Belas surpresas reservam a internet. Ao me deparar com o perturbador vídeo de Emily Haines (veja aqui no blog), fiquei deveras impressionado com a sua música e, inevitavelmente, seguiu-se uma busca pelas canções de seu segundo álbum solo. Garimpei a web inteira, encontrei o álbum e fiquei surpreendido. Knives Don’t Have Your Back pode não ser feito completamente de músicas fenomenais, mas aquelas que são fenomenais, o são integralmente. “Doctor Blind”, o single cujo vídeo já citei e aqui postei, é abusivamente moderno e delirante: nas letras, entre versos algo delirantes, o vocal de tom desesperançado de Emily pede à um médico a prescrição de drogas para aplacar o sofrimento psicológico de seu companheiro; a melodia é feita num piano de acordes tristes e bateria de cadência lenta e pesairosa, acompanhados por bom uso de orquestração de cordas complementar. Em “Detective Daughter”, cuja letra fala sobre conflitos de identidade com os quais todos podemos nos deparar em certa altura da vida, temos uma melodia hipnótica que usa, além do piano triste e reflexivo, acordes longos de guitarra e bateria eletrônica básica. “The Lottery” trata da liberdade sexual e da sua necessidade na vida humana, trazendo um melodia onde orquestrações de cordas sofisticadas ganham mais corpo na música, complementando o piano de acordes um pouco desiguais e o vocal sutilmente irônico de Emily. Em “The Maid Needs A Maid” Emily revela uma canção de amor para uma outra mulher, revelando os detalhes ordinários de sua beleza e comportamento que a fascinam. A melodia é baseada apenas em piano, cujos acordes graves são tão bem compostos que realmente fazem desnecessária a participação de qualquer outro instrumento. “Mostly Waving”, cujos versos curtos falam sobre o comportamento inadequado, tem como seu maior atrativo a música fabulosa: além do piano minimalista de acordes essencialmente graves, temos uma bateria suavemente cadenciada que evita atrapalhar a participação da orquestração de metais, que é o grande salto da melodia, junto com a ironia sutil que Emily põe em seu vocal solto à meia-voz e nos vocais de fundo bastante lúdicos. Os metais também estão presentes em “Reading in Bed”, porém a orquestração destes é mais suave e lenta, compondo apenas a sequência final da música e acompanhando o trabalho ao piano, onde Emily volta à explorar a sua destreza em compor acordes feitos de pequenos ciclos melódicos que se repetem e se modificam ligeiramente durante a música – uma representação legítima do chamado “minimalismo”. A letra fala sobre a vida ordinária de um homem qualquer, cuja tristeza provém de um livro que tem sempre à mão. “The Last Page” trata os percausos e medos que temos durante a vida com necessários de ser enfrentados, o que minimiza e diminui o seu impacto. A melodia é dividida em duas partes diferentes, primeiramente baseada apenas em piano de toques esparsos, ganhando a participação discreta de um orgão por alguns instantes; na segunda parte da música surge uma bateria de cadência algo orgânica, que se mantém durante os instantes finais da canção enquanto o piano, o orgão e um baixo sutil somem da melodia. A última música do disco, “Winning” é daquelas canções soberbas que fecham discos de maneira tão perfeita que é impossível evitar ouvi-la novamente. A letra, de lirismo pós-moderno e dissonante, fala sobre a tentativa de consolar o sofrimento de alguém sem deixar de mostrar-lhe como isto não vai ser fácil, mas que será feito uma hora ou outra. A música, novamente centrada apenas no piano, casa com perfeição com o vocal melancólico mas encorajante de Emily, tendo, na sua parte final, uma das sequências melódicas mais belas que já ouvi, primorosa em seu modo fulminante de atingir as emoções do ouvinte utilizando tão pouca coisa – é de ouvir ininterruptamente, dissecando, saboreando e decifrando cada um dos seus preciosos e esplenderosos segundos.
