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Emily Haines & The Soft Skeleton – Knives Don’t Have Your Back. [download: mp3]

emily_haines_and_the_softs_keletonBelas surpresas reservam a internet. Ao me deparar com o perturbador vídeo de Emily Haines (veja aqui no blog), fiquei deveras impressionado com a sua música e, inevitavelmente, seguiu-se uma busca pelas canções de seu segundo álbum solo. Garimpei a web inteira, encontrei o álbum e fiquei surpreendido. Knives Don’t Have Your Back pode não ser feito completamente de músicas fenomenais, mas aquelas que são fenomenais, o são integralmente. “Doctor Blind”, o single cujo vídeo já citei e aqui postei, é abusivamente moderno e delirante: nas letras, entre versos algo delirantes, o vocal de tom desesperançado de Emily pede à um médico a prescrição de drogas para aplacar o sofrimento psicológico de seu companheiro; a melodia é feita num piano de acordes tristes e bateria de cadência lenta e pesairosa, acompanhados por bom uso de orquestração de cordas complementar. Em “Detective Daughter”, cuja letra fala sobre conflitos de identidade com os quais todos podemos nos deparar em certa altura da vida, temos uma melodia hipnótica que usa, além do piano triste e reflexivo, acordes longos de guitarra e bateria eletrônica básica. “The Lottery” trata da liberdade sexual e da sua necessidade na vida humana, trazendo um melodia onde orquestrações de cordas sofisticadas ganham mais corpo na música, complementando o piano de acordes um pouco desiguais e o vocal sutilmente irônico de Emily. Em “The Maid Needs A Maid” Emily revela uma canção de amor para uma outra mulher, revelando os detalhes ordinários de sua beleza e comportamento que a fascinam. A melodia é baseada apenas em piano, cujos acordes graves são tão bem compostos que realmente fazem desnecessária a participação de qualquer outro instrumento. “Mostly Waving”, cujos versos curtos falam sobre o comportamento inadequado, tem como seu maior atrativo a música fabulosa: além do piano minimalista de acordes essencialmente graves, temos uma bateria suavemente cadenciada que evita atrapalhar a participação da orquestração de metais, que é o grande salto da melodia, junto com a ironia sutil que Emily põe em seu vocal solto à meia-voz e nos vocais de fundo bastante lúdicos. Os metais também estão presentes em “Reading in Bed”, porém a orquestração destes é mais suave e lenta, compondo apenas a sequência final da música e acompanhando o trabalho ao piano, onde Emily volta à explorar a sua destreza em compor acordes feitos de pequenos ciclos melódicos que se repetem e se modificam ligeiramente durante a música – uma representação legítima do chamado “minimalismo”. A letra fala sobre a vida ordinária de um homem qualquer, cuja tristeza provém de um livro que tem sempre à mão. “The Last Page” trata os percausos e medos que temos durante a vida com necessários de ser enfrentados, o que minimiza e diminui o seu impacto. A melodia é dividida em duas partes diferentes, primeiramente baseada apenas em piano de toques esparsos, ganhando a participação discreta de um orgão por alguns instantes; na segunda parte da música surge uma bateria de cadência algo orgânica, que se mantém durante os instantes finais da canção enquanto o piano, o orgão e um baixo sutil somem da melodia. A última música do disco, “Winning” é daquelas canções soberbas que fecham discos de maneira tão perfeita que é impossível evitar ouvi-la novamente. A letra, de lirismo pós-moderno e dissonante, fala sobre a tentativa de consolar o sofrimento de alguém sem deixar de mostrar-lhe como isto não vai ser fácil, mas que será feito uma hora ou outra. A música, novamente centrada apenas no piano, casa com perfeição com o vocal melancólico mas encorajante de Emily, tendo, na sua parte final, uma das sequências melódicas mais belas que já ouvi, primorosa em seu modo fulminante de atingir as emoções do ouvinte utilizando tão pouca coisa – é de ouvir ininterruptamente, dissecando, saboreando e decifrando cada um dos seus preciosos e esplenderosos segundos.
