A sérvia Milena vai embora sem qualquer motivo aparente ou explicação para o marido Fernando, com quem casou há três anos. Repentinamente sem rumo e propósito, o professor espanhol decide mudar sua vida.
Depois de vinte anos supervisionando roteiros de cinema, a espanhola Avelina Prat tem em “Uma Quinta Portuguesa” apenas o segundo longa-metragem de ficção que dirigiu até hoje. Porém, a sua vasta experiência anterior trabalhando enredos parece ter lhe preparado muito bem para a tarefa, já que neste seu filme do ano passado ela demonstra uma habilidade que normalmente encontramos apenas em cineastas mais veteranos.
De posse de um elenco notável, tanto em seus protagonistas (o espanhol Manolo Solo, como um homem taciturno, porém afável, e a portuguesa Maria de Medeiros, como uma mulher espontânea, porém compreensiva) quanto em seus coadjuvantes, a cineasta espanhola consegue a construção ideal destes personagens prosaicos, mas cativantes e encontra o tom para sua trama sobre pessoas que aprendem a superar, ou apenas conviver com seus pequenos traumas, redescobrir seus propósitos na vida e seguir em frente. Seja abordando a solidão e o abandono, a inviabilidade de definir sua própria identidade e seu lugar no mundo ou a luta para encontrar melhores condições de vida em um país que não é o seu, a diretora entende não necessitar de grandes artifícios artísticos ou apelos dramáticos, conduzindo o filme sem pressa e com muita delicadeza e expondo apenas o suficiente das dores, alegrias e cicatrizes emocionais de seus personagens de modo a obter uma empatia genuína e efetiva do público. Tampouco em seus aspectos técnicos, como fotografia, edição e trilha sonora, Avelina Prat vê necessidade de qualquer arroubo estilístico: a fotografia apenas realça a casualidade da história, a edição apresenta o enredo com parcimônia e a trilha sonora apenas pontua discretamente uns poucos acontecimentos da trama – é fazendo uso de um estilo econômico que a diretora obtém tudo o que precisa para contar muito bem sua história.

Avelina Prat entende que seus dramas tão particulares, mas ao mesmo tempo tão universais, não necessitam de exercícios estilísticos para encantar o espectador, e sim de simplicidade e franqueza, pois o cinema autoral (ou “cinema de arte”) não é definido pela aplicação de exercícios de estilo, pois isso encontramos há muito tempo até nas produções comerciais para a TV, mas sim pela capacidade de dar significado a qualquer história, seja como for o modo pelo qual ela é contada – e com “Uma Quinta Portuguesa” Avelina Prat não deixa dúvidas de que já tem a maturidade para fazer isso.
Baixe: “Uma Quinta Portuguesa”, de Avelina Prat (Una Quinta Portuguesa, 2025)
[áudio original, 1080p, mp4]
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Regravar canções dos compositores canônicos da música brasileira é o desejo confesso ou oculto da maior parte dos intérpretes da música brasileira e, como se viu nos últimos meses, também de algumas portuguesas: além da vocalista da banda Madredeus, Teresa Salgueiro, que lançou um disco interpretando canções de compositores brasileiros, a atriz e diretora portuguesa Maria de Medeiros também resolveu editar a sua contribuição ao vasto painel de “covers” de canções brasileiras no CD batizado com o nome de A Little More Blue, uma das faixas do disco, de autoria de Caetano Veloso. Projetos deste tipo tem a vantagem de já nascer com metade do trabalho feito, pois o risco de um disco com faixas tão emblemáticas de “monstros” (con)sagrados da música brasileira ser rechaçado pela crítica é mínimo – daria mais trabalho errar do que acertar com material de tanta qualidade nas mãos. E Maria de Medeiros, que é fina e elegante mas não é tola, resolveu também não arriscar na metade do trabalho que lhe competia: não apenas os arranjos trafegam no que poderia-se imaginar como tradicionalmente brasileiro, apenas trocando o violão pelo piano no papel de principal condutor das melodias, como a própria Maria decidiu caprichar no seu “brasileirês”, entoando os versos com um sotaque tão perfeito que a maior parte das pessoas juraria tratar-se de uma cantora genuinamente verde e amarela.