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Tag: musica

Sharleen Spiteri – Melody. [download: mp3]

Sharleen Spiteri - MelodyExuberantemente pop. Essa é a definição mais breve e exata do primeiro disco de Sharleen Spiteri, vocalista da banda escocesa Texas. Com o lançamento de Melody, temos mais uma cantora se embrenhando no filão do pop nostálgico que virou a nova e mais rentável aposta das gravadoras e produtores da música britânica. E, se por um lado temos a repetição de uma fórmula já garantida de sucesso, por outro ela é feita com uma competência que garantiu um bom punhado de faixas irresistíveis no álbum – algumas até flertando com outras vertentes do pop, igualmente nostálgicas.
“It Was You”, que abre o disco, é uma delas: recheada com orquestrações de metal e sopros luxuosos em um swingue acelarado, puxado pela bateria, Sharleen já começa sem pudor de ser confessional, exorcizando o fim de um relacionamento de 10 longos anos ao declarar na letra da canção que, se algo morreu dentro dela, foi aquele que a abandonou. “All the Times I Cried”, onde vemos Sharleen dando voz à uma mulher desiludida com a mudança de comportamento do seu companheiro, continua investindo nas melodias cobertas de metais e cordas pomposas, ainda que agora, devido aos acordes delicados no piano, que é solicitado pela melodia no contraponto reflexivo da música, o tom seja ligeiramente mais triste. Já em “Stop, I Don’t Love You Anymore” a música não sossega um minuto sequer, já começando com arranjo de metais a pleno vapor e bateria e guitarra de pontuações dramáticas nos primeiros segundos da canção.
E já que se trata de um disco calcado na música pop, não poderia faltar em Melody baladas de fazer fechar os olhinhos e ficar perdido em devaneios românticos, certo? Sharleen sabe disso, pois caprichou em duas das baladas presentes no disco. Em “I Wonder” ela não deixa barato, colocando pra trabalhar um coro gospel, teclado, guitarra, baixo e bateria, todos com a malemolência do soul, dando ainda robustez ao refrão com orquestração de cordas e com o seu próprio vocal, crispando em sentimento, para sonorizar as queixas de uma mulher que diz ao companheiro que a abandonou que ela não esquecerá o sofrimento que passou quando eles se encontrarem novamente. E “Françoise” não faz por menos, explorando uma outra tonalidade, menos grandiloquente e mais sutil: apesar de ter sido feita em homenagem à cantora Françoise Hardy, o sabor que a brandura da guitarra e a docilidade do piano deixam é o daquelas músicas delicadas e de atmosfera idílica que ganharam fama em romances do cinema italiano dos anos 60, algumas das mais notórias na voz de Gigliola Cinquetti.
Contudo, é a vibrante alegria de “Don’t Keep Me Waiting” que faz desta a melhor faixa do disco: desavergonhadamente pop, a melodia transborda, sem medo de ser feliz, num ritmo intoxicante para o corpo, onde tudo, o arranjo pulsante de metais e cordas, a vivacidade do piano, da bateria e principalmente dos vocais, faz da vontade de dançar o imperativo ao ouví-la já nos seus primeiros segundos – e, diga-se, é difícil resistir à este convite.
Melody é um disco sem segredos: melodias harmonicamente perfeitas nos seus momentos inspirados, feitas sem qualquer ambição que não fosse a de colar nos ouvidos o dia inteiro e fazer quem as ouve cantarolá-las descontraidamente à qualquer momento – mesmo nos mais impróprios. Não é um álbum pra entrar na sua lista de obssessões favoritas, mas apenas pra ficar lá, na sua estante ou no seu acervo de mp3, prontinho a qualquer hora pra ser desfrutado pelo que ele é, um disco com algumas boas canções pop, sem surpresas e sem rodeios.
