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Tag: country-rock americano

Orville Peck – “Drift Away” (single) [download: mp3]

orville peck - drift away/appaloosa (single)

Orville Peck, cujo texto que escrevi em fevereiro sobre seu segundo disco acordou o sete ventos de sua segunda fase de hibernação, em muito breve lançará um novo EP, Appaloosa. No dia de ontem o cantor americano liberou “Drift Away”, a segunda faixa do projeto, como single de divulgação deste novo lançamento: uma power ballad no familiar country (e um tiquinho rock) de Peck com violões e guitarras dedilhados em toques doces e vibrantes, bateria lenta, porém decidida e teclado Rhodes melancólico sobre o vocal suplicante do cantor, as letras, bem ao gosto do compositor, refletem nostalgicamente expectativas de jovens do interior sobre a vida adiante, mas nos versos “veja as crianças andando de carona pelas estradas, em 2021 todos os cinemas fecharam, desamparados, eles não tinham para onde ir”, que abrem a canção, Orville aproveita para lembrar como há pouco tempo parte considerável da infância e juventude de muitas pessoas foi afetada pelo infame confinamento da pandemia, cujos (ir)responsáveis também obrigaram cadeias inteiras de serviços a fecharem as portas, uma insanidade asquerosa, que além de todas as consequências econômicas e sociais (com reflexos até hoje) prejudicou uma geração inteira de crianças e jovens por mantê-los confinados e com imensas restrições de interação social e lazer – e nisso concordamos plenamente, Orville.

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Orville Peck – “Drift Away” (single) [mp3]

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Orville Peck – Bronco [download: mp3]

Orville Peck, ruivo sul-africano radicado nos Estados Unidos, é conhecido por cobrir parte do rosto com máscaras algo carnavalescas, um recurso que denota algo de pretensioso, e assim seria normalmente premiado com a plenitude da minha indiferença. Junte a isso suas doses (perdão pelo trocadilho) cavalares de country, e seria quase uma total certeza que ele não passaria pelos meus ouvidos. No entanto, quando acidentalmente (ou não) o “deus” algoritmo atirou um dos seus discos na minha frente, resolvi arriscar, inicialmente movido por uma curiosidade mórbida – e confesso que sua música não ofendeu minhas sensibilidades sonoras.
Dono de uma voz ao mesmo tempo possante e virtuosa, o rapaz consegue cavalgar galantemente pela herança country americana ao mesmo tempo que desvencilha-se razoavelmente da cafonice provinciana que normalmente envolve o gênero, embalando-o em uma delgada embalagem rock. “The Curse Of The Blackened Eye”, segunda faixa do disco Bronco e que retrata um homem tentando cicatrizar os traumas de um relacionamento abusivo, é uma amostra disso: a percussão sutil e elegante, adornada por um baixo sedutor e acordes discretos no violão e guitarra, encanta pela sua simplicidade melancólica. Em “Iris Rose”, uma ode tocante a sua falecida avó, o cantor pega seu banjo para fazer companhia a bateria e aos violões em um canto emotivo, que no refrão derrama-se na instrumentação volumosa e na abatida ternura do trompete para adornar seus versos comoventes. Em seguida uma gaita distante e etérea introduz a tônica nostálgica da power ballad “Kalahari Down”, em cuja melodia o cantor não economizou em orquestração de cordas para andar ao lado da bateria e violão que sonorizam as letras que evocam a sua juventude nos subúrbios e paisagens áridas da África do Sul.
Nem tudo são lamentos, porém: “Bronco”, a faixa título do disco logo chega em compasso acelerado, trazendo vapores do Elton John mais entusiástico nas guitarras sinuosas e na bateria acelerada que recheiam as letras que insinuam um paralelo entre o entusiasmo de um cowboy em um rodeio e o inevitável jogo de quem aposta sua sorte em um flerte. Já em “Trample Out The Days”, os violões se unem com jovial energia a bateria e ao baixo no refrão para que Orville possa deixar de lado suas memórias e sua origem para narrar o seu desejo de tirar o máximo do que sua vida na nova terra, a Califórnia, pode lhe oferecer – e ao que parece, ele parece estar conseguindo, já que ele utiliza a vigorosa melodia compassada de “Any Turn” para relatar o frenesi da sua rotina com sua banda na estrada. O disco se encerra com um dueto com Bria Salmena na balada “All I Can Say”, onde guitarras, violão e bateria servem de fundo ao lamento de alguém que prepara-se para abandonar uma relação que já sabe ter perdido o rumo. Orville Peck, contudo, tem talento suficiente para não perder o seu – desde que abandone artifícios pueris como o da máscara para revelar sem receios o seu trabalho promissor.

