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Sete Ventos Posts

Howling Bells – Radio Wars [download: mp3]

howling bells - radio wars (2009)

Segundo afirmação da vocalista do grupo australiano Howling Bells, Radio Wars, disco gravado com o produtor Dan Grech-Marguerat no estado da Califórnia, difere bastante do primeiro por emanar muito mais cor e calor sonoro por influência do local escolhido para sua produção. Apesar de isso não deixar de ser verdade em certa medida, a meu ver a característica que fica por mais tempo suspensa pelo álbum nos ouvidos é outra. Há um certo sentimento de tristeza fulgurante que emana das melodias rock da banda, como fica claro na ambiência da tocante balada “Nightingale”, em cujas letras Juanita Stein identifica o seu cantar ao de um rouxinol. A relação é mais do que justa, pois assim como o cantar deste pássaro se mistura ao ruídos naturais do ambiente que o cerca, o vocal da cantora, ao mesmo tempo doce, triste e sensual, entra em sintonia perfeita com a melodia que extrai melancolia do colorido dos sintetizadores, dos riffs radiantes da guitarra e baixo e da batida sutilmente suntuosa da bateria. Outra balada na qual a melodia resplandecente pavimenta o caminho para a linda voz de Stein emanar um certo ar de pesar é “How Long”: os vocais que acolchoam a música ao fundo, a bateria de toques firmes e em compasso bem marcado e a guitarra e sintetizações que florescem com o caminhar da melodia vertem, juntos, um esplêndido desaguar de paixão e romance.
A banda, porém, convence também quando investe em melodias mais agitadas, ainda que a sua agitação sempre rescinda a melancolia que é característica da banda, como mostram as faixas “It Ain’t You”, que brilha particularmente no arranjo que introduz e pontua com elegância a melodia na forma como a bateria cadenciada e os breves toques no piano e na guitarra se complementam e especialmente em “Into The Chaos”, que reverbera no ar com o charme dos seus múltiplos riffs de guitarra e baixo e com as várias camadas de sintetização que envolve a bateria de andamento mais ligeiro.
Mais do que simplesmente ser uma característica, a melancolia das composições da banda, que espalha-se sobre as melodias calcadas nos fundamentos mais básicos do pop/rock (a saber, guitarra, baixo e bateria, com apoio de teclados e piano), também tem efeitos, já que concede às músicas certa similaridade com a música produzida na década passada, a exemplo das faixas “Digital Hearts”, que com o tropejar sem erros da bateria e com os cadenciar gracioso do baixo e guitarra remetem à alguns dos singles marcantes de bandas como o INXS, e “Ms. Bell’s Song (Radio Wars Theme)”, que lembra um pouco os irlandeses do The Cranberries no vocal em plena harmonia com a vibração metálica do violão, na delicadeza dos acordes singelos do piano e na grave discrição do baixo, ressaltado na breve ponte melódica da canção. Porém, é a faixa “Golden Web” que evoca boa parte da identidade do rock noventista já na partida da canção pela conjugação de um beat sorumbático e de claps e pianos esparsos e dramáticos, e ainda mais quando o vocal cristalino de Stein duela gentilmente com o dedilhar na guitarra, para então fundir-se em um lirismo encantador com as sintetizações lançadas como a fragrância de um perfume sutil na atmosfera da melodia.
Apesar da referência contida nestas canções tornar-se cada vez mais lugar-comum dos grupos da atualidade (o que faz sentido, uma vez que esta é sua herança mais imediata), a banda australiana não o faz arriscando perder sua própria identidade, já que preserva o tempo todo a mistura da sonoridade ao mesmo tempo crispante e plácida que resulta na ambiência sedutora que flui nas suas melhores composições. Porém, dificilmente, como indica o nome do disco, a banda vá com isso recuperar a maravilhosa guerra de algum tempo atrás que fazia a beleza das estações de rádio. Primeiro porque a banda está só começando e hoje em dia a carreira de qualquer grupo musical pode ser tão efêmera quanto uma tormenta de verão; segundo, porque as rádios estão tomadas por toda uma súcia do mais variado lixo musical, inclusive de uma horda de “artistas” sugando o quanto podem do que deu certo na última década. Isso, contudo, não é motivo para não dar crédito aos quatro australianos. Ouça o disco sem medo, pois os sinos de Stein e seus companheiros estão longe de soar como um pastiche da música da época.

