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Tag: eletronico-americano

Caribou – “Odessa” (single) [download: mp3]

caribou - odessa (single, 2010)

Apesar de ter um doutorado em matemática, o canadense Dan Snaith atua desde o início do milênio no mundo da música eletrônica independente com dois pseudônimos diferentes. Daphni, o mais recente, é utilizado para dar vazão ao seu lado DJ, seja nos palcos de clubes ou em álbuns mais focados no frenesi sonoro que acaba embalando estes locais. Já Caribou é o alter ego musical que normalmente utiliza para lapidar trabalhos mais experimentais e intrincados. E é desta persona que advém a sua música mais conhecida até hoje.

caribou - odessa (single, 2010) post 01
A soturna aflição de “Odessa” é que tornou esta a faixa mais conhecida da projeto Caribou

Single do álbum Swim, lançado em 2010, “Odessa” ilustra bem esta vertente mais “elaborada” de Dan Snaith. Sampleando e processando diversos instrumentos acústicos tradicionais, como bateria, caixa e triângulo, o artista canadense alcança tanto a cadência sombria e dançante da faixa quanto o misterioso e aflitivo gancho sonoro que pontua a música que, apesar de lembrar o estertor de um pássaro, é na verdade uma micro-harmonia de flauta e saxofone recortada e trabalhada pelo produtor e multi-instrumentista canadense. Sobre esse clima de soturna ansiedade, Dan desliza seu falsete suave e fleumático, num contraste que suscita a elegância inabalável de um felino em seu lento caminhar em meio ao delírio estroboscópico de uma pista de dança. Encaminhando o fechamento da música, uma cascata de notas sintetizadas e um teclado cintilante derramam harmonias cristalinas e luminosas que amenizam a tensão dark preponderante da faixa.
“Odessa” não é a música mais conhecida deste músico por mero acidente: muito além de ser o cartão de visita de seu projeto musical mais autoral, ela demonstra como a música eletrônica pode ir além do estigma pueril e comercial, tanto no seu processo criativo como nas texturas e ambientes sonoros que materializa. Afinal de contas, não é só de Björk e Massive Attack que o cenário da música menos tradicional foi feito.

Caribou – “Odessa” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

Interpol - Iron City (Single) - 2026
Interpol - Iron City (Single) - 2026

Ouça (Deezer):

Caribou - Odessa (Single) - 2010
Caribou - Odessa (Single) - 2010

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Blood Cultures – Skate Story: Vol. 1 [download: mp3, vídeo]

blood cultures - skate story vol 1 (2025)

O anonimato, ou um simulacro dele, é um artifício que alguns músicos costumam adotar por razões diversas. Sem que seus rostos sejam de fato um segredo, Jonathan Bree e Orville Peck o fizeram como uma tentativa marketeira de diferenciação no gênero musical que atuam. Sia e Björk adotaram o mecanismo tardiamente em suas carreiras, possivelmente como um modo de retardar a percepção do público sobre o seu envelhecimento. Já grupos como Daft Punk até hoje preservam segredo sobre esse aspecto para manter os benefícios da privacidade – ou talvez para tentar sustentar o interesse contínuo do público através do mistério de sua aparência.

blood cultures - before
Blood Cultures em sua primeira fase, com apenas um integrante.

O banda de indie pop eletrônico Blood Cultures, composta inicialmente por um único músico, mas agora com quatro, pode ser encaixada nesse último grupo, mas vai um pouco mais fundo no expediente: ninguém sabe nem mesmo o nome dos sujeitos que sempre se apresentam com o rosto encoberto, normalmente com uma máscara artesanal sobreposta a camadas de capuz (antes eram burkas cobrindo um traje executivo).
blood cultures - after
O grupo na fase atual, com quatro membros.

