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Tag: musica

PJ Harvey and John Parish – A Woman A Man Walked By. [download: mp3]

PJ Harvey and John Parish - A Woman A Man Walked ByRepetindo a experiência de treze anos atrás, inclusive no que tange ao papel desempenhado por cada um em Dance Hall at Louse Point – ele encarregado por compor melodias e lidar com os instrumentos, ela em criar as letras e dar voz a elas -, PJ Harvey e John Parish lançaram há alguns dias seu segundo álbum colaborativo, A Woman A Man Walked By. Apesar do espaço de tempo razoavelmente grande tomado entre os dois álbuns e da quantidade de experiências solo de variadas naturezas que Harvey trouxe a vida desde o lançamento de seu primeiro disco em parceira com Parish, esta nova empreitada tem bem visíveis as características nascidas no trabalho anterior, algumas delas inclusive ressurgindo ainda mais ásperas e esdrúxulas. É o que acontece com o orgão e a bateria entorpecidos de “Is That All There Is?”, que são retomados no novo disco na canção “April”, porém acompanhados de um vocal de Harvey que, em ao menos um terço da música, especialmente no seu início, soa enfadonhamente anêmico e titubeante. As guitarras fartas e maciças de Parish também voltam a dar as caras em canções como “Pig Will Not”, e à imagem do que acabou ocorrendo em “April”, os resultados poderiam ter sido menos claudicantes – a princípio a atmosfera confusa e encolerizada fascina os ouvidos, mas depois de algumas audições se mostra repetitiva e simplista.
No entanto, o disco tem sim seus momentos altamente inspirados, em que a retomada da parceria entre os dois britânicas prova ser válida. É o caso de “Black Hearted Love”, que abre o disco com uma melodia rock perfeita e redonda com guitarras, baterias e vocais que liberam vapores de delicada sensualidade para fazer par ao vocal doce e suplicante de Harvey que dá vida ao versos sobre o êxtase de uma mulher tomada por uma intensa paixão. Mais adiante, em “The Soldiers”, Parish dá uma guinada melódica, fugindo do rock ao inspirar-se na sonoridade obtusa e etérea do folk de PJ Harvey em White Chalk: o piano de toques esparsos e o violão e o vocal de tonalidades agudas e distantes remontam sem erros a obscuridade do disco anterior de Harvey. Em “Sixteen, Fifteen, Fourteen” a dupla encontra o exato ponto de equilíbrio entre estas duas sonoridades, o rock que se ouve de uma faixa a outra e a idiossincrasia folk que permeia todo o disco: apesar de naturalmente díspares, a sonoridade exaltada do bandolim meio desafinado de notas agudas entra em pefeita comunhão com a bateria intrépida, quase bélica, e com as guitarras e o baixo que surgem exasperantes no refrão encerrado por um grito eufórico de PJ Harvey. Na faixa título do disco – que na verdade é uma canção em duas, sendo imediatamente sucedida por um interlúdio instrumental que não é bom o suficiente para lhe fazer companhia – Parish também extrai uma melodia esperta e bem-acabada das guitarras e baterias, mimetizando com vigor compassivo a fúria e o sarcasmo denotados pelo vocal de Harvey e suas letras delirantes sobre um “homem/mulher” com orgãos feitos de fígado de galinha. Pouco depois desse devaneio, mais ao final do disco, Harvey e Parish pisam um pouco no freio com a bela balada “Passionless, Pointless”, em cuja harmonia letárgica e difusa que emana da guitarra, da bateria e do vocal de Harvey apreende-se algo do rock/pop que tanto ocupava a faixa noturna das FMs nos anos 80.
Com um soluço aqui e alguns engasgos ali, pode-se dizer que A Woman A Man Walked By não desagrada os ouvidos por conta dos momentos verdadeiramente saborosos que pontuam esse cardápio extravagante que algumas vezes soa intratável. Mas esso é o risco que corre uma artista inquieta, que não se permite estacionar no conforto e na segurança de combinações e misturas já consagradas. Com essa atitude, por mais que se erre, o saldo sempre acaba altamente positivo – afinal, é logo depois de experimentarmos algo que destoa de nossa preferência que aquilo que vai de encontro ao que apreciamos invade os sentidos como algo ainda mais apetitoso.

