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Tag: cinema

“Alice”, de Marco Martins. [download: filme]

AliceAtor português segue rotina diária desde o desaparecimento de Alice, sua filha de 4 anos de idade, há pouco mais de 6 meses: todos os dias ele refaz o mesmo itinerário e afazeres daquele em que sua filha sumiu, além de distribuir panfletos e reabastecer as câmeras de vídeo que espalhou por alguns pontos da cidade com o intuito de registrar o movimento nas suas principais vias, nutrindo a esperança de encontrar alguma pista de Alice registrada nos vídeos que assiste todas as noites.
O mérito de “Alice” é a materialização, principalmente durante a sua primeira meia-hora, de um estado de desespero resignado diante de uma realidade contra a qual muito pouco pode ser feito. A sequência que abre o longa-metragem, onde Mário espalha panfletos debaixo de chuva, em meio ao trânsito caótico de Lisboa, afixando-os em pará-brisas de carros, inserindo-os em caixas de correio ou distribuindo-os em meio ao vai-e-vem de pessoas nas ruas ou em estações de “comboios” é a que melhor “cristaliza” este estado: a luta inglória de seu drama pessoal contra o oceano de todos os outros dramas individuais da qual é feita toda metrópole, e na qual Mário mergulha diariamente, torna bastante tátil a sua dor, e por isso mesmo um tanto quanto compreensível que ele não desista de alimentar a ilusão de que suas ações surtirão algum efeito. A fotografia que alia palidez e escuridão concede seu auxílio solidificando estas sensações em uma atmosfera urbana fria e impessoal, enquanto o elenco bem coordenado – incluindo aí o belo ator Nuno Lopes, conhecido aqui no Brasil pela sua participação na tv – atinge a medida exata de suas atuações para auxiliar o diretor, que também é autor do roteiro, em evitar a exploração do sentimentalismo fácil, no que ele obteve sucesso com um roteiro que desvia de quaisquer pieguices tentadoras.
Contudo, por mais sucesso que tenha sido obtido neste trabalho de tornar palpável uma dor cujo amargor da incerteza seja talvez até mais forte do que a da perda, não há densidade e relevância suficiente nisso para suplantar duas outras características deste filme, cuja intensidade joga seus méritos na penumbra. A primeira é o fato de que uma história como esta, escrita e conduzida com a verossilhança sempre em vista, não tem muito como surpreender quanto ao rumos que vai tomar e quanto ao seu derradeiro epílogo; a segunda é a lentidão narrativa, tão característica do cinema português, e que faz diluir pouco a pouco a força de seus trinta minutos iniciais, cada vez mais distante a medida que o filme avança mais e mais para seu fim. Assim unidos, estes dois atributos, que começam a agir a partir do momento que se encerra a sequência mais relevante, enterram todo o esforço de criar um ponto de partida interessante para o longa-metragem, substituindo-a por uma narrativa que se arrasta para a previsibilidade. Do início promissor arquitetado pelo diretor Marco Martins, o único elemento que ainda desempenha protagonismo é a abordagem realista, que dá a história o encerramento inevitável – todo o restante, assim como a pequena e frágil Alice, deixa a sensação de ter desaparecido no ar sem que reste qualquer vestígio de existência.
Baixe o filme utilizando os links a seguir e a senha para descompactar os arquivos.

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senha: Lusitano

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“A Questão Humana”, de Nicolas Klotz. [download: filme]

