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Tag: bandas

Metric – Fantasies (UK Limited Edition) [download: mp3]

metric - fantasies (uk limited edition, 2009)

Tendo despertada em si a necessidade de viver uma experiência de anonimato e deslocamento, e portanto de uma descoberta solitária de um ambiente novo, desconhecido, Emily Haines, cantora e compositora canadense, vocalista da banda Metric, escolheu Buenos Aires como cenário desta experiência. Sem qualquer menção de drama, Emily declarou que precisava entender o estado atual de sua vida, além do desejo de afastar-se dos polos internacionais do rock/pop para isolar-se de qualquer possível influência no trabalho de composição que por ventura viesse a desenvolver. Depois de ter conferido o que foi feito pela canadense e sua banda em Fantasies, seu novo disco, posso dizer que a capital da Argentina foi o refúgio certeiro para Emily.
O primeiro contato com o que foi desenvolvido no disco foi a faixa “Help, I’m Alive”, single que surgiu na internet no fim do ano passado e teve sua versão acústica liberada no site oficial cerca de um mês depois. A versão produzida para o álbum inicia com um beat sujo com compasso acompanhado por uma bateria de ritmo bem marcado e guitarras que insuflam a melodia com sua sonoridade maciça e acachapante, deixando no ar um ultimato delirantemente dançante. A versão acústica, delicadamente produzida apenas com piano e violão, deixa de lado a urgência sonora e prioriza as letras onde Emily transmite seu estado de ansiedade e temor absolutos, com um “coração que bate como um martelo” e um “pulso que corre como um trem desgovernado”. A faixa atiçou a curiosodade dos fãs e deixou em todos a sensação de que nesse novo disco a banda estaria superando seus limites mesmo depois de um belo trabalho como Live It Out. E não precisamos esperar muito para tirar a prova disso – no início de Março o tão aguardado disco caiu na rede e eu, como todos os fãs de Emily e do Metric, fui intoxicado pelo álbum.

metric - fantasies (uk limited edition, 2009) social
Vocalista do Metric, Emily Haines isolou-se em Buenos Aires para reavaliar sua vida, e acabou concebendo um dos melhores discos de sua banda

No meu caso particular, Fantasies cresceu lentamente, ao longo de cerca de um mês, infiltrando-se sorrateiramente em meus ouvidos. “Satellite Mind” foi a grande responsável pelo acontecido: a faixa, com beat deliciosamente pegajoso ao fundo, delineado no refrão por riffs incandescentes de guitarra, bateria de cadência rompante, pontuais eletronismos luminosos e um vocal empolgante, viciou tanto os meus sentidos que não consegui dar a devida atenção ao restante do disco por dias e dias seguidos. Curiosamente, foi outra faixa, “Gimme Sympathy”, que suavizou o efeito narcotizante de “Satellite Mind” e libertou as demais músicas, assim como ela própria, do exílio por mim estabelecido à elas: ao assistir ao clipe da canção (veja texto sobre ele logo abaixo) me vi apaixonado pelo modo como guitarra, bateria, baixo e vocal se harmonizam e crescem até o completo amálgama no refrão, que aparentemente fala sobre o que a banda aspiraria para o seu futuro: a efêmera mas retumbante passagem dos Beatles ou o intenso brilho que se apaga aos poucos dos insistentes Rolling Stones? O fascínio despertado por estes versos deu partida no disco e me fez olhar com atenção outras faixas. Nessa busca, a canção que decreta que o amor pode tornar-se uma doença que aprisiona e impede de conduzir sua vida foi a que revelou suas qualidades logo em seguida: “Sick Muse” dispara com uma junção escandalosamente swingada de riffs de guitarra e groove de bateria que juntos com o vocal insolente de Emily evocam uma atmosfera envenenante para os sentidos. A melodia de “Blindness”, com guitarras e sintetizadores que escalam aos poucos os degraus de uma melodia depressiva para um entreato sonoro insurgente conduzido pela bateria de golpes fortes também exigiu seu espaço, e foram seus versos que serviram de garantia para tanto: para transmitir a idéia de alguém que em meio a sua falta de rumo luta para encontrar um caminho, mesmo que não saiba para onde ele irá o levar, Emily Haines pôs em prática suas habilidades como letrista e teceu uma analogia com os sobreviventes de um desastre que esperam por ajuda, construindo um texto intenso em imagens e símbolos. Magníficas também são as letras da faixa bônus de Fantasies, “Waves”, em que Emily incorpora um marinheiro que declara sua paixão por tudo o que vive em sua vida nômade, tão intensa e arrebatadora quanto a melodia ao mesmo tempo ligeira, doce e radiante das guitarras, bateria e vocais. “Stadium Love”, que fecha o disco, foi das últimas a enfileirar-se entre as minhas preferidas do novo disco: a integração entre os acordes espessos de guitarra, bateria, baixo, sintetizador e vocal resulta em uma música densa e atordoante que ajusta-se inteiramente as letras que tratam de duelos entre todos os animais do mundo em uma arena ocupada por pessoas que se rendem ao combate também na platéia. É a faixa que melhor resume, tanto em versos, com esta alegoria violenta, quanto em melodia, com sua atmosfera sufocante, o frenesi alucinante que permeia a maioria das canções deste novo álbum que nasceu após uma ausência considerável da banda para recarregar suas energias, liquidando seu esgotamento e seus receios e um álbum de sonoridade vigorosa e eletrizante e versos primorosos e francos.

