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Tag: indie pop britanico

A Thousand Mad Things – Cry and Dance (EP) + “She’s On The Run (She Bleeds)” (Single) [download: mp3]

a thousand mad things - cry and dance (ep, 2025)

Depois de um par de experimentos por volta de 2020, o britânico Will Barradale uniu-se ao produtor e amigo Mike Peden para cristalizar seu projeto musical, que batizou como A Thousand Mad Things – um dos versos do demo que lançou há cinco anos atrás. O primeiro fruto desta parceria artística é o EP Cry and Dance, um compêndio de cinco canções nos domínios do darkwave e synth pop onde extravasa suas influências musicais de bandas e artistas da cena pop alternativa dos anos 80 – como na primeira faixa, “Wide Awake”, onde o beat pop-dançante e os synths de bass ondulantes, que preenchem a melodia com matizes ao mesmo tempo dark e vibrantes, tem forte influência do Depeche Mode em início de carreira e do new wave de bandas como The Human League. “Girl”, tem uma certa pegada de Soft Cell na cadência mecânica do beat contínuo que é base da melodia, enquanto a melancolia de uma sutil orquestração de cordas dá a deixa para que Will, com suas várias encarnações vocais sobrepostas, invista na emoção ao cantar sobre uma amiga inconsequente que o importuna em meio a um idílio erótico com um provável bad boy. O conteúdo das letras funciona como um prelúdio para a faixa seguinte, “Local Guys”, onde uma batida motorik intoxicante funde-se a melancólica dos synths e do baixo eletrônico para a poção perfeita onde Will incorpora uma fusão de Peter Murphy (do Bauhaus) e Dave Gahan para sublimar seu canto sobre o masoquismo emocional ao ser destratado pelos homens (possivelmente de uma sexualidade oposta a sua) que buscava obsessivamente a altas horas pelas ruas da Inglaterra.

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EP de A Thousand Mad Things traz um darkwave dançante e soturno inspirado no pop alternativo dos anos 80

Na penúltima faixa, “She’s On The Run”, Will e Mike investem em um beat dançante de cadência controlada e um baixo eletrônico marcante, que criam a pista perfeita para que as sintetizações algo voláteis de tessituras assumidamente misteriosas dancem com desenvoltura na canção que fala sobre uma garota que compulsivamente busca se relacionar com os piores homens – a versão alternativa “She’s On The Run (She Bleeds)” intensifica a sensação de urgência através de uma cadência ainda mais dançante em detrimento da atmosfera dark e adiciona um caráter onírico ao submeter os vocais a reverberações, ecos e delays. Despindo-se das vestes soturnas do darkwave e da euforia das bases dançantes das faixas anteriores compostas em parceria com Peden, Will Barradale opta por fechar o EP com os vocais etéreos sobrepostos a uma base eletrônica delicada em “My Car”, que evocam a mesma atmosfera contemplativa, sutil e serena do Legião Urbana de tonalidades mais intimistas que podemos ouvir em “Por Enquanto”, “Índios” e “Vento No Litoral” – a conclusão ideal não parar chorar depois de dançar, como sugere o título do disco, mas talvez para equalizar o espírito depois de toda a agitação urbana que a precede.

Baixe: A Thousand Mad Things – Cry and Dance (EP) + “She’s On The Run (She Bleeds)” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

A Thousand Mad Things - Cry and Dance (EP)
A Thousand Mad Things - Cry and Dance (EP)

Ouça (Deezer):

A Thousand Mad Things - Cry and Dance (EP)
A Thousand Mad Things - Cry and Dance (EP)

Ouça (Spotify):

A Thousand Mad Things - She’s On The Run (She Bleeds) (Single)
A Thousand Mad Things - She’s On The Run (She Bleeds) (Single)

Ouça (Deezer):

A Thousand Mad Things - She’s On The Run (She Bleeds) (Single)
A Thousand Mad Things - She’s On The Run (She Bleeds) (Single)

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Camille O’Sullivan – Changeling [download: mp3]

camille o'sullivan - changeling (2012)