La Question HumainePsicólogo do setor de recursos humanos da filial de uma grande empresa alemã na França é solicitado por um dos seus altos funcionários a investigar sigilosamente a aparente perturbação no comportamento de outro executivo da empresa.
O argumento da trama de “A Questão Humana” tem como suas maiores qualidades a ousadia temática e o trabalho bem feito no alinhavamento dos elementos que constituem suas bases: enquanto personagens narram a participação de seus pais nos medonhos extermínios perpetrados na segunda guerra mundial na busca pelo ideal nazista de perfeição racial, um paralelo é lenta e sutilmente traçado com as estratégias de seleção de corte de funcionários para reduzir custos e otimizar a produtividade da iniciativa privada. Auxiliada pela fotografia que imprime a mesma frieza do ambiente às expressões humanas e pela encenação silenciosa das sequências, a comparação tecida pelo diretor ganha amplitude e peso, o que não quer dizer que ela chegue a convencer o espectador – há uma distância exosférica entre a execução gratuita de pessoas com o pretexto de promover o aperfeiçoamento da raça humana e os critérios de seleção no corte de funcionários que, por exemplo, inclui dispensar alcoólatras baseando-se no pressuposto de que sua possível instabilidade é sempre um risco a ser considerado. Mas se o único senão de “A Questão Humana” fosse a idéia discutível de estabelecer uma relação de similaridade entre a desumanidade do regime nazista e das políticas corporativas do sistema capitalista, o resultado não teria sido tão ruim.
O problema mais óbvio é a duração colossal do filme. Nicholas Klotz e a roteirista Elisabeth Perceval não parecem ter qualquer pudor em saturar o longa-metragem ao esticar de forma imensurável sequências periféricas – quando não totalmente descartáveis -, gastando mais de duas horas de filme para contar algo que poderia ser sintetizado em uma hora e meia sem qualquer prejuízo àquilo que ambos se propõe a mostrar.
Não bastasse esse despropósito ser prejudicial por si só, ele ainda torna mais profundo o maior equívoco desta película: a abordagem pretensiosa tanto do diretor quanto de sua roteirista. Muito além de ser um problema dos temas tratados, seja na idéia básica do argumento – baseada em livro de François Emmanuel – ou nos outros componentes da trama – como as críticas pontuais às políticas de combate à imigração ilegal e ao desprestígio da música erudita e folclórica em detrimento da música eletrônica contemporânea -, a falha subsiste na forma como eles foram compostos no roteiro e conduzidos na materialização do longa-metragem, sendo impregnados de uma convicção moralizante, de uma certeza pré-concebida de Klotz e Perceval de que seus pontos de vista constituem a verdade única e absoluta. Nas mãos de um diretor que sabe promover, sem tropeços, uma mistura mais coesa e sucinta de suas ambições e concepções na trama, “A Questão Humana” teria sido convertido em um filme que não afogaria sua narrativa em um pedantismo de dimensões oceânicas – ou, pelo menos, o faria com muito mais propriedade e fundamentação.
Baixe o filme utilizando os links a seguir.

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legendas (português):
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“Nome Próprio”, de Murilo Salles.

Nome PróprioGarota nos seu vinte e tantos anos, enquanto alimenta a esperança de vir a publicar um livro, passa seus dias entrando e saindo freneticamente de relações afetivas, das quais tira muito do que escreve em seu blog.
Em coisa de quarenta minutos de duração do filme “Nome Próprio”, me veio à cabeça as declarações de seu diretor no programa Sem Censura, onde ele afirmou perceber que seu longa versa sobre o feminino e sobre a idéia de que a internet, e particularmente o blog, estão irremediavelmente transformando a produção literária. Depois disso, passei todo o restante da projeção de “Nome Próprio” agradecendo que a noção de feminino de Salles e que a sua idéia de transformação da literatura sejam realidade apenas dentro da ficção por ele criada.
Se o feminino, esta identidade que Murilo acredita ser a força motriz por trás das grandes revoluções sociais dos últimos anos, se resume ao desatino comportamental sexual e afetivo e à sustentação de uma relação sempre parasitante, inconsequente, invejosa e displicente no que tange a vivência e os sentimentos alheios, estaríamos cercados de vadias – e vadios – que passam seus dias “atropelando” e desprezando o outro de forma gratuita tão somente para sustentar suas necessidades e seu modo de vida agressivos. Não por um acaso, isso é ao mesmo tempo a essência daquilo que o filme prega como a nova revolução na produção literária – uma literatura egocêntrica e egoísta, que nos brinda com um interminável jorro do fluxo emocional de alguém que acha que o que interessa para o mundo são as divagações e os conflitos do eu, eu, eu.
Felizmente, ambas as idéias que embasam o longa se resumem à um imenso equívoco sobre a contemporaneidade, já que o feminino, fosse ele materializado em uma figura humana, esta seria regida pela coerência, pela sensatez e por uma sensibilidade suficientemente racional, enquanto o status da literatura contemporâneia, graças à tudo que é sagrado, não apenas ultrapassa e muito as fronteiras do “supra-eu” como, mesmo quando limita-se à este âmbito, é bem mais do que um “vômito lírico” pós-adolescente sofrendo de delírios de grandeza que nem a pior corrente do romantismo ousou produzir.
Há o que se possa considerar válido na produção de “Nome Próprio” – pode-se tirar algum prazer ao testemunhar o trabalho de direção, de enquadramentos e de movimentação de câmera interessantes e competentes -, mas nada é capaz de suplantar a sensação do espectador desvendar, sem nenhum deleite, a verdadeira identidade do longa de Murilo Salles, que se revela uma apologia irritante ao pior estereótipo da “geração web 2.0” – os “posers”, aquelas criaturas mergulhadas em uma ilusão e estupidez tão colossais que os faz acreditar piamente que, a exemplo do filme, são todos a mais legítima reencarnação de, ora vejam…Clarice Lispector.