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Duncan Sheik – Phantom Moon. [download: mp3]

Duncan Sheik - Phantom MoonEu já disse por vezes aqui que alguns artistas e discos levam tempo pra crescer entre minhas preferências. Alguns eu conheço e ouço há anos, mas quando perguntado do que eu gosto, não chego a citá-los prontamente porque não atingiram ainda o ponto em que podem ser considerados artistas favoritos. Contudo, há pouco um deles saiu da minha lista de ostracismo cultural e se aproximou dos que perfazem as minhas preferências – o cantor e compositor americano Duncan Sheik. De todos os discos que lançou, só ouvi até hoje seus três primeiros álbuns – onde seu trabalho exibe uma enorme atmosfera pop/folk -, e apesar de que Humming é o que mais escutei, foi Phantom Moon que me fez olhar novamente para o artista, de lá de seu local de repouso na minha cultura musical. O disco é um trabalho requintado e cuidadoso tanto de melodias quanto de letras – estas, por sinal, escritas pelo dramaturgo e poeta americano Steven Sater -, nas quais ainda que variem consideravelmente em tonalidade e intensidade, acabam por compor um todo de homogênea melancolia. Na faixa “Mouth On Fire”, por exemplo, para transmitir na melodia a mesma magnânima estupefação do eu lírico das letras – que vê tudo o que entende e crê perder todo o seu sentido diante do que vive no momento -, Duncan pôs em serviço violões de acordes suplicantes e ligeiros para trabalhar com bateria, arranjo de cordas e com as várias camadas de seu vocal, construindo uma música que só reduz sua densidade melódica sôfrega no seu último minuto e meio. É justamente o oposto do que nos é apresentado em “Lo and Behold”, onde o cantor e compositor se utiliza de piano, orquestração de cordas e da beleza inequívoca de sua voz jovem, macia e pungente para, de modo supremamente fabuloso, construir na música e nos sentidos do ouvinte um crescendo melódico que suplanta de modo inevitável todas as suas sensações – algo que condiz com as letras, inspiradas na enorme emoção de Simão ao ser apresentado à Jesus no no templo de Jerusalém, passagem do evangelho de São Lucas. Em outras canções, no entanto, a variação é menos intensa, já que Sheik cultiva uma sutileza maior no andamento delas. Exemplos disso estão na melodia fulgurante de “Time and Good Fortune”, que com matizes criadas por violas, bateria e orquestrações evoca a placidez de um cenário bucólico esplendorosamente invadido pelos raios do sol, na cadência suave e gentil da guitarra, bateria e piano da balada “Far Away”, que exibe o calor ameno de uma paixão madura, na perfeição do compasso folk/rock graciosamente vigoroso entre violões, órgão, percussão e vocal da faixa “A Mirror In The Heart”, que imprime sensações de revelação e urgência, e na plangente serenidade dos violões e do vocal de Duncan em “Requiescat”, que explora sonoramente a mesma resignação da súplica, nas letras, pela paz de espírito de alguém que se foi, e pelo equilíbrio de quem ficou.
Phantom Moon é nitidamente daqueles discos que não se repetem na carreira de alguém – ficam lá aprumados em sua inatingível superioridade, resultado de um momento ímpar no qual o artista encontra-se imbuído de uma inspiração inigualável. Ao mesmo tempo que isso é uma verdadeira preciosidade para um músico, pelo simples fato de que tal obra foi concebida, também se converte em um empecilho, uma vez que dificilmente se consegue superar, ou mesmo atingir, igual nível de qualidade em obras posteriores. Mas essa busca é, felizmente, o “santo Graal” que é a força-motriz por trás de todas as expressões artísticas, o alimento mais que necessário para sua continuidade.
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Muse na Paulicéia Desvairada.

São Paulo - MetrôVamos pela cronologia dos acontecimentos.
