Vocês não vão estar errados se disserem que ando numa meio-febre francofônico-musical. Depois de Ben Ricour, o francês que faz um pop/folk charmosinho, andei escutando uma dupla que se lançou na música há pouco, batizada de AaRON, uma sigla que, expandida, deu nome ao disco de estréia deles, Artificial Animals Riding On Neverland. Porém, diferentemente de Ricour, esta dupla prioriza a língua inglesa, dando chance à língua materna apenas na faixa “Le Tunnel d’Or”, uma balada irremediavelmente linda, com piano que começa em acordes agudos e encorpa em sentimento ao longo da canção, assim como encorpa igualmente a programação eletrônica, que além de adicionar densidade à melodia com alguns samplers, substitui a bateria acústica sem perda alguma do vigor desta.
Apesar de que o vocal de Simon Buret, a voz da dupla, lembre vagamente algo de Michael Stipe ou tenha uns espasmos de Chris Martin, as comparações param bem por aí. Mesmo que a sonoridade de AaRON lembre muita coisa que já tenhamos escutado por aí – como é possível notar em “Lost Highway”, que além da sua introdução doce e triste ao piano remete às tonalidades obscuras e nostálgicas das composições de Akira Yamaoka para a série de games “Silent Hill”, os loops e samplers ao longo da melodia, bem como o lirismo sutilmente etéreo do coro ao fundo, também deixa no ouvido os tilintares da parceria Matmos/Björk -, não é a identificação de um estilo musical no qual possa ser enquadrado que interessa aqui, mas sim o fato de que seu pop alternativo, hora afeito a eletronismos – como em “Endless Song”, cuja melodia de loops, reverberações e reversões de acordes de piano, guitarra e percussão lembra algo da música “These Good People”, da banda The Gathering -, hora com um amor pelo acústico – perceptível nos violões de acordes rápidos, curtos, cíclicos e lúgubres de “Mister K.”, cujas letras lidão de forma esplendidamente metafórica com o sentimento de traição -, preserva sempre uma sensação despertada no ouvinte que percorre e incide em todas as canções: uma tristeza inerente, um sofrimento contínuo, algo possível de ser identificado mesmo na agitação de canções como “O-Song”, crivada de guitarra e pianos dramáticos, curtos, sôfregos, programação em ritmo acelerado e vocal tenso. Claro que nada disso impede a dupla de dar uma folga na tristeza e amargura e criar letras onde a vida é encarada de forma mais positiva, como nas confissões de apoio e amor incondicional de “Little Love”, balada de piano, programação e sintetização de cordas doces e delicadas.
Além da servir ao indispensável propósito de deliciar os ouvidos com um punhado de músicas bem escritas e arranjadas, os rapazes do AaRON de quebra ainda sacodem o estereótipo das duplas de música francesa, muito mais famosas por coisas como o pop-pornô de “Je t’aime moi non plus” e a house babinha do Daft Punk.
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1 comentário
Ben Ricour, da chamada nova geração de cantores franceses, tem um carisma musical enorme: difícil não ficar com a melodia de um bom punhado das canções do seu álbum de estréia, L’aventure, tilintando carinhosamente na cabeça, ouvindo sua voz algo infantil e imaginando o que aqueles seus versos de amor, entoados em um francês delicioso, devem exatamente significar em português. Excetuando-se algumas faixas mais monótonas, Ricour conquista o ouvinte, sem muito esforço, já nas primeiras audições do seu pop/folk bem construído. A faixa que abre o disco, “Vivre À Même L’amour”, com seus violões e baixo lépidos, bateria de síncope rápida e saltitante e refrão seguro e certeiro, tem a tonalidade pop-grudenta de primeira de um gritante single. Algumas músicas depois e novamente os ouvidos são raptados pela melodia solar de “Je Me Réveille”, com violões e vocais doces e fulgurantes de esperança, sintetizações de cordas repletas de uma luz calma e aconchegante e bateria ligeira, mas gentil. Na faixa seguinte, “Le Risque”, Ben aposta em um dueto com uma voz feminina para ressaltar as letras sensuais, mesmo que os violões habilidosos, a bateria e percussão escandidas e a guitarra de acordes salpicados no trecho final deixem a melodia mais inequivocamente lúdica e faceira do que sensual. Logo em seguida somos apresentados a uma balada delicada, “Ami D’enfance”, onde o dedilhamento nas cordas do violão, os toques na bateria, os acordes no piano, a tonalidade da voz de Ricour, todos exibem uma soltura, leveza e suavidade aconchegante e carinhosa. “L’aventure”, a faixa seguinte, tem melodia encorpada por violões vistosos e maciços, que sobrepujam mesmo todo o instrumental restante – a guitarra eventual de acordes levemente rascantes e a bateria complementar e submissa à rítmica dos violões. E o disco fecha com a brincalhona “Pas Stressé”: além da tecitura aveludada do violão, da percussão, e dos acordes de harpa eventuais, o cantor brinca com seu vocal, produzindo um solfejo que lembra o ruído de mola dos cartoons que tanto assistiamos na infância.
