Há projetos musicais promissores que duram alguns anos, lançam um par de discos interessantes, e por motivos desconhecidos se desfazem, de modo que seus componentes trilham diferentes rumos em suas vidas. Luckless, projeto da artista neozelandesa Ivy Rossiter, é um desses casos: hoje uma DJ e produtora musical radicada na Alemanha que acabou vinculando-se com um público pelo qual, digamos, não tenho muita simpatia, a cantora e compositora formou, em companhia do conterrâneo Will Wood, um duo musical que lançou não mais que dois discos na primeira metade da década passada. No primeiro deles, a dupla muniu-se apenas de guitarra e bateria para compor uma dezena de músicas excepcionais que transpiram a essência do mais primoroso rock alternativo e exibem traços de gêneros adjacentes, como o grunge, o que fica evidente nas canções “Hawks” e “Fermina Daza”, ambas baseadas em harmonias cíclicas da guitarra Silverstone de Ivy Rossiter. Na primeira, a cantora apossa-se do instrumento introduzindo uma sequência minimalista de riffs graves que faz par com o seu registro vocal baixo, escoltados com comedição pela bateria de Will Wood, mas no refrão a sonoridade dos instrumentos é encorpada para acompanhar o vocal mais emotivo da dupla, onde Ivy canta “quando eu acordar a noite, você vai me confortar e me abraçar, como corações expostos?”. Já na segunda, a palavra “home” é sussurrada continuamente por Will Wood como um mantra na qual a Silverstone distorcida de Ivy e a própria bateria de Will sobrepõem-se em um tropejo marcial premente, que retrai em um breve interlúdio lírico, apenas para retornar com mais urgência e transmutar-se em uma fabulosa apoteose sonora.
Porém, a proximidade com o grunge não fica apenas na dualidade complementar da dinâmica de retração/explosão sonora destas duas faixas, mas também na carga emocional do vocal juntamente com uma melancolia prevalecente nas melodias. São exemplos “Sound I See” (que inicia com certa serenidade, mas encorpa-se no refrão em um crescendo onde brilham tanto o vocal de Ivy quanto o instrumental denso e enérgico do duo) e “Skin & Bones” (que alterna introspecção e intensidade na cadência consternada de bateria e guitarra para servir de apoio ao vocal que também intercala-se entre súplica frágil e demanda imperiosa).
Ainda nessa estréia a dupla também conseguiu exibir sua habilidade na confecção de canções com arranjos mais trabalhados, como nas místicas “Cold In Our House” e “Let It Leak Out”, que guardam algo de dream rock nas guitarras etéreas e seus ruídos luminescentes que permeiam ambas as faixas, e “Bring This To An End”, uma power ballad que fecha o disco trazendo ternura e assertividade emotivas tanto no vocal quanto na música que avoluma-se à medida que avança.
Mas é a segunda faixa, “Hummingbird Heart”, que resume todo o talento da dupla na composição de melodias marcantes que tomam de assalto os ouvidos: conduzida inicialmente por uma guitarra e bateria hesitantes, em um compasso contínuo e controlado, a melodia intensifica-se em uma escalada rítmica brilhante, que sem usurpar sua graciosidade etérea e sua delicadeza emocional, culmina em um clímax melódico onde os instrumentos encadeiam-se em um pulso ligeiro como o coração do colibri que dá título a canção.
É verdade que o processo de popularização tanto do acesso quanto da produção cultural proporcionado pelas inovações tecnológicas teve impacto negativo na qualidade do que é produzido, mas penso que os longos anos ouvindo música e resenhando-a neste blog também contribuem para tornar cada vez mais incomum a possibilidade de ser arrebatado por um disco de algum artista ou banda na atualidade. Felizmente, a mesma popularização ofertada pela internet, aliada a uma boa dose de obstinação de um blogueiro já veterano, também possibilita você se deparar com o disco impecável de mais de dez anos atrás de uma banda obscura do Nova Zelândia que não existe mais – é como dizem: sou brasileiro e não desisto nunca.
Baixe: Luckless (2012) [mp3]
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