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Tag: cinema

“De tanto bater, meu coração parou”, de Jacques Audiard.

De Battre Mon Coeur s'est ArrêtéThomas Seyr trilha o mesma caminho de seu pai fracassado Robert, fazendo parte de um grupo de violentos corretores que agem criminosamente, sabotando imóveis para obter lucro com sua revenda. Robert, imoral e insensível, só faz manipular emocionalmente seu filho para que intimide comerciantes que lhe devem dinheiro de seus imóveis. Apesar de estar há muito tempo anestesiado por um cotidiano tão opressor, o jovem acaba animado-se com o convite para uma audição por um amigo de sua falecida mãe, que era uma promissora pianista. Tendo abandonado a prática com o instrumento há anos, Thomas contrata uma pianista chinesa para aprimorar seus dotes musicas até o dia da audição.
O filme da Jacques Audiard é um remake de um longa americano de 1978 chamado “Fingers” – raro que a Europa apresente uma refilmagem de uma obra americana -, com Harvey Keitel no papel que é, neste filme, de Romain Duris. Não tenho conhecimento sobre o filme original, mas Audiard foi competente na sua empreitada, concebendo um filme atualíssimo, ao revelar a face derrotada do seu país: sem identificar exatamente a cidade onde decidiu encenar sua estória – supõe-se ser Paris -, o diretor revela na sua película uma França miserável e infeliz através da fotografia realista e das sequências em que mostra desabrigados rufigiando-se em edifícios rotos.
Porém, o filme também revela-se poético na importância da música na trama – particularmente da música clássica, já que a música eletrônica, que Thomas insiste em ouvir é mais um reflexo de sua personalidade explosiva. É atraves de elementos como estes que se instaura um paradoxo entre a delicadeza e brutalidade estética do filme, que são a exteriorização do idílio do protagonista, que interioriza o conflito: luta com seu própria natureza rude e primitiva, herança do seu pai, vislumbrando o oportunidade de cultivar a sensibilidade artística, legado da mãe pianista. Sensato, Audiard concebe um protagonista de personalidade realista: ao mesmo tempo que Thomas por vezes emociona, com sua dedicação à sua aprimoração como músico, ele também pode ser extremamente repulsivo e deplorável, como na sua visão machista sobre as mulheres. O ponto que trará equilíbrio no seu conflito de personalidade é a jovem pianista chinesa com quem ele decide ter aulas: na quase total incomunicabilidade com a jovem, Thomas tenta controlar sua personalidade irascível através da única coisa que os une – a música erudita. Ao final do filme vemos que o diretor foi sensato até mesmo aonde seria mais fácil se perder – na conclusão da estória. É ali que Audiard mostra que apesar de todo nosso esforço, nem sempre o que almejamos é por nós alcançado – ao menos não da forma que, ingenuamente, idealizamos.

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“O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee [download: filme]

brokeback mountain (2005)

Dois jovens americanos do interior são contratados para trabalho de pastoreio em uma montanha. Com o passar dos dias e a revelação de seus anseios e afinidades mútuas, Jack consegue vencer a natureza fechada de Ennis e aproximar-se dele. A partir daí nasce uma intimidade que ambos tentam sustentar em meio ao rumo que cada um deles toma em suas vidas.
Inicialmente, é interessante observar que embora o filme de Ange Lee seja de fato um drama/romance “gay”, tanto Ennis quanto Jack seriam, na realidade, bissexuais: ambos desenvolvem relações estáveis com suas respectivas esposas ao longo de todos os anos da história. Naturalmente, no decorrer do filme percebe-se que se um dia Ennis e Jack sentiram algo por estas, esse amor foi completamente sufocado pelo que sentiam um pelo outro – mas isso é da natureza do amor verdadeiro entre duas pessoas que se encontram impedidas de concretizá-lo plenamente, qualquer que seja a sexualidade delas.
Deixando de lado o mérito puramente classificatório da sexualidade dos dois “cowboys”, após terminar de assisti-lo, fica claro para qualquer pessoa sensata porque foi feita tanta celeuma sobre este novo longa-metragem do diretor Ang Lee. Tecnicamente o filme demonstra enorme excelência: a fotografia que tira proveito tanto das belas paisagens naturais quanto de ambientes menos deslumbrantes; as atuações que estão impecáveis, atingindo a medida correta de emoção para os personagens na época e região em que se situam; a trilha sonora que reflete a profundidade do sentimento que permeia os protagonistas ao mesmo tempo que expressa a auto-contenção imposta a natureza do relacionamento deles; e o roteiro que desenrola a história desse amor sem pressa, tomando o tempo necessário para extrair seus conflitos intrínsecos.