Emily Haines, cuja formação de músicos que participam do disco ela chamou de “Soft Skeleton”, criou em Knives Don’t Have Your Back um álbum de melodias que mostram seu valor de maneira sutil na primeira audição, revelando à sua infinita beleza mais e mais à cada audição mais atenta e cuidadosa. Pra quem já ouviu muita coisa no folk-pop-rock, não é difícil reconher semelhanças com o vocal suave e sussurrante de Suzanne Vega, com a elegância pretensamente descuidada das composições de Cat Power e com o lirismo incontido de inúmeras bandas do indie-rock europeu e americano. No entanto, mesmo reunindo essa miríade de influnências musicais, Emily constrói uma identidade musical tão forte e consistente neste seu segundo álbum solo que a artista consegue conquistar sem muito esforço um lugar seguro mesmo entre aqueles que vivem incansavelmente buscando novidades no mundo da música. Ouça e faça-o com muito cuidado e atenção – Emily Haines não é uma artista que você encontra muitas vezes no ano e muito menos com maior facilidade. E comente, logo que você tenha uma opinião formada sobre sua música – gostei tanto deste álbum que estou curioso sobre a resposta dos internautas.
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Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede – Vagabundo. [download: mp3]

Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede - VagabundoApesar de ser uma figura extremamente importante na história da MPB, Ney Matogrosso não está entre minha preferências. É fácil observar isto, visto que não eu não tinha nenhum álbum do artista no meio de minha coleção de CDs – até ontem. Ney, que vinha há muito tempo fazendo discos em que regravava uma pá de músicas de compositores reconhecidos, conseguiu com Vagabundo, execelente disco feito em parceira com Pedro Luís e a Parede, dar uma bela atualizada na sua carreira. O álbum começa com a deliciosa “A ordem é Samba”, música que fala sobre a importância deste ritmo em algumas regiões do país, e guiada por belos acordes de guitarra e excelente jogo de violas e percussão. “Seres Tupy” aborda, de maneira esplêndida, o universo dos miséraveis brasileiros. A melodia, assim como na primeira faixa, faz excelente uso de acordes cadenciados da guitarra, percussão e ótima participação de flauta. Em “Interesse”, temos mais uma percussão que se destaca, além dos metais que constroem a agitada sequência final da melodia. A letra é feita de versos em que alguém agradece, sem pena e com todo o orgulho, o desinteresse de um amor que não é mais cômodo. “Assim Assado”, clássico do Secos & Molhados, é uma boa regravação, mas fica aquém da versão original. “Noite Severina”, com melodia mais silenciosa do que a maior parte da músicas até aqui, é uma linda balada cujas letra poética, cantada em perfeito dueto entre Ney e Pedro, revela um amante platônico que observa, atônito diante de tanta beleza e algo triste, o sono da mulher que tanto ama. “Vagabundo” começa um pouco desinteressante, com melodia de samba pouco ortodoxa – pelo uso dos sopros rascantes do sax – mas cresce na sua metade final, quando entram os versos de negação de Pedro Luís. A percussão e bateria fortes são o que chama a atenção de imediato na melodia de “Inspiração”, assim como o alaúde árabe que aparece discreto na música. A letra é uma composição pós-moderna de versos que tratam do esforço criativo humano. “Disritmia”, uma das coisas mais belas já compostas por Matinho da Vila, ganha uma versão poderosa, ainda que algo minimalista e sorumbática, e cantada de forma esplêndida por Ney Matogrosso e Pedro Luís, acompanhados pela banda, inspiradíssima no uso do naipe de pratos e demais instrumentos. Em “Napoleão” temos uma letra irônica e divertida sobre o fim dos soldados deste governante francês. A melodia abusa do triângulo e da ótimo percussão, deixando no ouvido um gosto de música nordestina. A letra de “Jesus” trata do profeta cristão de maneira irônica – mas respeitosa – ao garantir que este não hesitaria em se render à dança ao ser retirado da cruz, bem como brinca com o uso que todos fazemos do nome de Cristo, ao quedarmos diante de qualquer adversidade. A melodia é agitasídíssima, com violões ligeiros e percussão alinhada com estes. “O mundo”, cuja letra revela a diversidade cultural e racial do mundo com versos algo pueris e cita o atual estado caótico da humanidade, é uma das músicas mais conhecidas do disco. A melodia investe, na sua metade final, em uma latinidade dissonante ao construir uma sequência agitada de acordes das violas, sax e da cadência da percussão.
