Quando Vanessa Carlton lançou o seu hit pegajoso “A Thousand Miles” em 2002, com apenas 21 anos, não deve ter imaginado que poucos anos depois, devido a uma cena com o ator Terry Crews na comédia de 2004 “As Branquelas”, se tornaria parte integral de um meme que figura como um clássico da internet, com incontáveis variações (como gamer, acho que esta aqui esta entre as melhores). Também não deve ter previsto o quanto a canção, já um tanto enjoativa em seu estado natural de power ballad açucarada, se tornaria ainda mais cansativa quando o meme (e por consequência a canção) acabou recentemente transmutado no mote publicitário das liquidações mensais de uma das maiores varejistas online do mundo, a Shopee, sendo interminavelmente veiculado em plataformas de vídeo como o Youtube. É certo que a artista não deve estar exatamente chateada por estar embolsando generosas quantias pelo uso ostensivo da canção no mundo todo pela empresa sul-coreana, mas o fato é que o estigma de cantorinha romântica fofa e bonitinha, que já existia, se aprofundou. A americana deve estar ciente do fato há muito tempo, pois mesmo antes da sacada publicitária da Shopee, Vanessa vem tentando se distanciar dessa imagem. Em seus últimos discos ela pouco lembra ser aquela mesma moça que ao vinte e tantos anos sentava ao piano para tocar melodias óbvias e emprestar sua voz doce à perspectivas juvenis: a americana, hoje com 42 anos, tem investindo em harmonias mais elaboradas, vem usando seu vocal de modo menos trivial e até colocou o piano em segundo plano para tirar proveito de instrumentação mais variada. Esse objetivo continua de pé com o lançamento, na segunda passada, do single “Animal”, primeira canção liberada do seu próximo disco, Veils. Sobre piano soturno e beat hipnótico contínuo de uma drum machine, surgem sopros fugazes de synths intencionalmente “vintage” enquanto Vanessa mais recita do que canta os versos que falam sobre encontrar o animal dentro de si e descobrir se você é a presa ou o caçador, e quando rende-se a este animal metafórico é que a canção ganha amplitude, com a entrada de uma reverberante bateria e a harmonia refinada de instrumentos de sopro. Esse conjunto musical tem uma elegância que suscita nuances de darkwave e trip-hop, mas todo esse requinte melódico tem um preço: certamente não veremos essa canção de Vanessa como trilha sonora de liquidações na Temu.
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Vanessa Carlton – “Animal” (single) [mp3]
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