecidos pela indústria da música -; com relação a música, as duas apresentam uma ambiência pop mais animada, baseada em programação eletrônica variada dos teclados, e um vocal em falsetto durante toda a faixa. Mas a unidade da maior parte das músicas no disco é indicada pelo título do álbum, que não é puro acidente: o tema dominante são as desventuras juvenis, bem como o amor, sempre sob o ponto de vista sarcástico da compositora. Aí se encaixam o pop-rock baseado em guitarra e bateria ligeiras de Love and Youth, que em suas letras descreve com enorme apuro o universo escolar e seus personagens sempre marcadamente caricaturais, o folk-rock de violão e guitarra macios de “Common Around Here”, que narra os rituais de comportamento que fazem os jovens serem aceitos em grupos distintos, e a balada de programação eletrônica e guitarra tristes de “Those Winters”, que trata de um jovem que, aparentemente, é surrado pelas crianças da vizinhança. Contudo, Jenny não ocupa-se tão somente do mundo das amarguras juvenis – há bem mais do que isso em Love and Youth. Em “Would I Play With My Band”, balada de linda suavidade, baseada em programação de tecitura delicadíssima no teclado e em acordes rápidos e sutis de guitarra e violão, uma mulher pergunta-se sobre os caminhos que teria percorrido caso seu grande amor não tivesse morrido. Por outro lado, “Love Ain’t Just a Four Letter Word”, que tem melodia baseada em piano, guitarra, teclado e bateria de acordes e toques graves, breves, mínimos, fala de maneira irônica sobre os efeitos que o amor tem na personalidade de um apaixonado.
Love And Youth só é compreendido pelo ouvinte a medida que ele põe atenção nas letras, entendendo que a artista mostra enxergar o mundo por um viés irônico hiper-sensível. A partir deste momento, qualquer pessoa começa a se apaixonar por esse compêndio de agruras juvenis e amorosas, permeado com falsettos repentinos e meio estriônicos – sempre estriônicos, eu diria.
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Nouvelle Vague. [download: mp3]

Nouvelle VagueNão costumo me interessar por projetos que tem por base reinterpretação de canções ou de clássicos, ainda mais se eles são guiados por DJs ou derivados. Porém, ao saber há alguns meses que a francesa Camille Dalmais tinha participado do primeiro álbum de um famoso e elogiado projeto dentro do gênero, tratei de obter logo o disco. O grupo em questão é o Nouvelle Vague, organizado por dois produtores franceses, que faz novas versões de músicas, preferencialmente as lançadas nos anos 80 por bandas pertencentes aos movimentos do new wave e punk, particularmente. Interpretadas por um verdadeiro elenco de cantoras, as canções ganham arranjos inspirados na bossa nova brasileira, ganhando ainda tonalidades góticas electro-pop. A canção “Just Can’t Get Enough”, do Depeche Mode, por exemplo, perdeu seu caráter technopop e foi transformada num samba-bossa delicioso, cheio de manha e charme. Irresistíveis arranjos dentro do estilo são mesmo a tônica do álbum, como em “This is Not a Love Song”, do Public Image Limited (dissidente do Sex Pistols), e na doce melancolia de “In a Manner of Speaking”, do Tuxedomoon, cantada com perfeição pela excelente Camille Dalmais. O samba-bossa ganha cores mais delicadas e introspectivas, quase sonoramente utópicas, nas canções “Making Plans for Nigel”, do XTC, e de “I Melt With You” (em interpretação irretocável da cantora francesa Silja), do Modern English. Contudo, há espaço para variações melódicas ainda maiores, fusões do ritmo brasileiro com a suavidade do pop, como em “Friday Night Saturday Morning” do The Specials, com o folk-rock como pode ser visto em “Wishing (If I Had a Photograph of You)”, do Flock of Seagulls e com algo que lembra o punk-rock, como em “Guns of Brixton” (em mais uma participação brilhante da francesa Camille), do The Clash e “Too Drunk to Fuck”, do Dead Kennedy’s.
