O filme reúne dados resultantes de pesquisas científicas, em uma apresentação feita pelo ex-vice-presidente americano Al Gore, procurando chamar a atenção sobre o quanto o aquecimento global está ocorrendo de forma cada vez mais acelerada e sobre como as suas consequências irreversíveis tomarão lugar muito antes do que imaginamos.
O documentário de Davis Guggenheim alterna a palestra de Al Gore com imagens e cenas de suas viagens por vários países onde a apresentou, estórias e acontecimentos familiares e com fatos de sua trajetória como senador, vice-presidente americano e candidato à presidência. Al Gore apresenta com muita clareza, com pouquíssimos momentos mais técnicos, a conclusão do seu acompanhamento dos estudos e pesquisas sobre as origens e efeitos do aquecimento global sobre o clima, geografia e futuro do planeta, pontuando também o seu efeito altamente nocivo na economia, no aumento da miséria, no surgimento de novas epidemias – bem como na piora das atuais – e no agravamento da extinção das espécies animais e vegetais. A idéia de investir em um formato mais híbrido, que não se concentra apenas na palestra, procurando humanizar e tornar confiável o seu protagonista, é visivelmente inspirada no marketing político – o que não deveria surpreender ninguém, visto ser Al Gore ser um -, mas ajuda também a tornar o documentário menos aborrecidamente técnico e estático, suavizando o seu andamento e conferindo-lhe temporalidade e dinâmica.
Apesar de muito elogiado, o filme também foi alvo de críticas, levantadas particularmente por políticos e jornalistas. A minoria destas críticas pergunta sobre a necessidade de, em alguns momentos do filme, expor a parcialidade da visão de Gore sobre acontecimentos e figuras do mundo da política. Há de se questionar o direito de Gore em abrir espaço para isso em um documentário que se propõe a esclarecer (ou lembrar) o público sobre uma questão que ultrapassa as fronteiras da crença ou ideologia política – isso é compreensível e razoavelmente sensato. Porém, mesmo podendo questionar a validade desse direito, há de se admitir também que Al Gore foi sincero o bastante para afirmar, em vários momentos do filme, que isso também é uma questão política – o que é mais compreensível ainda.
Uma outra parte das críticas questiona a validade de um documentário cujo conteúdo apresentado foi formulado sobre as conclusões não de um cientista, um estudioso no assunto, mas de um leigo, que tão somente reuniu pesquisas e informações científicas. Claro que Al Gore não tem formação no assunto, mas a luta pela consciência ecológica e ambiental não é perpetrada tão somente pelos estudiosos, mas também por porta-vozes. Grande parte do ativismo consciente e responsável no mundo, inclusive do ambiental, é feito por pessoas que não são estudiosos atestados. Desmerecer o esforço e trabalho destas pessoas só porque o conteúdo de seu ativismo não é fruto direto de sua própria reflexão é esnobismo leviano. A história do mundo não é feita só pelos que produzem o conhecimento, mas também pelos que lutam para que todos reflitam e façam uso dele.
Mas, o que mais impressiona é que a maior parte das críticas formuladas digam ser puro exagero – quando não sensacionalismo – declarar que o aquecimento global seja fruto da ação humana – particularmente da ação humana norte-americana – questionando a veracidade dessa afirmação. Dentre todas as três críticas feitas ao longa-metragem, essa é a única que realmente não dá para engolir, muito menos tolerar pacificamente. Mesmo em pleno século XXI, com o noticiamento maciço de toda uma miríade de catástrofes climáticas e ambientais, escancaradamente causadas pela ação do homem – o que está mais do que claro para qualquer ser humano que não tenha algum nível de retardamento mental -, é impossível aceitar que alguém creia ser isso invenção ou devaneio científico. E eu não consigo decidir o que é mais desprezível: se é o fato de essas pessoas fazerem tais afirmações movidas pela ignorância ou se é por fazerem isso puramente por interesses escusos e extremismo político.
“Uma Verdade Inconveniente” não chega a ser um um filme brilhante, mas está bem acima da média pelo modo claro, objetivo e inteligente que Al Gore combina as pesquisas mais recentes e dados nunca antes divulgados ao público geral, finalizando em um alerta muito bem embasado e verdadeiramente aterrorizante – e se o espectador ainda se dispor à uma pesquisa em fóruns, portais de cinema e blogs, o filme ainda tem o mérito de apontar a existência (e insistência) da mais estapafúrdia ignorância humana – aqui no Brasil, inclusive. Meu único pesar com relação à essa gente cretina é que provavelmente elas já terão sido devoradas pelos vermes antes de o planeta ter o prazer de ele mesmo dar o troco.
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fonte 1:
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legenda (português):
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Damien Rice, o cantor e compositor irlandês, tem auxílio constante da mesma equipe de músicos desde a sua estréia, o que fez seu trabalho ser, não-oficialmente, resultado do empenho de uma banda, e não de um artista solo. A participação crucial e ininterrupta de Lisa Hannigan no vocal e da violoncelista Vyvienne Long dedilhando o violoncelo, por exemplo, corroboram esta caracteristica de Rice. Ainda assim, todo o esforço e comando criativo é dele, e é exatamente isto que nos impede de nomear este grupo como uma banda. Isso chega mesmo a ser palpável ao escutar suas canções: sente-se com facilidade que a unidade algo melancólica e irascível delas é resultado da personalidade arredia e meio porra-louca de Damien Rice. 9, seu segundo álbum, não fica atrás de O no paralelismo das sensações de vigor e tristeza. “Me, My Yoke And I”, é a música do disco que retrata com mais clareza esse aspecto: os vocais bradam continuamente versos abstratos, uma imagem pujante da revolta, melancolia e fúria afetiva, onde guitarras e bateria trabalham em uma melodia de digressões e distorções robustas de volume intenso. Semelhante em estrutura melódica também é “Rootless Tree”, que utiliza violão, violoncelo, baixo, bateria e guitarra, sendo que estes dois últimos avolumam-se ainda mais no refrão, assim como o vocal maciço de Rice. Na letra, o cantor exige que os erros antes cometidos sejam esquecidos por sua amada, e que ela permaneça junto à ele, mesmo que o fator que os una seja o ódio.
