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Tag: musica

Maria de Medeiros – A Little More Blue (+ 1 faixa extra). [download: mp3]

Maria de Medeiros - A Little More BlueRegravar canções dos compositores canônicos da música brasileira é o desejo confesso ou oculto da maior parte dos intérpretes da música brasileira e, como se viu nos últimos meses, também de algumas portuguesas: além da vocalista da banda Madredeus, Teresa Salgueiro, que lançou um disco interpretando canções de compositores brasileiros, a atriz e diretora portuguesa Maria de Medeiros também resolveu editar a sua contribuição ao vasto painel de “covers” de canções brasileiras no CD batizado com o nome de A Little More Blue, uma das faixas do disco, de autoria de Caetano Veloso. Projetos deste tipo tem a vantagem de já nascer com metade do trabalho feito, pois o risco de um disco com faixas tão emblemáticas de “monstros” (con)sagrados da música brasileira ser rechaçado pela crítica é mínimo – daria mais trabalho errar do que acertar com material de tanta qualidade nas mãos. E Maria de Medeiros, que é fina e elegante mas não é tola, resolveu também não arriscar na metade do trabalho que lhe competia: não apenas os arranjos trafegam no que poderia-se imaginar como tradicionalmente brasileiro, apenas trocando o violão pelo piano no papel de principal condutor das melodias, como a própria Maria decidiu caprichar no seu “brasileirês”, entoando os versos com um sotaque tão perfeito que a maior parte das pessoas juraria tratar-se de uma cantora genuinamente verde e amarela.
Algumas canções destacam-se dentre as faixas presentes no disco pelos contrastes que fazem com as versões clássicas que conhecemos. Ao interpretar “O Que Será”, por exemplo, Maria retirou a rítmica farta do samba triste, preferindo marcar a música por um tilintar um tanto fúnebre e intensificar o tom dramático com os acordes de um piano que cresce em desespero e ansiedade. Em “O Quereres”, então, some o andamento oitentista dado pelo baixo, por sintetizações e por uma guitarra ocasional e surge uma percussão sincrética e, por vezes, caótica, adornada por piano calmo e pelo vocal entre o docemente lírico e o impetuosamente ligeiro. E em “Acalanto”, a mudança não chega a ser tão grande no espírito inevitavelmente sofrido que esta canção sempre carrega, mas a versão ao piano e percussão surda de Maria de Medeiros surpreende pela sua imensa beleza, distante uma vida da medonheira conduzida pelo teclado barato do take original de Ivan Lins.
Em outras faixas, porém, a preocupação não foi conceber arranjos visivelmente diferenciados dos originalmente concebidos, mas conduzir uma interpretação que preserve a identidade original da canção ao mesmo tempo que a renova. Dois sambas clássicos de Chico Buarque foram assim tratados pela agora cantora portuguesa: “Samba de Orly” e “Samba e Amor”. A primeira, antes marcada pela percussão e vocais de fundo simbólicos do samba, foi ordenada na versão da portuguesa pelo piano e um vocal mais declarado, menos discreto que o de Chico; a segunda preserva a profunda delicadeza da esplêndida versão do compositor carioca, mas a leveza aqui é criada a partir dos acordes discretos do piano, contrabaixo e percussão e do vocal sutilmente travesso e lânguido de Maria. Além dessas faixas, outras ainda preservam parentesco com suas versões primeiras, como “Tanto Mar” e “A Noite do Meu Bem”. Para a canção de Chico, cuja harmonia agridoce festiva foi apenas atenuada por toques rápidos de piano, castanholas, percussão e, claro, pelo vocal macio da artista portuguesa – que vai ganhando mais força junto com o andamento da melodia -, a cantora decidiu apresentar as duas versões das letras, que tornou-se famosa em Portugal por ter sido lá o lugar onde foi feito o registro censurado pela ditadura militar; já na música de Dolores Duran, que fecha o disco, Maria de Medeiros tornou a melodia o mais límpida e silenciosa possível, permitindo que apenas acordes leves de piano e ruídos delicados de gotas e tilintares vítreos acompanhassem o seu vocal profundamente emotivo.
Apesar de querer priorizar alguns dos mais exemplares clássicos da música brasileira, Maria de Medeiras decidiu guardar um pouco de espaço para novas composições – ainda que elas sejam fruto do mesmo Chico Buarque que nos deu os clássicos. “Outros Sonhos” e “Ela Faz Cinema”, ambas faixas do mais recente disco de Chico Buarque, Carioca, também foram adaptadas para este projeto de Maria de Medeiros. Enquanto “Outros Sonhos” difere da atmosfera acústico-orquestral de Buarque por possuir um tom mais lépido na versão da atriz-cantora, com presença do tamborilar macio de uma bateria, “Ela Faz Cinema” preserva basicamente o mesmo espírito da gravação de Chico, apresentando como diferença mais notável o dueto de Maria com a voz sempre aconchegante e algo sedutora do uruguaio Jorge Drexler.
Maria de Medeiros formulou o projeto tendo uma coisa em mente: escolheu o repertório priorizando canções que remontam ao período da ditadura militar, com o intuito de mostrar que estas vão muito além da política – como ela mesmo declarou, acha a música engajada brasileira “a mais sensual do mundo”. Pelo resultado final, observa-se que ela teve tanto sucesso na com a idéia que, muitas vezes, o frescor sóbrio de seus arranjos e de suas de interpretações foi capaz de deixar até mais visíveis, mesmo nas audições mais displicentes, as várias matizes temáticas – políticas, afetivas, sociais – contidas nos versos das canções.
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Marina Lima – Pierrot do Brasil. [download: mp3]

