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Tag: america do norte

The Watson Twins – Talking to You, Talking To Me. [download: mp3]

The Watson Twins - Talking to You, Talking To MeQuando espiei – bem superficialmente e sem muita atenção, confesso – o álbum que Jenny Lewis lançou em colaboração com as irmãs americanas Chandra e Leigh, a sonoridade escolhida não me despertou interesse por estar fortemente calcada na música country. Felizmente, porém, isso mudou sensivelmente no primeiro álbum lançado pelas garotas e, para minha surpresa, ao conferir o comentário do meu amigo via Twitter sobre o novo álbum da dupla, neste o estilo foi ainda mais destilado. Há uma ou outra faixa que ainda não escapou do domínio do country, caso da balada macia e “Tell Me Why”, com violões, bateria e piano conduzindo uma melodia meiga que é regida pelo vocal das duas irmãos afinado com o romantismo da música, mas a frequência sonora de Talking To You, Talking To Me invade mesmo é a fronteira do rock ao trazer composições onde o country só entra para inserir o principal tema do gênero – o amor – e para lançar vapores delicados nas melodias caprichadíssimas, algumas delas rescindindo uma sensualidade suave e discreta, apesar de que em “Midnight”, ainda que esta seja introduzida por uma soberba escalada sonora com o piano de acordes quentes e a bateria, seguindo com um orgão de longas notas lânguidas, guitarra de cadência pausada e lenta e vocais doces para compor uma melodia vagarosa e sexy, é a sequência mais vigorosa que fecha a música que acaba por conquistar o ouvinte: os instrumentos sustentam um longo gemer freemente que bem poderia servir de trilha para uma cena de sexo cheia de paixão com flashes de roupas sendo arrancadas e jogadas pelo ar. “Devil In You”, contudo, carrega um teor sensual bem mais sutil no compasso marcado pela bateria, baixo e guitarra de volteios cíclicos, piano dedilhado em toques breves e ocasionais e orgão que lança notas de um erotismo elegante.
A marca mais evidente das criações das irmãs gêmeas, porém, é a delicadeza. “Modern Man”, faixa que abre o disco com um rítmica mais puxada, é encoberta por essa feição equilibrada na bateria escandida em um trotar curto e ligeiro e em sua guitarra cujas notas reverberam discretamente por todo o arranjo, lançando um calor metálico na atmosfera da canção. “Brave One” também tem bateria veloz, mas a guitarra e os violões não ficam para trás, acompanhando os passos curtos porém rápidos da música base que é atravessada pela sintetização quase infantil que cintila pontuando a melodia. Por sua vez, “Harpeth River” tem a alma musical dividida entre o pulso sensual do orgão e da guitarra de arfantes notas ásperas e a agitação triste do arranjo mais espesso da bateria que acompanha o refrão. Já “Calling Out” não se divide em momento algum, calcando-se com segurança no gingado discreto da bateria e guitarra, colocando o orgão para fazer o papel coadjuvante numa melodia que parece ter sido encomendada para servir de fundo à troca de olhares entre duas pessoas em cantos opostos de um bar e separados por uma pista cheia de casais embalados pelo toques afrodisíacos da canção. Fechando o disco, as irmãs tingem a bateria, guitarra e violões de “U-N-Me” com um fluxo pop/rock cheio de energia e luminosidade, lançando suas vozes de modo decidido no refrão e nos vocais de fundo encantadores e botando pilha no piano e no pandeiro sem pele que vibram na rítmica efusiva da bateria.
Foi um bom negócio trocar as referências musicais após a colaboração com Jenny Lewis. O rock que produzido pelas irmãs Watson, que começou a ser injetado já no álbum anterior, trouxe frescor contemporâneo à sua música, flexibilizando suas potencialidades artísticas e ampliando o círculo de fãs e admiradores da dupla. E isso tudo sem comprometer a integridade do trabalho já feito, uma vez que a verdadeira essência musical das irmãs é a sonoridade delicada, e não a fidelidade à um gênero musical específico. Ao que parece, o country está perdendo duas belas representantes, mas o rock com certeza não se incomoda nem um pouco de lhes dar as boas-vindas.