Baixe: Orville Peck – Bronco [mp3]

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The Watson Twins – Talking to You, Talking To Me. [download: mp3]

The Watson Twins - Talking to You, Talking To MeQuando espiei – bem superficialmente e sem muita atenção, confesso – o álbum que Jenny Lewis lançou em colaboração com as irmãs americanas Chandra e Leigh, a sonoridade escolhida não me despertou interesse por estar fortemente calcada na música country. Felizmente, porém, isso mudou sensivelmente no primeiro álbum lançado pelas garotas e, para minha surpresa, ao conferir o comentário do meu amigo via Twitter sobre o novo álbum da dupla, neste o estilo foi ainda mais destilado. Há uma ou outra faixa que ainda não escapou do domínio do country, caso da balada macia e “Tell Me Why”, com violões, bateria e piano conduzindo uma melodia meiga que é regida pelo vocal das duas irmãos afinado com o romantismo da música, mas a frequência sonora de Talking To You, Talking To Me invade mesmo é a fronteira do rock ao trazer composições onde o country só entra para inserir o principal tema do gênero – o amor – e para lançar vapores delicados nas melodias caprichadíssimas, algumas delas rescindindo uma sensualidade suave e discreta, apesar de que em “Midnight”, ainda que esta seja introduzida por uma soberba escalada sonora com o piano de acordes quentes e a bateria, seguindo com um orgão de longas notas lânguidas, guitarra de cadência pausada e lenta e vocais doces para compor uma melodia vagarosa e sexy, é a sequência mais vigorosa que fecha a música que acaba por conquistar o ouvinte: os instrumentos sustentam um longo gemer freemente que bem poderia servir de trilha para uma cena de sexo cheia de paixão com flashes de roupas sendo arrancadas e jogadas pelo ar. “Devil In You”, contudo, carrega um teor sensual bem mais sutil no compasso marcado pela bateria, baixo e guitarra de volteios cíclicos, piano dedilhado em toques breves e ocasionais e orgão que lança notas de um erotismo elegante.
A marca mais evidente das criações das irmãs gêmeas, porém, é a delicadeza. “Modern Man”, faixa que abre o disco com um rítmica mais puxada, é encoberta por essa feição equilibrada na bateria escandida em um trotar curto e ligeiro e em sua guitarra cujas notas reverberam discretamente por todo o arranjo, lançando um calor metálico na atmosfera da canção. “Brave One” também tem bateria veloz, mas a guitarra e os violões não ficam para trás, acompanhando os passos curtos porém rápidos da música base que é atravessada pela sintetização quase infantil que cintila pontuando a melodia. Por sua vez, “Harpeth River” tem a alma musical dividida entre o pulso sensual do orgão e da guitarra de arfantes notas ásperas e a agitação triste do arranjo mais espesso da bateria que acompanha o refrão. Já “Calling Out” não se divide em momento algum, calcando-se com segurança no gingado discreto da bateria e guitarra, colocando o orgão para fazer o papel coadjuvante numa melodia que parece ter sido encomendada para servir de fundo à troca de olhares entre duas pessoas em cantos opostos de um bar e separados por uma pista cheia de casais embalados pelo toques afrodisíacos da canção. Fechando o disco, as irmãs tingem a bateria, guitarra e violões de “U-N-Me” com um fluxo pop/rock cheio de energia e luminosidade, lançando suas vozes de modo decidido no refrão e nos vocais de fundo encantadores e botando pilha no piano e no pandeiro sem pele que vibram na rítmica efusiva da bateria.
Foi um bom negócio trocar as referências musicais após a colaboração com Jenny Lewis. O rock que produzido pelas irmãs Watson, que começou a ser injetado já no álbum anterior, trouxe frescor contemporâneo à sua música, flexibilizando suas potencialidades artísticas e ampliando o círculo de fãs e admiradores da dupla. E isso tudo sem comprometer a integridade do trabalho já feito, uma vez que a verdadeira essência musical das irmãs é a sonoridade delicada, e não a fidelidade à um gênero musical específico. Ao que parece, o country está perdendo duas belas representantes, mas o rock com certeza não se incomoda nem um pouco de lhes dar as boas-vindas.

P.S. – não deixe de ler também o texto que o Zé escreveu no seu blog sobre este álbum.

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1 comentário
O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005