Metric – Fantasies (UK Limited Edition – 2 CDs) [mp3]

Ouça (Spotify):

Metric - Fantasies - 2009
Metric - Fantasies - 2009

Ouça (Deezer):

Metric - Fantasies - 2009
Metric - Fantasies - 2009

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Metric – “Gimme Sympathy” (dir. Frank Borin) {versão oficial + versão acústica}. [download: vídeo]

Metric - Gimme SympathyA idéia de Frank Borin para o vídeo de “Gimme Sympathy”, último single de Fantasies, novo disco da banda canadense Metric, é na teoria bem direta e descomplicada: fazer um registro “ao vivo” da banda em uma performance da canção. No entanto, são os detalhes por ele inseridos que fazem a graça da produção e a complexidade de sua filmagem.
O registro inicia no backstage, de onde Emily desce cantando, exibindo sua elegância matadora pelo estúdio até chegar ao microfone exatamente no ponto em que canta o refrão. A partir daí a câmera, que roda do início ao fim em take único, vai constantemente mudando o seu foco para mostrar cada um dos membros da banda tocando outro instrumento, exibindo diferente figurino e revezando-se no microfone – tudo isso é feito sem que seja revelado o segredo da artimanha, mas se você quiser acabar com a magia da coisa, pode assistir o making off neste link. A performance dos músicos nos instrumentos que não são sua especialidade é visivelmente parca, mas esse é um dos atrativos do vídeo – Emily Haines tocando baixo encarnando a pose meio blasé que boa parte destes musicos exibe no palco é hilário e seu amigo, o guitarrista James Shaw, consegue até mostrar charme e desenvoltura ao dublar a loura canadense no microfone. Contudo, quando voltam cada um para o seu galho, os quatro arrasam – Emily, com uma dança algo performática que ressalta seus traços longilíneos e suas belas pernas faz toda a performance ainda mais deliciosa. Finalizando com um toque delicado e singelo, crianças com trajes de borboleta disparam do fundo e percorrem o espaço que a banda ocupa por alguns segundos, até debandar para a saída do estúdio e escancarar as portas, revelando o espaço externo, coberto por um céu nublado. É um vídeo simples, sem dúvidas, mas a filmagem cuidadosa, a performance sempre simpática dos músicos e a canção inegavelmente encantadora dão a produção um caráter poético irresistível.
Baixe ou assista os vídeos utilizando os links a seguir – não deixe de conferir também a versão acústica da canção em registro simples e intimista.