Transporte por metrô é mais simples e divertido do que eu pensava. É comprar o ticket, consultar suas estações e baldeações, quando necessárias, e pegar o dito cujo. Se você perde um quando está descendo de outro, não dá nem tempo de vociferar enputecido “Porra! Caralho!” que já para outro logo na sua frente. Minha única crítica fica para o fato de que não há um aviso luminoso em um letreiro de qual estação o metrô está fazendo a parada, só há a comunicação em voz do condutor do carro – aí não tem muito como você ficar em paz ouvindo música no iPod, já que tem que ficar atento ao aviso ou de olho em qual estação você está no momento.
E subi ao centro de São Paulo.
São Paulo - Av. PaulistaIntervalo para os comerciais: como me disse pessoalmente o , a Paulista é só uma Avenida, a Alameda Santos é lindamente arborizada mas cheia de gente que só vive de aparências e a Frei Caneca e a Rua Augusta…err, prefiro não comentar. São Paulo é uma metrópole – de um modo ou de outro, todas as metrópoles são iguais: interessam culturalmente, mas tirando-se isso só resta…a metrópole…com todos os seus problemas e sua feiúra explícita. E já que falei em cultura, diga-se que o que valeu mesmo na cidade foram as duas horas dentro do Masp – um acervo de respeito com um curadoria bem interessante, capaz de alinhar diferentes obras em uma única temática para montar uma exposição. De resto, não vi quase nenhuma atração de São Paulo. A ponte Estaiada é enorme, o Theatro Municipal é lindo, o Viaduto do Chá uma graça, a Estação Júlio Prestes um arroubo, o Minhocão é medonho, mas vi isso tudo no melhor estilo city tour – uma prática turística que, todos sabem, nasceu inspirada na famosa piada dos dois tomates atravessando a rua.
“Olha, o teatro! Que lindo!”
“Teatro?!? Onde?”
Você se sente um retardado porque não viu nada.
São Paulo - TremVamos nos encaminhando ao grande evento. E pra chegar lá eu usei os trens. Ainda que seja um transporte interessante, há mais críticas que elogios. Alguns carros são o diabo de lentos e suas chegadas e partidas não são tão frequentes quanto as do metrô. Por conta disso, achei que assentos nas estações seriam mais do que necessários, mas não havia nenhum por onde passei – lamentei aquele mundo de gente, que passou o dia inteiro trabalhando e ainda fica uns 20 minutos em pé esperando chegar o próximo carro. E por falar na quantidade de pessoas, é mais gente querendo entrar na condução do que espaço dentro dela – é um tal de empurrar pra ver se entra, e um tal de se ficar espremido no meio de uma pá de gente que você já repensa o status do ônibus no mundo do transporte urbano. Mas há um elogio: ao menos nas estações pelas quais passei, só vi oficial de polícia de encher os olhos d’água – de onde tiraram aqueles homens lindos pra ficar cuidando de estação de trem, e para quê, eu não faço idéia. Deve ser pra manter todo mundo anestesiado pra evitar qualquer menção de um incendiamento básico nos coletivos por protesto. Engraçado que, em uma das vezes que tentei fazer algum malabarismo em meio aquela vida de sardinha pra ver a cara do policial que estava quase encostado na janela do trem, percebi que o rapaz que estava na minha frente fazia exatamente o mesmo. Ele se deu conta pelo reflexo na janela que eu notei e tentou disfarçar, mas eu olhei pra ele, que era o tipo de suburbano do qual você não esperava tal ato falho e pensei: “Considere isso uma lição. Na próxima seja mais discreto.” E desci para ver o show do Muse.
Esperando para entrar fiquei conferindo a fauna da fila: diferentemente do que possa acontecer com outras bandas, achei os fãs do Muse uma gente com a cara mais normal do mundo, muito distante da bandalheira poser que integra o público de muitas bandas da atualidade – é sem dúvidas um pessoal interessante, que entende de música, vestido com bom-senso, tranquilo e inteligente. Ah, e tem um plus aí: e não é que tem um número considerável de gatos em meio aos fãs dos britânicos? Eu topava casar com pelo menos uns 15 dos que cheguei a ver na fila – porque vamos combinar que homem bonito e com bom gosto musical é o mesmo que ganhar na loteria.
