A moça de voz macia e cabelo farto nascida no Mato Grosso, Vanessa da Mata, com apenas dois discos lançados, conquistou espaço na MPB e já consagrou seu nome como uma compositora e intérprete de sangue azul no atual painel de nossa música. Com o lançamento de seu mais novo disco, Sim, Vanessa prossegue aplicando modificações gradativas em sua música, sem perder sua identidade musical particular. A maior novidade neste disco é a aromatização de algumas faixas na tradição do reggae, sempre de maneira elegante e respeitando o método de composição da cantora, bem como seu modo de cantar. Tanto na simplicidade de “Vermelho”, em que a cantora compara o aconchego e as dores do amor ao calor desta cor, na deliciosa balada “Ilegais”, onde a artista comenta sobre a paixão que insiste em esconder, vontade esta traída pelo desejo fremente que seus corpos denunciam, na fraca e desnecessária “Absurdo”, faixa de protesto que critica à ação humana contra a natureza, quanto no suavidade de “Boa Sorte/Good Luck”, com letras que falam sobre como uma relação chega ao seu limite, conseguimos reconhecer de modo inequívoco a cadência inconfundível do ritmo jamaicano. Mas se o reggae surge encaixado no modo da artista, o bolero, adotado por Vanessa na faixa “Meu Deus” surge da maneira mais tradicional: na letra, que não economiza no romantismo, a cantora fala sobre um homem deslumbrante que a conquistou de maneira avassaladora com sua luxúria e seu jeito forte. Já “Pirraça”, qualquer que seja o modo como a própria Vanessa tenha descrito seu ritmo – carimbó, juju, cumbio -, é das melhores faixas de todo o álbum: impossível não se identificar com a ironia de suas letras, que descrevem a sensação de que o tempo brinca com nosso cotidiano, voando nos momentos mais prazerosos e arrastando-se nos instantes mais maçantes, e com sua melodia tão bem apurada que, a revelia de qualquer relação que a artista tenha feito com ritmos mais exóticos, me soa como um calipso (por deus: falo do gênero, não “aquilo” que temos no Brasil!) menos esquizofrênico – e notem o cuidado com que a a percussão foi planejada, lembrando o ruído de um relógio, quase sempre um tanto surdo mas que também nunca passa despercebido. “Você Vai Me Destruir”, onde a cantora comenta os desejos conflitantes de paixão flutuante e ódio exacerbado despertados pelo amor um tanto displicente de um homem, é mais rockeira – mesmo com suas traquinagens eletrônicas e percussivas. Pra não deixar barato nos ritmos variados que povoam o disco, a canção em que a cantora ironiza o fim de uma relação antes tão calorosa, “Fugiu Com A Novela”, pisa brincalhona no terreno sempre gostoso do samba-bossa. Como se não fosse o bastante, “Minha Herança: Uma Flor” é uma daquelas canções de amor de Vanessa que, sem nenhuma pretensão e com toda sua placidez e simplicidade, consegue causar arrepios, tão plena é sua beleza.
Claro que Vanessa da Mata é a principal responsável pela qualidade do disco, mas seria díficil falar de Sim sem comentar a produção tão primorosa e competente de Kassin e Mário C., capaz de transformar “Baú”, uma faixa meio improvisada que surgiu de última hora, em algo excepcional. E é na companhia destes produtores e de músicos inspiradíssimos que a matogrossense consegue trafegar pelos variados ritmos de Sim sem abandonar a essência de seu trabalho como compositora e letrista. É, depois de uma estréia excelente, onde marcou muito bem qual era seu território dentro da rica e variada tradição da música brasileira, e depois de soltar um pouco mais as melodias de suas composições no terreno do pop em Essa Boneca Tem Manual, valeu a pena esperar por este terceirdo disco da artista, que com monossilábico título mostra que ela já percente ao primeiro escalão da música do Brasil.
