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Tag: andrey zvyagintsev

“Sem Amor”, de Andrey Zvyagintsev [download: filme]

loveless/nelyubov (2017)

Depois de mais uma tentativa fracassada de vender o apartamento, os pais de Alyosha, que na prática já estão separados e vivendo suas vidas com seus novos parceiros, brigam e discutem sobre o destino do garoto. Inconformado com o que escutou, Alyosha sai na manhã seguinte e desaparece.
O russo Andrey Zvyagintsev já mostrou o seu interesse por dramas familiares em “O Retorno”, de 2003, em que dois meninos são levados pelo pai, há muito afastado, para passarem alguns dias juntos. Zvyagintsev voltou seus olhos novamente para o universo familiar em 2017 e, apesar de a história não ser retratada sob o ponto de vista do menino, como ocorreu no filme anterior, a criança é a força que move o enredo de “Sem Amor”. O que não mudou, no entanto, é o realismo brutal de Zvyagintsev ao contar estas histórias.
O título do filme já entrega sua premissa: embora se possa pensar que se refira apenas ao fato de que Alyosha não é amado pelos próprios pais, ele também se aplica aos demais personagens: seja pela revelação de jamais ter experimentado o amor, seja pelo seu comportamento ou pelo mais absoluto silêncio em resposta a uma confissão provavelmente dissimulada de amor, os personagens não demonstram nutrir amor sincero, e a maior parte deles só demonstra amar a si mesmo. Nesta realidade, em que o “amor” existe apenas como moeda de troca pelo conforto material e em que as aparências importam mais do que a felicidade e os sentimentos, conexões afetivas genuínas são a exceção, não a regra. Assim, crianças, como Alyosha, tornam-se “casualidades” indesejadas no contexto da vida, e como consequência, seu desaparecimento torna-se uma trivialidade inconveniente.

loveless/nelyubov (2017) post 01
Em “Sem Amor”, Andrey Zvyagintsev usa o desaparecimento de um menino para criticar uma sociedade apática, incapaz de estabelecer vínculos afetivos genuínos

O cineasta russo, porém, não se contenta em retratar o materialismo e a indiferença de uma sociedade contemporânea disfuncional. Ele também expõe sua descrença sobre o futuro desta ao mostrar que a experiência traumática em nada mudou o comportamento daqueles nela envolvidos: Boris, o pai, rascunha na relação atual o desenho da anterior, e Zhenia, a mãe, desfruta do conforto que desejava sem o “estorvo” por quem nunca nutriu apreço. O trauma vivenciado anteriormente vira apenas mais um dissabor em uma vida dessensibilizada que já era regida pela falta de amor, enquanto a culpa é abafada pela provável negação sobre o destino final de Alyosha, o que apaga a existência do garoto, meramente sinalizada pela permanência da fita lançada em uma árvore por Alyosha no início do filme e pelos cartazes antigos com sua foto espalhados pela cidade. O cineasta russo mostra como os passantes podem dirigir um olhar passageiro aos sinais da vida do menino, mas estes vestígios são imediatamente deixados para trás em meio à rotina e ao distanciamento das pessoas em relação a um drama que não é o seu.
Em “Sem Amor”, Andrey Zvyagintsev mais uma vez demonstra com sua crueza e ceticismo que é um dos cineastas mais destemidos da atualidade: em um mundo em que a indústria cinematográfica insiste há anos em operar a partir de um didatismo narrativo e da imposição de agendas, práticas que condenam a dúvida, a reflexão, a ambiguidade e a dissidência, o diretor russo leva adiante um cinema rigorosamente realista cuja brutalidade não faz concessões nem mesmo ao seu público — certamente não é um cinema agradável, mas é essencial que continue existindo para a saúde do cinema contemporâneo.

Baixe: “Sem Amor”, de Andrey Zvyagintsev (Loveless/Nelyubov/Нелюбовь, 2017)
[áudio original, 1080p, mkv]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português

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“O Retorno”, de Andrey Zvyagintsev [download: filme]

vozvrashchenie/the return (2003)

