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Tag: bandas

Menomena – Friend And Foe. [download: mp3]

Menomena - Friend And FoeMenomena é uma banda composta por apenas três rapazes de Portland, no estado do Oregon, e já é considerada das mais criativas e originais do cenário indie americano. E isso não é exagero: apesar de serem capazes de compor algumas faixas aborrecidas e obtusas, quandos eles acertam a mão eles criam melodias que, fazendo uso de blocos de harmonias cíclicas ou explorando o crescendo melódico, conseguem soar majestosas sem perder o traço idiossincrático indie que a banda adora preservar. Friend And Foe, o segundo disco destes rapazes tão inventivos, está repleto de incomparáveis gemas sonoras, com instrumentação e arranjos ainda mais afinados que no disco anterior. O disco começa com a faixa “Muscle’n Flo”, feita de versos que pregam o levante sobre uma vida desprovida de sentido, e melodia com vocal que se equilibra entre o cantar mais suave e o brado mais jubiloso, bateria e pratos de cadência energizante, piano de acordes agudos e cíclicos e orgão de tonalidades gospel. Já em seguida a desconcertante “The Pelican” – que utiliza este pássaro como metáfora para o egoísmo e o parasitismo social e afetivo -, que lembra muito o Supergrass, principalmente pela sua metade introdutória, com um vocal encolerizado sobre o piano de de acordes contínuos e graves, logo usurpados por uma intensa torrente de guitarras e loops de bateria que se sobrepõem de modo oscilante em pausas e fulgores melódicos suntuosos. Depois de “Wet and Rusting”, uma faixa um tanto regular, que poderia soar bem melhor com algum esforço, temos “Air Aid”, um brado anti-belicista em que o loop da bateria e percussão concede o andamento, supenso em pequenas pausas, para que piano, metais, guitarra e o baixo minimalistas construam e ganhem seus espaços pouco a pouco sobre esta base, resultando em um módulo melódico que sucede a si mesmo continuamente. Mais à frente no disco podem ser destacadas as faixas “Boyscout’n”, com letras que possivelmente referenciam à Judas e a traição de Cristo e que conta com coro de assobios ultra-jovial, arranjo de metais digno dos melhores trabalhos de Michael Nyman e guitarra, bateria, pratos, baixo e piano em exultante agitação conjunta, e “Evil Bee”, talvez a melhor faixa do disco, com um trabalho verdadeiramente impecável na programação dos loops vibrantes da bateria, da percussão e dos metais, além dos violões, guitarras e xilofones que pontuam de forma luxuosa a melodia que é construída em um crescendo absurdamente exuberante.
Mesmo soando áspero em alguns momentos, Menomena é uma banda a ser apreciada com atenção devido à perícia que esses três rapazes tem ao arranjar suas músicas, ao talento ao lidar com instrumental tão farto e ao poderio de suas composições que, quer sejam demasiadamente experimentais ou não, sempre resultam em melodias fabulosas, grandiloquentes e catárticas como poucas bandas. É o risco que se corre quando se tenta achar um caminho próprio, uma identidade única: as vezes o resultado são tropeços e tombos homéricos e em outras vezes acertos e vôos espetaculares.

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Emily Haines & The Soft Skeleton – “Our Hell” (dir. Jaron Albertin). [download: vídeo]

Emily Haines & The Soft Skeleton - Our HellMe desculpem se vou soar imparcial, se vou rasgar seda e se este vídeo não é nada demais: é simplesmente impossível eu me controlar quando se fala de Emily Haines, a única mulher até hoje que conseguiu se colocar no meu mundo musical ao lado de Tori Amos. Eu simplesmente idolatra-a, amo-a tanto quanto a fabulosa pianista americana. E achei ótimo que a artista resolveu, ao lado de seu fiel diretor de vídeos Jaron Albertin, que já deu a loira canadense o irretocável e elogiado vídeo de “Doctor Blind”, um clipe para a canção “Our Hell”, que abre seu último disco solo e é um dos pontos altos do lançamento. Jaron, assim como fez no clipe anterior de Emily, decidiu continuar explorando o horror cotidiano, mas ao contrário do que fez no trabalho anterior, em que mergulhou a artista em uma sequência de delírio, resolveu fazer com que a normalidade ali filmada fosse subvertida apenas pelo uso da técnica: trata-se apenas de mais um dia de descanso e diversão na praia, mas tudo foi filmado com o uso de uma câmera de sensibilidade térmica – o resultado é um tanto arrepiante, já que no vídeo o mundo é visto como em uma chapa de Raio-X.
Assista o vídeo neste link do YouTube ou baixe-o através deste outro link.