P.S. – não deixe de ler também o texto que o Zé escreveu no seu blog sobre este álbum.

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Ok Go – Of the Blue Colour of the Sky (+ 1 faixa bônus). [download: mp3]

Ok Go - Of the Blue Colour of the SkyO hype e o conceito do “viral” são coisas que irritam como poucas – ao menos a mim. Se é o filme mais faladinho, o vídeo mais twittadinho, a banda mais conceituadinha no circuito alternativo ou na cadeia auto-declarada e auto-alimentada dos blogueiros mais badaladinhos da web, podem ter certeza que eu vou esperar muito tempo pra ver qual é a dessas coisas todas – isso se eu realmente me dispor a conferir. Essa foi a razão que levou meus ouvidos a realmente dar confiança à banda Ok Go só nas últimas semanas, anos depois de todo o burburinho gerado por conta dos clipes das canções “A Million Ways e “Here It Goes Again”, que agora sim verifiquei serem realmente muito bons. Naquela que foi uma das raríssimas oportunidades em que tentei embarcar no hype, confesso que até tentei espiar qual era a da banda na época de toda a falação gerada pelos vídeos. Baixei o disco Oh No só para ver que então a banda não me convencia mesmo – depois de apenas algumas poucas audições que não me arrebataram o álbum ficou empoeirando até ser devidamente eliminado da minha bliblioteca de mídia. Só fui voltar meus olhos para os quatro rapazes americanos no meu ciclo mais natural de descoberta e experimentação: vi a capa do novo álbum em uma online store britânica que sempre visito, achei o nome do disco tão interessante quanto a imagem e assim despertada minha curiosidade, resolvi ver qual era a do Ok Go desta vez.
Of the Blue Colour of the Sky ainda sofre do mesmo mal que me afugentou da banda nos discos anteriores. Músicas como “End Love” e “Before The Earth Was Round” não me dizem coisa alguma, soando um tanto anêmicas e repetitivas. A melodia da primeira não é um completo desastre, mas as suas feições algo atonais soam ásperas nos ouvido; já a segunda apresenta no vocal distorcido por sintetização e nas suaves farpas eletrônicas vapores do que há de mais aborrecido nos conterrâneos do The Flaming Lips. E me parece que a banda de Wayne Coyne inspirou ainda outros momentos deste álbum, já que as duas últimas faixas do disco também emanam uma suave psicodelia semelhante à das composições do Flaming Lips. Nelas, porém, o resultado é bem mais favorável: “While You Were Asleep”, consegue soar muito mais agradável com a sua tecitura delicada de sintetizações suaves em uma melodia quase sonolenta pontuada por “claps” e bateria preguiçosos com alguma percussão ocasional, encerrando-se em ruído que some rapidamente e conecta-se aos acordes solitários e breves de piano que introduzem “In The Glass”, que prossegue em uma espécie de sequência melódica, mas em um ritmo consideravelmente mais ligeiro e com uma instrumentação mais farta composta por um orgão sustentado em acordes longos e nervosos, bateria, baixo e sintetizações em uma cadência um tanto hipnótica. As várias camadas de vocais que ecoam sem vergonha ao longo de “Back From Kathmandu”, junto com a bateria, percussão e violões de acordes secos que sofrem alterações cíclicas em sua síncope firme atravessada por guitarras, orgão e sintetizações pontuais também dão à esta canção algumas feições do que a banda que criou Yoshimi Battles The Pink Robots já fez de melhor.
Mas o que há de realmente fabuloso em Of the Blue Colour of the Sky é influência de um outro artista, este ainda mais estranho e singular: o cantor e compositor americano Prince. As melhores e mais viciantes músicas do disco foram embebidas em elementos bastante característicos do cantor pop americano, indo da incorporação mais sutil à mais rasgada. “WTF?”, que abre o disco, emula o falsetto tão simbólico de Prince, que sempre cantou escorado em uma sensualidade quase tátil, mas os riffs escandalosos da guitarra que brincam com a cadência vibrante da bateria também são a cara de grandes hits de artista que já recusou-se até mesmo a ter um nome. A deliciosamente dançante “White Knuckles”, não apenas continua tirando proveito de uma infinidade de riffs e solos de guitarra caudalosos, mas também põe na dança uma programação eletrônica gingadíssima que convida a sacudir todas as partes do corpo e escancarar de vez acompanhando os versos sem receio. “I Wan’t You So Bad I Can’t Breath”, que pisa no freio com guitarras, baixo e bateria em uma melodia um tanto mais tranquila e lenta, não emula tanto o estilo de Prince, mas ainda incorpora algumas feições, como o vocal entrecortado por gemidos exasperantes. Em nenhuma destas músicas, porém, o vocalista vai tão longe quanto na espetacular balada “Skyscrapers”: vertando melancolia no orgão taciturno e jorrando sensualidade na sintetização de cordas, nos acordes da guitarra e na cadência lânguida do baixo e da bateria, a música conta com um Damian Kulash completamente tomado pelo espírito de Prince, exibindo todo o potencial de sua voz sem o menor sinal de vergonha de que seu cantar meio sussurado e seus gritos e gemidos ultra lancinantes soem como os estertores eróticos de um virgem sendo possuído sem piedade na sua primeira noite – se você acha que estou exagerando, ouça você mesmo. Tenho quase certeza que o teor assumidamente pop e o caráter um tanto lascivo destas canções deve ter assustado os fãs da banda, mas foi justamente esta nova trilha aberta pela banda americana que capturou a atenção dos meus ouvidos. Se a passagem não for apenas temporária ou se ainda outras, que levem a lugares ainda mais diversos, forem abertas, certamente que os rapazes do Ok Go vão conseguir surpreender gente até menos credúla do que eu. Vamos torcer!