Na semana passada, os “tímidos” rapazes lançaram um novo disco, o segundo pelo selo Pack Records, depois de dois outros álbuns produzidos e distribuídos sem este suporte. Servindo como trilha sonora do indie game de mesmo nome e trazendo vocais processados em estúdio e uma produção bem cuidada, Skate Story: Vol. 1 é um compêndio de doze faixas onde o pop eletrônico é a chave mestra que abre as portas de diferentes influências sonoras. “Emptylands”, por exemplo, é moderadamente uptempo, mas tem como seu elemento principal os sintetizadores, hora como uma harmonia ondulante vintage que suscita o cinema de mistério dos anos 80, hora como um denso fluxo melódico de puro neon noturno. Já em “Where The City Can’t See”, a intro com vocal e teclado de sonoridade abafada e envelhecida não deixa dúvidas de sua herança lo-fi, mas logo a doçura da harpa e das harmonias sintetizadas trazem generosas doses de chillwave, por sua vez adornado com a urbanidade de samples dos anúncios do metrô de New York que pontuam a música – não é puro acidente, uma vez que o grupo reside na região da metrópole e o videoclipe da música (abaixo), com uma edição arrojada e moderna, a usa como cenário, seja com imagens de arquivo ou de registros atuais – e apesar de todo o esmero, os rapazes ainda deixam escapar algumas provas do péssimo estado atual de uma das cidades mais famosas do planeta.

Na faixa seguinte, porém, o tom é outro: iniciada com synths e vocalizações discretas ao fundo que sugerem um clima quase fantástico, “Into Pure Momentum” é logo conduzida por um beat rápido que não nega seu gosto pelo drum ‘n’ bass e a pista de dança. Mas o ritmo diminui em sequência, já que as agudas sintetizações extraterrenas, o longínquo teclado envelhecido e o distorcido vocal melancólico são todos conduzidos pela lenta cadência pulsante de um synth de tessitura eletro-dark em “Overlord”. “Unarchiver” chega na sequência querendo voltar para a pista com sua batida sintética e uma fartura de camadas de distorção nos vocais e no coral ao fundo, concedendo um ar psicodélico à canção. Já no fim do disco, a aceleradíssima batida densa, suja e caótica, repleta de distorções, que se alterna a uma ambiência soturna e misteriosa sugere “Hole In The Sun” como a trilha sonora ideal para uma boss fight tensa e caótica em uma atmosfera sombria, enquanto a delicadeza da textura rarefeita do mezzo lo-fi fractal de “The Age of Disbelief”, por sua vez, atua como um lenitivo, concluindo a trilha do game Skate Story com a placidez aliviada de quem acabou de enfrentar, com sucesso, uma dura batalha.

Baixe: Blood Cultures – Skate Story: Vol. 1 [mp3]

Ouça:

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Health & Chelsea Wolfe – “Mean” (single) [download: mp3]

health and chelsea wolfe - mean (single)

Chelsea Wolfe, conhecida pelo seu rock de matizes dark com letras melancólicas e soturnas, juntou-se ao grupo eletrônico alternativo Health para dar voz ao single “Mean”, lançado em maio – a parceira talvez seja resultado da abertura musical do seu último álbum, She Reaches Out To She Reaches Out To She, onde a cantora flertou explicitamente com sonoridades mais sintéticas do que normalmente visto em seus discos anteriores, ampliando visivelmente seu arcabouço melódico. A união resultou em uma faixa que preserva a atmosfera industrial que é característica do grupo de Los Angeles, marcada pelo intenso martelar da bateria eletrônica que impulsiona o exército de sintetizações sonicamente “poluídas” sobre a qual a voz etérea e sombria de Chelsea lamenta o comportamento gratuitamente cruel de seu amante: “Você quis ser cruel sem qualquer motivo? Você descontou em mim por eu estar sozinha?” – uma faixa saborosa pra quem, como eu, não tem qualquer simpatia por uma balada, mas que ainda assim gosta de dançar no meio da sala ao som de uma boa música.