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PJ Harvey & John Parish – “Black Hearted Love” (dir: Chapman Brothers). [download: video + mp3]

PJ Harvey & John Parish - Black Hearted LoveSingle do segundo álbum a ser lançado em conjunto por PJ Harvey e seu amigo e colaborador ocasional John Parish no próximo dia 31 de Março, “Black Hearted Love” detém uma beleza rockeira absoluta. Sob várias camadas de riffs de guitarra e uma bateria densa, Harvey clama pelo seu amor em versos de paixão enlevada com um vocal que detém a leveza e frescor do ar mais puro, porém com a intensidade e sedução que já lhe são mais do que conhecidos. O vídeo, dirigido pela dupla de irmãos Jake e Dinos Chapman, nomes conhecidos da escola mais controversa da vanguarda da arte européia, explora idéias das letras compostas por PJ ao colocar a artista de pele alva coberta por um vestido de cetim negro e pulando avidamente em uma casa inflável multi-colorida de festas infantis no meio de uma floresta em plena escuridão da noite pontuada por alguns relâmpagos – cenário este que guarda algumas semelhanças com a fantástica arte do disco To the Faifhful Departed, dos irlandeses do The Cranberries. John Parish não participa do curta, mas seu rosto pode ser conferido projetado brevemente sobre as figuras infantis que cobrem a parede inflável no fundo da casa enquanto uma chuva cai insistentemente. A melodia espessa criada pelo músico britânico foi combinada com uma filmagem contrastante, que abusa da câmera lenta em diferentes velocidades e que hora fecha closes no rosto angelical da inglesa, enquanto em outras concede visão mais ampla do cenário idílico e um pouco assustador. Sem dúvidas um delicioso tira-gosto até o lançamento, dentro de alguns dias, do novo álbum da dupla, que sucede Dance Hall at Louse Point, lançado em 1996.

PJ Harvey & John Parish – “Black Hearted Love” (mp3)

PJ Harvey & John Parish – “Black Hearted Love”: Youtube (assista)download

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Jenny Wilson – Hardships!. [download: mp3]

Jenny Wilson - Hardships!Há cerca de 15 anos que não se sintoniza uma estação de rádio em qualquer período do dia e da noite sem correr o perigo de expor seus ouvidos à agressão causada pela insuportável mistura de ritmos antes distintos da música negra norte-americana, e que hoje pode ser resumido à um punhado de beats já catalogados featuring moçoilas lançando gritos e “miados” pretensamente sensuais e “manos” que nutrem a ilusão de encarnar a canastrice bad boy ao empostar um vocal que mais se assemelha a um arroto ou por, ao contrário, mimetizar uma voz que, ironicamente, é bem mais frágil e aguda do que a das moças. O conteúdo (?) coincide com a forma, procurando limitar-se a uma ostentação emergente de riqueza ou a enumerar peripécias sexuais do modo mais rasteiro permitido. Pra ajudar a deixar tudo o mais pasteurizado quanto o possível, encarregue um ou no máximo dois sujeitos para produzir os discos de TODOS os contratados do gênero pelas gravadoras e está feito: temos devidamente fabricado metade do catálogo de maior investimento das gravadoras e em média 80% do que estacionou há muitos anos em absolutamente qualquer top ten pelo mundo afora.
Por conta desse massacre sonoro que se mantém onipresente desde meados dos anos 90, fica difícil acreditar que algo de bom possa ser feito dentro destes gêneros musicais. Mas a sueca Jenny Wilson, com a mesma sensibilidade e ironia com as quais tripudiou sobre as agruras do amor e os rituais juvenis em seu disco de estréia, decidiu que essa seria a tarefa para Hardships!, o seu segundo disco.