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Noonday Underground – On the Freedom Flotilla. [download: mp3]

Noonday Underground - On The Freedom FlotillaDe boas intenções o inferno está cheio, e de DJs/produtores que elencam vocalistas – muitas vezes mais de um ao mesmo tempo – para interpretar sua canções cheias de balanço o mundo da música está tão cheio quanto. Boa parte deles quer ganhar fama e popularidade trilhando o caminho dos representantes mais famosos do estilo, como Groove Armada e Nouvelle Vague, fazendo uma alquimia sonora com funk e hip hop ou pop e bossa, respectivamente. A verdade é que dificilmente dou atenção à qualquer uma dessas duas tendências predominantes – se não soam totalmente irritantes quando esses produtores derramam nas composições mais hip-hop/funk do que o bom senso permite, o incômodo acaba sendo outro (ainda que em muito menor grau), já que, de tão lugar-comum, essa vontade de soar “brasileiro” acaba como um negócio maçante.
Contudo, eu diria que normalmente os elementos menos famosos que fazem parte deste grupo se alimentam em outras fontes, como a música latina, trilhas sonoras da época mais glamourosa do cinema americano ou pop/rock com rajadas de soul mais nostálgico. É nesta última referência musical que se encaixa o Noonday Underground, formado pela dupla Simon Dine – o inevitável DJ – e Daisy Martey – a necessária vocalista. Confessando desconhecer a discografia anterior da dupla, posso afirmar que seu último lançamento, o disco On The Freedom Flotilla, merece uma espiada por conter algumas faixas com um groove delicioso. “You Keep Holding On” é uma, onde o vocal impetuoso de Daisy foi distanciado um pouco do primeiro plano, nivelando-o bastante com a melodia cheia de loops e pontuais orientalismos sonoros e com programação eletrônica que permite uns bons requebros de cinturinha. Em “She Knows” os loops se repetem em pulsos constantes e os samplers de cordas, que dão a partida e fecham a melodia, lhe conferem maior glamour. Isso difere sobremaneira de “Put You Back Together”, cujo sampler-base que sustenta a música, um riff ligeiro de baixo que soa pinçado de uma surf music aleatória, salta aos ouvidos nos primeiros segundos da melodia e segue apoiado por um loop de bateria igualmente acelerado e sacolejante – o que provavelmente inspirou a vocalista a segurar mais as notas, principalmente no refrão. Em “It’s Alright” eles resolveram pregar uma peça no ouvinte: ao invés de uma canção soturna e mórbida, como sugerem os primeiros acordes de um baixo de negrume arrepiante, o que surge na verdade é um 70’s pop cintilante e nostálgico que lembra muito as canções-tema mais clássicas de filmes de 007, e que só sofre interferência do sampler de metais rascantes que prepara o encerramento da melodia. Pra fechar o disco a dupla colocou “Gone Now Blues”, canção que injeta uma melodia com loops percussivos velozes e samplers de metais, guitarras e gaitas salpicados que criam uma esquizofrenia à moda do Beck Hansen mais clássico.
Afora um Portishead ou Gotan Project, este projetos compostos por Disc-Jockeys normalmente não conseguem subverter o instrumental com que lidam, samplers e loops resultantes da digestão de acordes e harmonias limitadas ou mesmo alheias, em composições suas – você escuta e geralmente acaba achando aquilo reciclado e até mesmo repetitivo. Isso reduz muito o impacto que estes artistas podem ter dentro daquilo que alguém possa listar como suas preferências. Porém, tendo isto em mente, não há problemas em apreciar audições esporádicas de grupos como Noonday Underground, com sua prolixia sonora esparramante e de coloração solar – e até mesmo se jogar dançando na sala de estar.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos.