Francesa de nascença, mas israelense de origem e criação, Yael Naim é mais uma novata procurando seus caminhos no mundo da música. Depois de se dispor alguns anos a fazer o seu ganha pão em musicais franceses, Naim conheceu o produtor e instrumentista David Donatien, logo criando um imenso senso de identificação com ele. Foi ao desenvolver esta relação tão cheia de compreensão e cooperativadade artística que Yael superou seus temores e seus limites, concebendo com ele o seu primeiro álbum. Não se trata de uma obra excepcional, que chame a atenção pela originalidade e arroubo, mas por duas outras coisas: pela delicadeza que contém e por algumas escolhas ousadas. A delicadeza está implícita nos arranjos, como na melodia bem apurada dos violões, guitarras, bateria e percussão de “Too Long”, que possui ainda vocais de fundo graciosos, embebidos em um lirismo sutil, está contida nos vocais, piano, bateria, percussão e arranjo de metais de puro júbilo e graça em “New Soul”, ou reside na simplicidade triste do piano e tradicional arranjo de cordas de “Lonely”, na qual Yael, com vocal intensamente emotivo, fala apoiar incondicionalmente alguém que sofre estar confuso com sua falta de rumo. Já a ousadia da estreante fica por conta de um grande número de faixas em que ela canta em hebraico – como em “Levater”, cuja melodia exibe um violão quieto, sobrepujado pela borbulhância dos vocais, tanto o principal quanto os de fundo, e pelas cordas exuberantemente orientais – e por causa de sua brilhante recriação do hit “Toxic”, de Britney Spears, em cuja versão toda a reminiscência “popteen” é desprezada, dando lugar à um arranjo fabuloso ao cargo de um xilofone desmedidamente doce, guitarras agudas e sensuais, bateria escandida e flautas quase infantis, além de mini-ruídos indistintos.
Depois do sucesso atingido com o seu segundo disco, Sheryl deu prosseguimento às suas composições mais voltadas para uma sonoridade pop/rock com o álbum The Globe Sessions, fazendo da discreta tecitura country apenas uma mera citação, como na faixa “Members Only”, com violões, baixos, guitarras e vocal formando uma mesma massa sonora cheia de calor country-rock, orgão ocasional de toques gracejantes e bateria e percussão de cadência leve, que so inicia trotejante e logo acompanha a ritmo alegremente comedido do instrumental restante. Apesar do período de depressão de Sheryl, anterior a gravação do disco, estar refletido nas guitarras sobejantes e na sorumbática mas reluzente orquestração de cordas de coloração oriental de “Riverwide” e no clima quase improvisado das guitarras, órgãos e bateria sofridos, hora conformados, hora transbordando em sentimento em “Crash And Burn”, que fala sobre alguém que, mesmo sabendo que seria em vão, disse adeus à tudo e todos que conhecia na tentativa de esquecer um amor que não deu certo, não se pode exatamente dizer que este é um disco triste. “My Favorite Mistake” – em que Sheryl fala sobre um romance que viveu por alguém que, no fim, descobre que não a amava -, através do seu vocal ao mesmo tempo sutilmente triste e marcado de alegria saudosista e nas suas muitas guitarras, baixos e orgãos de acordes sensuais sobre uma bateria de intensidade suficiente apenas para dar ritmo aos instrumentos restantes, assim como “It Don’t Hurt” – que fala sobre alguém que tenta superar o fim de uma relação redecorando a casa e flertando com o primeiro desavisado que aparece na sua frente -, com o gingado animado de seus violões, guitarras e bateria e seu gaita entusiasmada, dão uma boa idéia desse álbum que fala sobre amarguras, tropeços e tristezas com uma sonoridade mais “pra cima”. Mas a surpresa fica mesmo por conta da faixa “There Goes The Neighborhood”, tanto pelo caráter sonoramente dançante que a percussão e a bateria dão à canção, bastante auxiliadas pelos metais borbulhantemente gritantes e por guitarras de enorme malemolência, quanto pela temática de suas letras, que pinta um painel das bizarrices underground e da marginália dos arredores do Globe Studios, onde Sheryl gravou este disco – e que, claro, acabou dando nome à ele. Pela dificuldade de definir e nomear a mistura de sons e sentimentos, ao mesmo tempo tristes e alegres, amargurados e exultantes, é que pode-se dizer que The Globe Sessions é o retrato do período em que a artista procurava uma saída em meio a uma crise pessoal, vivendo uma instabilidade de estados emotivos que refletiu-se inevitavelmente nas suas composições.
O prestigiado diretor Nicolai Fuglsig dá mais um show de inventividade na peça publicitária encomendada para a rede de lojas norte-americanas JC Penney: usando efeitos especiais e trucagens tradicionais, que nada de digital teriam, o diretor dinamarquês fez um clipe divertidíssimo, onde as coisas mais cotidianas ganham um toque fora do comum. A canção escolhida para servir de trilha, “Music Box”, da cantora e compositora Regina Spektor, é mais um sinal da apurada sensibilidade pop de Fuglsig, famoso por unir seus delírios visuais com a música ideal. Assista via
Depois de dois álbuns que deitaram, rolaram e esquadrinharam tudo o que possa ser imaginado dentro dos domínios do electro-pop e glam, o duo britânico