A princípio isso pode parecer uma idéia que já nasce fracassada por conta dos excessos plantados sem qualquer noção de limite nos ritmos mais em voga da música popular negra norte-americana e que desse modo acabaram sendo fossilizados como suas maiores características. Porém, foi justamente ao manipular ao seu favor as suas excrecências, transformando em beleza e poesia o que na sua origem não passa de sujeira que a compositora conseguiu evocar a graça desejada aos ritmos.
“The Wooden Chair” e “Anchor Made of Gold” são duas das faixas que mais escancaram o poderio de subversão de Jenny ao lidar com o estilo. A primeira adota a rítmica lasciva e dançante dos hits que exploram a sensualidade e a converte em uma música elegante e estudada guiada por um baixo de pulso grave e ornada por clacks, palmas, estalos e tiques percussivos dos mais variados, além claro, de uma linha de vocais impecável; a segunda, com sua melodia entre a balada r&b e o hino soul normalmente resultaria em um single chato e enjoativo, mas trabalhados pelas mãos da cantora sueca os toques de piano e bateria e o cingir dos pratos dão um volume encantável a melodia enquanto os “claps” e backing vocals, tão maltratados pelos americanos, lhe dão um acabamento arrojado.
E são de fato os vocais, tão polidos e reluzentes quanto as jóias de um ourives, que compõe o encanto do musicalidade deste novo disco da artista sueca, como bem prova a música “Hardships” e a curta faixa que lhe faz introdução, “Motherhood”: surgindo em fade in, um coro de vozes em plena sintonia e afinação fascina os ouvidos com uma animada toada de feição gospel sobreposta à um pulsar grave e maciço tão natural que é possivelmente resultado do sapatear em piso de madeira, tudo apenas para abrir espaço para a melodia percussiva e acústica de “Hardships”. Esta apresenta uma música cravejada de cintilantes beats e acordes de piano, violinos e vibrafone com um brilho platinado intenso, mas é o reluzir dourado ofuscante dos vocais ondulantes que dá corpo e sofisticação a harmonia. A balada “We Had Everything” levanta ainda mais os vocais para o primeiro plano, numa composição fabulosa de vozes junto ao cantar esplendoroso de Jenny com o lamuriar deslumbrante de violinos e pianos preenchendo o ar com o aroma doce de sua melodia. Encerrando o disco, “Strings of Grass” sintetiza a experiência de Hardships! com uma música que, assim como o disco, apresenta sinuosidades sonoras rebuscadas que tornam difícil sua classificação, mas que no entanto consegue preservar com tranquilidade nuances suaves ao unir aos vocais piano, sax, flauta e alguma percussão em delicada consonância.
Nem todas as faixas que nascem do flerte da idiossincrasia natural das composições da artista sueca com o soul e o r&b soam atraentes, é verdade, porém os triunfos de Hardships! são suficientemente bons para fazer os poucos insucessos figurarem como meros detalhes. Era de se esperar, uma vez que a moça até se apresentou na capa do disco com a sóbria serenidade de um vestuário à moda Coco Chanel, mas fez questão de mostrar a sua disposição empunhando um belo e amedrontador rifle. Nem era necessário: para dissipar qualquer reminescência que as moças trajadas com o figurino tipicamente Daspu deixaram no r&b, o requinte e a classe de Jenny Wilson, assim como o estranho calor do seu falsetto escandinavo, foram suficientes.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos.