O diferencial de um projeto como este, entre tantos outros que tem objetivo semelhante, é o fato de que muitas vezes a nova versão da canção retrabalhada se iguala em qualidade à original, quando não a supera por completo: isso é fácil de notar, pois as canções, que pertenciam originalmente a movimentos musicais hoje bem datados, renovam-se e recuperam toda a força graças ao esforço do Nouvelle Vague. Além disso, contribui para a qualidade o ecletismo na interpretação das canções e o fato de que os produtores Marc Collin e Olivier Libaux não restringem seus arranjos ao inicialmente proposto – o ritmos de vanguarda brasileiros -, experimentando com outros estilos até encontraram uma identidade própria para cada música. É um disco imperdível, obrigatório principalmente para os pós-modernos de plantão.
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Kasabian – Empire. [download: mp3]

Kasabian - EmpireEssa banda inglesa, com dois lançamentos de estúdio até o momento, faz um indie-rock superlativo, cujas canções tem melodia quase “over” de tão agitadas: é difícil encontrar um espaço vazio na música da maior parte das faixas. Vemos isso no modo quase incômodo como é explorada a programação eletrônica nas velozes e hipnóticas “Apnoea” (sobre uma revolução popular que almeja acabar com a opressão produzida pelos governantes) e “Stuntman” (que chama os soldados de “dublês”, devido à maneira como prontamente substituem os que já morreram lutando em uma guerra). No entanto, é a fusão de programação eletrônica e indie-rock que faz a tônica do álbum, já que a maior parte das canções foi feita dentro desta concepção harmônica. “Empire” (canção de teor esnobe, que canta os excessos de alguém por quem não temos muito apreço, bem como os nossos próprios), “Shoot the Runner” (que trata em suas letras, de maneira até algo ofensiva, de como os governantes deixam-se tomar pelo sentimento ilusório de supremacia, esquecendo-se que tudo é passageiro e fulgaz, até mesmo o poder) e “Last Trip (In Flight)” (que fala sobre um homem que, de maneira fatalística e inconsequente, tenta conquistar o amor de alguém já comprometido), as três primeira músicas, são um exemplo disso: todas tem instrumentação rock incansável e nervosa, onde guitarras, baixos e bateria são manipulados de maneira explosiva, com um vocal britanicamente arrogante e petulante e uma programação eletrônica profusa e sutilmente saudosista. Embora estas faixas tenham um equilíbrio na sua energia e profusão melódica, outras apresentam um destaque específico dentro da música. É o caso de “Me Plus One” (uma canção que fala sobre uma paixão mal-sucedida e doentia), cujo destaque fica para os acordes econômicos e minimalistas da violão durante toda a melodia e também para a programação eletrônica visivelmente inspirada na música árabe, e de “Sun Rise Light Flies” (que fala sobre o efeito anestésico de um domingo de sol sobre os males que nos afligem) cuja programação eletrônica, que se utiliza de guitarras distorcidas para forrar o fundo da melodia e criar ainda um loop fabuloso de alguns poucos acordes, invade a imaginação do ouvinte como o sol do amanhecer. Por outro lado, “By My Side” (que aparantemente trata dos efeitos de conflitos bélicos sobre as relações humanas ) mostra um Kasabian mais contido, que procura construir a luminosidade da fusão de programação eletrônica e rock com menos pressa e avidez. Porém a última canção do disco, “The Doberman” (que trata de um homem desiludido com a condição do mundo em uma Londres não menos caótica), é isoladamente o destaque absoluto do álbum. A música sustentaria o disco inteiro sozinha, com sua melodia que trabalha um crescendo contínuo de vocais, violões e guitarras algo tristes e bateria acústica marcante, até explodir em um devaneio latino-rocker, cheio de palmas e backing vocals múltiplos.
É bem verdade que tamanha profusão sonora possa estressar os ouvidos do ouvinte, mas também é verdade que a banda faz isso com enorme maestria: mesmo soando cansativo às vezes, Empire é um disco de energia contagiante, irrefreável do início ao fim.