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“A Última Noite”, de Don McKellar. [download: filme]

A Última NoiteNas últimas horas da existência do planeta, vidas de anônimos que encaram e se preparam de diferentes modos para o destino final da Terra são cruzadas em uma Toronto que se divide entre o caos e a tentativa de manter a normalidade.
O pressuposto do argumento original do ator e cineasta canadense Don McKellar para sua estréia no comando do set de filmagens é lugar-comum do cinema catástrofe arrasa-quarteirões hollywoodiano, mas seja por conta da restrição orçamentária – algo visível na falta de apuro técnico, como se percebe na direção de fotografia – ou por ter sido sua intenção já desde o início, ao invés de colocar o impacto visual da tragédia concebida pelo seu argumento como principal (senão o único) atrativo, o evento é utilizado apenas como provocador do desvendamento do lado humano do acontecimento pela revelação do comportamento de alguns personagens frente ao fim inevitável da sua existência e de toda a humanidade. Esta abordagem que apoia o filme em seus elementos não-técnicos bebe direto na fonte do cinema independente, já versado na estratégia de explorar um microcosmo de pessoas inseridas em um dando evento como analogia representativa de toda a humanidade, mas isso não é garantia alguma de sucesso na empreitada – pelo contrário, o esforço todo pode desaguar em um filme tão insípido e raso quanto aquele que se escora puramente nos seus efeitos visuais. Em filmes que seguem esta concepção, é a composição de personagens interessantes que injeta nas produções o interesse necessário, e este é um elemento certamente presente em “A Última Noite” – a breve porém enormemente inusitada declaração de uma personagem periférica, uma senhora que já está nos seus 70 anos, ao ouvir o corriqueiro lamento sobre como morrer é cruel para crianças, por terem vivido tão pouco, é um exemplo do tom inusitado presente na composição dos personagens no roteiro. São, porém, duas outras idéias que compõe a narrativa que concedem ao filme seu particular status de interesse. Primeiro, a decisão de retratar na história não somente as últimas horas de existência da Terra, em um cataclisma que tem hora precisa para acontecer, mas delinear um evento irreversível do qual a humanidade tem conhecimentos prévio há muitos meses – esta idéia em particular é o trunfo do processo que revela o que há de mais oculto nos personagens ou que reafirma as características já visíveis de seu comportamento. Não de modo independente, mas como um processo paralelo e derivado da idéia anterior, o evento assim descrito constrói uma inversão peculiar do conceito que fazemos de comportamentos e situações normais e coerentes: diante do fim irreversível de tudo que existe, preocupações prosaicas, antes relevantes, como a atenção à dieta alimentar ou à prestação de serviços essenciais, tornam-se singularmente bizarras e extravagantes, enquanto o extravasamento de condutas inconsequentes, libertinas e anárquicas passam a ser um padrão compreensível, mesmo que muitas vezes ainda seja condenável.
Os elementos da narrativa de “A Última Noite” mostram que Don McKellar tem franca capacidade para a composição de idéias curiosas, quando não bastante surpreendentes, na composição de um roteiro original, mas não há elementos suficientes na administração dos aspectos técnicos nem no desempenho do elenco para afirmar em Don McKellar um talento nato para a direção. Com isso, o diretor acaba por desperdiçar aspectos que, se bem administrados, serviriam para alçar seu filme para um maior status de excepcionalidade. Contudo, as boas idéias existentes na história por ele criada ainda concedem ao seu filme o conhecido charme do cinema independente.