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Se quiser, leia uma outra opinião sobre o mesmo disco no texto escrito pelo .

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Damien Rice & Seu Jorge no Centrosul, Florianópolis.

Coisa de cinco minutos eu estava entrando no Centrosul, local da apresentação do músico Damien Rice na capital de Santa Catarina. Logo na portaria recebi uma discreta [ironia] pulseira laranja, que identificaria meu setor dentro do espaço utilizado para o show. Não querendo fazer hora, entrei logo no salão, dividido em três setores por barras metálicas. Sentei-me, lá pelas 20:30hs, na segunda fileira e fiquei aguardando. Depois de alguns minutos dando uma geral no local, saquei meu iPod Touch pra ouvir música enquanto aguardava o show e descobri que alguém, inadvertidamente ou não, deixou a rede wi-fi do local sem criptografia. Nada melhor do que esperar um show ouvindo música e navegando na internet ao mesmo tempo. E eu tive que esperar um tempinho bem razoável – o show atrasou mais de meia hora.
Damien Rice em FlorianópolisE era pouco mais de 21:30hs quando Damien Rice entrou no auditório pelo lado direito e subiu ao palco acompanhado somente de seu violão. Depois de cerca de duas músicas, o cara começou a conversar com a platéia, e daí pra frente não parou mais. Cada música que Damien tocava era precedida por um comentário, uma história de como a canção foi criada ou uma impressão qualquer, como da sua vinda ao Brasil ou de sua visão sobre as relações humanas. A cada vez que Damien parava para expor algo na sua fala calma, pausada e plácida, eu descobria que ele é o exato inverso do que sua canções dão a entender: artista de composições, em sua maioria, tristes e sofridas, Damien Rice se mostrou um homem dotado de um humor discreto e de ironias finas, muito distante dos comentários e histórias expressadas como certezas e opiniões aborrecidas por uma parcela considerável dos artistas. Com isso, a platéia não apenas se emocionava com as canções do artista, mas era constantemente estimulada pelas suas histórias e “causos”.
Depois de um set de cerca de seis músicas, Damien Rice anunciou a entrada de Seu Jorge, com mais uma história sobre isso, claro, e aproveitou para fazer seu intervalo. E ele não foi curto: o cantor e compositor brasileiro só saiu do palco depois de cantar seis músicas, entre composições suas e de outros artistas brasileiros. O público foi educado e se comportou bem, aproveitando a apresentação de Seu Jorge e agradecendo com entusiasmo cada música sua. Mas o público estava mesmo ali para ver Damien Rice, e não havia como não notar a ansiedade silenciosa dos espectadores com relação ao retorno do cantor irlandês.
Damien Rice em FlorianópolisE quando Damien surgiu novamente, sua volta não foi sem impacto. O cantor subiu ao palco ainda ocupado por Seu Jorge e chamou a parcela da platéia mais à frente para lhe fazer companhia. Obviamente que todos aqueles que se encontravam nos setores bloqueados se mostraram um tanto frustrados, mas a maioria se conformou com o situação e aproveitou o espetáculo que se formava à sua frente: rodeado por mais de trinta pessoas sentadas ao seu redor, Damien Rice começou a cantar “Volcano” e, a certa altura, resolveu interromper seu canto para distribuir entre os novos ocupantes do seu palco e o restante da platéia a execução do backing vocal da faixa, orientando homens, mulheres e a platéia ao fundo sobre como deveriam acompanhá-lo – foi um momento de enorme descontração, uma espécie de oficina de canto improvisada em que todos no auditório sentiam enorme proximidade com o artista irlândes. Mas essa surpreendente intimidade de Damien com a platéia não acabou por aqui.
Depois de mais essa demonstração de simpatia, Damien saiu do palco brevemente apenas para retornar para cantar “Cannonball” de um modo surpreendente: a princípio confundido pela platéia como um deslize técnico, Damien executou à canção sem o apoio da aparelhagem de som, fazendo ecoar no salão apenas a extensão natural de seu vocal e do seu violão. A platéia logo entendeu e manteve-se em silêncio absoluto para aproveitar ainda mais esse momento ainda mais intimista do artista com seu público.
E o cantor europeu resolveu guardar sua canção mais conhecida para os momentos finais. Primeiro cantada por Seu Jorge, na sua versão em parceria com a brasileira Ana Carolina, Damien Rice, que estava sentado no palco assistindo o colega cantando, levantou-se e deixou a platéia vidrada com a execução original de “The Blower’s Daughter”.
Damien Rice em FlorianópolisE quando eu estava achando que o show já tinha chegado ao seu fim, o irlândes volta-se para a platéia, ainda anestesiada pelas sensações despertadas por uma das suas músicas mais famosas, e pede que aguardem o palco ser devidamente equipado para sua última canção. Logo, três cadeiras e uma grande mesa, sobre a qual se encontravam taças e garrafas de vinho, estavam sobre o palco. Em duas das cadeiras sentaram-se Seu Jorge e uma amiga irlandesa de Damien que falava português razoavelmente, incentivadora de uma ONG que se instalava na cidade e para a qual toda a renda do show seria revertida – diga-se de passagem, motivo maior da vinda de Damien para o Brasil. Personagens em seus postos, o cantor irlandês iniciou a “dramatização” da história da música “Cheers Darlin”: enquanto ele desenrolava o novelo do “conto”, sobre um homem e uma mulher batendo papo em um bar para matar o tempo a hora de ir embora, Seu Jorge e a irlandesa se revezavam na tradução do que Damien contava, bem como interpretavam os papéis definidos na canção – e, assim sendo, as garrafas de vinho foram sendo esvaziadas pouco a pouco pelos “atores” e pelo narrador da história, já que o consumo da iguaria é parte essencial da história contada. E os três se esbaldaram: logo que era virado uma taça, Damien voltava-se para a platéia e inventava na história mais um motivo para um brinde, e la se iam mais três taças de vinho. Foram umas cinco rodadas ou mais, até que Damien, para delírio da platéia, ofereceu uma interpretação fabulosa de “Cheers Darlin”, repleta de emoção, ironia e com direito a uma impagável simulação de embriaguez e inconformidade – foi uma perfomance tão impecável que depois de muito aplaudir Damien e seus “assistentes de palco” o público esvaziou o auditório visivelmente extasiado, sem muito falar mas com enormes sorrisos expressando a enorme satisfação de ter testemunhado uma das noites mais inspiradas de na carreira de Damien Rice.

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Damien Rice em Florianópolis – É hoje.