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2 Comentários
Apesar de ser uma figura extremamente importante na história da MPB, Ney Matogrosso não está entre minha preferências. É fácil observar isto, visto que não eu não tinha nenhum álbum do artista no meio de minha coleção de CDs – até ontem. Ney, que vinha há muito tempo fazendo discos em que regravava uma pá de músicas de compositores reconhecidos, conseguiu com Vagabundo, execelente disco feito em parceira com Pedro Luís e a Parede, dar uma bela atualizada na sua carreira. O álbum começa com a deliciosa “A ordem é Samba”, música que fala sobre a importância deste ritmo em algumas regiões do país, e guiada por belos acordes de guitarra e excelente jogo de violas e percussão. “Seres Tupy” aborda, de maneira esplêndida, o universo dos miséraveis brasileiros. A melodia, assim como na primeira faixa, faz excelente uso de acordes cadenciados da guitarra, percussão e ótima participação de flauta. Em “Interesse”, temos mais uma percussão que se destaca, além dos metais que constroem a agitada sequência final da melodia. A letra é feita de versos em que alguém agradece, sem pena e com todo o orgulho, o desinteresse de um amor que não é mais cômodo. “Assim Assado”, clássico do Secos & Molhados, é uma boa regravação, mas fica aquém da versão original. “Noite Severina”, com melodia mais silenciosa do que a maior parte da músicas até aqui, é uma linda balada cujas letra poética, cantada em perfeito dueto entre Ney e Pedro, revela um amante platônico que observa, atônito diante de tanta beleza e algo triste, o sono da mulher que tanto ama. “Vagabundo” começa um pouco desinteressante, com melodia de samba pouco ortodoxa – pelo uso dos sopros rascantes do sax – mas cresce na sua metade final, quando entram os versos de negação de Pedro Luís. A percussão e bateria fortes são o que chama a atenção de imediato na melodia de “Inspiração”, assim como o alaúde árabe que aparece discreto na música. A letra é uma composição pós-moderna de versos que tratam do esforço criativo humano. “Disritmia”, uma das coisas mais belas já compostas por Matinho da Vila, ganha uma versão poderosa, ainda que algo minimalista e sorumbática, e cantada de forma esplêndida por Ney Matogrosso e Pedro Luís, acompanhados pela banda, inspiradíssima no uso do naipe de pratos e demais instrumentos. Em “Napoleão” temos uma letra irônica e divertida sobre o fim dos soldados deste governante francês. A melodia abusa do triângulo e da ótimo percussão, deixando no ouvido um gosto de música nordestina. A letra de “Jesus” trata do profeta cristão de maneira irônica – mas respeitosa – ao garantir que este não hesitaria em se render à dança ao ser retirado da cruz, bem como brinca com o uso que todos fazemos do nome de Cristo, ao quedarmos diante de qualquer adversidade. A melodia é agitasídíssima, com violões ligeiros e percussão alinhada com estes. “O mundo”, cuja letra revela a diversidade cultural e racial do mundo com versos algo pueris e cita o atual estado caótico da humanidade, é uma das músicas mais conhecidas do disco. A melodia investe, na sua metade final, em uma latinidade dissonante ao construir uma sequência agitada de acordes das violas, sax e da cadência da percussão.