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“Arquivo X – Eu Quero Acreditar”, de Chris Carter.

The X-Files - I Want To BelieveAtravés de Scully, Mulder é contactado pelo FBI para que ajude no caso do desaparecimento de uma agente do bureau, com a promessa de que todas as acusações contra ele sejam retiradas. O ex-agente aceita e logo começa a acreditar na única fonte de informações disponível, nada ortodoxa, enquanto Scully reluta em conceder qualquer credibilidade à ela.
É sempre um prazer voltar a ter contato com personagens tão brilhantes quanto os da série Arquivo X. Porém, isso só não se constitui em motivo para um revival do seriado na materialidade do cinema: precisa-se de argumento sólido e digno de ter à frente Fox Mulder e Dana Scully. Infelizmente, não é o caso do tão aguardo segundo filme baseado nos personagens da série, o longa-metragem “Arquivo X – Eu Quero Acreditar”.
O grande problema desta nova incursão dos agora ex-agentes do FBI Mulder e Scully no cinema é a falta de impacto. E isto já começou a tomar corpo na própria concepção do filme: apesar de que me pareceu, inicialmente, uma boa idéia retomar a série sob a égide dos chamados “monstros da semana”, agora já me parece tanto. Depois de conferir o longa, constatei que este tipo de história dificilmente consegue obter a relevância e a urgência que a mitologia da série tem ao ser desenvolvida em um longa-metragem para o cinema – as aberrações extraordinárias tão bem abordadas tem seu lugar e sua relevância na materialidade da TV, mas no cinema, com certeza, carecem de impacto.
Se a criatura apresentada fosse algo de proporções realmente catastróficas, apresentando perigo em alta escala, o resultado teria sido menos insípido, mas a que foi escolhida não apresenta perigo e terror em uma escala considerável para que o filme ganhasse a dinâmica e a energia necessárias para o cinema – além de ser uma aberração que está longe de ser original, tantas vezes já abordada no cinema.
Mas há ainda um outro elemento que atrapalha a desenvolvimento dos personagens na trama: o seu envolvimento. A beleza do relação de Mulder e Scully sempre foi a sua impossibilidade. A partir do momento que se resolve concretizar aquilo que causava uma tensão interessante e necessária, não há mais muito o que fazer, a não ser inserir a dinâmica e os dramas do romance dentro de um universo onde, lamento informar ao shippers deliciados com o que viram neste filme, ele nunca fez falta – há até um certo emprobrecimento da complexidade dos personagens, nivelando-os à de tantos outros que povoam seriados cujo viés temático é apenas este.
Mas para que tudo não pareça um desastre, há pelo menos um grande acerto. O personagem de Billy Connolly é, provavelmente, a melhor coisa do que foi criado no argumento deste filme: seus atos no passado e sua situação no presente levantam questões morais interessantes que, por sorte, nunca são tratadas de forma barata e, além disso, acabam funcionando como um amálgama brilhante da essência de Scully e Mulder.
Tirando o fato de termos Mulder e Scully novamente em ação, não há mais muito o que realmente faça “Arquivo X – Eu Quero Acreditar” realmente valer a pena – é triste, mas é verdade. Chris Carter chegou a comentar que, dependendo do sucesso do filme, iria propor uma terceira aventura retomando a mitologia da série. É lamentavél, mas meu maior medo não é o fato de que um terceiro filme não venha a ser feito dado o provável fracasso deste aqui, mas em obtendo ele sucesso, o que Carter e o roteirista Frank Spotnitz fariam com a mitologia da série no terceiro. Tendo em vista a perda de rumo do seriado nas última três temporadas, além dos equívocos deste filme, seria melhor deixar a responsabilidade de uma nova aventura de Mulder e Scully nas mãos de alguém mais íntimo do universo do cinema. Ou, na pior da hipóteses, deixá-los em paz de uma vez por todas – porque é bem melhor termos Fox e Dana como os personagens incríveis que sempre foram no seriado do que banalizá-los ainda mais, reduzidos que foram aqui à uma espécie de “Casal 20” subversivo.