Baixe: Howling Bells – Radio Wars [mp3]

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Sarah Blasko – As Day Follows Night (+5 faixas bônus). [download: mp3]

Sarah Blasko - As Day Follows NightA australiana Sarah Blasko gosta de cercar suas canções em discos com forte identidade sonora. Foi assim na sua estréia fabulosa, com o pop/rock vibrante e poético de The Overture & The Underscore, e também no esplendoroso disco seguinte, What The Sea Wants, The Sea Will Have, que verteu uma melancolia com timbres metálicos, além da tecitura marítima que sugere o título. Para o seu terceiro lançamento, porém, Sarah resolveu deixar a terra natal e rumar para bem longe, almejando ares ainda mais diversos para seu novo álbum. A Suécia e o produtor Bjorn Yttling, do trio Peter, Bjorn and John, foram respectivamente as escolhas para ambiente e parceria na concepção do disco. E foi por conta da companhia e influência do músico sueco que a maior parte da energia algo elétrica que caracterizou a música da cantora australiana nos seus dois primeiros lançamentos acabou desaparecendo, cedendo lugar a arranjos mais macios, algo que se reflete inclusive no vocal da cantora, notadamente entoado em um matiz de diferente suavidade que encobre os versos de um caráter nostalgicamente menlancólico. Por conta disso, acostumado que estava com a identidade da cantora até então, estranhei imensamente este caminho sonoro um tanto diverso, e assim releguei o disco ao limbo da minha coleção de música, aguardando por meses o momento certo para reavaliá-lo.
E como já aconteceu antes, ao descobrir a beleza de uma única música acabei encontrando o caminho certo para outras: foi a elegância e sutil sensualidade exalada pelo groove suavemente jazzístico da percussão e piano de “Bird On A Wire”, a ondulação radiante do arranjo de cordas e o vocal sublime de Sarah que inicitaram finalmente meu encanto por outras faixas do disco. A partir daí, entendi que o talento da cantora e compositora, apesar de consideravelmente alterado, não foi desperdiçado, já que há sim belas faixas distribuídas pelo disco, como a batida hipnótica da bateria, percussão, piano e baixo de “No Turning Back”, reforçada por sopros graves e de fluxo breve, todos a certa altura evadidos por violões e backing vocals telúricos na ponte melódica da canção. “We Won’t Run”, de compasso bem marcado pela bateria, salpicada por delicados toques ao piano durante o refrão que é pontuado dramaticamente pelo ressoar dos pratos e cuja melodia encorpa-se pelo arranjo de cordas que avolumam sua base, exibe enorme graça e suavidade e ilustra com perfeição o novo estilo vocal incorporado pela cantora neste álbum. “All I Want”, conduzida pelos acordes sutis no violão e pela bateria em andamento quase fúnebre, conjuga cordas, sopros e um temerim para evocar uma marcante atmosfera de quimera. “Lost & Defeated” prossegue vagueando em devaneio sonoro sustentado pelo dedilhar das notas de um piano taciturno que pontua a música, feita de violões e percussão sutis e firmes e aos poucos ocupada por cordas e sopros que intensificam a sonoridade de delírio errante. Com uma percussão e violões de toques curtos, mas em franca cadência lúdica e gracejante, ressaltada pela tonalidade jovial do xilofone e do vocal de Sarah, “Over and Over” quebra um pouco esta tonalidade idiossincrática do disco, ainda que partilhe algo dela por fazer uso de instrumentação semelhante. Por sua vez, “I Never Knew”, o lamento de alguém que dolorosamente entende o bem que trará o fim de seu relacionamento, vagueia por um doce romantismo, ilustrado pela vibração suave do violão e da percussão, que flutuam ao fundo com brandura, e que é brevemente assinalado no seu trecho final por um vocal e cordas mais ardentes até ser novamente revertido na ternura melódica que é sua marca mais evidente.
Mas ao que parece, Sarah não atravessou oceanos, mares e continentes para deixar qualquer desejo, por mais extravagante que parecesse, sem ser atentido. Ocupando-se da composição de todas as músicas deste As Day Follows Night, já que dispensara a parceria do ex-companheiro Robert Cranny, Sarah Blasko achou por bem também alimentar a sua faceta de intérprete. Louca por cinema e adoradora de musicais, teve a belíssima idéia de selecionar canções dos que mais adora, como “A Noviça Rebelde” e “Cabaret”, para compor uma disco bônus do álbum. Deste segundo disco, batizado de “Cinema Blasko”, apenas uma música não é oriunda de um musical, tendo sido retirada de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, clássico dirigido por Woody Allen nos seus bons tempos de cineasta. As que resultaram nas melhores, porém, são as que eram as mais rasgadamente pop das cinco que compõe o disco: em interpretações intimistas, que não vão além de piano e voz, Sarah encobre “Out Here on My Own” (originalmente cantada por Irene Cara no musical “Fame”) de renovada camada de emoção e desnuda “Xanadu” (deliciosa na primeira versão pela voz de Olivia Newton-John no filme homônimo) de toda a sua cintilação setentista, pluralizando a sensibilidade de suas letras e melodia.
A mudança no estilo certamente não era necessária, mas é sempre bem-vinda. Faltou apenas acertar um pouco mais o “fuso-horário artístico” na viagem entre Oceania e Europa, já que a adoção desta nova musicalidade, que centra-se em uma ambiência mais apoiada em percussão e piano, também rendeu algumas composições um tanto frias e aborrecidas. Isso, porém, não reduz a força do seu maior êxito: o amálgama gracioso da acusticidade dos arranjos com o timbre nostálgico adotado por Sarah ao cantar suas novas composições na longínqua escandinávia. E quem aí não sabia que o velha Europa ainda tem charme suficiente para encantar o novo mundo?