Não é sempre que um video de atmosfera transcendental e viajandona soa natural. Thomas Hilland conseguiu fazer isso em um vídeo para a cantora japonesa Piana (pseudônimo de Naoko Sasaki): utilizando-se do bucolismo invernal daquela parte do oriente, bem como fazendo-se valer da imbatível dupla preto & branco, Hilland concebeu um clipe que retrata Piana, cantando em sua língua materna, como um ser absurdamente etéreo – se eu estivesse andando na rua e visse, por acidente, essa japonezinha linda flutuando à metros de altura, com ares de Virgem Maria, não acharia estranho. E, não sei se concordam comigo, mas o meu preconceito línguístico diz que ela ia ganhar mais uns pontos se cantasse em inglês – os ocidentais são fogo, né?
Uma prisão. Até aí tudo bem. Mas uma prisão onde de animais que passam o seu tempo livre dançando? Essa animação bizarra – aliás, ser bizarro é sina das animações – é o vídeo da faixa “Outsiders” da banda Franz Ferdinand. Não é um vídeo brilhante, mas casa bem com o “mood” nostálgico da ótima faixa do segundo disco – ao contrário das críticas na internet, que afirmavam que este clipe não casa nem um pouco com o trabalho dos britânicos. Assista e decida por si mesmo.
Noiva pertencente a família drusa prepara-se para abandonar sua família, para que possa unir-se ao seu futuro esposo na Síria. Na celebração do casamento, com presença apenas da noiva, vemos a reunião de uma família cheia de desentendimentos ocasionados diretamente pela realidade deste povo.
Guillemots, que tem como membro um guitarrista brasileiro, é uma das bandas estreantes de 2006. Seu primeiro disco, Through The Windowpane, exibe um frescor melódico e lírico destoantes até mesmo no meio musical alternativo. “Little Bear”, que fala sobre alguém que tenta despedir-se antes de uma longa ausência, já denuncia a qualidade do trabalho da banda como a faixa de abertura: depois de uma introdução de orquestração sofisticadíssima, com apurada coloração cinematógráfica, surge um piano de penosa suavidade, e o vocalista Fyfe Dangerfield inunda de emoção a faixa de abertura com um vocal que causa arrepios e lágrimas quando chega ao seu ápice. O que esperar depois de uma abertura tão arrasadora? Só os versos de “Made Up Love Song #43”, canção em que Fyfe mostra que tudo, mesmo uma latinha vazia de Coca-Cola, passa a exalar poesia quando estamos apaixonados, mostra que a banda é capaz de surpreender muito além da espetacular faixa de abertura. A melodia usa uma introdução feita com a inserção de sampler de orquestração de acordas e ruído de um despertador digital, e logo é seguida por umaa guitarra de acordes fosforecentes, bateria ligeira e vocais de fundo generosamente bem postos, até encontrar seu clamor máximo na ensandecida improvisação do vocal de Dangerfield, desacelerando de maneira genial até encerrar-se. E é justamente um caráter melódico que mais me chamou a atenção depois de finalizar a primeira audição completa do disco: o excelente uso de metais, tanto em melodias animadíssimas como a de “Trains to Brazil” – sobre um homem que ao invés de dormir, remói memórias sobre um amor do passado, desprezando o caos mundial em detrimimento de seu próprio caos – como em músicas mais sorumbáticas como a de “Redwings” – sobre o lento fim de um amor, que termina com a partida de um dos amantes. E a inventividade do grupo não encontra fronteiras, como podemos ver em “Blue Would Still Be Blue”, canção sobre os lamentos de alguém que declara que seria mais fácil enfrentar a vida com seu amor ao seu lado, e “A Samba In The Snowy Rain”, feita de poucos versos que convidam a abandonar o cotidiano e aventurar-se em algo desconhecido. A primeira seria uma faixa “a capella”, não fosse por uma delicada e sutilíssima programação eletrônica que se resume a curtos acordes no teclado, o que deixa espaço de sobre para Fyfe Dengerfield tripudiar em cima da emoção do ouvinte com seu vocal esplendoroso; a segunda é feita de uma melodia algo transcendental, acolchoando o fundo da música com vocais de fundo distantes enquanto, no primeiro plano, vemos uma série de improvisações no teclado e bateria. Há muito coisa boa até chegar no final do álbum, mas é lá, assim como no seu início, que eu fiquei estupefacto – pra usar um termo bem esdrúxulo mesmo. “Sao Paulo”, que relembra amores perdidos nos passado e termina em um clamor poético enlouquecido, é um arroubo sinfônica de onze minutos, repleto de orquestrações épicas e silêncios melancólicos. A melodia divide-se em dois momentos distintos: no primeiro temos uma música mais triste, pesairosa e nostálgica, com alguns instantes mais dramáticos; no segundo temos uma euforia visivelmente improvisada, guiada pelo piano esfuziante, pela instrumentação estremecedora, e pelos vocais extravasados de Fyfe.