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Tag: indie pop americano

Blood Cultures – Skate Story: Vol. 1 [download: mp3, vídeo]

blood cultures - skate story vol 1 (2025)

O anonimato, ou um simulacro dele, é um artifício que alguns músicos costumam adotar por razões diversas. Sem que seus rostos sejam de fato um segredo, Jonathan Bree e Orville Peck o fizeram como uma tentativa marketeira de diferenciação no gênero musical que atuam. Sia e Björk adotaram o mecanismo tardiamente em suas carreiras, possivelmente como um modo de retardar a percepção do público sobre o seu envelhecimento. Já grupos como Daft Punk até hoje preservam segredo sobre esse aspecto para manter os benefícios da privacidade – ou talvez para tentar sustentar o interesse contínuo do público através do mistério de sua aparência.

blood cultures - before
Blood Cultures em sua primeira fase, com apenas um integrante.

O banda de indie pop eletrônico Blood Cultures, composta inicialmente por um único músico, mas agora com quatro, pode ser encaixada nesse último grupo, mas vai um pouco mais fundo no expediente: ninguém sabe nem mesmo o nome dos sujeitos que sempre se apresentam com o rosto encoberto, normalmente com uma máscara artesanal sobreposta a camadas de capuz (antes eram burkas cobrindo um traje executivo).
blood cultures - after
O grupo na fase atual, com quatro membros.

Na semana passada, os “tímidos” rapazes lançaram um novo disco, o segundo pelo selo Pack Records, depois de dois outros álbuns produzidos e distribuídos sem este suporte. Servindo como trilha sonora do indie game de mesmo nome e trazendo vocais processados em estúdio e uma produção bem cuidada, Skate Story: Vol. 1 é um compêndio de doze faixas onde o pop eletrônico é a chave mestra que abre as portas de diferentes influências sonoras. “Emptylands”, por exemplo, é moderadamente uptempo, mas tem como seu elemento principal os sintetizadores, hora como uma harmonia ondulante vintage que suscita o cinema de mistério dos anos 80, hora como um denso fluxo melódico de puro neon noturno. Já em “Where The City Can’t See”, a intro com vocal e teclado de sonoridade abafada e envelhecida não deixa dúvidas de sua herança lo-fi, mas logo a doçura da harpa e das harmonias sintetizadas trazem generosas doses de chillwave, por sua vez adornado com a urbanidade de samples dos anúncios do metrô de New York que pontuam a música – não é puro acidente, uma vez que o grupo reside na região da metrópole e o videoclipe da música (abaixo), com uma edição arrojada e moderna, a usa como cenário, seja com imagens de arquivo ou de registros atuais – e apesar de todo o esmero, os rapazes ainda deixam escapar algumas provas do péssimo estado atual de uma das cidades mais famosas do planeta.

Na faixa seguinte, porém, o tom é outro: iniciada com synths e vocalizações discretas ao fundo que sugerem um clima quase fantástico, “Into Pure Momentum” é logo conduzida por um beat rápido que não nega seu gosto pelo drum ‘n’ bass e a pista de dança. Mas o ritmo diminui em sequência, já que as agudas sintetizações extraterrenas, o longínquo teclado envelhecido e o distorcido vocal melancólico são todos conduzidos pela lenta cadência pulsante de um synth de tessitura eletro-dark em “Overlord”. “Unarchiver” chega na sequência querendo voltar para a pista com sua batida sintética e uma fartura de camadas de distorção nos vocais e no coral ao fundo, concedendo um ar psicodélico à canção. Já no fim do disco, a aceleradíssima batida densa, suja e caótica, repleta de distorções, que se alterna a uma ambiência soturna e misteriosa sugere “Hole In The Sun” como a trilha sonora ideal para uma boss fight tensa e caótica em uma atmosfera sombria, enquanto a delicadeza da textura rarefeita do mezzo lo-fi fractal de “The Age of Disbelief”, por sua vez, atua como um lenitivo, concluindo a trilha do game Skate Story com a placidez aliviada de quem acabou de enfrentar, com sucesso, uma dura batalha.