http://ifile.it/i179kbc/blasko_-_follows.zip

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“Do Começo ao Fim” (From Beginning To End), de Aluízio Abranches [download: filme]

do comeco ao fim (from beginning to end, 2009)

Desde a infância demonstrando união intensa, os meio-irmãos Francisco e Thomás, acabam na vida adulta iniciando um relacionamento amoroso.
“Do Começo ao Fim” (From Beginning To End), novo filme de Aluízio Abranches, que já tinha ganhado um texto de prévia aqui no Sete Ventos, angariou popularidade no reino alternativo da internet por conta de vídeos de divulgação que adiantaram boa parte do enredo controverso e principalmente por demonstrar que os dois protagonistas, que interpretam meio-irmãos, se entregam com ousadia e naturalidade às intimidades de suas cenas de romance, demonstrando contato físico sem receio. Porém, uma desconfiança surgiu com a divulgação destes vídeos: seria a história do filme tão vigorosa quanto supostamente o são suas cenas de romance? Esta dúvida, descobri então, tinha sua razão de ser.
Convenhamos que o senso comum diria a qualquer pessoa que um filme que se concentra em uma relação incestuosa que vai ganhando contornos visíveis desde tenra idade diante dos olhos de pais e amigos vai indubitavelmente retratar os imensos e inevitáveis dilemas morais que tal fato desencadearia. No filme de Abranches o pai de um dos garotos, personagem de Fábio Assunção, e principalmente a mãe de ambos, personagem de Júlia Lemmertz, após notar a incomum proximidade entre os dois, até ensaiam questionar-se sobre como lidar com o fato, mas de forma breve e tímida, logo omitindo-se de tomar qualquer atitude baseados no pretexto de que o livre arbítrio é direito de todos em qualquer situação. O resultado final desta postura sem censura ou qualquer esclarecimento é bastante previsível: por uma questão de lógica, isso é quase como um apoio velado que delega ao tempo o fortalecimento do sentimento que um tem pelo outro. Portanto, não surpreende que já na vida adulta, quando a relação já está consumada, amigos de ambos encarem isso com a maior tranquilidade, já que o próprio pai de Thomás e padrasto de Francisco trata a relação amorosa dos dois como uma relação qualquer entre dois amantes. É sabido, até porque o diretor afirmou em todas as oportunidade possíveis, que o filme de fato foi pensado já com esta idéia em mente – a de remover qualquer menção à conflitos de ordem moral sobre a relação dos dois, tanto no que tange a esta ser uma relação homossexual quanto por ser uma relação incestuosa. Essa é a razão do diretor ter estirpado a adolescência dos dois garotos do enredo de seu longa-metragem, livrando-se até mesmo de fazer qualquer menção à esta fase da vida de Francisco e Thomás: a idade, que já é naturalmente tumultuada, não teria como ser ilustrada sem a inserção de conturbações que a rigor ocorreriam com o florescer mais concreto dos desejos dos dois irmãos. Assim, o maior problema causado por esse pulo temporal da infância para a vida adulta não é simplesmente a perda de densidade e fundamentação para a história de amor entre eles, como afirmam outras resenhas publicadas sobre o filme, mas derivado à esta e ainda pior, a patente abordagem “higienizante” do diretor com o enredo, o que leva à uma incomensurável falta de realismo no seu desenrolar.