No passado, o hábito de clicar em algum vídeo ou disco de algum artista que desconhecia me proporcionou o deleite de descobrir bandas e artistas que hoje são realmente populares, como Muse e Florence + The Machine, e gente que até hoje só é popular nos círculos mais descolados, como My Brightest Diamond, Woodkid, Frida Hyvonen e Joan As Police Woman. Apesar de que tem se tornado cada vez menos frequente me agradar ao clicar em algo de um artista que desconheço, a expectativa persiste e por isso preservo esse hábito, que por sorte recentemente me rendeu a feliz descoberta do belíssimo disco da dupla neozelandesa Luckless. Porém, esse não foi o único disco que descobri este ano e me agradou.
Camille O’Sullivan, inglesa de nascença e irlandesa de criação, produz concertos onde recria composições de artistas e bandas que admira. Sua tônica é lançar discos ao vivo de suas apresentações no palco, mas ela já gravou um par de discos de estúdio – entre eles está Changeling, lançado em 2012, onde recria algumas músicas conhecidas (e outras nem tanto) de artistas e bandas que admira, mas também dá voz à um par de composições inéditas. Com experiência como atriz, notadamente o maior atributo de Camille é mesmo a capacidade de usar seus dotes interpretativos para incutir emoção nas canções que escolhe recriar, e isso fica aparente já na faixa que abre o disco, “Revelator”, que é introduzida por um piano lento, mas repleto de expectativa, e cresce com a bateria, guitarra e sopro para uma harmonia marcial que corresponde ao ressentimento que Camille expressa no vocal, diferindo radicalmente do tom contemplativo do country-folk da versão original da americana Gillian Welch. Também contrastante é o cover de “Wake Up”, do Arcade Fire: ao invés da melodia grandiosa e efusiva dos canadenses, Camille abre espaço para que os instrumentos surjam com delicadeza, preenchendo aos poucos a atmosfera com a melodia graciosa do piano e da orquestração de cordas e amplificando o escopo emocional da canção através do seu canto profundamente emotivo sobre o alerta de um adulto, que ao sentir a proximidade do fim da vida, clama para que crianças aproveitem sua juventude. Em “Hurt” e “Nude” a britânica também ostenta sua habilidade interpretativa: na canção do Nine Inch Nails que foi famosamente “reapropriada” por Johnny Cash, apesar da melodia de início resignada, Camille enleva seu vocal em um crescendo onde acolhe suas dores e reivindica sua autonomia; na segunda, da banda Radiohead, a cantora preserva a melancolia da versão da banda britânica, mas através do seu vocal e das várias camadas de guitarras distorcidas, mergulha a canção em um tom de aflição. É porém em atmosfera completamente oposta, no segundo cover do Radiohead no disco, que Camille estampa toda sua perícia em expressar emoção: em uma melodia que preserva a ternura e quietude da versão original, com não mais do que violão, guitarra, percussão e piano de sonoridades calmas, a artista britânica consegue exprimir toda a devoção amorosa das letras de “True Love Waits” sem nunca levantar a sua voz, inteiramente mantida em um tom doce e sereno, como numa canção de ninar.
Mas se engana quem pensa que o disco é feito só de canções serenas e emotivas: mesmo com um pouco mais de comedimento devido a ausência do piano virtuoso do original de David Bowie, “Lady of Grinning Soul” mantém a atmosfera de gracejo pelo vocal em tom petulante e as camadas de guitarra distorcida que tomam a canção na sua parte final, e “It Just Won’t Do” vai adiante na galhofa com seu clima de “big band” se apresentando no palco de um cabaret. Mas certamente é a música “These Days”, escrita para a artista por Gary Lightbody que se encontre o ponto mais acessível do disco para o público, já que a harmonia obedece a cartilha de uma power ballad, com bateria e guitarras mais proeminentes acompanhando o vocal determinado em uma competente atmosfera pop/rock – algo característico do líder da banda Snow Patrol.
Contudo, Camille sabe que seu trabalho se diferencia por agregar uma maior carga emotiva em seus covers, e é por isso que o disco fecha com duas canções que voltam a investir nesse recurso: a penúltima faixa traz um cover de “Dark Roman Wine” do Snow Patrol, com vocal confiante em uma melodia madrigal onde violão, piano e bateria crescem vagarosamente com instrumentos de sopro para um apogeu solar elegante que subtrai um pouco da pieguice da versão original; já em “The Ship Song” a artista despe a balada grandiosa de Nick Cave em puro vocal e piano, expandindo ainda mais o horizonte emocional da canção que compara os apaixonados como caravelas que deixam tudo pra trás para em uma imprevisível, mas também imprescindível viagem – como esse belo disco de Camille O’Sullivan.

Baixe:
Camille O’Sullivan – Changeling [mp3]

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005