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Scissors For Lefty – Underhanded Romance [download: mp3]

scissors for lefty - underhanded romance (2007)

A banda é americana, de San Francisco, mas soa genuinamente inglesa como poucas. Scissors For Lefty, formada por rapazes de duas famílias diferentes, acaba de lançar seu disco de estréia há um mês e, coincidentemente, os garotos fazem um som que funciona mais ou menos da mesma forma que o Air Traffic: a banda “emula” um estilo já demarcado por outras personalidades do mundo da música – e trabalha muito bem ao fazer isso. Contudo, diferentemente do Air Traffic, a musicalidade desta banda denota uma jovialidade mais festiva e inconsequente – é por isso que, apesar da comparação com o Supergrass ter sido feita para os britânicos do Air Traffic, eu diria que isso tem muito mais a ver com estes americanos aqui. Fulgurando com esta agitação estão as faixas “Nickels & Dimers”, com riffs de guitarra pipocantes, esquizofrenismos vocais ao fundo, bateria complementar e programação ocasional e “Got Your Moments” que não tem qualquer vergonha e adiciona, além desta instrumentação já formada, as clássicas palminhas – que tem sempre o poder de deixar a harmonia ainda mais animada e caem bem em praticamente qualquer melodia “up”. Destaque absoluto destes momentos mais cheios de vivacidade são as confissões de estripulias inconsequentes e juras de mudança de comportamento em “Mama Your Boys Will Find A Home”, onde os arranjos das guitarras, bateria e piano estão particularmente dançantes e os vocais ganharam ar ainda mais sarcástico e displicente na companhia de suspiros e assobios, e também a busca pelo equilíbrio e ordem perdidos pelo fim de uma relação afetiva em “Next To Argyle”, cheia de notas musicais coloridas e farfalhantes no teclado e com guitarra e bateria de riffs de cadência curta e inquieta.

scissors for lefty - underhanded romance (2007) post 01
A banda americana trouxe no disco o seu indie rock jovial e inconsequente

Em outras faixas as influências são bem distintas: “Ghetto Ways”, sua letra episódica sobre o flerte de um casal em uma pista de dança enquanto a polícia se prepara para invadir o clube, o teclado com samplers sutis de guitarra, bateria de volume moderado e completa lascividade nos vocais modificados eletronicamente não consegue disfarçar sua vontade de ser New Order; em “Lay Down Your Weapons” tanto o sarcarsmo ácido dos versos que afirmam que só muito bom humor faz você encarar o fim de uma longa relação amorosa, quanto a música, na qual escuta-se um teclado de toques doces e madrigais e guitarras que formam a base melódica e acordes faiscantes pontuais, há um gostinho saboroso de Life, o disco mais lúdico e folião dos suecos do The Cardigans; e a melodia agridoce do teclado, pandeiro e vocal de “Bring Us a Brick” não faria feio em um dos primeiros discos do conterrâneo Beck.
Underhanded Romance não é apenas um disco delicioso com melodias que ocupam a sua cabeça o dia inteiro: assim como o debut do Air Traffic, o disco de estréia do Scissors For Lefty veio para mostrar mais uma vez que é sim possível fazer música muito boa sem esmerar-se em querer parecer único e original. Isso nunca é difícil quando se faz música pelo gosto e pela diversão em fazê-la bebendo da fonte daqueles que você mais adora e admira – e é mesmo essa a impressão que fica ao escutar o trabalho destes rapazes de San Francisco. E vida longa à eles!

Baixe:
Scissors For Lefty – Underhanded Romance [mp3]

Ouça:

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Smashing Pumpkins – Zeitgeist (+ 3 faixas bônus). [download: mp3]