brokeback mountain (2005) movie stills 01
Um romance ao mesmo tempo delicado e intenso entre dois homens que não conseguem afirma-lo em sua plenitude

No plano artístico, podemos pontuar alguma ressalva com relação à considerável timidez da produção nas cenas de romance, e esta seria de fato uma consideração válida. Porém também podemos fundamentar a defesa desse caráter do filme usando os próprios personagens, suas realidades e suas histórias como argumento – e o trabalho dos dois protagonistas do filme é a maior testemunha na defesa deste aspecto da produção. Jake Gyllenhaal, com a sua performance passional na medida exata, consegue transpor o modo como seu Jack tenta durante todos os anos convencer seu amado a esquecer o mundo e viver plenamente o amor que sentiam – é comovente ver como Gyllenhaal conseguiu, em cada toque em Heath, transmitir o carinho e o desejo de seu personagem por libertar seu amado de suas amarras internas. Ledger, por sua vez, reveste seu Ennis em uma personalidade algo reprimida e arredia que é tangível inclusive fisicamente, em sua postura, em seu rosto, em seu olhar, o que deixa claro para o público como Ennis, apesar de não conseguir na maior parte do tempo externalizar adequadamente o que sentia nem em palavras nem em gestos, amava intensamente Jack, cada toque como se fosse o último, tomado por uma inquietação e melancolia que são a tradução da angústia de estar vivendo um amor que a realidade a sua volta sempre condenou. É por essas performances que se explica a relativa timidez das cenas de amor e sexo: os agentes deste amor estão aprisionados em um mundo onde não se consegue satisfazê-lo plenamente, onde este amor, se não expressamente condenado, é no mínimo mal visto.
A certa altura, quando se entende tanto a realidade dos amantes quanto suas inseguranças e conflitos internos, não há como esperar um final feliz para a história. Criados em um ambiente que reprimia, as vezes até com violência, um amor desta natureza, é de se compreender que ao longo de todos os anos de relação nenhum dos dois conseguiu formular aquela frase simples, mas que talvez ajudaria a dissipar quaisquer receios e temores: eu te amo. Nem mesmo o passional Jack conseguiu fazê-lo, apenas confessando que não suportaria viver sem seu companheiro. Ennis, muito menos vence sua rigidez emocional para afirmar seu amor de forma plena, chegando até mesmo, a certa altura na vida de ambos, a dizer que a montanha Brokeback era o mais longe que ele conseguiria chegar com esse relacionamento e que essa paixão jamais desceria dali – e é neste momento que a montanha, antes o símbolo do amor entre ambos, se coloca como um obstáculo aparentemente intransponível para sua realização.
Infelizmente, apenas quando acaba sendo tarde demais é que Ennis se dá conta de que a motivação para levar sua vida em frente sempre foi o amor de Jack. A sua origem rude, e o preconceito internalizado contra a exposição daquilo que sentiam um pelo outro foi o maior obstáculo ao romance dos dois. E a promessa solitária de Ennis para Jack na cena final, já na impossibilidade de retomar seu grande amor, foi a que tristemente ele nunca conseguiu fazer antes para o homem que amava tanto.

Baixe: “O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee (Brokeback Mountain, 2005)
[áudio original, 1080p, mp4]

Baixe: legendas (português)

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“Batman Begins”, de Christopher Nolan.