do comeco ao fim (from beginning to end, 2009) movie still 01
Uma relação (bem) incomum, mas sem conflitos: o incesto de Francisco com o irmão bissexual é basicamente um mar de rosas

Além disso, o artifício adotado por Abranches também acaba por trabalhar contra a natureza própria de um drama cinematográfico, afastando a presença de conflitos que sejam suficientemente relevantes para engendrar a dinâmica natural do interesse do espectador pelo filme, relegando à dramas menores, um tanto tolos e até mesmo razoavelmente incongruentes, a partir da metade final do filme, o serviço de injetar algum conflito nesse controverso e nada ortodoxo mar de rosas que é a relação entre os dois irmãos.
Os outros componentes do filme, que já não seriam suficientes para justificar alguma menção positiva em vista do problema crônico que nasce a partir da abordagem do diretor com o enredo da história, só entornam ainda mais o caldo. A fotografia reforça de forma material o higienismo do roteiro, a trilha sonora tenta injetar emoção e delicadeza, mas a mim soa quase completamente cacofônica, e o elenco surge como inerte, incluindo os dois atores que protagonizam o filme, João Gabriel Vasconcellos e Rafael Cardoso, que a despeito do erotismo e desenvoltura de ambos nas cenas de romance, mostram-se absolutamente apagados em praticamente qualquer outra cena que estejam inseridos (aliás, o fato de que a atuação dos dois só é convincente nas cenas de “pegação” diz muito sobre a provável sexualidade de ambos os atores). Apagado, por sinal, é o termo que define com exatidão este filme de Aluízio Abranches, tão desprovido de ânimo que é para até mesmo ser qualificado como ruim, o que motivou os internautas e blogueiros a rotularem a película como uma espécie de “comercial gay de margarina”. Quem gostou, ao contrário, enxerga em “Do Começo ao Fim” o “Brokeback Mountain” brasileiro. Eu, mais uma vez, tenho que confessar que os críticos não rotularam adequadamente o filme e os adoradores estão enormemente equivocados. Com todo o excesso de cautela que contaminou a concepção e produção do filme, a meu ver ele está mais para uma fábula crocante, com recheio picante e encoberto com suave polêmica, ao invés de um comercial gay de margarina. Quanto ao elogio, ao contrário deste filme aqui, o longa-metragem de Ang Lee é enormemente realista. Pois é, mesmo não gostando de listas de “Top” e “Best Of”, estou apostando que “Avatar”, mesmo com toda a pirotecnia de milhões de dólares e com dez longos anos de produção, deve logo perder o título de maior filme de fantasia da década para “Do Começo ao Fim”.

Baixe: “Do Começo ao Fim”, de Aluízio Abranches (From Beginning To End, 2009)
[áudio original, 1080p, mkv] (VERSÃO EXCLUSIVA 1080P/ EXCLUSIVE 1080p RELEASE)

Acesse o Índice de Filmes disponíveis para download no blog.