Marina Lima - Pierrot do BrasilDe certo modo ignorado, Pierrot do Brasil permanece como um dos maiores êxitos autorais recentes de Marina devido à qualidade de seus arranjos e as letras que versam, claro, sobre amor e paixão de forma aberta. “Pierrot”, bem ao modo “comissão de frente”, apresenta um resumo das faixas mais swingadas que vem pela frente: com direito a introdução que cita “Delicado” de Waldir Azevedo e epílogo com um piano solo bem boêmio, a música tem melodia moderna, com uma programação eletrônica sincopada e dançante ocupando todo o fundo da faixa enquanto uma guitarra de acordes agudos faz frente ao vocal sempre sedutor da cantora. Aliás, sedutores são os versos de “Na Minha Mão” e “Leva (Esse Samba, Esse Amor)”. Na primeira, em cuja melodia a guitarra divide-se em uma face mais sensual e aflitiva e outra mais plácida e a bateria entre uma rítmica sexy e inquisidora e outra mais reflexiva, ouvimos Marina concluir na letra que comenta sobre feridas de amor que “se todo mundo é mesmo gay, o mundo está na minha mão”. Na segunda, cujo dueto com Sérgio Britto mais atrapalha do que ajuda, escutamos ao som de um loop de constante tilintar, bateria eletrônica bem marcada e orquestração de metais adicional, versos em que a cantora questiona algúem sobre seu modo de agir e encarar o amor.
Contudo, logo o ouvinte descobre que a verdadeira beleza deste disco está escondida nas baladas “Deixa Estar”, “Uma Antiga Manhã” e “Portos e Vinhos”, confissões tocantes da cantora sobre seus insucessos afetivos e excelentes amostras da simbiose bem-acabada entre melodia e letra: a música doce da triste “Deixe Estar”, com destaque para a bela comunhão melódica entre piano e bateria, fecha com perfeição com a letra cheia de metáforas muito bem colocadas sobre amantes que sofrem com o rompimento de um amor que, apesar de tão intenso e apaixonado, não iria para frente; a bateria suave que dá o andamento de “Uma Antiga Manhã” e abre terreno para sutis frugalidades do teclado e um solo melancólico de clarinete é a parceira ideal da letra em que a cantora comenta sobre a beleza traiçoeira de um amor que já acabou; e para os versos amargurados de “Portos E Vinhos” a melodia silenciosa, com pouca coisa mais do que o ecoar de alguns excassos acordes de guitarra, teclado e piano, abre terreno para que atentemos às letras, guiadas pela interpretação sem resvalos de Marina.
Em Pierrot do Brasil a malícia orgulhosa, a petulância sensual e as segundas intenções das canções mais agitadas são o que mais agrada o ouvinte no seu primeiro contato com o álbum, mas é a sentimentalidade sincera das baladas, nas quais Marina mergulha fundo em seus próprios conflitos e dramas, que faz este disco despontar como poucos na discografia da artista – não é à toa que a própria compositora diz que o disco, na realidade, era um modo de trabalhar o eterno remoer dos amores desfeitos.
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Suzanne Vega – Nine Objects of Desire. [download: mp3]