Vagabundo é certamente o melhor disco de Ney Matogrosso em muito tempo, onde o artista acertou ao resolver aventurar-se em um projeto bem mais autoral e contemporâneo e abandonando, ao menos por algum tempo, o gosto pelos discos que celebram nostalgicamente a musicografia de grandes figuras da música popular brasileira. Espera-se que de tempos em tempos Ney arriscar-se em projetos tão surpreendentes como este. Baixe o disco usando o link e senha abaixo para descompactar o arquivo.

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Sheryl Crow. [download: mp3]

Sheryl CrowDepois do álbum de estréia, Sheryl Crow amainou um pouco suas raízes country e produziu um disco com um bom pé calcado no pop/rock. O disco, sem título, tem uma sonoridado muito distinta do primeiro, com guitarras, bateria e orgãos Hammond e Wurlitzer com marcante presença nas melodias. As letras das canções também foram aprimoridas, com Sheryl e seus parceiros de composição ousando até o debate e a crítica. Já, de cara, marcando a diferença do primeiro disco temos as letras de “Maybe Angels”, cuja letra mostra alguém declarando sua crença, temores e experiências com vida extraterrestre, com uma deliciosa ironia. A melodia não é menos deliciosa, trazendo para acompanhar o vocal meio gritante de Sheryl, acordes de guitarra e do orgão Wurlitzer em perfeita harmonia. “A Change (Would Do You Good)” traça em suas letras o que parece ser o perfil e o cotidiano de um sem-teto, e mostra uma melodia gingadíssima que combina maravilhosamente bateria, teclado Hammond, guitarra e violão – feita pra ouvir seguidas vezes. “Home” é uma fantástica balada desesperançada, onde o vocal à meia voz de Sheryl acompanha o baixo, guitarra e violão de suaves e distantes acordes sonhadores, bateria delicadamente sincopada e Wurlitzer. A letra traz as divagações de arrependimento e nostalgia de uma mulher ao refletir sobre o estado em que se encontra a sua relação amorosa – mais uma canção no disco que te obriga a contínuas e repetidas audições, tamanha a sua beleza. Mais uma criatura com cotidiano desajustado e algo depressivo é retratada nas letras de “Sweet Rosalyn”, mas agora voltando à uma melodia bem mais agitada, irresistível em sua vestimenta pop/rock construída com base em bateria, guitarra, violão, e breve mas importante participação de piano e sax – a sequência que fecha a melodia da música dá uma boa sacodida no esqueleto. “If It Makes You Happy” volta a trazer as confissões de mais uma garota imersa em uma vida cuja faceta afetiva lhe traz apenas sofrimento, também acompanhada por uma melodia bem menos alegra, mais ainda agitada com suas guitarras em profusão, teclado, baixo e bateria marcante. Na letra de “Redemption Day”, Sheryl Crow concebe, pela primeira vez, algo além do entretenimento puro, compondo uma crítica contra os males da guerra – muito bem feita na letra da canção, diga-se de passagem. A melodia é triste, com uso intensivo de violões. “Hard To Make A Stand”, que trata de uma mulher em sua reflexão sobre o cotidiano de um mendigo que entrega flores, e sobre o seu próprio, tem melodia e vocais um pouco tristes, à base do orgão Hammond, baixo, bateria, violão e guitarra – esta canção tem uma “versão alternativa” no fim desta edição especial do álbum, com uma melodia e vocal ligeiramente diferentes, ambos mais adocicados e com uso mais intensivo de violões e de bateria. “Everyday Is A Winding Road” mostra uma mulher refletindo sobre o seu atual partido afetivo