Baixe: Blood Cultures – Skate Story: Vol. 1 [mp3]

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Ronboy – “Forget It” (single) [download: mp3]

ronboy - forget it (single) 2022

Julia Laws, mais conhecida pelo codinome Ronboy, artista originária da costa oeste americana, confessou em entrevistas recentes ter descoberto a satisfação de criar música de forma colaborativa, e tem o feito com artistas mais conhecidos e populares que ela, como Matt Berninger, vocalista da banda The Nationals. No entanto, a maior parte do seu catálogo musical até o momento é fruto genuíno do que se convenciona chamar de “indie”: foi praticamente quase todo escrito e produzido exclusivamente por ela (até mesmo de modo caseiro) e distribuído sem o suporte de um selo ou gravadora. É o caso de “Forget It”, single lançado em 2022: iniciado com um beat manso e espaçado sob teclados nostálgicos e mornos que emolduram o vocal sereno, doce e algo deprimido de Julia em uma atmosfera melancólica volátil, no refrão essa harmonia pacata ganha corpo com synths trovejantes que parecem atravessar o ar, que juntamente a múltiplas camadas vocais, a reverbs e a sintetizações radiantes integra-se em um dream pop que consegue dosar muito bem sobriedade e vigor.

Baixe:
Ronboy – “Forget It” (single) [mp3]

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Weyes Blood – Titanic Rising [download: mp3]

Natalie Mering, cantora e compositora americana nascida na Califórnia, mas criada na Pennsylvania, adotou o críptico e soturno pseudônimo Weyes Blood como sua alcunha musical, mas suas composições, na verdade, estão distantes de qualquer obscurantismo, muito pelo contrário: seu quarto e mais recente disco, Titanic Rising, é iluminado por um pop etéreo e melancólico, eventualmente tomado por euforias momentâneas, mas que nunca deixa de sustentar uma implacável placidez e contemplação. Tudo isso é facilmente perceptível nas faixas “Andromeda”, “Picture Me Better” e “Wild Time”: na primeira, o vocal sedoso, acompanhado por guitarra e sintetizações melosas, faz ser possível visualizar Natalie fitando um céu estrelado, com olhar resignado, enquanto canta impassível os versos de abertura; em “Picture Me Better”, o violão, orquestrações de cordas e vocal leves e singelos suscitam algo de Rufus Wainwright em sua fase mais contida; e em “Wild Time”, apesar de a melodia de guitarra, bateria e piano adensar-se, efusiva, à medida que a faixa avança, a atmosfera meditativa e serena persiste, continuamente realçada pelo vocal macio e celestial da cantora americana, mesmo entoando a tristeza de versos como “everyone’s broken now and no one knows just how we could have all gotten so far from truth”. Esse amálgama de encantamento e amargura, por sinal, se realiza por completo na melodia de “Something to Believe”, onde a guitarra e o cravo de toques cintilantes e o piano e a bateria delicadas servem como a moldura perfeita para que Natalie solte a voz, em versos como “instead of dropping the ball, I seem to carry so many”, e se entregue à canção, em uma balada tão apaixonante quanto as melhores dos suecos do Abba. Porém, ainda que esta melancolia contemplativa seja a malha básica da qual é composto o álbum, isso não quer dizer que não se possa encontrar Natalie em estado de absoluto gozo, como em “Everyday”, que lembra muito a dupla The Carpenters com seu instrumental e vocais de fundo em um arranjo radiante e jovial, mesmo servindo de trilha sonora para versos agridoces como “true love is making a comeback, for only half of us, the rest just feel bad”, ou mesmo como que tomada por um intenso delírio, como na atmosfera de devaneio quase místico de “Movies”, um esplendoroso desvario sonoro onde uma hipnótica base de sintetizações ondulantes vai aos poucos colocando os ouvidos em transe, até repentinamente lançar o ouvinte para a mais sublime ascensão com uma sequência de orquestração de cordas que cresce até desfazer-se no êxtase do arrebatamento – tudo isso em uma única faixa, sem nunca resvalar na cafonice um único instante que seja. É justamente aí que se encontra a grande qualidade de Titanic Rising: um disco de pop nostálgico elegante que transita entre a contemplação e a psicodelia, sem jamais soar kitsch.

Baixe: Weyes Blood – Titanic Rising [mp3]

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005