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legendas (inglês):
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Ariana Delawari – Lion of Panjshir. [download: mp3]

Ariana Delawari - Lion of PanjshirComo a maior parte das coisas na internet, chega uma hora que você acha uma utilidade pra tudo e acaba simpatizando com os serviços, até alguns que causam pré-irritação por conta do hype. Vejam só que coisa: eu cheguei a repudiar blogs – faz muito tempo, obviamente. Agora foi a vez do Twitter. Minha implicância com o serviço era pública – falei sobre isso em um post há alguns meses aqui no seteventos.org -, mas eu decidi que era hora de tentar encontrar a graça do serviço – e acabei encontrando. Foi vasculhando perfis aqui e acolá, tentando entender a dinâmica da coisa toda, que dei de cara com o Twitter de David Lynch. Sim, o próprio, o lendário criador de algumas das coisas mais estranhas da TV e cinema americanos. O fato por si só já despertou meu interesse, mas acabei ficando um tanto desanimado ao ver que o lado místico do diretor o fazia postar mensagens do gênero no seu perfil. Mas como muitos fazem no serviço, David solta uma ou outra dica nas suas mensagens, e resolvi clicar e conferir uma delas, sobre Ariana Delawari, uma cantora cujas feições denunciam uma herança meso-oriental e, descobri depois, que foi apadrinhada pelo diretor e teve seu primeiro trabalho financiado pela produtora de Lynch.
Ariana, que já se apresentava em shows há algum tempo, era antes conhecida pelo pseudônimo Lion of Panjshir, termo que servia de nome de guerra – literalmente falando – a um estudande de engenharia afegão que se tornou um dos maiores heróis do país ao liderar a resistência contra o exército soviético na tentativa de invasão destes ao Afeganistão e que, anos depois, foi assassinado dois dias antes da ocorrência dos ataques de 11 de Setembro. Durante a produção deste seu primeiro disco, a artista trocou o papel exercido pelo pseudônimo, adotando-o como o título do trabalho, atitude que sinaliza a presença de uma inevitável carga política no álbum. Mas apesar de que as referências aos imensos problemas enfrentados pela sua terra-mãe acabem sendo relevantes e funcionem bem nas canções, é o seu caráter sonoro que desperta a atenção. Partilhando tanto da influência ocidental quanto da herança afegã, Ariana apresenta e funde no seu primeiro disco as diferentes identidades musicais das duas culturas, compondo tanto canções que pertencem à uma quanto à outra, bem como criando melodias multi-culturais, que misturam elementos destas e até de outras culturas. As feições woodstockianas de “San Francisco”, introduzida com a placidez melódica do folk que logo reverte-se em uma música onde as guitarras tropejam acordes ligeiros para acompanhar a bateria cuja cadência segue um transe imutável, transpirando uma sonoridade que remete a trilhas do cinema faroeste enquanto Ariana guia os versos em um cantar revestido de tenacidade e audácia são certamente fruto de toda a carga musical que a artista recebeu em sua criação nos Estados Unidos. Também descendem da tradição ocidental o piano de registro grave e baixo e as cordas e sopros que florescem em meio a melodia de “We Live on a Whim”, assim como a melancolia e abandono despertados pela vocal e pelos acordes entre esparsos e ligeiros de “We Came Home”, canção que fecha o disco. Já “Laily Jan” pertence de corpo e alma à sua ancestralidade afegã, pois não apenas é cantada na sua língua de origem mas exibe todas as colorações da música tradicional do país, com direito à toda sorte de instrumentos típicos encadenciados em uma melodia folk-étnica. Com a introdução climática de um rabab que vai aos poucos ganhando a companhia de contínuos acordes de cítaras e dilrubas e a percussão hipnótica das tablas em um crescendo de densidade melódica e rítmica, “Singwind” também partilha do espírito musical do país asiático, porém recebe um sutil tempero ocidental ao ter seus versos cantados em inglês na bela voz da cantora. E é exatamente ao fazer uso da feitura mais multi-cultural de sua personalidade que a cantora acaba construindo o momento mais inspirado do disco, “Be Gone Taliban”. Com uma melodia enormemente imagética, a canção mistura o efeito ritualístico do conjunto de instrumentos afegãos com o dinamismo cinematográfico do arranjo de cordas exasperantes e do cantar repleto de emoção, pontuado por cânticos de feições religiosas. O resultado é uma música de atmosfera intensamente épica e de coloração fascinantemente luminosa.
Se a empreitada musical de Ariana tiver proseguimento, haverá ainda um bocado a ser lapidado e agregado no seu trabalho com as melodias, já que por vezes elas soam obtusas e opacas, porém os momentos mais frutíferos deste seu primeiro lançamento comprovam seu talento e perícia em criar canções exuberantes e sedutoras para os ouvidos. Basta apenas a ajuda do tempo e o auxílio de um produtor mais experiente e versátil para que a artista encontre o foco e consiga buscar e aliar o melhor das culturas tão diversas que convivem dentro dela própria.