e sobre como ele é tão pouco animador quanto estar sozinha. A melodia, com sua agitação bateria, teclados e violões, acaba dando um tom irônico à letra. Com críticas, feitas com muita ironia, à louca tradição americana de armamentismo doméstico e à maneira como políticos e o capitalismo permitem e até incentivam esta tradiação, “Love Is A Good Thing” tem melodia com ótima ginga, onde quando não temos a bateria bem construída, teclado e os acordes breves de violão, temos uma Sheryl mais solta, dando-se ao direito de dar um bom gritinho. “Oh Marie”, balada suave e doce feita com violões, guitarra, bateria, baixo e Wurlitzer, mostra alguém confessando seu amor platônico, através de uma descrição apaixonada da personagem título da canção e de suas atitudes. “Superstar”, de irresistível “bati-cum” pop/rock, feito com doses cavalares de piano, teclado Wurlitzer, violões e bateria, traz à tona o cotidiano de típicos urbanóides festeiros, em suas idas e vindas de celebrações e perambulações para flertar e fazer-se presentes. “If It Makes You Happy” e “Hard To Make A Stand”, “The Book” tem música triste e soturnante, apresentando uma mulher desiludida ao testemunhar que parte de sua vida e cotidano afetivo foi retratado em um livro lançado por um homem que amou. “Ordinary Morning”, apesar da notável ironia e desilusão de suas letras, sobre uma mulher que não se preserva de experiências amorosas desnecessárias, tem melodia que julgo ser uma das coisas mais furiosamente sexy que já ouvi, graças ao piano delicado e ao delírio enlouquecido do vocal de Sheryl, da bateria e da guitarra na sua parte final – rolar em uma cama com um morenão como Matthew Fox ou outra beldade qualquer, ao ritmo desta música, é garantia de sexo desenfreado, com direito até a mordidas no pescoço. “Sad Sad World” é a única música do disco que tem uma melodia mais próximo do country tradicional – os acordes de violão ao fundo não deixam qualquer dúvida – e tem letra que traz as lamentos afetivos de alguem sem a companhia daquele que ama, ironicamente a pessoa que tinha mais dificuldade de lidar.
Este álbum, que tive contato pela primeira vez na fronteira temporal entre o fim de meu colegial e início de minha faculdade, é o melhor da cantora e compositora americana, ao lado de seu disco de estréia – isso sem qualquer dúvida. Suas músicas com letras bem escritas e melodias rascantes, soturnas, tristes e, vez por outra, mais alegres, são o retrato do esforço de uma artista que quis, em um único trabalho, mostrar para a imprensa musical tudo o que era capaz de realizar – Sheryl, depois de sua estréia, tinha sido cogitada por alguns críticos como uma artista de fachada, fruto puro e simples do esforço de produção. A garota resolveu não ficar só reclamando: arregaçou as mangas e produziu ela mesma esse álbum fenomenal, que angariou muitas premiações, teve enorme sucesso comercial e – doce vingança – obteve infindáveis elogios dos crítica musicais. Ouça você mesmo e veja se não estou certo. Baixe o disco utilizando o link e descompacte-o com a senha abaixo.

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UMA DICA: use um navegador como o Mozilla Firefox para descobrir, através do seu mecanismo de download embutido, o endereço de download do arquivo no Sexuploader – eu descobri que usando o link verdadeiro com o gerenciador de downloads Flashget você consegue não apenas baixar o arquivo a toda velocidade, mas retormar o download se, por ventura, tiver que pará-lo.