Apesar de não ser um fanzão de Marina, como um grande amigo meu, que se descobriu como tal ao perceber que estava sofrendo de um surto obsessivo de compras de CDs e LPs da artista, sei admitir os grandes méritos da cantora e compositora brasileira. Com a perda da potência e gradação vocal, que se acentuou há alguns anos, a cantora percebeu que suas canções deveriam ganhar em interesse melódico o que ela não poderia oferecer cantando. E assim foi que, desde O Chamado a cantora começou a compor melodias fantasticamente modernas, com uma elegância e classe ímpares. Lá nos Primórdios não é um disco excelente, mas vale pela mistura de canções inéditas e releituras de canções antigas que resultou em algumas faixas, de fato, excelentes. Um exemplo é “Três”, que apresenta a conhecidíssima construção de versos de Antônio Cícero, versos que falam de amor com uma entrega total, sobre uma soturna melodia de baixo e guitarra discreta, um baque eletrônico meio sujo como fundo, cordas sintetizadas em teclado e um piano de acordes cuidadosos, que ganha mais destaque no meio da canção. “Valeu” traz bateria e percussão acústica e sintetizada de tonalidades samba-bossa, junto com uma programação de sons delicada, assim como são os acordes do piano, que fecha a canção com toques breves mais sempre classudos ao extremo. O vocal de Marina é doce e algo sofrido, o que combina com as letras, que reclamam o sofrimento amoroso mas que, ao mesmo tempo, agradecem tudo o que já foi vivido. “Anna Bella” é um pop-rock elegante, com belo uso de guitarras, que apresenta solos mais genorosos e programação de teclados esperta, sobre o piano leve e animado. A letra, que parece uma conversa despretensiosa sobre amor, se revela, ao final, uma bela cantada. E como aconteceu em uma das canções de Pierrot do Brasil, temos nesta música uma das melhores e mais inusitadas tiradas do disco – ouça e me diga se a encontrou. “Difícil” fala sobre sexo casual e descompromissado, e apresenta uma bateria de compasso forte e seguro, com guitarras que crescem maravilhosamente ao longo da melodia, até explodir com mais vontade na sequência que fecha a canção – mais Marina que isso só mesmo com os metais de “Carne e Osso”. Os versos de protesto romântico, compostos pela própria Marina, são o retrato do abandono ao fim de um relacionamento e apresentam-se emoldurados por melodia rock agressiva, onde guitarras e baixos deixam-se usar de maneira absoluta. “Vestidinho Vermelho” é uma versão de Alvin L. para uma canção de Laurie Anderson, onde as letras são ponderações românticas e sexuais cantadas no refrão e apenas faladas fora destes. A melodia acompanha o vocal narcísico, petulante e malicioso de Marina, apresentando-se mais calma e intimista quando a cantora está falando e mais vigorosa e floreada quando ela canta o refrão. “$ Cara”, que inicia com um loop programado, logo revela melodia sonicamente forte com sua guitarra tempestuosa e bateria cheia de energia. O vocal de Marina, por vezes acompanhado por um dos músicos da banda que gravou o álbum, também está no seu melhor ao cantar os versos atualíssimos de amor e reflexão sócio-filosófica – sem dúvidas uma das melhores composições da cantora até hoje. Os remixes deste álbum estão mais elaborados: “Valeu”, em sua versão reeditada, ficou ainda melhor ao ganhar um supreendente solo de violoncelo algo nervoso e “Vestidinho Vermelho” tem melodia house-dance mais usual, mais ainda assim bem acima dos remixes normalmente produzidos.
Estórias de vários personagens se entrelaçam na sua relação com ONGs beneficentes e as falcatruas resultantes destas.
O Uruguaio Jorge Drexler foi revelado para os meios de comunicação de forma repentina através da indicação, e subsequente vitória, de sua composição, para o filme “Diários de Motocicleta”, para o Oscar de Melhor Canção. Quem é inteligente sabe aproveitar as oportunidades e reduzir um pouco mais a sua ignorância cultural. Visto que meus conhecimentos de música latina são irrisórios – e, por favor, não estou falando de Shakira -, aproveitei a ocasião para chafurdar a internet em busca de seu disco mais recente, e o maior responsável pela sua popularização, Eco/Eco 2.
E Marisa Monte renasceu. Foram anos lançando álbuns medianos ou absolutamente dispensáveis. Porém, sempre é tempo de demonstrar bom senso. E a cantora e compositora brasileira decidiu que já era hora de fazer isso. Universo ao meu redor, álbum-irmão de outro lançamento simultâneo de Marisa, é definido por ela como um disco que detém a “atmosfera do samba”. Isso é bobagem, é Marisa querendo ser pós-moderna ou pseudo-humilde, sendo que este último não cabe muito bem à ela. Se este não é um disco de samba eu não faço idéia do que poderia ser.