Smashing Pumpkins - ZeitgeistTalvez nenhuma banda que anunciou recentemente seu retorno tenha gerado tanta ansiedade no mundo musical quanto o Smashing Pumpkins. Entre os fãs, a esperança de ter toda a formação original não era algo tão palpável, mas o desejo, ainda que débil, de ver Billy Corgan, Jimmy Chamberlin, James Iha e D’arcy Wretzky juntos novamente era enorme. Porém, o desejo foi logo suplantado pela realidade que todos conheciam, já que pouco depois que Billy anunciou seus planos de remontar a banda tanto Iha quanto D’arcy declararam seu desinteresse de reavivar a banda. E Zeitgeist nasceu como fruto apenas de dois dos membros originais do grupo, já que para o lugar de Wretzky entrou a baixista Ginger Reyes e substituindo Iha na guitarra temos Jeff Schroeder. É bem verdade que no Smashing Pumpkins a maior parte de todo o material musical e lírico sempre foi produzido por Billy, mas tanto James quanto D’arcy tinham participação relevante em parte do que era composto. Agora, como foi o vocalista da banda que decidiu, sozinho, ressuscitá-la, é bem provável que tudo o que tenha sido produzido para o novo Smashing Pumpkins tenha sido fruto unicamente de seu trabalho – e, consequentemente, ficamos a mercê das arbitrariedades de Corgan, fruto de sua personalidade um tanto inflada e, agora, sem quaisquer amarras. O que temos, assim, é um album bem irregular. Nas músicas “Doomsday Clock”, com letras que comentam o quanto o fim do mundo fica insignificante para quem perecerá antes de sua chegada, “7 Shades Of Black”, onde Corgan exibe seu descontentamento com o fim de uma relação amorosa e “Starz”, com letras que voltam a exibir a poética um tanto abstrata que fez a fama do compositor, Corgan e sua nova-velha banda tentam, com o uso de bateria insaciavelmente esquizofrênica e múltiplas camadas de guitarra de andamento bem marcado e ligeiro, refazer a atmosfera fascinante dos primeiros discos, mas tanto em suas melodias quanto em suas letras eles nunca chegam a exibir o charme inigualável daquela musicalidade complexa que teve como responsáveis os integrantes clássicos – e as músicas chegam até mesmo a apresentar algumas falhas irritantes, como acontece no refrão bastante tolo de “Starz” e no vocal desta mesma faixa, que por vezes usurpa a melodia. Contudo o trabalho de Corgan consegue trazer algumas canções bem polidas e construídas, acertando ao se preocupar menos em soar como outrora e mais em se ater a compor uma sonoridade rock bem sólida. O single “Tarantula” é merecidamente a melhor faixa do álbum todo: exala um frescor rock puro e genuíno com a trabalho conjunto e irretocável entre vocal e instrumental básico do gênero – bateria, baixo e guitarra – que materializa deliciosos intros, riffs e solos espetaculares – é escutar e constatar que muito do que ficou registrado na história do rock como o seu melhor não precisou ir além disso. Mas além da faixa escolhida como primeiro single a banda consegue mostrar entrosamento também em “Bring The Light”, onde o guitarrista exibe sua proeza com riffs e um solo breve mas bastante denso e Chamberlin mostra sua performance excelente na bateria que contrasta andamento compassado e o esmurramento mais genuinamente rockeiro, e em cujas letras Billy confessa sentir imenso contentamento e prazer após viver um período de sombras e tristezas – isso me soa, obviamente, como uma celebração ao retorno de sua banda.
Apesar dos deslizes cometidos ao tentar reprisar a musicalidade primeira da banda, a nova formação do Smashing Pumpkins consegue se sair melhor ao retomar a sonoridade mais recente antes da crise que a sacudiu, aquela mais próxima aos dois discos que iniciaram a derradeira transformação de sua identidade – Adore e Machina. “That’s The Way (My Love Is)”, com versos simples em que o cantor declara sua confiança em quem ama, “For God And Country”, cuja única falha é a letra de viés político, que acaba soando simplista em sua cafonice beligerante, e “Neverlost”, sobre quando estamos perdidos e descobrimos que podemos encontrar um caminho para retomar novamente a caminhada, exibem sonoridades pop-rock mais harmoniosas, equilibradas e doces, deixando a impressão de que estas faixas bem poderiam ser colocadas ao lado das que integraram o disco lançado em 1998.
É sempre bom quando somos agraciados com a retomada da carreira de artistas que tanto adoramos, o problema é que quase sempre, junto com alguns integrantes das formações originais, fica para trás também boa parte do antigo vigor e criatividade. É por isso que Zeitgeist interessa, mas tudo fica impregnado com um certo amargor de incompletitude. Parece óbvio como eu vou terminar esse texto, mas é a mais pura e um tanto quanto dolorosa verdade: é bom, mas nunca vai ser a mesma coisa.
Baixe o disco utilizando o link abaixo e a senha a seguir para descompactar o arquivo.

senha: seteventos.org

http://www.gigasize.com/get.php/-1099961433/smash_-_zeit.zip

Faixas bônus:
“Death From Above”:
http://www.gigasize.com/get.php/-1099954488/13_Death_From_Above.mp3
“Stellar”:
http://www.gigasize.com/get.php/-1099926854/14_Stellar.mp3
“Zeitgeist”:
http://www.gigasize.com/get.php/-1099926853/15_Zeitgeist.mp3

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Bat For Lashes – Fur & Gold. [download: mp3]