E adentrei o recinto. Do lugar onde fiquei, no segundo andar da casa, a visão do palco era fantástica – pensei imediatamente que valeu cada centavo gasto no ingresso pra não estar vivenciando por horas na pista o mesmo que vivenciei no trem. Agora era esperar o show começar. Logo a turma lá embaixo, que ia entrando em doses homeopáticas até lotar a casa, pouco antes de Muse entrar no palco, ensaiou uma animação. Como era cedo eu pensei, “mas, quê??”. Aí lembrei que, na fila, ouvi do senhor dono da comunidade Muse Brasil no Orkut, que estava logo a minha frente, que Jay Vaquer ia fazer a abertura. Pensei, “Ai, porra. Canta metade de uma música, diz obrigado e vaza, faz favor!” Mas foi mais do que uma música – uns 30 minutos, eu diria. As canções do rapaz até que são bacaninhas e ele canta bem, mas elas tem um ranço daquele rock “adolexentchí” que infesta o mundo hoje, o rapaz tem péssima presença de palco e vez ou outra ele desafina um bocadinho – mas admito que ele pode surpreender com o vocal, já que em certo momento ele ajoelhou e segurou um falseto estridente que eu pensei que a bicha fosse explodir em pedacinhos no palco. “Tá, viado. Você já apareceu. Agora sai, coadjuvante”, pensei. E o público foi simpático e agradeceu – inclusive eu, civilizado que sou.
Muse - São PauloAinda bem que foi até rápido tirar a tralha musical do rapaz e arrumar o palco para a verdadeira atração da noite. O montagem não era nada mais além de um telão e os instrumentos do trio britânico. E não era preciso mais do que isso mesmo: quando a banda entrou, ao som de uma peça clássica fantástica, todo mundo, inclusive eu e a adolescente que estava sentada na mesa comigo, acompanhada dos pais modernetes, caiu numa histeria-êxtase-delirante-coletivo. Minha garganta já estava baleada com a rinite recente e a poluição de São Paulo, mas pensei: “Meu, foda-se a minha garganta! Eu vou é gritar e cantar o show inteiro feito um condenado à morte estrebuchando nos seus últimos estertores de vida”. E com o quê, por deus, eles abriram a apresentação? “Knights of Cydonia”. Eles queriam ver toda a área VIP desabar em cima do público logo no início do show, ah, queriam. Se eu morresse na queda, só ia morrer infeliz por não ter visto o show inteiro – porque morrer ao som de “Knights of Cydonia” é uma morte dignamente apoteótica, fiquem sabendo. Apesar de tremer feito o território da China, o segundo andar não caiu na geral e pude conferir porque os três garotos britânicos foram apontados por deus e o mundo na crítica musical como os detentores da melhor apresentação ao vivo no rock da atualidade em todo o planeta. Matthew Bellamy parecia ainda mais baixo e magrinho naquela camisa vermelha, mas na hora que o rapaz abre a boca e toca na guitarra, cresce feito Golias e ninguém consegue fazer outra coisa se não cantar com ele cada verso da canção, chegando ao ponto até de cantar o incantável na faixa de abertura, imitando a guitarra com a voz – e isso se repetiu por várias vezes durante o show, incluindo aí imitação de piano, baixo e bateria. Uma demonstração de que o público há muito esperava por ver os rapazes no Brasil – e a banda notou isso, respondendo com uma energia fabulosa no palco. Muse - São PauloMatthew exibia-se enlouquecido na guitarra e piano, mostrando uma destreza inigualável, Cris, mesmo sendo o mais fleumático e tímido da banda, sapateou no baixo e fez o público perder as estribeiras no backing vocal da eletrizante “Supermassive Black Hole” e Dominic só faltou usar a cabeça como baqueta na bateria, exibindo uma habilidade nada menos que formidável – por sinal, ele mostrou-se, como já era esperado por todos, o mais comunicativo da banda: além de soltar diversos “obrigado”, Dominic ainda fez questão de ir ao microfone antes de deixar o palco para agradecer toda a vibração do público – que, obviamente, entrou em um estado “gozante”, se é que ainda havia o que gozar depois de duas horas de um show que não foi menos do que irresolutamente impecável, cujo setlist concentrou-se em faixas dos discos Origin of Symmetry, Absolution e Black Holes & Revelations. A vibração foi tamanha, tanto do público quanto da banda, que eu pensei várias vezes durante o show que quem estava lá fora do HSBC Brasil devia pensar que aquilo era uma arena romana, tomada por loucos que estavam entregando centenas de pessoas para ser devoradas por leões lá dentro. Ou pensava que aquilo só podia ser a gravação de um filme pornô apresentando uma suruba com pretensões de figurar no Guiness Book como a mais numerosa da história. E eu não duvido que a rua não estava tremendo devido ao incessante pulo sincronizado do público que lotou do primeiro ao último andar da casa.