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“Cloverfield”, de Matt Reeves. [download: filme]

CloverfieldNova-iorquinos que participam de uma festa de despedida são repentinamente surpreendidos por um estrondo gigantesco. O que inicialmente é cogitado como um acidente ou atentado terrorista na cidade, logo mostra-se como algo muito mais estranho e aterrador através da lente da câmera digital amadora que registrava a festa de despedida.
“Cloverfield” é mais um fruto da atual seara de produções de ficção que exploram o pressuposto documental, cujo representante mais popular é o longa “A Bruxa de Blair”. Considerando-se este aspecto, o filme acaba tendo sucesso na empreitada ao expôr um evento catastrófico, bem como o pânico e caos por ele desencado, sob a abordagem de um registro amador, incluindo aí a exploração dos reveses do material utilizado para a gravação assim como da falta de habilidade ao manipulá-lo – como se pode conferir nas cenas que simulam o vídeo que havia sido gravado anteriormente na fita e que “vaza” em alguns momentos em que ele estava sendo sobreescrito pela gravação mais recente, interrompendo a trama do filme -, e fundindo-o com a inserção de efeitos especiais em uma materialidade que está ainda sendo descoberta no cinema – a do filme digital. Mas os méritos de “Cloverfield” ficam mesmo por aí, resumidos aos aspectos técnicos. Naqueles responsáveis pela verdadeira qualidade de um longa-metragem, “Cloverfield” capenga na referência algo assumida e naquela que inivetavelmente, a meu ver, soa mais como apropriação do que referência. Aquilo que se assume como tal pode ser visto poucos minutos logo que se inicia o evento catastrófico que é a razão de ser da película: a cabeça da estátua da liberdade, arrancada e arremessada contra um edifício e que acaba aterrissando em uma rua da cidade é uma referência à cena que estampa o cartaz do filme “Fuga de Nova York”, do diretor John Carpenter. Ate aí, tudo bem. O problema é que praticamente o filme todo acaba sendo uma cópia dissimulada, um remake um tanto cara-de-pau de “Godzilla”, de Roland Emmerich, com uma pitada do clássico absoluto “Alien”, quando em uma sequência do filme vislumbra-se uma idéia que se aproxima muito de um dos elementos mais simbólicos do universo da franquia iniciada pelo filme de Ridley Scott. Para entornar ainda mais o caldo, os personagens do longa-metragem, um bando de homens e mulheres beirando os 20 ou 30 anos, tem personalidades e comportamentos consideravelmente irritantes e infantis, em particular aquele responsável pelo registro em vídeo – é certo que este personagem, ao assumir o trabalho que seria equivalente ao de um narrador, deve ser inevitavelmente inoportuno, mas ao somar-se à isto uma boa dose de imbecilidade do câmera-personagem-narrador, que muitas vezes não entende algo que já está patente para a platéia, o filme beira, em alguns momentos, as raias da irritação.
É por conta disto que “Cloverfield” é apenas mais um filme que privilegia a forma sobre o conteúdo, organizado sobre uma pirotecnia efusiva que tem como objetivo encher os olhos suficientemente para desviar atenção de um conteúdo raso, um pastiche barato do filão americano do monstro na metrópole – seja ele, de fato, uma criatura colossal e sanguinária ou uma constelação de naves espaciais sedentas por destruição. A única coisa que fez valer a pena essa sessão diante de meu televisor foi a curtíssima cena, logo no início do filme, em que o ator Michael Stahl-David é flagrado sentado em uma cama, vestindo apenas uma cueca samba-canção: nem uma horda de bestas genocidas gigantescas é páreo para toda a formosura deliciosamente perfeitinha do garoto loiro – ele chega a fazer você até esboçar um sorriso ao fim dos 85 minutos desta pura perda de tempo.
Baixe o filme utilizando uma das fontes de links a seguir.