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Marina Lima – Lá nos Primórdios. [download: mp3]

Marina Lima - Lá Nos PrimórdiosApesar de não ser um fanzão de Marina, como um grande amigo meu, que se descobriu como tal ao perceber que estava sofrendo de um surto obsessivo de compras de CDs e LPs da artista, sei admitir os grandes méritos da cantora e compositora brasileira. Com a perda da potência e gradação vocal, que se acentuou há alguns anos, a cantora percebeu que suas canções deveriam ganhar em interesse melódico o que ela não poderia oferecer cantando. E assim foi que, desde O Chamado a cantora começou a compor melodias fantasticamente modernas, com uma elegância e classe ímpares. Lá nos Primórdios não é um disco excelente, mas vale pela mistura de canções inéditas e releituras de canções antigas que resultou em algumas faixas, de fato, excelentes. Um exemplo é “Três”, que apresenta a conhecidíssima construção de versos de Antônio Cícero, versos que falam de amor com uma entrega total, sobre uma soturna melodia de baixo e guitarra discreta, um baque eletrônico meio sujo como fundo, cordas sintetizadas em teclado e um piano de acordes cuidadosos, que ganha mais destaque no meio da canção. “Valeu” traz bateria e percussão acústica e sintetizada de tonalidades samba-bossa, junto com uma programação de sons delicada, assim como são os acordes do piano, que fecha a canção com toques breves mais sempre classudos ao extremo. O vocal de Marina é doce e algo sofrido, o que combina com as letras, que reclamam o sofrimento amoroso mas que, ao mesmo tempo, agradecem tudo o que já foi vivido. “Anna Bella” é um pop-rock elegante, com belo uso de guitarras, que apresenta solos mais genorosos e programação de teclados esperta, sobre o piano leve e animado. A letra, que parece uma conversa despretensiosa sobre amor, se revela, ao final, uma bela cantada. E como aconteceu em uma das canções de Pierrot do Brasil, temos nesta música uma das melhores e mais inusitadas tiradas do disco – ouça e me diga se a encontrou. “Difícil” fala sobre sexo casual e descompromissado, e apresenta uma bateria de compasso forte e seguro, com guitarras que crescem maravilhosamente ao longo da melodia, até explodir com mais vontade na sequência que fecha a canção – mais Marina que isso só mesmo com os metais de “Carne e Osso”. Os versos de protesto romântico, compostos pela própria Marina, são o retrato do abandono ao fim de um relacionamento e apresentam-se emoldurados por melodia rock agressiva, onde guitarras e baixos deixam-se usar de maneira absoluta. “Vestidinho Vermelho” é uma versão de Alvin L. para uma canção de Laurie Anderson, onde as letras são ponderações românticas e sexuais cantadas no refrão e apenas faladas fora destes. A melodia acompanha o vocal narcísico, petulante e malicioso de Marina, apresentando-se mais calma e intimista quando a cantora está falando e mais vigorosa e floreada quando ela canta o refrão. “$ Cara”, que inicia com um loop programado, logo revela melodia sonicamente forte com sua guitarra tempestuosa e bateria cheia de energia. O vocal de Marina, por vezes acompanhado por um dos músicos da banda que gravou o álbum, também está no seu melhor ao cantar os versos atualíssimos de amor e reflexão sócio-filosófica – sem dúvidas uma das melhores composições da cantora até hoje. Os remixes deste álbum estão mais elaborados: “Valeu”, em sua versão reeditada, ficou ainda melhor ao ganhar um supreendente solo de violoncelo algo nervoso e “Vestidinho Vermelho” tem melodia house-dance mais usual, mais ainda assim bem acima dos remixes normalmente produzidos.
Marina é em verdade a artista mais “cool” da música brasileira na atualidade, ao mostrar um trabalho que tem como marcas mais visíveis a real sofisticação e urbanidade de suas melodias e a malícia e poética das letras das canções, a cantora consegue passar ao largo de todas as tentativas mais falsas de parecer moderno e atual sem escorrergar um milímetro sequer e arriscar cair na vulgaridade. E a música brasileira é quem sai ganhando com isso. Baixe o disco utilizando o link a seguir.

