Os membros do Broken Social Scene são tantos que não é surpresa alguma você você se deparar acidentalmente com algum álbum solo de um de seus integrantes. Foi assim que acabei conhecendo o disco Idols Of Exile, de Jason Collett – por um acaso mesmo, já que estava apenas vasculhando a lista de artistas do selo Cityslang, que lançou o disco da artista sobre quem falei aqui semana passada, Justine Electra. O trabalho de Collett sugere várias influências e semelhanças casuais com outros artistas que já ouvi. O colorido intenso das melodias de “I’ll Bring The Sun” – que fala sobre um homem que mantém uma relação à distância com uma mulher muito diferente dele e de sua própria realidade -, com violões de acordes rápidos e bateria ritmada, além do refrão com vocais esfuziantemente multiplicados, e “These Are The Days” – com letras tratando do cotidiano difícil de um casal que sempre está a beira de separar-se -, cujos violões e coro da palmas formam o corpo da canção e concedem-lhe uma tristeza calma e quente, mais confortante do que sofrida, sugerem as composições nem sempre alegres mas animadas do álbum solo de James Iha, do Smashing Pumpkins. Já na segunda faixa do disco, “Hangover Days”, onde vemos um homem que só consegue entender a amor que sentiu depois que ele terminou, um dueto com a sempre fabulosa Emily Haines, tanto no vocal de Jason Collett, como na melodia folk-rock do violão, do ocasional solo de guitarra e da bateria, é impossível não lembrar das composições mais seminais de Bob Dylan.
Porém, a música de Jason Collett, mesmo que guarde sempre algumas feições similares e difusas com outros artistas, também tem caráter musical próprio. É o que sentimos na história de um homem que ruma à uma cidadezinha apenas para observar silenciosamente a distância quem ama, na brilhante canção “Parry Sound” e na sua melodia melancólica de violão e bateria de candência lenta e arrastada. Pode-se sentir pontadas das composições emotivas de Damien Rice ali, mas tanto o vocal aveludado de Jason quanto os acordes de guitarra e os sopros dos metais que escutamos no fim da canção retiram grande parte desta impressão. A road-song “Tinsel And Sawdust”, na qual Jason põe o pé na estrada, deixando para trás um amor que julga não ter dado certo, tem um quê do mais acústico do Smashing Pumpkins, por exemplo, mas guarda mesmo em si é o folk distante e arredio de Collett na presença do violão econômico e nos vocais ao modo sussurrado. E como se soubesse que, inevitavelmente, teria suas canções comparadas às de artistas que o influenciram, Jason ainda achou tempo para brincar com as temática recorrentes e o modo de composição de grande parte dos artistas do rock na meta-analítica “Pink Night” cuja melodia, não poderia deixar de ser, tem cheiro inegável de country-rock e blues. É, de fato, um moço bem espirituoso.
Baixe: Jason Collett – Idols Of Exile (2005) [mp3]
Ouça:
Mike Mills não teve dúvidas: para o clipe da faixa “Top Ranking”, disponível no último álbum da banda Blonde Redhead, colocou uma modelo em uma sala iluminada de tonalidades claras e mandou ela fazer intermináveis poses, editando o vídeo com exatamente um segundo de cada uma das inúmeras poses que a garota tratou de fazer. O resultado é um tanto estranho, mas pra quem já espiou os álbuns de fotos dos usuários do Orkut, soa como uma paródia daquilo que se costuma ter por lá. Espie você mesmo e veja se não é isso que vem a cabeça em grande parte do vídeo.
Dezoito histórias de cinco minutos, cada uma ocorrendo em um canto diferente de Paris e não necessariamente relacionadas entre si, formam, em conjunto, o longa-metragem “Paris, Je T’aime”, idéia e conceito dos franceses Tristan Carné e Emmanuel Benbihy, respectivamente. A natureza deste longa-metragem torna impraticável uma homogeneidade em termos qualitativos, já que alguns dos curtas que o integram, se não são realmente ruins e equivocados, soam um tanto previsíveis: com “Porte de Choisy”, o diretor de fotografia Chistopher Doyle procura mimetizar o magnetistmo das estorias delirantes de Jean Pierre-Jeunet, mas seu sucesso não vai além da questão estética; Vincenzo Natali, igualmente capricha no visual de “Quartier de la Madeleine”, mas seu conto de humor-negro sobre um homem que encontra uma vampira parece um videoclipe teen; os diretores Joel e Ethan Coen fazem uma caricatura de seus próprios trabalhos com o segmento na estação de metrô de “Tuileries”, cujo artificialismo exagerado dos maneirismos visuais mais irritam do que divertem; Walter Salles e Daniela Thomas, por sua vez, também recorrem a essência dos seus maiores êxitos, mas ao invés de utilizar a paródia como tom, o fazem como quem apresenta um cartão de visitas, tornando a crítica social de ambientação (sub)urbana – que fez a fama da dupla – ecoar com certa obviedade. Por sorte, há mais segmentos bons do que ruins. Para alguns deles, o charme ficou por conta dos diretores e roteiristas utilizarem-se do elemento surpresa como atrativo: tanto o breve conto de amor entre uma jovem atriz e um estudante de línguas cego do distrito de “Faubourg Saint-Denis”, dirigida por Tom Tykwer, a estória escrita e dirigida por Alfonso Cuarón, que sustenta-se no diálogo dúbio entre um homem de meia-idade e uma jovem francesa em “Parc Monceau” e o flerte entre um jovem artista e um belo funcionário de uma casa de artigos para pintura de “Le Marais”, a cargo do diretor Gus Van Sant, escoram-se de modo compentente em um elemento chave que destrincha o entendimento do evento e que era responsável por, intencionalmente, causar confusão no espectador. Porém, os curtas mas simples, que contentam-se apenas em contar sua breve história, são os que conseguem melhor captar a idéia básica que deu vida à “Paris, Je T’aime”: o encontro acidental entre dois solitários parienses, em meio à seu cotidiano anestésico no trecho “Montmartre”, dirigido e co-estrelado por Bruno Podalydès; o rapaz que, em “Quais de Siene”, de Gurinder Chadha, encanta-se por uma simpática garota mulçumana, mesmo sutilmente receoso da óbvia diferença cultural; a delicada mistura de história de amor à primeira vista e crítica social, em “Place des Fêtes”, de Oliver Schmitz, emocionam pela maneira com que o amor é abordado pelo modo que seus personagens são tomados por ele. Mas é o último segmento do longa-metragem, o conto solitário “14th arrondissement”, dirigido por Alexander Payne, em que uma funcionária do correio americano narra sua estadia de uma semana em Paris, que o público testemunha a melhor, mais sincera e mais emocionante homenagem de amor à cidade luz. Não se engane pelo início algo ordinário do segmento – a história ganha emoção cada vez maior à medida que avança para o seu fim.