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“A Família Savage”, de Tamara Jenkins. [download: filme]

The SavagesOs irmãos Wendy e Jon, ele um professor universitário às voltas com a produção de seu livro sobre Bertolt Brecht e ela ocupada com sua constante tentativa de obter financiamento para lançar sua peça de teatro, tem que repentinamente arranjar uma forma de lidar com o pai idoso com o qual pouco contato tiveram depois de uma infância de abusos.
O trama de “A Família Savage”, em teoria, preencheria todos os pré-requisitos necessários para que a maior parte dos cineastas lhe concedesse tratamento tipicamente ordinário, encobrindo o argumento com megatons de pieguice e sentimentalismo pegajosos. Felizmente essa não foi a idéia que a diretora, que também se encarrega do roteiro, teve de sua história. Sob a ótica de Tamara Jenkins, os dramas dos irmãos Savage, que tem que arranjar abrigo para o pai que demonstra repentinos sinais de demência e que muito pouco de felicidade lhes trouxe na infância, ao mesmo tempo que lidam com seus próprios problemas e reativam a sua relação um tanto competitiva, ganham apenas contornos sutis, passando ao largo de qualquer possibilidade de que estas mazelas sejam tingidas com a coloração folhetinesca para angariar da maneira fácil a empatia do espectador pelos seus personagens e pela história que carregam consigo. A diretora, ao contrário disso, estende esta abordagem sóbria por todo o longa-metragem, filtrando prontamente todas as situações potencialmente dramáticas para que soem o mais natural possível, inclusive temperando-lhe com doses homeopáticas de humor. Ao contrário do que se possa esperar, esta atitude de restringir a maior parte do trabalho em si e nos atores, despojando a encenação da trama de artifícios típicos do gênero, como trilhas sonoras e planos de câmera estudados, não só a aproxima muito mais da realidade e, portanto, do espectador, como a diferencia de outras histórias do gênero. Este podia ser apenas mais um filme sobre pessoas que por força da situação reencontram o senso de família, porém, diferentemente dos dramas badalados que acabam ganhando o foco dos holofotes e o apreço de premiações do cinema, não é através de sequências escandalosamente sentimentais e de um desfecho catártico ou que organiza estes personagens em uma idéia pré-concebida do que é uma família na qual as pessoas se amam e se preocupam uns com os outros que o público é conquistado – forçosamente. É paulatina e sorrateiramente, com economia e discrição, sem pressa e sem muitas surpresas, que Jenkins e seus atores arrebatam de modo efetivo e duradouro o espectador, que só ao final da história se dá conta de estar completamente rendido aos Savage e sua condição sempre imperfeita de família – e assim, as lágrimas, que com certeza surgem na brilhante cena carregada de simbologia que fecha “A Família Savage”, apesar de rolarem e secarem como todas as outras, tem um efeito muito mais profundo do que aquelas que nascem da pirotecnia sentimental de outros longa-metragens do gênero.