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Thirteen Senses – The Invitation. [download: mp3]

Thirteen Senses - The InvitationJá fui mais radical e tive uma pré-disposta implicância com bandas de rock que pertencem ao chamado “indie”. Porém, já faz alguns longos meses que meus ouvidos se abriram para uma experimentação ainda maior – e isso vem acontecendo cada vez mais, a medida que o tempo passa: deve ser porque estou ficando velho. O fato é que esta abertura me permitiu encontrar bandas muito boas, como Death Cab for Cutie – cujo maravilhoso último disco já tratei aqui no blog – e Thirteen Senses. Iniciantes no ramo, os ingleses desta banda conceberam um álbum de estréia que agrada em cheio à qualquer fã de música alternativa ou independente, algo que assemelha-se à maior parte dos artistas que pertencem à este grupo mas que, ao mesmo tempo, tem uma identidade bem clara.
O álbum começa com o single “Into the Fire”, cujo destaque dentro da melodia vai para o piano de acústica maravilhosa, mas que trabalha belamente junto com a bateria ritmada mas suave e a guitarra de acordes sobrepostos e bem planejados. O vocal de Will South vai junto com a harmonia, alternando entre o delicado e o mais exaltado – apesar de que sua voz nunca deixa de ter algo de sussurrante e aveludada. A letra é suavemente poética, composta de versos que incentivam e desafiam. “Thru the Glass” tem introdução que inicia lenta, com bateria distante e guitarras algo lamentosas, mas logo a canção ganha ares mais agitados, com entrada de acordes mais rascantes de múltiplas guitarras e bateria mais forte. A melodia alterna entre estes momentos mais intensos e algo mais suave, acompanhando o vocal, muitas vezes em falsetto, de Will South. A letra trata dos ímpetos e desejos repentinos que nos trazem uma vontade de fugir e fazer algo inesperado que não faríamos normalmente – é realmente uma canção linda. “Gone” – que trata de nossas ilusórias tentativas de provocar uma mudança que, já sabemos, não ocorrerá – chega com uma introdução bárbara de violões e guitarras que remetem a sonoridade esparsa e melancólica do Cranberries de início de carreira. A bateria é encorpada, mas o vocal delicado de Will está perfeitamente entrosado com a melodia triste e arrependida. “Do No Wrong” tem uma letra poética muito bem trabalhada sobre revolta e inconformismo. O vocalista põe um cantar ainda mais suave e aveludado do que o utilizado até o momento, o que combina com o dedilhar absolutamente transcendental das guitarras ao fundo e o piano, a bateria e as guitarras, que compõem a harmonia principal da canção, apresentam-se mais encorpados durante o refrão. Resignação é a temática dos versos meio episódicos da belíssima “The Salt Wound Routine”, que investe em bateria suavemente “rocker”, piano de acordes dramáticos, guitarras que acompanham a melodia e orquestração de cordas ao fundo, que amplia o sentimento de conformismo. “Saving” prossegue no poetismo contemplativo que trata novamente de conformismo, agora também com uma sensação que mistura fracasso e desistência. A música é baseada em piano e bateria de melodias cadenciadas, com guitarras e baixos acompanhando, e um epílogo melódico solo no piano fechando a canção. Tristeza e sentimento de resignação diante da incapacidade de ir além é o que nos traz as letras de “Lead Us” – já diz o título: alguém nos guia, não somos nós que tomamos a frente e desbravamos o caminho. A melodia utiliza com imensa beleza o piano e as guitarras, de acordes dedilhados que se destacam na música. “Last Forever” fala de um amor mas que sempre sobrevive, mesmo sacodido por alguns contratempos, e tem uma melodia que investe em uma bateria mais incorpada e guitarras mais profusas, além de um vocal um pouco mais alto no refrão. “History”, composta de versos de amor curtos, traz na sua melodia a participação de um teclado à frente da melodia da música, que inicia-se com ele, tranquila, e ganha corpo com a entrada da guitarra de acordes rápidos e da bateria de cadência rápida, ainda que suave. Porém logo a música volta a trafegar em uma suavidade guiada pelo teclado e por guitarras de acordes esparsos. “Undivided”, que traz versos que tratam de amizade e despreparo diante das situações na vida que nos desafiam, tem melodia muito bem trabalhada, com uma introdução baseada em acordes silenciosamente dramáticos no piano, e que ganha intensidade com o uso da bateria, guitarras e baixo, tão logo encerra-se o vocal. Em seguida temos a melodia de consistência suave e triste de “Angels and Spies”, com vocal lento e melancólico, e onde o piano e as guitarras quietas ganham a companhia da bateria somente na sua metade final. A letra sobre algum sentimento de complacência e alívio, diante do fim da sensação de confusão e do sofrimento que se impunha ainda há pouco. “Automatic” belíssima, fecha o disco com sua letra intensamente poética e música baseada no vocal sofrido e em acordes meio lentos e espaçados do piano e da guitarra, ganhando uma mudança melódica em sua parte final, onde os acordes do piano, mais adocicados, e a guitarra de acordes mais exaltados, intensificam a melancolia.