Emily Haines, cuja formação de músicos que participam do disco ela chamou de “Soft Skeleton”, criou em Knives Don’t Have Your Back um álbum de melodias que mostram seu valor de maneira sutil na primeira audição, revelando à sua infinita beleza mais e mais à cada audição mais atenta e cuidadosa. Pra quem já ouviu muita coisa no folk-pop-rock, não é difícil reconher semelhanças com o vocal suave e sussurrante de Suzanne Vega, com a elegância pretensamente descuidada das composições de Cat Power e com o lirismo incontido de inúmeras bandas do indie-rock europeu e americano. No entanto, mesmo reunindo essa miríade de influnências musicais, Emily constrói uma identidade musical tão forte e consistente neste seu segundo álbum solo que a artista consegue conquistar sem muito esforço um lugar seguro mesmo entre aqueles que vivem incansavelmente buscando novidades no mundo da música. Ouça e faça-o com muito cuidado e atenção – Emily Haines não é uma artista que você encontra muitas vezes no ano e muito menos com maior facilidade. E comente, logo que você tenha uma opinião formada sobre sua música – gostei tanto deste álbum que estou curioso sobre a resposta dos internautas.
Baixe o álbum usando o link a seguir e a senha para abrir o arquivo.
rapidshare.com/files/353837524/haines_-_knives.zip
senha: seteventos.org
3 Comentários
Já fui mais radical e tive uma pré-disposta implicância com bandas de rock que pertencem ao chamado “indie”. Porém, já faz alguns longos meses que meus ouvidos se abriram para uma experimentação ainda maior – e isso vem acontecendo cada vez mais, a medida que o tempo passa: deve ser porque estou ficando velho. O fato é que esta abertura me permitiu encontrar bandas muito boas, como Death Cab for Cutie – cujo maravilhoso último disco já tratei aqui no blog – e Thirteen Senses. Iniciantes no ramo, os ingleses desta banda conceberam um álbum de estréia que agrada em cheio à qualquer fã de música alternativa ou independente, algo que assemelha-se à maior parte dos artistas que pertencem à este grupo mas que, ao mesmo tempo, tem uma identidade bem clara.
Gran Turismo é um álbum bastante rítmico, mas sua essência é algo seca, fazendo o uso mínimo de acústica – há total ausência de orquestrações dessa ordem aqui -, ou mesmo transformando os intrumentos que tem esta sonoridade num som mais chapado. Isto não é, de forma alguma, uma crítica. A banda The Cardigans construíu no seu álbum de 1998 melodias sincopadas idiossincráticas: assim como o The Cranberries no seu álbum de estréia, difícil achar uma ourtra banda que tenha feito um disco com uma identidade tão própria como este quarto lançamento da banda sueca.
O vocal de Dolores O’Riordan é a marca distintiva mais forte da banda irlandesa The Cranberries. Apesar das comparações feitas à época com a também irlandesa Sinéad O’Connor, a banda logo superou as críticas que apontavam similaridades entre seus trabalhos, e mostrou que sua música era muito distinta não apenas da grande cantora e compositora irlandesa, mas de todo o cenário musical da época. E isto não é nada difícil de perceber: com uma acústica exótica muito difícil de definir, onde até as guitarras soam como algo excepcionalmente estranho, as músicas de letras simples e sensibilidade acachapante que compõe o disco de estréia do Cranberries surpreenderam até ouvidos dos mais experientes.
A banda Smashing Pumpkins tem uma história de existência meio turbulenta e confusa, brigas internas levaram a banda a perder membros, que mais tarde retornarm depois de algum tempo. Tendo sido declarado o fim da banda depois do lançamento de Machina/The Machines of God. Neste ano foi declarado o retorno da banda, que grava neste momento um novo disco – resta saber quem é o Smashing Pumpkins agora, já que James Iha e D’arcy já declararam não estar interessados em fazer parte do retorno.
O mundo da chamada música “independente” está repleto de bandas com uma sonoridade semelhante, algo que as identifica de forma imediata ao ouvinte por lhe sugerir uma sonoridade mais reflexiva, bem como suas letras, verdadeiramente poéticas. A banda americana Death Cab for Cutie é considerada um dos maiores expoentes desta vertente do gênero rock.