A viagem foi sofrida, mas Muse ao vivo foi, assim, como vou dizer, uma experiência de vida – fez todo o esforço valer a pena e ainda fiquei com saldo a dever. Por isso é que eu digo: ser mãe o caralho – a melhor sensação do mundo é mesmo a de conferir um espetacular show de rock, porra.
Câmbio, desligo.

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“Muse-me, Baby! – Parte 2” ou “Flâneur, cadê meu Les Fleurs du Mal?”

Muse - H.A.A.R.P.Hoje à noite estarei saindo rumo à São Paulo para conferir um dos shows de rock mais esperados que já tenho notícia: a apresentação de amanhã, no HSBC Brasil, da banda britânica Muse, um trio fabuloso formado por Matthew Bellamy, Christopher Wolstenholme e Dominic Howard. Não espero nada menos do que uma apresentação espetacular, de causar uma histeria coletiva no público, recheada de lágrimas e gritos de euforia absoluta à cada ápice sonoro das composições do trio. Apesar de conhecer muito bem a banda, o show vai ser uma completa surpresa para mim: não me informei sobre as características desta turnê, sobre o possível setlist, sobre a expectativa da banda, sobre absolutamente nada. Não quero, de forma alguma, ter uma programação prévia sobre o que vai acontecer durante o evento – quero é desfrutar da sensação de surpresa a cada momento da apresentação. Eu me conheço: assim o acontecimento vai ficar bem mais registrado na minha memória.
Até mesmo a viagem em si vai ser um registro novo: nunca pisei em São Paulo. Claro, não sou idiota a ponto de não ter me informado sobre roteiros, transportes, ruas que vou utilizar, mas desconheço a dimensão real da cidade. Acho que sou vou ter idéia disso realmente quando estiver, segundo minhas projeções de roteiro, subindo as escadas da Estação Trianon de Metrô, me encaminhando para o MASP e me deparar em plena Avenida Paulista. Aí, eu aposto, não tem como você não ser de alguma forma atingido pela tamanho dessa megalópole – para o bem ou para o mal. Pretendo visitar algumas outras atrações, como a Estação Júlio Prestes e a Catedral da Sé, mas tudo depende do tempo que as coisas vão tomar – e, experiência conta, quando você está se divertindo, o tempo corre como condenados em fuga. Se o pouco planejamento ajudar, e com alguma sorte, devo ver metade do que eu desejaria. Contudo, se eu ver que o tempo está realmente com uma pecha pela esquizofrenia, vou é fazer como manda a tradição da ex-prefeita da cidade: onde quer que eu esteja, vou relaxar e gozar, num fluxo exato oposto ao de tudo o que vai estar ao meu redor e, paradoxalmente, buscando mimetizar um flâneur subtropical que nem Baudelaire vislumbraria conceber, misturando-me ao “corpo” e ao fluxo dessa cidade-concreto. Tá certo, eu paro com isso agora. Vou seguir o conselho de Sten Egil Dahl em “Reprise”: “não tente ser poético”.