“Metric – “Gimme Sympathy” (versão oficial): Youtube (assista)download
“Metric – “Gimme Sympathy” (versão acústica): Youtube (assista)download

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A Camp – Colonia. [download: mp3]

A Camp - ColoniaAproveitando o intervalo que sua banda The Cardigans tirou desde a última apresentação da turnê do fantástico disco Super Extra Gravity, Nina Persson voltou-se ao seu side-project, A Camp, que fez sua estréia em 2001 com um disco que injetou elegância ao country-rock. O novo álbum ainda conta com interferências do parceiro Niclas Frisk, de Mark Linkous, que produziu a primeira incursão do A Camp, e de músicos presentes na primeira incursão do grupo, como a americana Joan Wasser (da banda Joan As Police Woman), mas novas participações ganham papel integral, como Nathan Larson, marido de Nina e James Iha, ex-guitarrista do Smashing Pumpkins. Em Colonia, o novo disco, as referências ao country-rock somem quase que por completo, cedendo lugar à um pop que remete ao produzido no meio do século passado e que difere razoavelmente do que Nina já fez no início da carreira do The Cardigans, já que o produzido pelo A Camp é menos festivo e acelerado, preferindo fazer florescer melodias que sempre tem um “que” de tristeza e pisando no acelerador com muito maior parcimônia. É claro que esse caráter mais melancólico de Colonia fica mais óbvio em baladas de melodias tranquilas e sóbrias como “It’s Not Easy To Be Human”, que interrompe os poucos versos acompanhados de guitarra e sintetizações de tonalidades doces, calmas e tristes com uma epifania sonora de violinos e vocais de fundo sutis, e “The Weed Had Got There First”, cujo compasso letárgico e profundamente romântico é resultado da combinação das queixas de Nina ao microfone, do andamento lento da bateria, das cordas em ondulações levemente sensuais e da discreta participação da guitarra e de sintetizações, mas a atmosfera plangente está igualmente presente, ainda que de modo atuenado, nas canções mais sonoramente fartas. Isso se reflete na cadência arrastada da guitarra e da bateria e nos sopros e coro glamourosos que se alastram por todos os cantos da faixa “Stronger Than Jesus”, primeiro single do novo álbum, no ritmo imperioso que a bateria impõe no refrão da música suspendida por coros e pianos celestiais e pelas cordas graves que lançam-se em jatos precisos na melodia de “Love Has Left The Room” e até mesmo na aparente extroversão dos vocais e do compasso power-rock da bateria e do baixo e na pontuação deliciosamente dramática produzida pelas palmas e riffs de guitarra em “Here Are Many Wild Animals”.
Contudo, o que me chamou a atenção em A Camp foi a semelhança que me despertaram duas de suas faixas com outros representantes do mundo da música: enquanto “The Crowning”, desde os versos que pintam o cenário de uma irônica festa de homenagem até o ritmo do violão, piano, bateria, guitarra e harmonias dos sopros e cordas lembra, em cada detalhe, os momentos mais afetadamente teatrais de Rufus Wainwright – até mesmo o vocal de Nina remete ao cantar altivo e sarcástico do compositor americano -, algo disfarçado pela verve pop da espetacular “Chinatown”, provavelmente resultado da ambientação criada no trecho final da canção na combinação dos riffs resplandencetes da guitarra com o coro de múltiplas vozes que preenche o fundo da música com uma aura majestosa, me suscita…Pink Floyd. Não, eu não fiquei louco ou digitei errado – eu disse mesmo Pink Floyd. Por ter ouvido até gastar o cassete de The Division Bell em meu finado e nada saudoso Walkman em 1994, a ponto de não conseguir sequer olhar mais para esse disco, me acho no direito de estabelecer essa relação a primeira vista tão estapafúrdia – mas imagino que aqueles que conhecem bem este álbum conseguem, como eu, encontrar uma pontinha da sonoridade de algumas canções de The Division Bell em “Chinatown”.
Excetuando-se algumas faixas um pouco enjoativas, este novo disco do A Camp exala uma atmosfera ao mesmo tempo clássica e sofisticada, cujas melodias e letras persistem de maneira deliciosamente prazeirosa nos ouvidos como as notas aromáticas de um bom perfume o fazem no olfato de quem o percebe. Colonia é isso mesmo: uma nova fragrância de Nina que é resultado da sua alquimia sensível, que sempre consegue obter aromas requintados na união dos mais diversos ingredientes – sejam eles ervas, flores e frutos velhos conhecidos seus ou novas adições ao seu rico catálogo de botânica sonora.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos.