Damien Rice no BrasilDepois de muito vai-não-vai, diz-que-disse, o show de Damien Rice foi confirmado em Florianópolis para a noite de hoje. Algumas coisas relativas à estão apresentação, no entanto, estão interferindo na minha efetiva animação para a apresentação do cantor e compositor irlândes por aqui. Primeiro, poucas vezes vi algo tão pouco divulgado quanto este show por aqui. Nem sinal de outdoor, chamada na TV, matéria em jornal ou mesmo um artigo decente em algum site ou portal local. Segundo, as informações sobre a natureza do show também são desencontradas: alguns afirmar ser um show beneficente, mas a produtora do evento em momento algum se referiu à ele como tal. E por último, o elemento mais bizarro de todos: o local escolhido para a apresentação de Damien, o Centrosul, um centro de convenções. Em sua passagem pela capital de Santa Catarina, Damien Rice não se apresentará em um teatro ou mesmo casa de shows, mas sim um local planejado para abrigar simpósios, fóruns, mostras e derivados – até feira de artesanato já vi ter esse lugar abrigado…isso pra não falar naquelas convenções médicas super divertidas. Parece óbvio pra qualquer pessoa até com meio cérebro – como diria o pai de Lindsey Lohan – que um centro de eventos e convenções não é o lugar mais adequado para servir como palco de um show musical, ainda mais de um artista tão intimista como o irlandês. A experiência passada de shows efetuados no pavilhão central do local, bem como o evento mais comumente realizado no seu pavimento superior, usado para formaturas, deixam claras sua inaptidão acústica e a sua falta de adequação para a expectação adequada de um evento musical, servindo como comprovação daquilo que alguém já pode ter idéia apenas olhando para o lugar, mas os fãs do cantor em uma de suas maiores comunidades do Orkut não parecem nem um pouco incomodados, sentindo-se enormemente felizes com a localização bem cômoda do Centrosul. Entendo, claro, a sempre enorme felicidade em receber um dos seus artistas favoritos, mas isso não é motivo para que eu aja como um fanboy idiota que não percebe, ou pior, ignora os possíveis problemas da organização e da realização de qualquer evento pura e simplesmente porque é um show de alguém que eu tanto goste. Mas tudo bem: eu admito que estou pedindo demais de gente que, só pra dar um exemplo, afirma que não poder beber e fumar à vontade em um show de música tem bem menos graça do que aproveitá-lo sem essas distrações e vícios. De fato, pedir sensatez de pessoas com preocupações relacionadas a elementos que não tem qualquer efeito sobre a qualidade da apresentação do artista é inútil.
Claro, espero sinceramente que eu esteja ao menos parcialmente errado. Porém, mesmo que problemas que prejudiquem um pouco o aproveitamento do show se apresentem, será pra lá de prazeroso encerrar minhas férias desfrutando ao menos um pouco da quase intangível beleza das composições de Damien Rice – não sou exatamente um fã inveterado do artista, mas é muito mais por o ter conhecido quando já estava cultivando o hábito de inflar sobremaneira meu repertório de artistas do que por não apreciar inteiramente seu trabalho. Mesmo que não esteja lá no topo das minhas prefências musicais, as canções de arranjos delicados e o cantar repleto de emoção do irlandês não tem como não atingir qualquer um que tenha um mínimo de sensibilidade artística. Agora, é aguardar algumas horas pra aproveitar as músicas do moço que até hoje guarda um jeito de cantor de rua.

P.S: Alanis Morissette também vais dar as caras por aqui no próximo fim de semana, mas essa já é uma opção quase totalmente descartada pra mim. A casa noturna escolhida para o show da canadense (uma tal de Pachá, que um dia já foi X Music Hall e mais tarde El Divino-qualquer-bosta) é totalmente fora de mão pra qualquer um que não seja o feliz dono de um automóvel e o preço do show, mesmo na pista, é um pouquinho salgado. Porém, é mesmo o fato de que nunca fui um ávido apreciador de sua obra que realmente conta para que eu não tenha assim tanta vontade de conferí-la ao vivo. De Alanis eu só gostei mesmo dos três primeiros álbuns e, de forma geral, eu de fato apenas gostei, não adorei – não é algo que tenha me arrebatado, pelo menos até hoje. Talvez a coisa mais chata em não estar presente neste show seja mesmo perder a oportunidade de jogar no palco um pôster de Ryan Reynolds com os dizeres “JUST TO REMEMBER WHAT YOU’VE LOST, HONEY!”. Mas, como o último disco de Alanis é, pra variar, inspirado em suas experiências afetivas, provavelmente isso seria desnecessário – porque, sinceramente, “Flavors of Entanglement” só não recebeu o nome de “Flavors of Ryan Reynolds” pra isso não ficar totalmente na cara.