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LINKS ATUALIZADOS EM: 21/12/2025
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“As Iniciais”, de Bernardo Carvalho

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No jantar em um mosteiro transformado em retiro para amigos em uma ilha, escritor serve de ouvinte às histórias e de testemunha dos acontecimentos que envolvem grupo de intelectuais e membros da elite. Na noite que é feita a recepção à alguns convidados, recebe confidencialmente uma caixinha com iniciais entalhadas – um mistério que vai lhe intrigar por muito tempo.
Este é o primeiro livro que leio de Bernardo Carvalho, mas pelo pouco que já pude perceber, o escritor brasileiro é bastante afeito aos jogos narrativos. “As Iniciais”, livro seu lançado há onze anos, é um verdadeiro laboratório desta técnica, já que todos os elementos que a perfazem estão encobertos por este artíficio ardiloso. No seu contato mais imediato com o livro, o leitor já se depara com esta feição ao verificar que na história todos os personagens e cenários são identificados somente pela letra inicial, o que faz com que o leitor leve mais tempo do que normalmente o faria para associar cada personagem com a sua história particular.
Por sinal, aí temos mais um elemento composto sob o domínio desta armadilha literária, a narrativa em si. Em uma primeira instância, o enredo principal é dividido em dois momentos diferentes que tem um intervalo de dez anos de diferença, porém a situação apresentada é da mesma natureza, um jantar e um almoço, eventos sociais cujas funções de celebração e apresentação das personalidades que o compõe, bem como de suas histórias particulares, são esplendidamente manipuladas pelo escritor para que a narrativa principal seja constantemente permeada e entrecortada pelas sub-narrativas dos personagens, construindo um vai-vem entre presente, passado e em alguns momentos específicos até futuro que, agora me vem à cabeça, a dinâmica do seriado americano “Lost” lembra consideravelmente. No entanto, diferentemente da série criada por J.J. Abrams e Damon Lidelof, o narrador aqui também é um personagem, o que faz com que todas as histórias e revelações estejam sempre limitadas e encobertas pelo (des)conhecimento que o próprio personagem tem de todos os outros. Este caráter de consciência restrita que o narrador-personagem tem em relação aos outros acaba implicando em mais um jogo, o das identidades. Ao longo da narrativa e principalmente com o pulo temporal entre a noite do jantar no mosteiro e o almoço no casarão em uma serra de um país emergente, a identidade de alguns personagens é posta em dúvida por diferentes histórias sobre eles que vão sendo reveladas pelo narrador e outros personagens, histórias que se contradizem sobre o que se sabe de seu passado, num construir e desconstruir constante de suas identidades, levando o leitor a jamais ter segurança de quem estas pessoas verdadeiramente seriam. Junte-se isso ao artifício de identificá-los somente pelas inicias e você acaba em uma armadilha narrativa das mais sofisticadas: seria o homenageado “X” do almoço no casarão o convidado “Y” do jantar no mosteiro que, diga-se, naquela mesma noite envolveu-se em estranho evento clandestinamente testemunhado pelo narrador? E a profissão de “Y” seria mesmo aquela com a qual foi apresentado no almoço em sua homenagem ou exerceria ele ocupação muito mais insidiosa e perigosa, como confidenciam alguns convidados presentes ao evento? Não é difícil notar aqui o esplêndido jogo metaficcional ao ter a própria narrativa tecida de sub-narrativas criadas pelos próprios personagens, que por sua vez funcionam como verdadeiros autores destes outros personagens enigmáticos e de suas histórias quase sempre insólitas e bizarras que podem ou não ser pura invenção, tão ficcionais portanto quanto o livro que o leitor tem nas mãos. Este jogo metaficcional traiçoeiro que intriga o narrador-personagem acaba também, por consequência, sendo partilhado pelo leitor, que como ele também é envolvido em um emaranhado narrativo que não apenas os confunde o tempo todo mas, igualmente, não lhes entrega qualquer garantia de que tudo será elucidado em algum momento.
Bernardo Carvalho, contudo, não se contenta com isso e também explora a metaficcionalidade em uma instância mais explícita e direta ao conceber o seu personagem-narrador como um escritor que pontua seu relato com comentários sobre seu próprio trabalho, confessando que entre seus vícios no exercício de sua profissão está a adoção do estilo literário algo “artificial” de um dos principais personagens da história, um escritor egocêntrico e narcisista que procura recobrir a realidade que o cerca de uma cerimoniosa e quase sacra teatralidade.
Compondo uma narrativa que inicialmente parece encarregar-se de retratar tanto os anseios e ambições culturais como a vulgar ordinariedade que vagueia as relações de intelectuais e membros de uma casta consideravelmente abastada da sociedade, o escritor brasileiro sorrateiramente enreda o leitor nas suas artiminhas literárias, lançando-o à apreciação de uma narrativa que o tempo todo desafia as obviedades com o descortinar ardiloso de coincidências inesperadas nas várias situações e histórias idílicas que são constantemente reveladas e retomadas pelo e para o narrador. Como se vê, o interesse despertado pela busca da “verdade” na(s) narrativa(s) de “As Inicias” é apenas o ponto de partida do livro, interesse que ao longo da leitura vai sendo relocado para o produto deste jogo arquitetado e cada vez mais intensificado pelo escritor. É o efeito da narrativa e não a sua materialidade própria que termina por seduzir o leitor nesta obra singular de Bernardo Carvalho.