ifile.it/6i05rsa/camp_-_colonia.zip

senha: seteventos

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Poni Hoax – “Antibodies” (dir. Danakil/ dir. Maria Ziegelböck). [download: video + mp3]

Por culpa do infernal emprego e de outros afazeres aos quais decidi me dedicar este ano, abandonei quase completamente o hábito de assistir videoclipes e curtas-metragem para priorizar a continuidade das postagens de filmes e música – e, por consequência, o tópico “vídeos” no seteventos.org parou no tempo.
No entanto, férias é um período abençoado e exatamente um ano depois que postei o último texto sobre vídeo no blog estou tentando retomar e manter novamente o prazer de garimpar a internet em busca dessas produções. E a web não decepciona: em algumas horinhas já encontrei duas produções bacanérrimas – na verdade duas versões de videoclipe para a mesma música.
Antes de qualquer coisa, vamos à música em si. “Antibodies”, do quinteto francês Poni Hoax, é um desatino que bebe direto na fonte da disco dos anos 70, aproveitando o que havia de escandalosamente glamouroso na sonoridade da época sem medo de soar esgaçadamente retrô com suas sintetizações cintilantes, violinos e pratos pontuando de modo dramático a melodia, mas seus riffs matadores de guitarra e seu vocal lhe concedem uma verve pop-cinematográfica escancarada que a aproxima muito mais da música dançante do New Order e Depeche Mode dos anos 80 do que daquela composta pelo Bee Gees, por exemplo. E por falar no vocal, ele é o verdadeiro glacê desse bolo delicioso: a voz de Nicolas Ker tem o timbre da de Jim Morrison, mas é como se o vocalista do The Doors estivesse possuído por uma pomba-gira discotequeira diante do microfone. Mas não tema: é justamente esse cantar altivo e petulante que confere muita elegância à esta música absolutamente intoxicante – um diferencial enorme em meio à esse vai-e-vem da nostalgia pop que já virou rotina.
Poni Hoax - AntibodiesE para ilustrar essa música que utiliza como referência a sonoridade de uma época cuja estética foi e é tão explorada, foram feitos dois vídeos que tomam caminhos bem distintos. Para o fotógrafo e diretor francês que atende pelo pseudônimo Danakil, “Antibodies” serviu como inspiração para abordar uma narrativa abstrata, onde uma aeromoça nua em um quarto de hotel de aeroporto lida com o dilema de sua gravidez enquanto tateia languidamente um peixinho ornamental e brinca com as sensações provocadas por uma agulha. Enquanto isso, lá fora, uma bolha de sabão de enormes proporções vagueia sem rumo pelo aeroporto vazio. A despeito do peixinho sem fôlego, que é mesmo uma maldade, o vídeo é de uma imensa beleza plástica, tudo graças a linda modelo que empresta-se ao papel da aeromoça e a fotografia de Danakil, que confere muita classe ao filme.
Poni Hoax - AntibodiesJá para a também fotógrafa Maria Ziegelböck, austríaca radicada na França, as referências musicais contidas na melodia pulsaram mais forte: o vídeo por ela preparado é um compêndio de sequências com anônimos deixando seus corpos serem levados pelo ritmo saboroso da canção em uma pista iluminada por alguns spots de luz. Sem dúvidas que lembra a icônica sequência de “Flashdance”, mas isso não reduz as qualidades desta versão, muito bem filmada e editada.
Então é só conferir os vídeos, seja em streaming ou para download – e como eu achei a faixa divertidíssima, também a ofereço para download em mp3.