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legenda (português):
http://legendas.tv/info.php?d=b6bd6205f9456994e87a0dd23b075481

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“Firmin”, de Sam Savage

firmin-2008-livro

Firmin é um rato nascido de uma ninhada de treze outros de uma mãe alcoólatra e boêmia e criado no porão de uma livraria em um bairro antigo de Boston. Foi do contato com as páginas de livro roídas que formavam o ninho da família e sua fonte inicial de alimento que o pequeno roedor adquiriu a capacidade da leitura, maravilhando-se com o mundo de histórias contadas e criadas pelos homens. Encantado, Firmim sonha comunicar-se com eles para adentrar no seu mundo complexo e fascinante.
“Firmin”, primeiro livro publicado por Sam Savage, conta a história da demolição do distrito que cercaneava a praça Scollay, repleto de pontos de entretenimento, num bairro tradicional da cidade de Boston que foi aos poucos deteriorando-se até ser considerado pelos administradores da cidade um subúrbio marginalizado. Contudo, a ruína do bairro, a bem da verdade, é o pano de fundo para a narrativa apresentada em primeiro plano, a história do ratinho Firmin, cuja singularidade contraditória serve de analogia ao próprio distrito de Scollay: dotado da capacidade de leitura, adquirida pelo contato com páginas roídas que lhe serviam de berço e alimento, Firmin afasta-se das inflexões básicas de animal irracional e nutre afinidade com os humanos pela sede por informação e pela capacidade imaginativa que com estes partilha, assim como pela admiração que alimenta pela beleza feminina exposta em filmes do mais alto até o mais baixo nível. As suas particularidades “humanas”, porém, não superam aquela que é um dos traços mais representativos que rege o comportamento dos ditos seres irracionais: a ingenuidade. É por isso o pequeno roedor fantasia estabelecer de algum modo comunicação com os humanos para poder dividir com estes o amor que tem pelo seu mundo de conhecimento, mesmo tendo consciência de viver uma condição muito distante daquela que pertence aos seres que tanto admira, e que não apenas o impede de poder falar com os seres humanos, mas o impossibilita também de realizar todas as coisas que sonha poder. É por isso que essa inteligência incomum à constituição de seus iguais acaba funcionando para o ratinho mais como um imenso fardo do que uma benção, mergulhando-o em ilusões que nunca poderá fazer reais e em ambições impossíveis de ser atingidas.
Assim, a história criada por Sam Savage, por narrar os infortúnios de um protagonista que tem consciência de suas limitações, e também a ruína do bairro que é seu lar, revela já nas suas primeiras linhas a sua natureza duplamente melancólica, tonalidade esta que vai se intensificando a medida que o distrito de Scollay vai se aproximando de seu destino inevitável. Ao final, ao testemunhar a devastação do local que aprendeu a amar em cada detalhe, por mais vulgar que fosse, o pequeno ratinho acaba também tendo consciência de que seus desejos nunca se tornarão realidade e, arrasado, recolhe-se naquele que foi o lugar onde conheceu o mundo – o seu e o dos humanos que tanto o fascinavam. E o leitor, tendo ele próprio observado a trajetória deste pequeno grande personagem, acaba a última linha do livro tão arrasado quanto o próprio Firmin.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005