Batman BeginsBruce Wayne, após o assassinato de seus pais, sai pelo mundo tentando entender o universo do violência. No oriente ele recebe treinamento na Liga das Sombras, grupo de mercenários assassinos que julgam ser a única solução contra o crime. Ao ser colocado em xeque sobre sua fidelidade à causa da liga, Bruce a destrói e volta para Gotham City, inundada pelo crime e corrupção. Lá ele decide disfarçar-se como Batman para enfrentar o maior mafioso da cidade e seus comparsas.
Alguns veículos da mídia celebraram este filme como o melhor da série Batman. Eles não estão errados. “Batman Begins” conta com o melhor ator até hoje no papel de Batman – Christian Bale, lindo e perfeito no papel -, uma ambientação mais sombria – que bebe na fonte do homem-morcego desenvolvido pelo quadrinista Frank Miller -, os vilões mais verossímeis e melhor desenvolvidos da série e um argumento bem mais elaborado. Ao contário do que possa pensar a maioria, este Batman não é uma sequência ou “prólogo” dos longas anteriores. Como indica o próprio título, “Batman Begins” inicia uma nova série – uma sequência ja está sendo planejada – ignorando os rumos e aspectos dos filmes de Burton e Schumacher, estabelecendo suas próprias idéias da gênese do herói e do universo que ele habita. E este acaba se transformando no melhor aspecto do filme, já que tudo foi conduzido com todo o respeito pela figura do herói. Além disso, a condução competente do filme não se rende à concessões inaceitáveis com o propósito de garantir público para o longa, encenando com calma e sensatez o Batman mais fiel àquele que habita os quadrinhos. E “Batman Begins” é longo, mas é tão eficiente na diversão arquitetada pelo diretor Christopher Nolan – mais conhecido por “Amnésia” – que nunca aborrece o espectador. Para alegria da legião de fãs do homem-morcego dos quadrinhos, este pode ser o início da melhor adaptação do herói para o cinema.

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“Casa De Areia e Névoa”, de Vadim Perelman.

House Of Sand And FogKathy arrasta-se em seu cotidiano absorta em um longo surto de autocomiseração: abandonada pelo marido há dois anos, cria desculpas para evitar que sua mãe descubra que sua vida parou no tempo. Porém, ela é despejada pela prefeitura da casa em que mora, e que pertence à sua família, sendo informada de que a residência irá à leilão para pagar os impostos comerciais nãO quitados. Kathy, apesar de não dar qualquer valor para o imóvel, decide tentar reaver a casa antes de que sua mãe chegue à cidade para visitá-la e, desta forma, descubra como a filha está. Mas o imóvel é vendido já no dia seguinte em que ela foi despejada para uma família de iranianos, cujo pratiarca, ex-militar em seu país, trabalha em empregos de baixa qualificação e sustenta uma vida luxuosa com o lucro que obtem da revenda dos imóveis que compra. E esse é o motivo pelo qual ele decide não sucumbir à interferência de Kathy.
Ns primeira cena do filme um policial pergunta à personagem de Jennifer Connelly se “essa casa é sua”. Essa é a pergunta que permeia todos os acontecimentos do filme. A casa aqui, na verdade acaba sem pertencer a ninguém pois é o personagem que testemunha o viver dilacerado daqueles que a habitam: a primeira ocupante, uma mulher que é mais culpada do que vítima pala vida desistimulante que leva; os últimos, imigrantes do oriente-médio que, apesar de tentarem adaptar-se à realidade de um país que pouco lhes tem de comum e não os compreende, guardam o desejo silencioso de um dia retornar à terra de onde fugiram. Com a entrada de um policial que vive um casamento conformista, e que tem personalidade instável e dependente, a briga pela casa que já foi de Kathy acaba ganhando contornos ainda mais passionais e desesperados.
O choque entre as duas culturas – a ocidental e a oriental – não chega a se constituir na tônica do filme, mas ganha importância nos trágicos eventos finais da estória. Da maior importância, no entanto, é que se compreenda que a luta dos personagens, não é por uma casa como algo tangível e concreto, mas pelo rumo que desejariam que sua vida tivesse tomado e por raízes que jamais conseguiram firmar. É está “casa”, no sentido mais metafórico, que eles buscam. Aí está o porque do título do filme: a “casa” é tão difícil de se obter porque é de areia e névoa, duas coisas que, apesar de serem plenamente visíveis aos olhos, são impossíveis de serem retidas nãos mãos. Assista.