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PJ Harvey – Stories From The City, Stories From The Sea. [download: mp3]

PJ Harvey - Stories From The City, Stories From The Sea

PJ Harvey - Stories From The City, Stories From The Sea
O penúltimo disco de canções inéditas da rockeira britânica PJ Harvey surpreendeu tanto crítica como público, já que ambos consideraram este o álbum com maior apelo comercial lançado pela artista até o momento. Muito além disso, Stories From The City, Stories From The Sea é um disco que prima pela homegeneidade, tanto narrativa quando melódica: no primeiro aspecto, é um disco repleto de canções agitadas, vertendo energia com sua sexy sonoridade punk-rock, mesmo nas poucas músicas mais contemplativas do disco; com relação ao segundo aspecto, o disco lida tematicamente com personagens algo desajustados, que vivem a vida de forma inconsequente e hedônica, em um cotidiano urbano cheio de luxúria e desventuras por vezes fatalísticas. Em cinco canções do disco – que conta com a participação do vocalista do Radiohead, Thom Yorke, em uma de suas faixas – este universo desenfreado e meio underground é abordado de maneira exuberante. Na primeira delas, “Big Exit”, toda a energia do projeto é resumida: para adornar a letra, que retrata o momento em que um casal de criminosos é cercado pela polícia, uma verborragia de guitarras acolchoa a melodia totalmente “rocker” da canção, enquanto Harvey entoa os versos em brados poderoros, o que transforma a música em um hino dos porra-loucas de plantão. A letra de “Good Fortune” ainda mostra um casal de párias sociais mas, ao contrário da anterior, retrata a consciência de uma hedonista que sabe que vive o momento mais intenso de sua vida ao lado de seu namorado, sonhando em viver ao lado dele as peripécias e perigos que viveu o famoso casal de ladrões Bonnie and Clyde. A música é hipnótica e cíclica, usando guitarras, bateria e baixo de maneira farta. Em “Kamikaze”, que conta com mais um vocal dissonantemente glorioso de PJ Harvey, baixo e guitarra são dedilhados de maneira inquieta e ansiosa, até atingirem um nervosismo hiperbólico junto com a bateria, quando quase repentinamente a canção é encerrada. Na letra primorosa da canção, Harvey traveste-se em uma guerreira audaciosa que encontra-se cercada por um exercíto de kamikazes – pilotos suicidas japoneses – prontos a atacá-la. “This Is Love” é uma canção de amor à maneira PJ Harvey de ser: nela, a cantora confessa o desejo de despir o seu amante e explorar o sexo como se não existisse outro dia. A melodia é sexy e angustiante, produzida aos custos de uma bateria esmurrada, baixo e guitarras em tons graves e pigarreantes. Entre as músicas mais tranquilas do disco, “We Float”, que fecha o álbum, é o destaque absoluto. Na música, com base em bateria suave e piano de acordes graves mínimos, o vocal da cantora soa menos delirante, mais sossobrante e reflexivo, alternando entre tons graves e ligeiramente mais agudos, partcularmente no refrão. A letra reflete mais uma vez sobre amantes que vivem sem destino, perdidos no ambiente urbano.
Artista de personalidade inquieta, inventiva e mutante, PJ Harvey procura sempre produzir discos de diferentes identidades, que se distinguam sonora e liricamente: depois de versar sobre o sofrimento e a fatalidade, utilizando-se do obscurantismo e minimalismo eletro-rock de “Is This Desire”, a cantora quis buscar o inverso, compondo, à sua maneira, canções cujos arranjos transbordassem luxo e beleza e falassem sobre viver o amor e o prazer de maneira mais inconsequente e despreocupada – isso tudo mantendo intacta a característica comum à todos o seus projetos: a intensidade sonora e narrativa.