Bem, agora é aproveitar o que puder porque, Muse e São Paulo fecham o meu projeto-de-férias. Já no ânimo do show e no desânimo do evaporar do meu descanso, vou dizendo: “I feel my world crumbling”.

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Joan As Police Woman – To Survive (+ 1 faixa bônus). [download: mp3]

Joan As Police Woman - To SurviveO segundo disco da banda de Joan Wasser não encanta tão prontamente quanto o primeiro, principalmente porque algumas poucas canções, como “Magpies”, um pop-soul setentista com direito inclusive aos vocais de apoio e arranjo de metais que remetem ao estilo da época, ensaiam conquistar o gosto do ouvinte mas se perdem tanto em descaminhos melódicos tão inócuos e aborrecedores, quando não absolutamente irritantes, que acabam interferindo na apreciação adequada das demais faixas do disco. No entanto, superada a irritação que essas canções causam por algum tempo, as outras faixas revelam logo os seus enormes predicados, algumas de modo lento e crescente, liberando paulatinamente sua beleza à cada apreciação – é o que acontece com “To Be Loved”, faixa que envereda de modo mais sutil no mesmo pop-soul nostálgico de “Magpies”, mas que é mais feliz ao ser balanceada com um teclado de cores quentes e um piano de notas graves, ambos dedilhados de modo suave e apoiados por uma guitarra e bateria que aquecem discretamente a melodia tanto quanto o próprio vocal macio de Joan -, outras de modo mais imediato e impactante – como “Holiday”, que une acordes deliciosos no violão, no piano, e na bateria para compor uma melodia ao mesmo tempo ágil e graciosa, que cede bastante espaço para a voz encantadora da cantora americana. Sempre inspirada por referências musicais de décadas passadas, Joan é capaz de compor faixas que lembram desde a romântica melancolia da “new wave” do final dos anos 80 e início dos 90 – falo aqui da esplêndida “Start of My Heart”, cuja música é guiada por uma bateria e baixo de cadência lenta, salpicada por uma guitarra de acordes extensos e serenos e preenchida por uma sintetização que cria ondulações ao ser continuamente sobre e sobposta à instrumentação restante – até ao glamour do pop americano que sonorizou bares, discotecas e qualquer festa que se prezasse há cerca de 40 anos – claro que me refiro à faixa “Furious”, marcada por um compasso ligeiro de bateria e teclado, reforçado por piano de acordes dramáticos e prodigiosos e um coro de palmas que recheia o fundo da melodia, além dos vocais adicionais que adensam ainda mais o nostalgia sonora – tudo, porém, com um senso de naturalidade e graça que torna esse caldo saudosista algo de muito bom gosto. No final do disco ainda sobra ânimo para um dueto delicioso com Rufus Wainwright em “To America”, que é introduzida por um piano algo desolado e logo subvertida por um arranjo fabuloso que toma de assalto a música com saxofones, guitarras e sintetizações enormemente melódicas e verborrágicas, fechando de modo brilhante este disco que, a esta altura, faz esquecer qualquer possível menção de tropeço que inicialmente o marcasse.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos – e não esqueça de baixar logo depois a faixa bônus “Take Me”, liberada com exclusividade na web aqui pelo seteventos.org.