Baixe:
Health & Chelsea Wolfe – “Mean” (single) [mp3]

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Noel – “Silent Morning” (single) [download: mp3]

noel silent morning single

Entre os hits populares que tomaram as rádios FMs no final da década de 80 e inícios dos anos 90 com certeza se encontra “Silent Morning”, o único single de sucesso do cantor americano Noel Pagan, conhecido apenas como Noel, e que foi lançado em 1987. O artista de origem latina, mas nascido em New York e criado num dos distritos mais pobres e conturbados da metrópole, o Bronx, é um dos precursores do gênero chamado na época de “freestyle”, que na verdade se tratava de um pop dançante com batida viciante e fartura de sintetizadores. Apesar de não se tratarem de composições que se destacavam pela inovação, é inegável que eram dotadas de melodias infectantes e irresistíveis. Além do inconfundível synth pulsante que introduz a canção e se tornou sua assinatura mais evidante, a vibrante batida sincopada que compõem sua base e a fartura de iluminuras eletrônicas que a pontuam manifestam com clareza as inspirações do gênero, entre as quais inegavelmente estão as eufóricas composições dos britânicos do Depeche Mode na época.

Baixe: Noel – “Silent Morning” (single) [mp3]

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Karen O & Danger Mouse – Lux Prima [download: mp3]

Karen O, vocalista da banda Yeah Yeah Yeahs é uma daquelas artistas inquietas que necessita de vez em quando colocar seu barco a navegar por oceanos que não o seu, e entre um álbum ou outro de sua banda, Karen já lançou um disco solo e compôs músicas para filmes e até mesmo um game (Rise of the Tomb Raider). No recém-lançado Lux Prima, Karen tem companhia para guiar seu barco nesta nova empreitada: o produtor musical Danger Mouse. O álbum que é resultado da parceria está permeado por nostalgia e mistério e uma névoa de coloração cinematográfica suspensa na atmosfera das suas nove canções que navegam no pop, no rock e no trip-hop. A faixa título que abre o disco exibe estas matizes, ilustrando bem a fusão da personalidade musical de ambos os artistas: durante seus mais de nove minutos, uma intro com teclado e vocalizações que vertem psicodelias sobre uma bateria narcotizada encerra-se, dá lugar à uma melodia de bateria, baixo e teclado com gingado elegante sobre a qual Karen desfila seu vocal, e por sua vez é também encerrada e sucedida por um amálgama sonoro de ambas, numa música que não soaria estranha tocando em um cabaret – ou até mesmo em um motel. “Ministry” e “Turn the Light” prosseguem com suavidade, a primeira com vocais e sintetizações etéreas sobre um violão de acordes radiantes, numa ambiência de delírio e fantasia, enquanto a última investe na requebrado sensual do baixo como base para o vocal e sintetizações charmosas e românticas. “Woman” e “Redeemer”, as duas faixas seguintes, optam por se desfazer das sutilezas em troca de uma sonoridade que suscita as trilhas sonoras selecionadas a dedo por Quentin Tarantino para seus longas-metragens: “Woman” com bateria, guitarra e vocal acelerados e ferinos, “Redeemer” com bateria bem compassada e guitarra e teclado cheios de malícia musical. Tirando o pé do acelerador, “Drown” insere ocasionais orquestrações de cordas e metais e um teclado adocicado em meio ao andamento manso da bateria enquanto o vocal de Karen é submerso em um filtro aquoso – referência clara ao título da faixa. Quase no fim do disco, surge algo de genuinamente Yeah Yeah Yeahs em “Leopard’s Tongue”, e isso se deve muito provavelmente ao refrão da canção, que cairia bem em algum canto de Show Your Bones ou It’s Blitz, e mesmo a cadência firme e ligeira da bateria e baixo não soaria completamente estranha na acervo melódico da banda de Karen O. A penúltima faixa do disco, “Reveries”, parece continuar aproveitando referências ao trabalho da cantora, já que a crueza sonora da base de vocal e violão descende diretamente de “Crush Songs”, disco solo de Karen, mas a sobreposição desta base por uma sequência de nuances celestiais, com direito a coro e orquestração de cordas, faria certamente a faixa destoar muito do conjunto daquele álbum. Última faixa do disco, a idiossincrática, “Nox Lumina” parece pairar no ar com suas reminiscências à trilhas antigas de western clássicos italianos compostas por Ennio Morricone, recedendo ao fim para recuperar a intro psicodélica que abriu o álbum, ao mesmo tempo encerrando e retornando ao início da lisérgica jornada sonora dos dois músicos norte-americanos, cuja idéia surgiu lá em 2008, quando Karen, em plena embriaguez, fez um telefonema para Danger Mouse. Não que isso seja ruim, pelo contrário, mas tendo ouvido o disco já diversas vezes, tenho a impressão que a artista jamais tenha se refeito daquele porre.