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Coldplay – X&Y. [download: mp3]

Coldplay - X&YEscutando com mais atenção o segundo álbum da banda Coldplay, comentado por mim aqui no blog semana passada, conclui que, apesar da beleza intensa de suas melodias, a dramaticidade excessiva das composições, tanto melodicamente quanto liricamente, deixa um gosto de pretensão suspenso nos ouvidos. O lançamento posterior da banda, X&Y, é um trabalho com muito menor ostentação sonora, visivelmente menos inchado. A tônica do álbum é a rítmica de agitação leve, que exala um breve e agradabilíssimo calor sonoro. Este calor é obtido pelo uso inteligente de programação eletrônica, cujas sonoridades compostas pelo grupo foram introduzidas de forma homogênea nas melhores canções, ao mesmo tempo conferindo-lhes um perceptível destaque na melodia. Assim são “Square One”, “Talk” e “Speed of Sound”. “Square One”, que fala sobre expectativas e reciprocidade nas relações humanas, chama atenção pelo refrão encorpado por guitarras ansiosas e pela sua sequência final contemplativa, baseada em violão. “Talk”, que comenta a confusão, a falta de rumo e sentido da vida contempôranea, surpreende por explorar esplendorosamente a introdução da canção “Computer Love”, da banda alemã Kraftwerk. Porém, no lugar do teclado, as guitarras ficam encarregadas de dar novas cores ao trecho retirado da criação do grupo alemão. E “Speed of Sound”, feita de versos de lirismo abstrato e reflexivo, gerou debates por iniciar-se com acordes de piano que lembram, vagamente, a canção “Clocks”. No entanto, e apesar das críticas por esta similaridade, a música tem identidade propria, sendo um pouco menos minimalista que a do álbum anterior.
Até mesmo as baladas do grupo sofreram alterações devido à maturação artística da banda. No novo disco, fica-se com uma impressão nítida de que elas tem um sentimentalismo menos grandiloquente em suas melodias, uma dramaticidade bem reduzida se comparadas à de “The Scientist”, por exemplo, o que as faz canções menos incômodas para o ouvinte, já que o dramatismo pretensioso das belas baladas do disco anterior arrebatam nas primeiras audições, mas tornam-as cansativas depois de algum tempo. Desta forma, músicas como “What If” e “Fix You” tornam-se músicas bem mais longevas, menos sujeitas ao aspecto nocivo de sucessivas audições. “What If”, que pondera sobre as consequências do afastamento de uma relação afetiva, carrega o piano para o fronte musical novamente, em acordes lentos e tristes, mas menos sofridos do que em composições anteriores da banda, o refrão floresce no ar, sem o peso de querer transformar a música em um hit instânteneo. “Fix You”, que fala sobre o apoio incondicional à alguém que se sente cansado e derrotado, temos um orgão usado de maneira radiante na melodia, que divide-se entre uma primeira parte mais silenciosa e plácida e sua sequência final, arrebatadora.
Porém, a música que me deixou mais estarrecido em todo o disco foi “Twisted Logic”, cujos versos parecem ser mesmo de cunho eco-político. Utilizando a instrumentação tradicional do grupo, a banda conseguiu, novamente utilizando a tônica comedida do álbum, criar uma canção ainda mais pungente que a espetacular “Politik” do disco anterior – a brevíssima reverberação, que ensaia um retorno da melodia na sequência final da música, é de arrepiar.
Depois de três discos, há quem diga, com alguma razão, que o Coldplay é, ou quer ser, o “novo U2″ – obviamente que a maior parte das pessoas que o dizem são fãs da banda irlandesa. Faz sentido se pensarmos que alguns aspectos deste disco o aproximam de “Zoroopa” do U2 (comentado há pouco no seteventos.org), como a participação de Brian Eno e o desejo de que a canção escondida do disco fosse cantada por Johnny Cash, se refletirmos sobre as performances ao vivo do grupo, que ganham o status de experiência única pelos fãs, também encontraremos semelhanças, bem como a tendência ao ativismo politizante das duas bandas. Contudo, o Coldplay, mesmo em seus momentos e facetas mais populistas, é uma banda bem menos afeita à grandiloquencia ambiciosa do U2. E X&Y, com sua vísivel atmosfera equilibrada, é um bom exemplo do caráter mais sutil da banda.
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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005