Bat For Lashes - Fur & GoldAinda que eu discorde da existência do termo “indie rock”, sou obrigado a concordar com a fertilidade de seus domínios: você o vasculha e parece que ele nunca acaba, dada a frequência com que novos artistas surgem. E, diga-se de passagem, um com a musicalidade mais estranha do que o outro. Uma das que mais chamou a atenção – e, diga-se, atenção qualificada, já que ela foi elogiada por artistas como Thom Yorke, por exemplo – nos últimos meses foi Natasha Khan, mas conhecida pelo codinome Bat For Lashes, que utiliza ao se apresentar em companhia de mais três mulheres, Ginger Lee, Abi Fry e Lizzie Carey. Natasha, paquistanesa de nascimento e britânica de criação, tem uma quedinha pelo telúrico, perceptível pelo modo como materializa impressões sobre a natureza em suas composições. Porém, esse mundo natural não o é de todo, já que ela também utiliza-se de elementos que ultrapassam esta identidade, explorando imagens místicas e uma cuidadosa gravidade sombria em suas melodias – não é de se estranhar que Natasha costume se apresentar revertida em uma índia meio hippie-contemporânea.
Concentrando-se na análise de suas músicas, o elemento que mais chama a atenção no primeiro contato é o modo com que utiliza o cravo – até hoje, só senti efeito tão estrambólico e instigante com o cravo delirante de Tori Amos no mais do que obrigatório e clássico álbum Boys For Pele. Porém, é bom sinalizar que seu cravo difere muito do que foi concebido pela fabulosa compositora americana: Khan reduz ao mínimo as matizes de seus acordes, preferindo conferir-lhe destaque nas suas composições através do seu uso minimalista. É fácil observar isto em “Horse And I”, um devaneio sobre uma cavalgada noturna em meio à uma floresta para ser sagrada em ritual místico, e “What’s A Girl To Do?”, em que Natasha se pergunta sobre o que fazer quando descobrimos que vivemos uma relação em que já não existe o amor, pois o centro melódico é formado por um mesmo agrupamento de acordes no instrumento que vai sendo sutilmente modificado ao longo da melodia, e acaba sempre retornando aos acordes originais. Ao redor do cravo idiossincrático, ainda jorram delírios vocais, baterias de rítmica retumbante e temerins; e em “What’s A Girl To Do?” percussão e bumbos rufantes dividem espaço com uma programação eletrônica simples e abafada, enquanto nos vocais Natasha alterna canto e fala.
Contudo, Natasha não se pendura o disco inteiro em cima do cravo. Em faixas como “Tahiti” e “Prescilla” a autoharp – um derivado da cítara – é que compõe o centro da melodia. No caso da primeira, a autoharp vem acompanhada por pouco mais do que um piano de toques ondulantes que confere tristeza sombria, e na segunda canção ela faz novamente par com piano, mas além de seus monocórdicos acordes estarem mais vívidos, ele divide a parceira da autoharp com coro de palmas de cadência lúdica e um pandeiro que complementa a sonoridade um pouco mais festiva. Em outras faixas, como “The Wizard”, “Trophy” e “Sarah” a artista deixa de lado os instrumentos menos convencionais e contenta-se com aqueles mais conhecidos. Ainda assim ela consegue manter a mesma atmosfera obtida com as instrumentações menos ortodoxas na doçura do piano e vocais, na beleza da percussão e das violas mínimas e delicadas de “The Wizard” – em que ela declara sua fascinação à figura de um feiticeiro, na sonoridade grave do piano, da percussão e vocais e no baixo e guitarras obscuros – de “Trophy” – em que a cantora brada a devolução de um artefato que fez em homenagem ao seu amor – e também na sensualidade dos vocais, complementanda pelos metais, baixo, percussão e programação de “Sarah” – em que a cantora confessa invejar a luxúria algo perigosa que cerca outra mulher.
É verdade que Natasha gasta um tanto de energia para, além de soar, também parecer estranha, afinal de contas, que sentido pode-se extrair de uma garota de origem paquistanesa em trajar-se como uma glam-hippie nativo americana? Nenhum, com certeza. Mas é inegável que o visual efetivamente tem seu efeito, além do que ele, muito além do simples efeito estético, ainda atrai a atenção do ouvinte que, por “curiosidade mórbida” – como eu costumo dizer – se dispõe a gastar um pouquinho de seu tempo para descobrir que sons se escondem por trás do mistura visual esdrúxula – comigo, ao menos, a artimanha funcionou. Quem se arrisca descobre uma artista que já consegue, em sua estréia, desenhar uma identidade muito clara e demonstrar vigor invejável ao utilizar-se dos mais variados instrumentos e gamas melódicas. Assim, Bat For Lashes não deixa de ser mais um motivo para eu repensar a minha insistente recusa de aceitar o termo “indie rock”.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005