O disco de estréia desta banda, originária da mesma Cornwall que hoje é a casa de Tori Amos, tem a beleza complacente e algo transcendente de bandas como Death Cab for Cutie, e em alguns momentos lembra um pouco Keane, provavelmente devido à incidência do dramatismo produzido pelo piano. É sem dúvidas uma banda promissora, cujo trabalho tem a mesma qualidade da banda de Ben Gibbard, bem como compartilha com esta as letras intensamente poéticas e a melancolia sempre onipresente. É de ouvir vezes seguidas, ainda mais se for aproveitando uma caminhada descalço em uma praia ao entardecer.
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PJ Harvey – Is this Desire? [download: mp3]

PJ Harvey - Is this Desire?PJ Harvey (redução de Polly Jean Harvey) é uma cantora e compositora britânica magnífica, e em cujas composições a artista costuma entregar-se completamente. Entre todos os seus discos lançados até o momento, sem dúvidas o idiossincrático Is This Desire? foi o disco no qual a cantora mais derramou-se em vocais e instrumentação. O álbum foi uma fuga repentina do rock seco e cru, com vocais entoados geralmente em tons graves, predominante nos disco anteriores, para algo bastante diverso: ruídos de sonoridade suja, produzidos eletronicamente, piano, baixo e guitarras distorcidas são a tônica melódica deste disco sombrio e repleto de fobias.
“Angelene” abre o álbum e faz parte das canções mais calmas e acústicas dele: um piano triste, guitarras e baixos em acompanhamento e bateria cadenciada constroem a moldura para o vocal largadamente rock de PJ Harvey, que canta sobre as falsas esperenças e as ilusões de uma vida menos degradante de uma garota de programa. “The Sky lit up” tem letras que celebram uma noite de atos irresponsáveis, ou simplesmente desplanejados e cuja sonoridade revela a primeira das canções em que foi construída uma melodia repleta de ruídos eletrônicos retalhados, com bateria sintetizada feita de samplers e loops cíclicos, tudo compondo um conjunto melódico esplêndido, de tons repressivos e negros. O vocal de PJ Harvey é intenso e repleto de curvas tonais de graves e agudos, particularmente no ápice final da canção. “The Wind” alterna declamações sussurradas e vocais agudos, sob harmonia primordialmente sintética composta por loops, baixo, guitarra e bateria de sutilezas soturnas e com alguma frugalidade dark pontual. A letra fala sobre uma dama de espírito e personalidade algo mediavel, cheia de ingenuidades românticas, tentando aplacar seu sofrimento e solidão afetiva isolando-se em uma colina a escutar o soprar do vento. Aprimorando ainda mais a temática dreprê-underground, “My Beautiful Leah” trata em seus versos curtos da busca de um homem pela sua amante desaparecida, ao que parece, há meses. A base é primordialmente sintetizada, toda construída com eletronismos sujos, batida repetitiva e pratos pontuais que intensificam o desespero custusamente controlado do eu lírico das letras. O vocal de PJ Harvey permanece a totalidade da canção em um tom baixo, inseguro e sofrido. “A Perfect Day Elise” conta, de modo episódico, o ato criminoso ocorrido no calor do desespero de um homem rejeitado – é uma das melhores que conheço em termos de rock, ao mesmo tempo intensamente poética e realista. A melodia é um primor punk-rock, composta de loops e samplers de cadência forte, ruídos sujos pontuais e vocais intensos, modificados por uma filtragem eletrônica, o que intensifica a atmosfera de romance fadado à fatalidade e à desgraça – se um dia eu dirigisse um longa-metragem, estejam certos que uma das opções para fundo do crédito de abertura seria esta música. Pra lá de melancólica