“Antibodies” – dir. Danakil: Youtube (assista)download

“Antibodies” – dir. Maria Ziegelböck: LastFM (assista)download

Poni Hoax – “Antibodies” (mp3)

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Evangelista – Hello, Voyager. [download: mp3]

Evangelista - Hello, Voyager!Difícil saber o que levou a nova-iorquina Carla Bozulich a rebatizar o seu projeto, no seu segundo lançamento, com o nome do primeiro disco. Evangelista, o disco, é agora o nome da banda. Mas isso, pouco importa: as idéias partem mesmo é de sua mentora, Carla. E em Hello, Voyager, o arcabouço criativo da artista americana foca-se nos domínios do rock, mas dentro dele, apresenta-se com tonalidades bem variadas. Carla e sua banda, por exemplo, trazem no álbum duas faixas instrumentais, mas a atmosfera de ambas é bem diversa: enquanto “For the L’il Dudes” intriga com suas cordas assustadoramente soturnas, “The Frozen Dress” causa arrepios com o coro de murmúrios e lamentos vocais sobrepostos às guitarras que reverberam acordes graves e enrugados. Para algum ouvinte mais apressado, por sinal, a atmosfera algo esdrúxula de ambas as faixas poderia ser motivo para taxar a banda de experimental. No entanto, a impressão não corresponde à realidade da essência sonora deste trabalho da banda de Carla.
Ao meu ver, Evangelista preza por uma sonoridade mais crua, aquela que se atinge sem muita preparação, sem muito ensaio. A maior parte das canções soa como demos e outtakes de si próprias, frutos de improvisações imediatas. As duas faixas que abrem o disco são retratam isto muito bem: “Winds of St. Anne” não vai muito além de versos cantados ou vociferados, que soam tão distantes e distorcidos quando a orgia de acordes de guitarras e baixo que lhe formam o fundo, acompanhados de quando em quando por uma bateria de toques breves, ligeiros e soltos, e “Smooth Jazz”, apesar do nome, não tem nada de suave ou macio, muito menos de jazzistico – é sim um rock verborrágico e confuso, onde a bateria continuamente esmurrada em uma cadência marcial concede ares esquizofrênicos à faixa, sempre com a ajuda de guitarras e teclados que pontualmente sibilam um acorde agudo e distoante em meio à sua participação na melodia. “Truth Is Dark Like Outer Space”, apesar de fiel ao método improvisionista da banda, soa um tanto menos caótica e esparsa, prezando por uma maior compactação melódica que surge toda de uma vez só, depois de breves ruídos na introdução, lançada de sopetão aos ouvidos numa procissão sonora das guitarras, baixo, bateria e vocal que formam um todo quase indivisível.
Porém, todas as outras composições do álbum viram mero detalhe se comparadas àquela que é a verdadeira razão para se dispensar atenção à este disco: “Hello, Voyager!”, a última faixa, que dá nome ao álbum. A música, que totaliza pouco mais de 12 minutos, é introduzida pela instrumentação sôfrega e solta de guitarra, bateria, percussão e metais, encadeados em sequência melódica ondulada e pulsante, que logo ganha a sobreposição do vocal que alterna o tom recitado, messiânico e pregatório com outro mais cantado, dando partida com o verso “I never was who I seemed to be” à um momento melódico derivado deste, em que um orgão de inconcebível beleza chega para acompanhar a instrumentação restante, organizando uma espécie de sinfonia fúnebre na qual Carla explora os limites da emoção de seu vocal, com gritos dolorosos que convocam a afirmação do amor como salvação quando tudo parece estar perdido. Desse momento em diante, a canção explora uma profusão de acordes em todo o instrumental, gerando uma sonoridade caótica que é a síntese da dor e do desespero, recrudescendo de forma exponencial até pouco a pouco silenciar-se, restando no seu fim apenas um último verso, solitário, proferido por Carla Bozulich. Esta é, sem qualquer exagero uma das músicas mais poderosas e intensas que já ouvi em toda minha vida, que de quebra ainda serve para mostrar o quanto o termo “emotivo” foi banalizado pela mídia e pela crítica para designar a obra de artistas desprovidos de qualquer resquício de sentimento – e isso só já pode ser considerado como contribuição inestimável para mostrar o que é de fato rock com emoção, mesmo que da carreira de Carla Bozulich e seu Evangelista só seja lembrada esta canção.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos.