Suzanne Vega - Nine Objects Of DesireApesar de ser autora de dois dos maiores mega-hits do final da década de 80 e parte dos anos 90 – “Luka” e “Tom’s Diner”, que inundaram as FMs do mundo inteiro -, Suzanne Vega é uma artista mais admirada nos círculos mais “cults” devido à uma idéia de sofisticação excessiva de seu estilo em grande parte de sua carreira musical. Talvez por sentir-se cansada de soar tão sofisticada, ou simplesmente por vontade de estabelecer mudanças, Suzanne lançou em 1996 um disco que foi o ponto de partida para um processo contínuo de desenvolvimento da composição de uma musicalidade muito mais algodoada e coesa, tanto quanto sempre foi a sua voz sutil: Nine Objects of Desire. Neste disco, a artista soa muito mais quente, tranquila e sonoramente frugal do que possa jamais ter sido nos anteriores. Este balanceamento delicado é vísível na bateria e teclados e na maneira como guitarra e pratos soam pontualmente preponderantes em “Headshots” – em que um pôster 3×4 de um rapaz persegue uma mulher que caminha pela cidade, causando-lhe imensa nostalgia afetiva – na percussão, violões e orquestrações cálidas e sensuais da bossa de “Caramel” – onde apesar do desejo intenso, uma mulher não se atreve a sequer arriscar uma relação que, ela sabe, não terá futuro – na melancolia amarga dos acordes do violão e piano, da percussão de sincopamento leve e ressoamento dos pratos de “World Before Columbus” – em cujos versos a cantora reflete sobre como o mundo, e não apenas a sua vida, perderia muito do seu sentido sem a companhia de quem ama – e na delicadeza madrigal da orquestração e nostalgia solar da guitarra e órgãos de “My Favorite Plum” – baseada em brilhante analogia sobre desejos não confessos por um fruto sem igual, distante e inalcançável.
Porém, quando decide-se a não compor faixas tristes e melancólicas, como em “No Cheap Thrill”, quando a bateria, guitarra, metais e vocais atrevem-se a soar mais agitados, e como em “Tombstone” – relato de uma alma penada que não dá muita atenção ao paraíso e não deseja mais do que descanso – cuja música, com piano, bateria e baixo tão bem compassados entre si, tenha toda a cara de um aconchegante e animado piano-bar de primeira, poucas vezes elam lembram a aspereza de composições anteriores – é o que ocorre com “Casual Match”, que lembra muito “Blood Makes Noise”.
Me impressiona é que tamanha beleza, inventividade e equilíbrio tenham sido tão mal compreendidos tanto por crítica quanto por público. Para citar apenas um exemplo, basta conferir a manufatura irretocável de letras e música de “Honeymoon Suite” para entender a injustiça sofrida por este trabalho de Suzanne Vega: se não bastasse o exotismo da melodia doce e metálica do violão e órgão, ainda temos a prova, através do relato episódico de um casal em lua-de-mel, que serve apenas para mostrar o quão diferente é a maneira de homens e mulheres encararem uma relação, toda a habilidade e competência que Suzanne Vega detém como uma verdadeira poetisa.
Mais do que um álbum de qualidade inquestionável, que sinaliza a maturidade artística de uma artista pela maciez e calor quase táteis de suas melodias e pela notável polidez da poética urbano-contemporânea de seus versos, “Nine Objects of Desire” serve para deixar claro que nunca devemos guiar nossas experimentações culturais pelo que diz a crítica ou mesmo pela resposta do público à um artista ou um de seus lançamentos específicos – é sempre deixar seus próprios ouvidos decidirem o que é bom ou não pra você.

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Sarah Blasko – The Overture & The Underscore. [download: mp3]