e depressiva, “Catherine” narra o interminável lamentar de um homem que sofre por amor, na sua inconsolável dor de cotovelo. A melodia permanece o tempo todo na mesma toada, construída com uma programação de teclados minimalistas e com vocal diferenciado de PJ Harvey, sofrido e suplicante. Essa é mais canção que mostra a impressionante capacidade que a cantora compor vocais tão diversos de uma canção para a outra, parecendo mesmo outra pessoa a guiar as letras – e isso não é, de forma alguma, competência exclusiva de pós-produção da canção. “Electric Light” prossegue no tom dark-minimalista, explorando mais uma melodia de base eletro-acústica, com silenciosos ruídos sintetizados acompanhados por uma batida de cadência repetitiva e letras breves, mais de complacência amorosa. Em “The Garden” temos, ao que parece, a exploração episódica de um romance gay, já que os protagonistas da letra são dois personagens masculinos. Mesmo que a analogia de homossexuais com seres alados divinos seja, para mim, algo absolutamente cafona e de mal gosto, os versos são sofisticados e apresentam o episódio em conformidade com a temática do disco. A melodia utiliza um orgão sutil ao fundo, sob bateria e loops encorpados, bem como belos acordes dramáticos de piano que pontual com classe e melancolia a melodia de quando em quando. O título da próxima canção, “Joy” é de um sadismo e ironia absolutos, visto que as letras que exploram e falta de esperança de uma mulher e sua imobilidade diante das desgraças da vida são tudo, menos contentamento. A música completa o tom opressivo das letras, sendo quase que inteiramente construída em programação, com profusão de loops sujos, soturnos e macabros, e tendo como ápice o vocal desigual de PJ Harvey, que assemelha-se ao extertor de sofrimento de um condenado. “The River” é outra canção de desilusão e incompatibilidade afetiva, novamente apresentando belos versos de tonalidades poéticas – nada mais literário do que transpor ao ambiente que cerca os personagens a variação de seus emoções e a intensidade da sua dor. A melodia é lindíssima, baseada principalmente em um piano de acordes perfeitos, de andamento triste e arrependido, com bateria discreta e alguma sonoridade sintética ao fundo. “No Girl So Sweet” apresenta em sua temática mais um romance marginal, fadado mais a trazer dor do que alegria aos amantes, com músicalidade marcante, de loops intensos, bateria acústica forte e guitarras muito bem compostas, que complementam o tom gritante do vocal distorcido de PJ Harvey. Finalmente temos a faixa título do disco, que surpreende ao despir-se quase inteiramente do eletronismo e priorizar uma musicalidade mais simples e sensual, baseada em bateria, um baixo de acordes fantasticamente esparsos e vocal lento e preguiçoso da cantora. A letra fala sobre mais um casal refletindo sobre o estado de seu relacionamento desigual.
Apesar de Is this desire? flertar com ruídos e sonoridades compostas sinteticamente, o produto final tem mais alma rock do que se poderia imaginar. Isso é resultado de uma produção muito bem planejada, que priorizou a utilização de experimentações apenas dentro do exigido. De musicalidade sofisticada e temática que explora romances marginais despedaçados pela confusão e imaturidade emotiva de seus personagens e pelas fatalidades da vida, este é um dos melhores álbuns de rock que já tive a sorte de ouvir e se faz obrigatório para entender a trajetória desta artista complexa e inovadora que é a britânica PJ Harvey – mais do que obrigatório para fãs de música. Baixe já o disco utilizando o link e senha abaixo.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005