Com um videoclipe arquitetado pela companhia Canada, que apesar do nome é baseada em Barcelona, a cantora espanhola Rosalía parece querer fazer bastante barulho para seu próximo disco, Lux, a ser lançado no início novembro. O vídeo do single “Berghain” alterna momentos da rotina mundana da personagem, que aparentemente trabalha como diarista, sendo inusitadamente acompanhada por todos os lugares pelo corpo de músicos da London Symphony Orchestra e um coral completo, ambos em plena execução de suas funções na canção, e sequências mais crípticas e surrealistas, como um pássaro que canta na voz de Björk (uma das convidadas para a canção), um cervo que verte sangue pelos olhos e adquire feições humanas enquanto o americano Yves Tumor faz sua participação na faixa, até encerrar-se com a cantora na cama, transmutada em uma pomba branca que levanta-se voando. É difícil tentar tirar significados para todas as imagens criadas pelo diretor Nicolás Méndez, mas é possível entender que na narrativa a personagem sofre de algum mal cardíaco, podendo ser literal, haja visto a sequência no médico onde faz um exame do coração, ou metafórico, já que o objeto que conecta toda a narrativa é justamente uma jóia dourada em formato de coração, que ela examina para penhora em uma das cenas. Há também referências fáceis de captar, como o conto da Bela Adormecida na sequência onde a artista contracena com animais selvagens em um quarto decorado como uma floresta, e outras que apenas os mais experientes podem perceber alguma influência, afinal de contas, para mim, um fã absoluto do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, é difícil não enxergar a brevíssima sequência do cubo de açúcar, suspenso acima de uma xícara de café e lentamente sendo umedecido pela bebida, como uma referência discretíssima a “A Liberdade é Azul” – mesmo a enfermidade cardíaca e a sequência do exame podem ser vistos como referências a outro filme do mestre polonês, “A Dupla Vida de Véronique”. Porém, muito provavelmente eu esteja querendo enxergar demasiada profundidade em um vídeo de uma artista que eu confessadamente não tenho grande intimidade, mas cujo trabalho até então não deixava dúvidas de que se encaixa no que há de mais pueril e mainstream.

Confesso, no entanto, que a faixa “Berghain” é ambiciosa e diverge radicalmente da qualidade do que Rosalía lançou até hoje: sobre o coral escandalosamente épico e o virtuosismo barroco das cordas e percussões da London Symphony Orchestra, a cantora espanhola dá o melhor de si para incorporar uma soprano na interpretação da sua vida, tudo cantado em alemão. Calma, isso é só o início: voltando-se para seu espanhol nativo, Rosalía derrama-se em um canto sofrido e mergulhado em emoção, enquanto coral e orquestra adornam em matizes cinematográficas suas confissões de amor incondicional, ilustrado nas letras pelo cubo de açucar desmanchado-se em café. Achou excessivo? Segura a peteca, que em seguida entra Björk divagando sobre a intervenção divina ser a única capaz de salvar este amor. Nossa, que drama! Acabou? Não, por último o americano Yves Tumor surge para, junto de alguns versos vulgares que não chegam a estragar todo roteiro anterior, concluir a canção com ruídos e distorções no vocal que conferem ares mais modernos e urbanos para a faixa. Sim, “Berghain” é uma overdose teatral e a mistura de musicalidade erudita e contemporânea está longe de ser uma impactante novidade, mas eu estaria mentindo se eu dissesse que todo esse melodrama pungente não é viciante.
Baixe:
Rosalía – “Berghain” [feat. Björk & Yves Tumor] (single) [mp3]
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