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“O Operário”, de Brad Anderson.

El MaquinistaChristian Bale interpreta Trevor, um operador de máquinas de uma cidade industrial perdida em um lugar qualquer do mundo. Trevor vive uma rotina tão insípida como a de milhões de outras pessoas sem qualquer ambição como ele, não fosse por alguns detalhes que chamam a atenção em sua aparência física. Trevor não dorme há cerca de um ano e, em consequência disso, o operário apresenta um aspecto físico frágil, de uma magreza quase cadavérica. E enquanto sua aparência piora a cada dia seu cotidiano de eventos até então imutáveis começa a sofrer perturbações inexplicáveis.
Christian Bale já provou que é um bom ator, mas consegue mostrar ainda, com este papel, que pertence ao grupo de atores que apoia a descaracterização física como instrumento integrado à caracterização psicológica no trabalho de interpretação (a mais recente à entrar no time foi Charlize Theron em “Monster”). É certo que em alguns filmes é algo
Este é mais um filme da recente leva que se utiliza de um roteiro repleto de desvios e contornos para confundir o espectador e não permitir que qualquer de suas suposições se sustentem por mais do que alguns momentos, até que tudo seja esclarecido no final. “Amnésia”, “Irreversível”, “O sexto sentido”, “Os outros”, “21 gramas” e muitos outros ainda se utilizam mais ou menos deste artifício, alguns contando ainda com o adicional da narrativa fragmentada ou reversa. Todos aqui citados – incluindo o filme de Brad Anderson – resultam em filmes de boa qualidade, mas este recurso de tentar ludibriar a percepção do espectador está se tornando tão banal quando o uso excessivo de efeitos digitais no cinema americano. O fato mais negativo em decorrência da ostensiva utilização disso é que o espectador já está indo ao cinema ou sentando no sofá com essa expectativa, e mesmo antes do filme começar sua mente já se encontra preparada para o trabalho de desconstruir a confusão propositalmente arquitetada.

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“Munique”, de Steven Spielberg.

MunichBaseando-se nos acontecimentos das Olímpiadas de 1972, onde um atentado palestino nos aposentos de atletas israelenses resultou em inúmeras mortes de ambas as partes, Spielberg desenvolve a estória dos agentes israelenses encarregados de eliminar palestinos supostamente involvidos no acontecimento.
O filme tem sido criticado pela imprensa especializada, e ainda mais por palestinos e israelenses, por não se aprofundar e não retratar adequadamente as minúcias das motivações do conflito entre os dois povos. Não endosso estas opiniões. Acho que Spielberg se saiu muito bem no retrato de um conflito no qual é um estranho – apesar da origem judia e, por consequência, raízes israelenses, seu olhar sempre será o do povo americano. O que israelenses e palestinos esperavam de “Munique”? Que o americano Spielberg decifrasse a verdade e a razão de ser de um conflito que os próprios envolvidos não conseguem, apesar dos esforços, analisar?
Tecnicamente o filme também é caprichado: o elenco está muito bem, a fotografia de Janusz Kaminski é sutilmente granulada e sépia – o que eleva a sensação de passado -, a direção é precisa. O roteiro adaptado de Tony Kushner e Eric Roth consegue ser preciso ao retratar a insensatez de toda violência – tenha ela alguma justificativa ou não – e realista ao mostrar que espiões assassinos não são um poço de frieza, charme e profissionalismo. Durante todo o filme a impressão mais forte é a de que aqueles agentes contratados, que no final são tidos como especialistas, não passam de corajosos amadores. Deve-se dar o dveido crédito ao elenco, claro, também responsável por transmitir adequadamente tal impressão.
No final das contas, este acaba sendo o filme mais bem acabado e relevante de Spielberg em muito anos. E a prova de que, atualmente, o diretor consegue ser mais efetivo em produções sérias do que em filmes repleto de efeitos digitais e pirotecnias derivadas.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005