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Faixa bônus “Take Me” (do single “To Be Loved”):
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Camille – Music Hole (+ 1 faixa bônus). [download: mp3]

Camille - Music HoleCom o que fez no álbum Le Fil, seu segundo disco solo, Camille Dalmais chamou tanto a atenção de crítica e público do mundinho da música alternativa que, não é exagero afirmar, alavancou para si o posto de maior sensação da música francesa nos últimos anos. Por esse motivo, o seu álbum subsequente vinha sendo aguardado ansiosamente pelos fãs que não sabiam o que esperar da francesa depois do experimentalismo pop de Le Fil. Com o lançamento de Music Hole nesta segunda-feira a curiosidade foi saciada: no seu novo projeto, Camille dá continuidade à exploração da musicalidade desenvolvida no disco anterior, que esquadrinhou, com temperança, as possibilidades da voz humana como instrumento melódico. Na canção “Cats and Dogs”, Camille mostra isso de forma deliciosa, povoando a segunda metade da faixa, até então constituída apenas de um piano de acordes doces e uma “tuba vocal”, com um almanaque de vozes que mimetizam festivamente toda uma variedade de grunhidos, gritos e urros do mundo animal: pássaros, porcos, elefantes, macacos, cabras, sem esquecer, claro, dos personagens que são a tônica da música – cães e gatos. Mas, além de retomar a pesquisa musical produzida até Le Fil, a cantora e compositora francesa adiciona ao seu repertório experimental a percussão corporal, um novo elemento melódico que incrementa ainda mais a experimentação desenvolvida por ela em suas composições. A utilização deste novo elemento na construção das melodias pode ser conferida em toda sua glória na faixa “Canards Sauvages”: para emular um samba frenético, Camille contou com a ajuda de participantes do grupo brasileiro Barbatuques, que tamborilaram no próprio corpo para produzir a sonoridade percussiva acelerada que faz a base da melodia, composta ainda de ruídos de água nervosamente agitada e de múltiplas camadas da voz de Camille – capaz até de simular uma impagável cuíca vocal.
E já que estamos falando de voz – e como não falar disso, quando tratamos de Camille? -, vamos falar de uma consequência sua: a língua. Ao contrário dos discos anteriores, Music Hole privilegia o inglês. Porém, as letras contam sempre com algumas boas rajadas da língua pátria da cantora quando a idéia é imprimir uma fluidez ao ritmo – algo fácil de notar no vocal de suporte que introduz a faixa de abertura “Gospel With No Lord”, cheia da já conhecida vitalidade sonora da francesa, que joga jovialidade na música com boas doses de estalar de dedos, palmas e, na sequência final, um piano discreto e uma percussão seca encorpando a melodia.
No entanto, quem conhece Camille sabe que a garota não sabe fazer só festa: sua capacidade de emocionar com composições tristes é também algo notável. Neste caráter, destacam-se a faixa “Winter’s Child” – que explora vocais melancólicos em trama algo arábica, sustentada na base por um vocal grave a la Le Fil, e no primeiro plano por uma combinação de versos em inglês e francês, com os quais a cantora abusa da sensibilidade espetacular de sua voz – e as baladas “Waves” – com um piano de acordes esparsamente dramáticos acompanhado por um arranjo vocal encantador que simula em sua rítmica a ondulação oceânica – e “Home Is Where It Hurts” – que é introduzida com um conjunto cativante de acordes de piano e baixo beat-box, que logo ganha a companhia de uma programação com cadência densa e vocais de apoio envolventes.
Ao invés de mudar de curso sem respeitar a coerência do que já produziu, tentando reinventar a si própria, em Music Hole, Camille mostra porque é considerada uma das artistas mais importantes da música pop contemporênea mundial ao, de modo perspicaz, dar um passo a frente com prudência, brincando com o seu vibrante vanguardismo pop ao mesmo tempo que cuida não ultrapassar os limites que estabeleceu para tornar seu trabalho sempre deliciosamente acessível. Deste modo, Music Hole é, ao mesmo tempo, um disco arrojado e simples, cujas texturas melódicas soam inovadoras sem nunca perder a sensatez e bom gosto – um bálsamo pop para ouvidos cansados das agressões deselegantes que, infelizmente, são comuns à muito do que é feito no gênero atualmente.

E aproveite para baixar “I Will Never Grow Up”, a faixa bônus de Music Hole que o seteventos.org está disponibilizando com exclusidade na web. Comentários de agradecimento serão muito apreciados, viu? Agradeçam, em particular, ao meu cartão de crédito internacional – sem anuidade!

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005