A australiana de nascença e alemã de criação Justine Electra foi uma das estréias européias das mais elogiadas em 2006. Ainda assim, ela permanece quase uma completa desconhecida, mesmo na internet e nos circuitos mais indies, onde o último grito alternativo nunca passa despercebido. Estranho, já que ela é uma compositora inventiva e sofisticada, como podemos perceber pelos variados estilos das melodias presentes em Soft Rock: enquanto “Fancy Robots”, em que a cantora clama pela vinda de robôs imaginários, é uma balada pop/rock com vocal adocicado, violão de coloração folk a programação eletrônica – que preenche todos os espaços restantes da canção – que deixam um gosto de anos 90 no ouvido, “Blues & Reds”, onde a cantora reclama de um papagaio de pirata que vive à sua sombra, tem nos seus ruídos e estalos low-fi, samplers de gaitas e violões abafados algo de blues e de country e “Calimba Song”, por outro lado, radicaliza ao utilizar unicamente o instrumento que lhe dá nome para a melodia de uma canção que fala sobre as amarguras da paixão. Mas os ímpetos mais experimentais, que não se resumem à “Calimba Song”, conseguem deixar espaço o bastante para outros em que a audácia foi um pouco mais balanceada.Em “Killalady”, com guitarra de acordes minimalistas e espaçados, saxofone de notas graves e vocais que constrastam o sensual e apaixonado ao fundo com o suave e resignado no primeiro plano – e recorda o momento em que surge a paixão mas não deixa de citar coisas que irritam as garotas – e “Autumn Leaves” que alterna delicadamente, com a ajuda de texturas hipnóticas no violão e na programação eletrônica, um verso quase mântrico com um vocal melancólico onde momentos doces do passado, intensamente marcados pela alternância sazonal, ganham vida, Justine Electra consegue desenha melodias que unem a ânsia avant-garde com a linearidade harmônica menos intrincada.
Minha adorada e idolatrada Emily Haines, à frente de sua empreitada coletiva, o Metric, é retratada em alguns breves momentos no vídeo que o diretor Jaron Albertin fez para o single “Empty”, do último disco do grupo. Para o clipe, o diretor decidiu retratar vários aposentos de uma casa, todos com sua mobília e objetos bagunçados e jogados por todos os lugares. Os objetos vão lentamente retornando aos seus lugares, só então descobrimos que os membros da banda estão espalhados por cômodos da casa – a inspiração vem de outros vídeos, com certeza, mas a idéia foi muito bem reciclada.
A banda formada pela também atriz Juliette Lewis exala aroma rock tanto em sua atitude quanto na musicalidade – o que, já há algum tempo, não é necessariamente algo coincidente. Juliette encarna nos vocais e na performance toda a ousadia e audácia de uma legítima representante do movimento – algo que o público já poderia vislumbrar mesmo em suas performances como atriz. As composições de Lewis para sua banda também respondem perfeitamente ao gênero, sempre velozes e furiosas. “Smash and Grab” já abre o disco em velocidade acelerada, com bateria, guitarra, baixo e vocais tão adrenalínicos quando a busca desenfreada e inconsequente por amor e emoção que os versos retratam. A faixa seguinte, “Host Kiss” traz uma parede de guitarras sobre bateria cadenciada e vocal sexy e rascante para sonorizar a letra que mostra uma mulher cuja volúpia e sede sexual excedem as de seu companheiro. “Killer” dispara com rapidez ainda maior seus acordes de guitarra e golpes de bateria, tornando a letra, que compara a voracidade de um homem por mulheres à de um assassino por vítimas, ainda mais frenética, alucinada e irônica. “Bullshit King”, que fala sobre as armadilhas de um homem cheio de charme mas que não vale nada, também investe na rapidez da bateria e das guitarras, mas o delicioso riff utilizado fora do refrão da música dá uma maior elasticidade as guitarras na melodia. Diferentemente de grande parte do disco, “Get Up”, uma ode ao rock e à luta pelo que tanto queremos na vida, tem melodia menos ácida e mais sinuosa, com guitarras de acordes malemolentes e espaçados e bateria gingada que lembram o blues rock do Rolling Stones.