legenda (português):
http://legendas.tv/info.php?d=16e4615ac70f12eb5058f271badc980d&c=1

Fonte 1 [AVI]:
OBS: junte os arquivos rodando o programa HJSplit.
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Fonte 2 [AVI]:
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Fonte 3 – RMVB [297 MB]:
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“Começar de Novo” (“Reprise”), de Joachim Trier. [download: filme]

RepriseDois jovens de 20 e tantos anos, amigos de infância, amantes de literatura e música punk, tentam ambos lançar seu primeiro livro, enviando juntos os seus escritos para uma editora. Enquanto Philip consegue obter o feito, e ganhar fama da noite para o dia, Erik tem seu escrito recusado. Philip, porém, acaba tendo problemas, já que não consegue lidar com o seu sucesso, e Erik segue em frente na tentativa de obter uma nova chance.
O longa-metragem de estréia de Joachim Trier, primo distante de um dos mais famosos cineastas dinamarqueses, Lars Von Trier, tem uma dualidade qualitativa na concepção de seus elementos: sempre que algo parece uma idéia interessante, também o é ao mesmo tempo irritante.
A estilística narrativa é o ponto onde isso é percebido com mais facilidade: ao ser por vezes bifurcada na tentativa de expôr outras possibilidades para o comportamento e o caminho tomado pelos personagens, e inundada por um maneirismo técnico no qual o diretor adota coisas como o congelamento das cenas e a exposição de legendas, ambos com o claro intuito de imprimir dinamismo, a narrativa soa, em alguns momentos, apenas como instrumento para construir no longa-metragem uma identidade cult – e é bom lembrar que o cult genuíno não é o com intencionalidade, mas torna-se um no advento do contato com o público -, enquanto em outros sua técnica ganha sentido, por apresentar elementos importantes para a trama ou por expôr o verdadeiro conflito de um personagem, bem como por apresentar sua solução – é o que acontece na sequência final do longa-metragem, por exemplo. O narrador onisciente é outro elemento de qualidade ambígua no filme: se por um lado ele serve como muleta para a já citada tipificação do longa como obra de status cult, por outro ele ganha o papel de aumentar no espectador o conhecimento mais aprofundado sobre a personalidade dos personagens e a motivação primeira de seu comportamento. Contudo, o mais interessante é observar que este caráter de dualidade se repete até mesmo no par de protagonistas do filme: se Philip, o escritor de inspiração repentina e escrita ágil, irrita pela sua personalidade conturbada e confusa, pela sua instabilidade psíquica e emocional e pelo seu caráter sensivelmente egoísta, Erik, o autor cujas obras só nascem com muito esforço, cativa tanto por suas qualidades – seu companheirismo, que lhe faz estar disposto a sempre apoiar e ouvir aqueles que ama – quanto pelos defeitos – a sua ingenuidade, que lhe permite ser influenciado e moldado pela opinião e comportamento alheios, assim como a inconsequência, que lhe faz agir de modo impulsivo e leviano, sem pensar que pode estar desprezando e magoando alguém que só lhe quer bem. Como se pode prever, é justamente o personagem de Erik que garante ao filme grande parte de seu interesse – muito graças ao carisma de seu intérprete, Espen Klouman-Høiner, e em outra parte pela configuração humanamente verossímel de seu caráter.
Mas os méritos não são sempre inconstantes quando são obra unicamente do diretor: a idéia de abolir sincronia entre fala e imagem, bem como o desvio do foco de suas lentes para outros elementos, capazes de transmitir tanta emoção quando a expressão dos atores, intensifica a potencial emoção das cenas e seu caráter poético – isso pode ser conferido especialmente na sequência que retrata o reencontro entre Philip e Kari.
Uma estréia promissora, como diria um dos personagens-chave da trama. Se em suas produções posteriores o diretor dinamarquês amadurecer sua técnica, polindo-a ao limar o maneirismo excessivamente desnecessário, teremos mais um representante a ser constantemente observado no cinema nórdico, berço de uma tradição de cinema tão ousada na sua poética quanto no seu experimentalismo.
Baixe o filme utlizando os links a seguir.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005