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Ok Go – Of the Blue Colour of the Sky (+ 1 faixa bônus). [download: mp3]

Ok Go - Of the Blue Colour of the SkyO hype e o conceito do “viral” são coisas que irritam como poucas – ao menos a mim. Se é o filme mais faladinho, o vídeo mais twittadinho, a banda mais conceituadinha no circuito alternativo ou na cadeia auto-declarada e auto-alimentada dos blogueiros mais badaladinhos da web, podem ter certeza que eu vou esperar muito tempo pra ver qual é a dessas coisas todas – isso se eu realmente me dispor a conferir. Essa foi a razão que levou meus ouvidos a realmente dar confiança à banda Ok Go só nas últimas semanas, anos depois de todo o burburinho gerado por conta dos clipes das canções “A Million Ways e “Here It Goes Again”, que agora sim verifiquei serem realmente muito bons. Naquela que foi uma das raríssimas oportunidades em que tentei embarcar no hype, confesso que até tentei espiar qual era a da banda na época de toda a falação gerada pelos vídeos. Baixei o disco Oh No só para ver que então a banda não me convencia mesmo – depois de apenas algumas poucas audições que não me arrebataram o álbum ficou empoeirando até ser devidamente eliminado da minha bliblioteca de mídia. Só fui voltar meus olhos para os quatro rapazes americanos no meu ciclo mais natural de descoberta e experimentação: vi a capa do novo álbum em uma online store britânica que sempre visito, achei o nome do disco tão interessante quanto a imagem e assim despertada minha curiosidade, resolvi ver qual era a do Ok Go desta vez.
Of the Blue Colour of the Sky ainda sofre do mesmo mal que me afugentou da banda nos discos anteriores. Músicas como “End Love” e “Before The Earth Was Round” não me dizem coisa alguma, soando um tanto anêmicas e repetitivas. A melodia da primeira não é um completo desastre, mas as suas feições algo atonais soam ásperas nos ouvido; já a segunda apresenta no vocal distorcido por sintetização e nas suaves farpas eletrônicas vapores do que há de mais aborrecido nos conterrâneos do The Flaming Lips. E me parece que a banda de Wayne Coyne inspirou ainda outros momentos deste álbum, já que as duas últimas faixas do disco também emanam uma suave psicodelia semelhante à das composições do Flaming Lips. Nelas, porém, o resultado é bem mais favorável: “While You Were Asleep”, consegue soar muito mais agradável com a sua tecitura delicada de sintetizações suaves em uma melodia quase sonolenta pontuada por “claps” e bateria preguiçosos com alguma percussão ocasional, encerrando-se em ruído que some rapidamente e conecta-se aos acordes solitários e breves de piano que introduzem “In The Glass”, que prossegue em uma espécie de sequência melódica, mas em um ritmo consideravelmente mais ligeiro e com uma instrumentação mais farta composta por um orgão sustentado em acordes longos e nervosos, bateria, baixo e sintetizações em uma cadência um tanto hipnótica. As várias camadas de vocais que ecoam sem vergonha ao longo de “Back From Kathmandu”, junto com a bateria, percussão e violões de acordes secos que sofrem alterações cíclicas em sua síncope firme atravessada por guitarras, orgão e sintetizações pontuais também dão à esta canção algumas feições do que a banda que criou Yoshimi Battles The Pink Robots já fez de melhor.
Mas o que há de realmente fabuloso em Of the Blue Colour of the Sky é influência de um outro artista, este ainda mais estranho e singular: o cantor e compositor americano Prince. As melhores e mais viciantes músicas do disco foram embebidas em elementos bastante característicos do cantor pop americano, indo da incorporação mais sutil à mais rasgada. “WTF?”, que abre o disco, emula o falsetto tão simbólico de Prince, que sempre cantou escorado em uma sensualidade quase tátil, mas os riffs escandalosos da guitarra que brincam com a cadência vibrante da bateria também são a cara de grandes hits de artista que já recusou-se até mesmo a ter um nome. A deliciosamente dançante “White Knuckles”, não apenas continua tirando proveito de uma infinidade de riffs e solos de guitarra caudalosos, mas também põe na dança uma programação eletrônica gingadíssima que convida a sacudir todas as partes do corpo e escancarar de vez acompanhando os versos sem receio. “I Wan’t You So Bad I Can’t Breath”, que pisa no freio com guitarras, baixo e bateria em uma melodia um tanto mais tranquila e lenta, não emula tanto o estilo de Prince, mas ainda incorpora algumas feições, como o vocal entrecortado por gemidos exasperantes. Em nenhuma destas músicas, porém, o vocalista vai tão longe quanto na espetacular balada “Skyscrapers”: vertando melancolia no orgão taciturno e jorrando sensualidade na sintetização de cordas, nos acordes da guitarra e na cadência lânguida do baixo e da bateria, a música conta com um Damian Kulash completamente tomado pelo espírito de Prince, exibindo todo o potencial de sua voz sem o menor sinal de vergonha de que seu cantar meio sussurado e seus gritos e gemidos ultra lancinantes soem como os estertores eróticos de um virgem sendo possuído sem piedade na sua primeira noite – se você acha que estou exagerando, ouça você mesmo. Tenho quase certeza que o teor assumidamente pop e o caráter um tanto lascivo destas canções deve ter assustado os fãs da banda, mas foi justamente esta nova trilha aberta pela banda americana que capturou a atenção dos meus ouvidos. Se a passagem não for apenas temporária ou se ainda outras, que levem a lugares ainda mais diversos, forem abertas, certamente que os rapazes do Ok Go vão conseguir surpreender gente até menos credúla do que eu. Vamos torcer!