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A Camp – Colonia. [download: mp3]

A Camp - ColoniaAproveitando o intervalo que sua banda The Cardigans tirou desde a última apresentação da turnê do fantástico disco Super Extra Gravity, Nina Persson voltou-se ao seu side-project, A Camp, que fez sua estréia em 2001 com um disco que injetou elegância ao country-rock. O novo álbum ainda conta com interferências do parceiro Niclas Frisk, de Mark Linkous, que produziu a primeira incursão do A Camp, e de músicos presentes na primeira incursão do grupo, como a americana Joan Wasser (da banda Joan As Police Woman), mas novas participações ganham papel integral, como Nathan Larson, marido de Nina e James Iha, ex-guitarrista do Smashing Pumpkins. Em Colonia, o novo disco, as referências ao country-rock somem quase que por completo, cedendo lugar à um pop que remete ao produzido no meio do século passado e que difere razoavelmente do que Nina já fez no início da carreira do The Cardigans, já que o produzido pelo A Camp é menos festivo e acelerado, preferindo fazer florescer melodias que sempre tem um “que” de tristeza e pisando no acelerador com muito maior parcimônia. É claro que esse caráter mais melancólico de Colonia fica mais óbvio em baladas de melodias tranquilas e sóbrias como “It’s Not Easy To Be Human”, que interrompe os poucos versos acompanhados de guitarra e sintetizações de tonalidades doces, calmas e tristes com uma epifania sonora de violinos e vocais de fundo sutis, e “The Weed Had Got There First”, cujo compasso letárgico e profundamente romântico é resultado da combinação das queixas de Nina ao microfone, do andamento lento da bateria, das cordas em ondulações levemente sensuais e da discreta participação da guitarra e de sintetizações, mas a atmosfera plangente está igualmente presente, ainda que de modo atuenado, nas canções mais sonoramente fartas. Isso se reflete na cadência arrastada da guitarra e da bateria e nos sopros e coro glamourosos que se alastram por todos os cantos da faixa “Stronger Than Jesus”, primeiro single do novo álbum, no ritmo imperioso que a bateria impõe no refrão da música suspendida por coros e pianos celestiais e pelas cordas graves que lançam-se em jatos precisos na melodia de “Love Has Left The Room” e até mesmo na aparente extroversão dos vocais e do compasso power-rock da bateria e do baixo e na pontuação deliciosamente dramática produzida pelas palmas e riffs de guitarra em “Here Are Many Wild Animals”.
Contudo, o que me chamou a atenção em A Camp foi a semelhança que me despertaram duas de suas faixas com outros representantes do mundo da música: enquanto “The Crowning”, desde os versos que pintam o cenário de uma irônica festa de homenagem até o ritmo do violão, piano, bateria, guitarra e harmonias dos sopros e cordas lembra, em cada detalhe, os momentos mais afetadamente teatrais de Rufus Wainwright – até mesmo o vocal de Nina remete ao cantar altivo e sarcástico do compositor americano -, algo disfarçado pela verve pop da espetacular “Chinatown”, provavelmente resultado da ambientação criada no trecho final da canção na combinação dos riffs resplandencetes da guitarra com o coro de múltiplas vozes que preenche o fundo da música com uma aura majestosa, me suscita…Pink Floyd. Não, eu não fiquei louco ou digitei errado – eu disse mesmo Pink Floyd. Por ter ouvido até gastar o cassete de The Division Bell em meu finado e nada saudoso Walkman em 1994, a ponto de não conseguir sequer olhar mais para esse disco, me acho no direito de estabelecer essa relação a primeira vista tão estapafúrdia – mas imagino que aqueles que conhecem bem este álbum conseguem, como eu, encontrar uma pontinha da sonoridade de algumas canções de The Division Bell em “Chinatown”.
Excetuando-se algumas faixas um pouco enjoativas, este novo disco do A Camp exala uma atmosfera ao mesmo tempo clássica e sofisticada, cujas melodias e letras persistem de maneira deliciosamente prazeirosa nos ouvidos como as notas aromáticas de um bom perfume o fazem no olfato de quem o percebe. Colonia é isso mesmo: uma nova fragrância de Nina que é resultado da sua alquimia sensível, que sempre consegue obter aromas requintados na união dos mais diversos ingredientes – sejam eles ervas, flores e frutos velhos conhecidos seus ou novas adições ao seu rico catálogo de botânica sonora.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005