The Overture & the Underscore - Sarah BlaskoA australiana de olhos expressivos, Sarah Blasko, lançou-se em 2004 em carreira solo com The Overture & The Underscore, que reúne canções compostas por ela e seu colaborador, Robert F. Cranny. Apesar de Sarah ter comentado que procurou não delimitar e definir um estilo em sua estréia, deixando-se apenas entregar as possibilidades que surgiram durante sua criação, o ouvinte fica com uma sensação de que, dentro daquela sonoridade pop/rock, há sim uma identidade já sendo desenvolvida – sensação que é provavelmente fruto do contato com suas melodias e letras melancólicas e singelamente poéticas, bem como a impressão obtida ao ouvir sua voz de sensibilidade tão apurada.
Talvez pela consciência do dom que detém, Sarah escolheu privilegiar seu vocal no arranjo de “All Coming Back”, canção que abre o disco e fala sobre uma mulher que reflete sobre como o amor que vive é feito apenas de lembranças e momentos ruins: a instrumentação escassa é alimentada apenas por uma guitarra de acordes quase monotonais e agudos, um piano distante e ocasional e alguma programação eletrônica sutil na ponte melódica. Mas em “Beautiful Secrets”, sobre como podemos nos enganar achando que nossos segredos estão bem guardados, Blasko já apresenta suas melodias bem compostas com uma música mais farta, onde guitarras e baixos de acordes mínimos mas densos dividem espaço com sintetizações metálicas e cintilantes e um loop, fruto de programação, faz a vezes de base rítmica. Parece que não vai sobrar espaço para mais nada, porém Sarah consegue encaixar muito bem a bateria acústica na sequência final da canção e, assim, potencializa a emoção dos seus vocais. Mas na reclamação feita para um homem cujas palavras tem a intenção de lhe causar confusão e culpa, Sarah resolve deixar por um momento a melancolia e injetar mais energia com acordes rápidos de violão e toques cristalinos da guitarra, e incrementa ainda mais “Don’t U Eva” com uma bateria encorpada e furiosa. Porém, logo somos imersos novamente nas melodias e letras agridoces que Sarah mostra compor tão bem: “Perfect Now”, em que uma mulher se prepara para abandonar seu amor enquanto dorme, concluindo que é melhor deixá-lo enquanto tudo é felicidade, é uma balada suave onde violão, bateria, vocais e principalmente a base orquestrada de cordas suscitam a atmosfera harmoniosa dos primeiros trabalhos dos irlandeses do The Cranberries e em “Cinders”, a doçura da programação eletrônica, teclados e vocais contrasta com as letras em que Sarah relembra, com amargor, que não há como esquecer tudo o que aconteceu no passado e simplesmente seguir em frente. Como acontece com frequência no mundo da música, Sarah resguardou-se e deixou o melhor de si só para o final, nas duas últimas faixas do álbum, “True Intentions” e “Remorse”. Na primeira a garota atinge, tanto no vocal quanto na melodia, o crescendo emotivo, a classe e a elegância dignos de uma Nina Persson, e em “Remorse”, sobre pessoas que “parasitam” seus companheiros em uma relação afetiva para abandona-los, indefesos e frágeis, em troca de novas “vítimas”, Blasko pluraliza seu vocal, adicionando mais camadas e vocalizações eventuais ao fundo, enquanto na melodia notas leves e mínimas do piano conferem um tom dramático, as orquestrações sintetizadas promovem reflexos luminosos e a programação eletrônica discreta realça a atmosfera da canção.
É uma estréia e tanto: a menina mostra saber o que faz, exibindo muita segurança em suas melodias e letras que mesclam diferentes matizes de tristezas, rancores, arrependimentos e alguma alegria acidental e temporária. Talvez por confiar tanto em si é que Sarah escolheu estampar a capa de seu primeiro disco com toda a simplicidade possível, em um retrato expressivo que mescla confiança, ironia e ira – a síntese absoluta de seu estupendo The Overture & The Underscore.

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Tanita Tikaram – Sentimental. [download: mp3]

Sentimental - Tanita TikaramContrastando diretamente com a opulência instrumental e o transbordamento pop de The Cappuccino Songs, o mais recente álbum de Tanita Tikaram, Sentimantal, aproveita do anterior apenas o desprendimento suave dos vocais bem colocados, deixando a impressão de uma vontade consciente da artista de que este novo disco soasse como o exato oposto do lançado em 1998: no lugar da quandriloquência e do extravasamento, quietude e instrospecção. Foi neste clima de intimidade que nasceram as melhores canções do disco, “My Love”, com versos que lamentam uma relação que, ao perder sua força e sua franqueza, só faz causar enorme sofrimento, e “Play Me Again”, em que a cantora suplica de forma contida por afeto. Em ambas as músicas, acordes desmesuradamente plácidos e estudados de piano, bateria leve e cautelosa, guitarras tímidas e quase desapercebidas e notas arredondadas e calmas de orquestrações de cordas e metais enfatizam fabulosamente o vocal de discreta gravidade de Tanita.
Mas, apesar do que faz crer o seu título, o disco não mergulha a todo momento em versos e harmonias sofridas e melancólicas. Mesmo que não sejam exatamente registros de alegrias e deleites, faixas como a classuda e delicadamente sexy “Got To Give You Up” e a balada “Something New” – na qual a cantora, cansada de relações que só a desgastam e não lhe fazem jus, reclama por um amores mais sinceros – suplantam a tristeza com melodias que transpiram esperança e contentamento recatados.
Neste trabalho, cuja sonoridade macia, acústica e intimista é comparável à do fenomenal álbum Birds, de Bic Runga – não por um acaso, já que sua sessões de gravação seguem a mesma proposta, fazendo a captação de som de todos os intrumentos ao mesmo tempo – o tempo mostra que é um remédio implacável e abençoado para alguns artistas: Tanita Tikaram revela em Sentimental como amadureceu suas composições, ao mesmo tempo abandonando a musicalidade áspera e exótica de seus primeiros trabalhos e peneirando sem piedade todos os excessos dos mais recentes. Seu esforço trouxe a vida um disco tão de tecitura tão coesa e sólida que conseguimos exalar docilidade e calor em cada verso e nota de suas canções.