Baixe: Karen O & Danger Mouse – Lux Prima [mp3]

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My Brightest Diamond – A Million and One [download: mp3]

Shara Nova, também conhecida como My Brightest Diamond, vem desde o seu primeiro disco flertando com matizes eletrônicas: seus dois primeiros álbuns foram completamente remixados, faixa a faixa, por vários DJs bastante conhecidos (Tear It Down e Shark Remixes, respectivamente). Por essa razão, não é nenhuma surpresa que Shara tenha finalmente decidido inserir as referências mais diretamente em suas composições. Em A Million and One, seu mais recente lançamento, Shara não tem temores de meter a mão nas sonoridades mais vibrantes para dar à luz faixas bastante cintilantes, como o single “Champagne”, com uma programação hipnótica e recheado de vocalizações que “pegam” nos ouvidos na primeira audição, contando também com uma breve aparição de alguns arfantes acordes da guitarra característica de Shara. Em “Supernova” a artista também se refestela no eletronismo, abusando do vocal “sampleado”, beats encadeados e vocais de fundo adocicados. E “White Noise”, que fecha o disco, alterna uma cadência mais sintética e “suja”, com beat e ruídos concebidos na mesa de programação, com outra baseada em um baixo insinuantemente gingado e floreios vocais perpassados por diferentes filtros.
Apesar da forte carga eletrônica destas faixas, porém, não é possível dizer que com A Million and One a cantora pisa com ambos os pés firmemente na pista de dança, como o fazem pensar os títulos das duas primeiras faixas, “It’s Me on the Dance Floor”, onde guitarras, baixos e percussão malemolentes acolchoam o vocal aveludado e quente da cantora norte-americana, e “Rising Star”, concebida sobre uma harmonia de vocais de fundo contínua e bateria e base eletrônica de andamento moderado que suscitam uma atmosfera com algo do hip-hop levemente temperado com rock industrial. Para o bem e para o mal, este é um disco que ainda carrega a personalidade musical da cantora, particularmente de suas últimas produções, onde Shara flertou não só com sonoridades sintéticas, mas com o experimental, a ponto de algumas vezes soar quase cacofônica e atonal. Assim é “Sway”, uma “jam session” cansativa com percussão e vocal soturnos que só é iluminada pela interferência eventual da guitarra, e em menor grau “You Wanna See My Teeth”, menos apática com sua música elaborada, onde camadas de vocais cascateantes serpenteiam sobre a ansiedade sonora de sintetizações, guitarras, percussão e bateria que em grande parte silenciam-se ao final, dando lugar à uma sonoridade etérea e reflexiva. Porém, é com a simplicidade da contemplativa faixa seguinte que a artista atinge o balanceamento ideal do experimento a que se propôs neste disco: com vocal amargurado e melancólico selando o espaço entre ruídos e silêncios do órgão, Shara capta aquela singularidade sonora única de Björk no clássico Homogenic, fabricando uma sutil e elegante balada que rola facilmente ouvidos adentro. E é o contraste desta com outras faixas do disco que faz notar que, assim como a artista islandesa hoje, é por Shara optar muito mais pela forma do que pelo conteúdo melódico que A Million and One acaba perdendo grande parte do seu impacto sonoro – tivesse Shara abraçado com mais ardor e sem hesitação a sua faceta pop em todo o álbum e este certamente figuraria entre os melhores de sua carreira.

Baixe: https://drive.google.com/file/d/1Mhi9Ugxs6uxVO3QkjTmgMR3_n1xlJ_6C/view?usp=sharing

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005