Dois garotos russos se deparam, repentinamente, com a presença do pai que nunca viram, a não ser por uma velha foto. Sem qualquer informação sobre onde ele esteve por tanto tempo, os garotos são autorizados pela mãe a acompanha-lo por alguns dias em uma viagem. Apesar de Andrey, o filho mais velho, procurar ser o mais solícito e simpático possível ao homem que seu mãe declarou ser seu pai, Ivan, o caçula, não consegue aceitar seus modos rudes e a sua presença, depois de tanto tempo de ausência, e promove conflitos constantes com ele. Essa relação problemática vai modificar a vida dos garotos para sempre.
Andrey Zvyagintsev faz um filme russo por natureza, compondo um longa-metragem com uma atmosfera silenciosa, sisuda e pesada, fotografia irretocável e imagens cuidadosamente planejadas – qualquer dúvida das ambições “tarkoviskianas” de Zvyagintsev seria pura ingenuidade ou falta de conhecimento sobre o cinema não-americano. É certo que entre os dois “Andreis”, o diretor estreante e o cineasta genial, há toda uma filmografia de distância, e o sincretismo e simbolismo do cinema deste último dificilmente ganha paridade com algum cineasta contemporâneo, mas Zvyagintsev consegue constituir seus próprios méritos, mesmo que sua técnica, algumas vezes, irrite um pouco por parecer colada demais ao estilo de Tarkovsky, a ponto de nos questionarmos se ele tem realmente qualquer intenção de assumir-se como legítimo herdeiro da tradição de um dos maiores cineastas da história.

vozvrashchenie/the return (2003) post 01
Em “O Retorno”, de 2003, o russo Andrey Zvyagintsev traz dois meninos que se encontram repentinamente no convívio com alguém que lhes parece um estranho: o próprio pai, há muito tempo afastado

Não quero dizer com isto que o filme seja ruim, pois ele possui qualidades inquestionáveis. Uma das coisas que mais se destacam no longa-metragem é o fato de que, ao utilizar-se de um argumento extremamente seco, Zvyagintsev mostra que este não precisa ir mesmo muito além de dar base à interpretação do atores que, ao retratar o embate entre dois garotos que aprenderam a conviver sem seu pai e a vontade deste de impor sua presença de forma tão repentina, sem nenhum afeto e com modos excessivamente rudes, autoritários e alguns rompantes de violência, conseguem de forma excelente compor nas cenas conflitos tão genuínos que causam incômodo sincero no espectador – metade do interesse possível por este filme reside no que estes atores e o diretor conseguem criar a partir do roteiro árido. É notável também a estética apurada do cineasta que, apoiado no diretor de fotografia de sua confiança, consegue compor imagens de beleza inquestionável e que suscitam uma poética e simbologia que tem seu valor e efeito. No entanto, é nessa altura mesmo que Zvyagintsev começa a incomodar pela natureza de suas ambições. O diretor decidiu preservar no argumento – a cargo de Vladimir Moiseyenko e Aleksandr Novototsky – as questões em aberto e, apesar da desnecessidade mesmo de qualquer resposta para elas, visto não serem essencias para a apreciação de um filme mais baseado em sentimentos e conflitos humanos, me pergunto sobre a verdadeira necessidade de sua existência. Além disso, as imagens de forte teor estético e ainda maiores ambições simbólicas, como as sequências que retratam as duas torres vistas durante o filme, funcionam bem, mas ao mesmo tempo, e novamente, parecem por demais criteriosas em sua existência dentro do filme – talvez eu esteja sendo excessivamente implicante ao querer achar defeitos, mas a verdade é que essas duas características me soam um tanto intencionais demais, como a querer que estas ajudem a atestar uma genuína atmosfera de filme de arte europeu ao longa-metragem. O mais simples, talvez, fosse não recorrer muito a elas, visto que o trabalho conjunto do argumento e dos atores satisfaz plenamente ao espectador.
Apesar de eu terminar implicando um pouco com esta estréia de Andrey Zvyagintsev, não há como negar que o diretor é dos mais apurados tanto na sua abordagem estética quanto no concepção do tema que aborda no longa-metragem, conduzindo muito bem os atores e deixando o espaço necessário para que eles mesmos explorem as emoções da natureza desta história. Vamos aguardar os próximos projetos deste cineasta e atestar se ele realmente ambiciona adotar um cinema de composição nada trivial ou se prefere, com o tempo, concentrar-se em dissecar emoções e conflitos humanos sem, necessariamente, apoiar-se na estética e na simbologia mais sincrética, como fez tão bem Thomas Vinterberg em seu soberbo “Festa de Família”.

Baixe: “O Retorno”, de Andrey Zvyagintsev (Vozvrashchenie/The Return, 2003)
[áudio original, 1080p, mkv]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português español english

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1 comentário
O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005