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Noonday Underground – On the Freedom Flotilla. [download: mp3]

Noonday Underground - On The Freedom FlotillaDe boas intenções o inferno está cheio, e de DJs/produtores que elencam vocalistas – muitas vezes mais de um ao mesmo tempo – para interpretar sua canções cheias de balanço o mundo da música está tão cheio quanto. Boa parte deles quer ganhar fama e popularidade trilhando o caminho dos representantes mais famosos do estilo, como Groove Armada e Nouvelle Vague, fazendo uma alquimia sonora com funk e hip hop ou pop e bossa, respectivamente. A verdade é que dificilmente dou atenção à qualquer uma dessas duas tendências predominantes – se não soam totalmente irritantes quando esses produtores derramam nas composições mais hip-hop/funk do que o bom senso permite, o incômodo acaba sendo outro (ainda que em muito menor grau), já que, de tão lugar-comum, essa vontade de soar “brasileiro” acaba como um negócio maçante.
Contudo, eu diria que normalmente os elementos menos famosos que fazem parte deste grupo se alimentam em outras fontes, como a música latina, trilhas sonoras da época mais glamourosa do cinema americano ou pop/rock com rajadas de soul mais nostálgico. É nesta última referência musical que se encaixa o Noonday Underground, formado pela dupla Simon Dine – o inevitável DJ – e Daisy Martey – a necessária vocalista. Confessando desconhecer a discografia anterior da dupla, posso afirmar que seu último lançamento, o disco On The Freedom Flotilla, merece uma espiada por conter algumas faixas com um groove delicioso. “You Keep Holding On” é uma, onde o vocal impetuoso de Daisy foi distanciado um pouco do primeiro plano, nivelando-o bastante com a melodia cheia de loops e pontuais orientalismos sonoros e com programação eletrônica que permite uns bons requebros de cinturinha. Em “She Knows” os loops se repetem em pulsos constantes e os samplers de cordas, que dão a partida e fecham a melodia, lhe conferem maior glamour. Isso difere sobremaneira de “Put You Back Together”, cujo sampler-base que sustenta a música, um riff ligeiro de baixo que soa pinçado de uma surf music aleatória, salta aos ouvidos nos primeiros segundos da melodia e segue apoiado por um loop de bateria igualmente acelerado e sacolejante – o que provavelmente inspirou a vocalista a segurar mais as notas, principalmente no refrão. Em “It’s Alright” eles resolveram pregar uma peça no ouvinte: ao invés de uma canção soturna e mórbida, como sugerem os primeiros acordes de um baixo de negrume arrepiante, o que surge na verdade é um 70’s pop cintilante e nostálgico que lembra muito as canções-tema mais clássicas de filmes de 007, e que só sofre interferência do sampler de metais rascantes que prepara o encerramento da melodia. Pra fechar o disco a dupla colocou “Gone Now Blues”, canção que injeta uma melodia com loops percussivos velozes e samplers de metais, guitarras e gaitas salpicados que criam uma esquizofrenia à moda do Beck Hansen mais clássico.
Afora um Portishead ou Gotan Project, este projetos compostos por Disc-Jockeys normalmente não conseguem subverter o instrumental com que lidam, samplers e loops resultantes da digestão de acordes e harmonias limitadas ou mesmo alheias, em composições suas – você escuta e geralmente acaba achando aquilo reciclado e até mesmo repetitivo. Isso reduz muito o impacto que estes artistas podem ter dentro daquilo que alguém possa listar como suas preferências. Porém, tendo isto em mente, não há problemas em apreciar audições esporádicas de grupos como Noonday Underground, com sua prolixia sonora esparramante e de coloração solar – e até mesmo se jogar dançando na sala de estar.
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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005