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Goldfrapp – “Rocket” (single + 1 faixa). [download: mp3]

Goldfrapp - RocketE nesse mundão lindo de internet nem um dia se passa sem algo cair inadvertidamente na rede – algumas vezes até intencionalmente – e ser infinitamente multiplicado e distribuído. Alison Goldfrapp até pediu desculpas – precisa não, benzinho – no seu blog oficial, mas disse que o vazamento do single “Rocket”, parte do seu futuro novo disco, “Head First” não foi intencional e não poderia ser evitado. E é bom guardar as desculpas para os dias que virão, porque mais uma faixa, “Believer”, acaba de chegar aos ouvidos dos internautas. Mas, apesar de toda a nostalgia da dupla britânica, pessoas da contemporaneidade que ambos são já sabem muito bem que não adianta lutar contra a rede.
Falando em nostalgia, não saberia dizer se eles já foram mais nostálgicos, mas “Rocket” e “Believer” com certeza bebem na nostalgia dos anos 80: são tsunamis de sintetizações, toneladas de camadas de vocais e uma chuva de cintilações sonoras. “Believer” tem mais a cara dos trabalhos anteriores da dupla, e considero esta a mais fraca das duas, com uma música um tanto repetitiva, mas “Rocket” tem uma melodia pop que não faria feio combinada com aquelas dancinhas coreografadas bem soft dos musicais de cinema da época que cansamos de ver na Sessão da Tarde. Ouçam o início da faixa e me digam se Olivia Newton-John não mandou lembranças, disse que tá tudo muito “Magic” mas que essa coisa meio “Xanadu” da capa do disco é de propriedade dela? Falando na capa, mas me referindo à esta do single ao lado, eu sei que o glow nas mãos e nos pés é intencionalmente “photoshópico”, que esse raio só pode ter saído de algum canto de “Star Wars” e que essa paisagem parece ter sido retirada de uma das fases do jogo “Enduro” do saudoso Atari, mas a cereja do bolo é o combo pose de heroína de gibi + macacãozinho cor-de-rosa, heim? Isso tá bem “mamãe, acreditei!”

“Rocket” + “Believer” (clique!)

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Agradecimentos ao pelo toque no Twitter!

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005