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Se preferir, baixe apenas a canção seminal do disco:
Evangelista – “Hello, Voyager!”

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Joan As Police Woman – To Survive (+ 1 faixa bônus). [download: mp3]

Joan As Police Woman - To SurviveO segundo disco da banda de Joan Wasser não encanta tão prontamente quanto o primeiro, principalmente porque algumas poucas canções, como “Magpies”, um pop-soul setentista com direito inclusive aos vocais de apoio e arranjo de metais que remetem ao estilo da época, ensaiam conquistar o gosto do ouvinte mas se perdem tanto em descaminhos melódicos tão inócuos e aborrecedores, quando não absolutamente irritantes, que acabam interferindo na apreciação adequada das demais faixas do disco. No entanto, superada a irritação que essas canções causam por algum tempo, as outras faixas revelam logo os seus enormes predicados, algumas de modo lento e crescente, liberando paulatinamente sua beleza à cada apreciação – é o que acontece com “To Be Loved”, faixa que envereda de modo mais sutil no mesmo pop-soul nostálgico de “Magpies”, mas que é mais feliz ao ser balanceada com um teclado de cores quentes e um piano de notas graves, ambos dedilhados de modo suave e apoiados por uma guitarra e bateria que aquecem discretamente a melodia tanto quanto o próprio vocal macio de Joan -, outras de modo mais imediato e impactante – como “Holiday”, que une acordes deliciosos no violão, no piano, e na bateria para compor uma melodia ao mesmo tempo ágil e graciosa, que cede bastante espaço para a voz encantadora da cantora americana. Sempre inspirada por referências musicais de décadas passadas, Joan é capaz de compor faixas que lembram desde a romântica melancolia da “new wave” do final dos anos 80 e início dos 90 – falo aqui da esplêndida “Start of My Heart”, cuja música é guiada por uma bateria e baixo de cadência lenta, salpicada por uma guitarra de acordes extensos e serenos e preenchida por uma sintetização que cria ondulações ao ser continuamente sobre e sobposta à instrumentação restante – até ao glamour do pop americano que sonorizou bares, discotecas e qualquer festa que se prezasse há cerca de 40 anos – claro que me refiro à faixa “Furious”, marcada por um compasso ligeiro de bateria e teclado, reforçado por piano de acordes dramáticos e prodigiosos e um coro de palmas que recheia o fundo da melodia, além dos vocais adicionais que adensam ainda mais o nostalgia sonora – tudo, porém, com um senso de naturalidade e graça que torna esse caldo saudosista algo de muito bom gosto. No final do disco ainda sobra ânimo para um dueto delicioso com Rufus Wainwright em “To America”, que é introduzida por um piano algo desolado e logo subvertida por um arranjo fabuloso que toma de assalto a música com saxofones, guitarras e sintetizações enormemente melódicas e verborrágicas, fechando de modo brilhante este disco que, a esta altura, faz esquecer qualquer possível menção de tropeço que inicialmente o marcasse.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos – e não esqueça de baixar logo depois a faixa bônus “Take Me”, liberada com exclusividade na web aqui pelo seteventos.org.

senha: seteventos.org

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Faixa bônus “Take Me” (do single “To Be Loved”):
http://rapidshare.com/files/125247013/02_Take_Me.mp3

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005